quarta-feira, 29 de outubro de 2014

cromices #51: Há que ter muita paciência



Recentemente, a actriz Luana Piovani fez um comentário polémico sobre Portugal. Podem ler mais aqui.
Só falo disto porque me fez recordar outro episódio.


Em 2007, a actriz brasileira Maitê Proença gerou uma imensa polémica com um vídeo, feito em Portugal, para o programa "saia justa" onde, de forma totalmente ignorante e desrespeitadora, ridicularizava os portugueses, chegando mesmo a cuspir numa fonte do Mosteiro dos Jerónimos.


A repercussão foi bombástica. O mote estava lançado, e em menos de nada proliferavam, um pouco por todo o lado, discursos, comentários e trocas de mimos nada tolerantes por parte de pessoas de ambas as nacionalidades.


Foi um fenómeno sociológico, um que atraiu o meu "lado cientista", também pelo facto de que pessoas, de ambos os lados do Atlântico, usualmente avessas a este tipo de digladiação, sabedoras e informadas, foram igualmente atraídas para o mesmo, em conjunto com milhares de indivíduos notoriamente estúpidos.


Metade de mim ardia de exaltação e fúria, parte desse mesmo fenómeno que a outra metade, a racional, observava com curiosidade, analisava e procurava respostas.


A minha metade exaltada queria andar por aí a distribuir chapadas pela actriz, e todos os "groupies" que se excedem em cordialidades para com gajas como esta, a quem lhes basta soltar um "Amo Portugal! Amo "pastel" de bacalhau! Amo vocês!" para ficarem molhadinhos, numa espécie de êxtase parolo.


Aos que chamo "groupies", apetecia-me genuinamente abaná-los até perceberem que há gente com quem não se deve desperdiçar a hospitalidade, mesmo que esta seja dom que sobeje. E se há quem não mereça, são aqueles que não a sabem retribuir, os dos sorrisos falsos, que depois se vão rir à custa dos "Manéis e Marias com bigode" - (really?!) - enquanto palitam os dentes com as penas dos jantares que souberam "a pato".


Uma das minhas interrogações era sobre o porquê desta situação tão estúpida, desta merdinha de caracacá ter o poder suficiente para me tirar do sério. A mim e a toda uma legião de pessoas.


Em boa consciência e vergonhosamente admito que, a mim, (uma pessoa geralmente dada à ponderação e ao pacifismo), bastou-me ler que "os portugueses são isto e aquilo" para ficar pronta para me atirar à jugular.
Percebê-lo aumentou a minha resolução de entrar ainda mais no conflito para o perceber, e me perceber.


Participei activamente num fórum. No clímax da coisa, os manéis e marias são colocados de parte, e usa-se o argumento do invasor, explorador sanguinário, conquistador genocida, esclavagista, assassino de índios, como artilharia.
E eu lembrei-me de uma viagem de comboio em particular, onde sem qualquer mágoa nem apego, ouvi duas africanas em crioulo, e o seu discurso de que há que sacar o mais que se puder ao colonizador, por vingança e dívida.


Ambas as ocasiões me levaram numa viagem introspectiva de onde regressei mais forte e segura de quem sou:
Eu sou a Ana, nascida em 1979. E recuso-me a padecer da "síndrome do colonizador". Eu não sou os pecados dos nossos antepassados. Não colonizei, não matei, não conquistei, nem nunca tentei evangelizar alma alguma. Não devo nada a ninguém. Recuso-me a carregar às costas o peso de qualquer acontecimento no qual não vivi a tempo de participar. Apenas sou responsável por mim. Recuso dobrar-me perante quem não viveu a tempo de sentir na própria pele as ofensas que clamam. O mal é de quem escolhe vestir as dores de quem já não é, e que não são suas.
Viver no passado é recusar o presente. É deixar de ser quem é, para se emprestar a fantasmas imaginados.




Já fantasiei sobre como teria sido provavelmente um Mundo sem quaisquer incursões ultramarinas, e imagino uma Amazónia do tamanho de todo o continente americano albergando umas quantas tribos nativas, alheias à urgência febril do desenvolvimento europeu, um mega pulmão do planeta, um santuário natural como nenhum outro, e não me desagrada.


Também imagino como seriam os Descobrimentos, se ocorridos no presente dia. Gosto de pensar que, a nossa espécie, com mais 500 anos de evolução espiritual em cima, saberia lidar com os nativos de igual para igual, na base do diálogo e troca de conhecimentos, não lhes tomando qualquer pedaço de terra ou riqueza material.




Por enquanto, há-de haver sempre alguém que, por um qualquer motivo, nos há-de apontar o dedo e chamar de colonizadores, exploradores e mais ainda.
Mas como tudo, também isto o tempo curará. Basta meter os olhos nos romanos. Tiveram o mais grandioso império, construído sobre sangue, como são todos os impérios. No entanto, nunca vi ninguém apontar o dedo aos italianos contemporâneos pelo peso da sua História, pelos actos de César, por exemplo.
Tudo o que precisamos é de tempo. O Império Romano Ocidental extinguiu-se há cerca de 1500 anos, e hoje são mais conhecidos pelas maravilhas que deixaram pelo mundo, como as termas, as estradas, os templos.
Nós, Portugueses, deixámos de ser oficialmente colonizadores em 1999, quando Macau passou definitivamente para os chineses.


Portanto, lá para o ano de 3499 estaremos safos dos apontares de dedos. Até lá, tolerância e paciência q.b., mas não em demasia, porque há que nos curar deste "síndrome do colonizador" que nos faz fáceis de abusar por governos e entidades estrangeiras. É que Portugal é do povo, mas não é "o da Joana".