quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sing a prayer



Primeiro o Ulisses, depois o Eros, e por fim o Zeus.
Um por um, ao longo dos anos, a doença foi-nos levando os nossos filhos felinos.

Só quem já passou pelo mesmo, saberá a infinitude da frustração de ir a guerra com todas as armas que se tem, e perder. Há momentos em que se deseja que a doença não seja uma coisa invisível e abstracta, mas que tome uma forma física qualquer, mesmo que enorme e monstruosa, só pela oportunidade de a atacar ao murro, ao pontapé, à dentada e com tudo o que nos venha à mão.

Um dos piores aspectos é a mistura da doença e dos tratamentos.  O animal sente-se frágil, indisposto, sensível. Sente-se acossado com as inúmeras idas ao veterinário, com as manipulações, os exames e o diabo a sete. Em casa não se sente melhor. Todas as horas impinge-se alimento, água. Força-se medicamentos pela goela abaixo. Repete-se o procedimento se este vomita o preparado anterior.

Torce-se para não se ter que recorrer ao saco de soro e às agulhas que se trouxeram da clínica por precaução, mas repete-se mentalmente o processo que a veterinária ensinou, para não falhar se for necessário.

Não há paz, nem para o bicho, nem para nós.  Faz traquinices e tudo o que não deve, e tudo lhe é permitido. Importa é que se ponha bom.
Desconfia de nós. Coitado, não consegue entender que só o chateamos com toda aquela parafernália de medicamentos porque lhe queremos bem. Bufa, arranha. E nem o ardor do álcool nos arranhões se comparava ao aperto no peito por lhe ver a força anímica a desaparecer.

Não teria havido momento algum de paz, não fossem duas músicas em especial. Com poderes mágicos de embalar, de acalmar, de permitir respirar fundo e dormitar um pouco nos meus braços, de cabeça deitada no meu ombro.
São as canções de embalar que sei de cor, e em todos aqueles dias foram também orações.