segunda-feira, 28 de julho de 2014

cromices #26: Topfreedom





Desde que me conheço que a observação tem sido uma ferramenta preciosa na construção do meu ser, da minha identidade.


Observamos os outros e existe uma reacção da nossa parte, que nos ajuda a identificar os pontos dos quais nos aproximamos, e aqueles que nos afastam, os bons e os maus exemplos segundo a nossa percepção.


Ora em miúda, olhava para as raras senhoras que faziam topless na praia com admiração.


Admirava-as porque delas não emanava nem uma energia lúbrica nem libidinosa, mas uma aura de naturalidade, de confiança, de imenso à-vontade e respeito para com o próprio corpo. E essa atitude, essa energia, transparecia de tal forma, (sem a necessidade de emitir qualquer palavra nem gesto), que honestamente não me lembro de assistir a um único episódio em que uma dessas senhoras tenha sido incomodada.


Contrastavam fortemente com a grande maioria das mulheres. Infelizmente, somos demasiado duras e injustas na relação com os nossos corpos.


Então, ainda miúda, fiz uma nota mental, (tenho essa mania), que no futuro, quando crescesse, me esforçaria por ser uma mulher confiante como aquelas. Entedia que o topless era apenas um pormenor, facultativo, mas "what the hell!" também haveria de experimentar um dia!




Esse dia aconteceu quando tinha cerca de 18 anos.
Eu e uma das minhas melhores amigas, e a praia só para nós. Ocorreu-me que se estava decidida a experimentar, teria que aproveitar a rara conjunção de factores ideais daquele momento.


Falei com a minha amiga, e ela não se sentiu desconfortável com a ideia, e ainda me apoiou. Porque é o que nós, mulheres, temos de fazer umas pelas outras: ajudarmo-nos mutuamente na libertação dos imensos "macaquinhos no sótão" com que temos sido formatadas.


Olhei em volta, respirei fundo, fiz uma contagem decrescente e aqui vai disto.
Senti-me tímida. Mas como estava decidida a tirar o maior partido da situação, fui até à água, forçando-me numa postura direita. Repetia mentalmente, numa espécie de mantra, que é "tudo muito natural", "que tenho o direito de ser livre".


Quando estava a banhos, aparece vindo do nada um casal de turistas ingleses a meter conversa.


O mantra anterior desvaneceu-se e foi substituído por "Raios partam! Não haverá nenhuma regra de etiqueta sobre não interpelar uma mulher em tronco nú?! Era só o que me faltava agora!"


Eu vermelha que nem um tomate, visivelmente embaraçada, com os braços cruzados em frente ao peito. A minha amiga ria-se , e eu conseguia ver a comicidade da situação. Ah, se não fosse comigo!


Em menos de nada, despachei-os e voltei para a toalha. Passei boa parte da tarde com uma t-shirt vestida, repartida entre a vontade de rir da situação, e amuada com os turistas que me estragaram a experiência.




Pode não ter sido a melhor das experiências. E honestamente não me deu grande vontade de repetir.

No entanto, defendo o direito à liberdade de o fazer, por tantos motivos como: igualdade de direitos entre géneros, porque defendo que temos que aprender a olhar para o corpo com mais dignidade, respeito, abolir os complexos e os preconceitos, as ideias redutoras que recaiem sobre os géneros e que não contribuem para nada de positivo, nem nos honram.




(mais sobre Topfreedom aqui )