segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Caderneta de cromos #1 - Podes tirar o rapaz do ghetto, mas...



Diz-se que a auto-descoberta é uma viagem individual, solitária.
Eu acredito que, também, é ao contacto com os outros que devemos muito do que vamos descobrindo sobre nós.


A meio de um qualquer ano lectivo, um colega cai de pára-quedas no nosso grupo de trabalho.
É claro que o facto deste ser alto, espadaúdo, moreno e de olhos verdes não teve influência nenhuma na decisão da colega que decidiu ser boa samaritana. Pois...

Um dia, estava eu sozinha, na companhia do colega alto-espadaúdo-moreno-de-olhos-verdes, num qualquer patamar de escadas. Partilhávamos um silêncio incómodo que parecia durar uma eternidade, enquanto esperávamos pelas restantes colegas.
Enquanto eu sorria, assobiava, olhava para o tecto, ou via que horas eram pela centésima vez, o colega decide quebrar o silêncio.

Referiu a namorada, onde esta trabalhava e depois desta conversa de circunstância, largou uma pérola:

- Que namorada dele, se queria sair com ele, tinha que andar sempre impecavelmente vestida, maquilhada e perfumada, ou então nada feito. Que a perfeição era um requisito. Que o comportamento tinha de ser irrepreensível.


A minha reacção deve ter sido mais ou menos esta:


Acho que o rapazito deve ter ficado desnorteado com o meu look jeans, ténis, t-shirt, rabo de cavalo e cara lavada.
Porque pode-se tirar o rapaz da Quinta da Marinha, mas não se tira a Quinta da Marinha do rapaz não é? E todos os ghettos parecem nutrir o mesmo efeito na personalidade, independentemente do código postal.

Lembrei-me automaticamente do namoradinho-louro-de-olho-azul dos tempos de liceu. De este me ter dito que não gostava que eu fumasse ao pé dele, e de como passei a acender, religiosamente, um cigarro quando este se aproximava de mim.

Também não se pode tirar o mau-feitio...