terça-feira, 14 de maio de 2013

coisas de pensar: 485


O valor do salário mínimo nacional é um tema recorrente, debatido com frequência em todos os meios de comunicação. Assistimos ao sazonal braço de ferro entre a confederação da indústria e os sindicatos, à interpretação e reinterpretação do tema por vozes da política, da economia, da esquerda à direita.

Em Abril saiu mais uma notícia sobre o possível aumento do SMN para os 500 euros, ainda neste ano.

Esta é a minha resposta à mesma:

O valor de um salário não está no seu valor nominal, mas no poder de compra que este permite.
Não nos devemos esquecer que, acima de tudo, o dinheiro existe para satisfazer o seu primordial papel como moeda de troca - logo o seu valor não existe em si mesmo, mas nos bens que obtemos nessa permuta.

Acreditem ou não, nesta discussão particular, o facto do valor do SMN estar estacionado em 485€ é de todos o mais irrelevante. O cerne da questão reside na relação díspar entre este e o custo de vida.

Outro factor, a meu ver essencial, é o quanto a maioria das pessoas está dependente do seu salário, não possuindo outra qualquer fonte de riqueza complementar. Em poucas décadas tornámo-nos bichos urbanos, terciários. Esquecemos o hábito da pequena agricultura de subsistência e de outros lavores que poderiam, em qualquer altura, significar um acréscimo à prosperidade das famílias, uma rede de segurança, cujos frutos são seguros, imunes às flutuações do sistema económico.
Ao invés disso, ao estarmos total e unicamente focados no emprego e nos frutos deste, tornámo-nos imensamente vulneráveis, reféns e joguetes dos vários agentes dos mercados.

Porque a raíz do problema não reside no valor nominal dos salários, mas no próprio sistema económico.

Quando nasci, em 1979, o SMN tinha o valor de 37.4€ - se preferirem, sete mil quatrocentos e oitenta escudos. Mais coisa, menos coisa, o que gastam hoje em dia, duas pessoas numa refeição num qualquer restaurante mediano.

O porquê de tamanho aumento do custo de vida, dos preços, é uma questão para a qual ainda não obtive uma resposta satisfatória.

Mais uma vez, o problema não reside no valor nominal dos salários. 485€ seriam perfeitamente adequados e dignos se com 60% dos mesmos fosse possível a um qualquer indivíduo cobrir as despesas referentes a aquisição de habitação, transporte, as despesas com alimentação, água, electricidade, gás, comunicações, assim como o básico com educação e saúde. Tudo aquilo que consideramos, na sociedade contemporânea, como parte da lista de bens e serviços essenciais a uma vida condigna e integrada, de forma bem sucedida, na sociedade.

Será de estranhar então que me ria, com todo o desdém que o meu mau feitio dita, quando leio sobre aumentos na ordem dos 15€?
Quando para fazer face ao custo de vida actual, garantindo a dignidade que qualquer trabalhador merece, o SNM teria que subir para cerca de 1200€?!
 E, mesmo que isso fosse possível, tal medida só teria um impacto positivo na sociedade se se congelassem os preços dos bens e serviços essenciais, situando-os nos valores correntes por um período longo e indeterminado.


A evolução do salário mínimo em Portugal aqui