terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Seasons Greetings



Dia 21 de Dezembro foi dia de Solstício - para quem, como eu, se encontra no Hemisfério Norte. Na noite mais longa do ano, a Humanidade celebra o Sol. Celebra-se, das mais diversas formas, a vitória da luz sobre a escuridão.
Isto encoraja-me em relação à nossa espécie: na noite mais escura celebramos a luz, e isto diz tanto. Não porque a vemos, mas porque nos acompanha sempre o poder de acreditar, de imaginar, de criar. A perseverança, o optimismo.


Nesse espírito dirijo-vos a minha mensagem de Natal deste ano:


 Que esta quadra vos traga mil e uma bençãos. Que estas se multipliquem e continuem a existir para além das festas, em todas as épocas da vossa vida. Que caso estas demorem a chegar até vós, não deixem de acreditar e de celebrar, pois após a escuridão, a luz virá.


Feliz Natal - Yule - Saturnália.





 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Coreia do Norte





Contra as insónias, cuidado com as contra indicações!



Ontem. Noite tardia. O sono não chega. Zapping.

Paramos num qualquer canal, talvez sic notícias, que passava uma reportagem sobre a Coreia do Norte.
A Coreia do Norte é dos países mais estranhos que existem. Fica na Terra mas não é certamente deste mundo.

A reportagem era sobre a visita do Dennis Rodman e dos Harlem Globetrotters a este destino. Que mistura certo?!
O repórter, em certo ponto, declarou que aquela experiência poderia definir-se como viver na pele de Jim Carrey no Truman Show.






Finda a reportagem, muda-se de canal.

O que nos espera?

Paulo Portas a vender azeite no Dubai, com aqueles maneirismos muito próprios, e a prometer a "Suas Altezas" que nunca provaram pitéu como aquele.


Não há duas sem três.
Sentindo que não tinha estaleca para mais uma - não me engasgasse e morresse a rir - desliguei a tv, e fui-me embora de mansinho.








segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A lição das formigas



Todos os dias aprendo algo. Aprendi através de um incontável número de pessoas ao longo do tempo, por vezes através das pessoas mais insuspeitas.
Mas, no lugar pioneiro de toda esta pirâmide de professores, estão os meus pais.
São deles que recebemos as nossas primeiras lições, e entre estas estão algumas das mais importantes que poderemos aprender ao longo da vida.
Hoje, com a maturidade que a minha idade me permite, dou valor redobrado ao que me transmitiram.

Hoje partilho um pouco do que aprendi com eles sobre economia:


Com eles aprendi que a poupança é um dever, independentemente da nossa capacidade financeira.

Como é óbvio não desejamos nenhum azar ou infelicidade na vida, mas todo o indivíduo deve construir um pé de meia para enfrentar o que quer que se apresente. Que as coisas não acontecem só aos outros.

A discernir o que é ou não prioritário, importante, essencial.

Que não se falham com as obrigações, pois entre as coisas mais valiosas estão a honra, a palavra, o bom nome.

Que o ego é uma besta cara e difícil de manter satisfeita. Muitos dos que lhe obedecem cegamente, esquecem-se que quando a panela se apresenta vazia, ou se está em risco o telhado sobre a cabeça, de pouco ou nada vale o carro fantástico à porta e objectos afins.

As cigarras são arrogantes, quando apregoam o direito a serem como são.

Algumas cigarras são invejosas, que se espantam com o resultado do labor das formigas. Não compreendem que a poupança requer disciplina, abnegação, rigor, recusa em satisfazer todos os desejos hedonistas, e de consumo.

Algumas cigarras são egoístas. Serão sempre um peso para as formigas, pois estas são sempre procuradas, na infelicidade e no azar, para que partilhem o que amealharam. Evitaram preocupar-se ou prevenir-se, talvez já contando com a presença e a natureza da formiga.

Algumas cigarras são duplamente arrogantes. Julgam que a formiga tem o dever de partilhar. Que está no seu pleno direito usufruir do que não é seu.




Num mundo de cigarras, os meus pais são formigas.
E são tantas as vezes que vi a fábula de Esopo ganhar vida.
E não, a maioria das cigarras não aprende a lição. Isso é ficção. Simplesmente um toque à la Hollywood.





quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

coisas da casa #7: a sala de Héstia



Gosto das palavras. Brincamos com estas e é-nos revelado o sentido das coisas.

Há uma razão para que, na língua inglesa, "house" e "home" sejam vocábulos distintos.
Basta haver uma estrutura, um edifício e estaremos perante uma casa, uma "house". No entanto, por si só, isso não basta para ser um lar, "home".

Falta-lhe vida, energia vital, fogo. Da mesma forma que um corpo precisa de alma para ser uma pessoa.
Curiosamente, uma das definições de lar, é "o local onde está o lume".



Se no ser humano a fonte de energia vital é o coração, também morada da alma, numa casa não é diferente.
Por muitos séculos a divisão mais importante de uma casa era onde estava presente o "hearth", (não é gralha, é mesmo assim, com "th").

hearth medieval

O "Hearth" é uma lareira, presente nas casas e nos templos, desde os primórdios da civilização. Onde o lume está sempre presente e nunca se nega a quem o pedir, como podem ler aqui , numa crónica de costumes do povo açoriano.
(mais sobre "hearths" aqui )

Nas palavras do poeta brasileiro Érico Veríssimo, "Enquanto houver lume num lar hospitaleiro, haverá ainda na terra um rasto de esperança".

Chamo-lhe a sala de Héstia, pois esta é a divindade do fogo doméstico e do que ardia nos altares dos templos. O seu objectivo era protecção e o bem-estar das cidades, das colónias e dos lares.
A própria deusa é o fogo, representada muitas vezes como chama. É o conceito de sobrevivência, de refúgio, segurança, de continuação da existência da civilização, acima de qualquer disputa, guerra, transtorno, revolução.



Na Antiga Grécia, quando um casal se unia, existia um ritual em que este acompanhava a mãe da noiva até à nova casa. Esta levava consigo uma chama do seu lar, dotando a nova casa do fogo de Héstia, dando-lhe o necessário para se tornar também um lar.

Quando penso em "hearths" penso em lareiras alentejanas. Retrocedo no tempo e sorrio. O fogo persiste. Somente no pensamento, mas persiste.
Vôo para norte, e revejo-me numa cozinha de modos transmontanos, onde o lume crepita.
São as chamas da minha memória.




via culturas no campo - lareira transmontana






lareira alentejana


lareira alentejana
 



Na casa que idealizo, Héstia tem uma morada condigna. Tenho-lhe dó por a ver confinada aos bicos do fogão.
Maldigo alguns traços da modernidade, que faz de nós, uma humanidade tão pouco humana. Porque penso que éramos melhores mesmo quando, só por peso das cirscustâncias, aprendiamos a ser corteses, prestáveis, hospitaleiros. A não negar o lume.