quarta-feira, 12 de novembro de 2014

cromices #55: das minhas taras e manias





Na última vez que me dirigi ao centro de saúde, no início de Março, avisaram-me que tinha uma vacina em falta, que deveria ter sido tomada há anos.


Na verdade não sei do meu boletim de vacinas praticamente desde que me mudei da casa dos meus pais, e nunca mais me tinha lembrado disso. É o que acontece por norma às coisas que tento "arrumar melhor", na tentativa de não as perder. A emenda é sempre pior que o soneto. Sou assim despassarada.


Como estava doente, não a pude levar naquele dia.
Pedi uma segunda via do boletim, e avisaram-me que tinha que agendar a toma da vacina. Tudo muito bem, pensei eu. Se o objectivo é a eficácia, há que respeitar o modelo de organização escolhido.


A viagem até ao meu centro de saúde, embora não fique a uma grande distância da minha casa, é um pesadelo para quem, como eu, anda de transportes públicos. Requer um elevado grau de mentalização o facto de saber à priori que me espera o desperdício de duas ou mais horas, (somando ida e volta), à espera numa paragem.


Então, decidi por uma questão de eficiência, (já vos disse que adoro eficiência?!), e para me poupar a paciência (que não abunda por estes lados), juntar dois em um. Marcar a toma da vacina e levantar o boletim no mesmo dia.


Quando me restabeleci, procurei o número de telefone na internet e liguei para marcar a dita. Durante cerca de duas semanas seguidas, liguei, liguei, liguei dezenas de vezes por dia. Nunca ninguém me atendeu.
Fui investigando se aquele número era o correcto, e obtinha sempre o mesmo número. Continuei a tentar, sem qualquer resultado.
Em cada um desses dias, desistia quando me sentia a perder terreno na batalha contra a ira, quando estava por um fio, prestes a atirar o telefone contra a parede. Isto depois de chamar, a quem estivesse do lado de lá, tudo e mais alguma coisa.


Passados meses, decidi fazer como a avestruz, ignorar a questão. Só de pensar na mesma, deixava-me um peso no peito, a inspirar e a expirar pausada e forçadamente como as senhoras em trabalho de parto, que é como eu fico quando estou a meio de uma batalha pessoal, a tentar tudo por tudo para que não me dê um amok.
Um momento muito semelhante às cenas em que o Bruce Banner tenta impedir, à força toda, a sua transformação em Hulk.


Junte-se ao facto de eu ser a mulher Hulk, de perder a cabeça com demonstrações de ineficácia, (isto deve ser genético, porque já o meu pai também fica prestes a ter um colapso nervoso diante da ineficiência), o meu medo de agulhas e uma subtil paranóia com germes, doenças e afins.




Esta última, adjectivo-a de subtil porque não lhe autorizo que ganhe uma dimensão que lhe permita dominar a minha vida. A sua influência depende dos dias e das ocasiões, e meço-a conforme a energia que o meu lado racional tem que investir para que esta se mantenha pequena, subtil, imperceptível.


Como descrever esta minha "tara e mania"?


Ela ganha maior força quando estou na presença de pessoas doentes. Estas deixam-me desconfortável.
Fico apreensiva e nota-se na minha expressão facial, quando alguém espirra ou tosse na minha presença, sem o devido cuidado de tapar a boca. O tal "mínimo dos mínimos" que nem toda a gente segue.


O meu desconforto aumenta exponencialmente quando isso acontece num qualquer lugar fechado, tipo autocarro, carruagem de comboio, escritório, enfim qualquer lugar fechado em que nos vejamos forçados a respirar o mesmo ar. O meu reflexo é suster a respiração, mesmo tendo a percepção de que nada me vale, a não ser que tivesse a capacidade sobre-humana de o fazer durante toda a minha presença lá.


Há anos, quando éramos utentes de um health club ocorreu uma situação que, em certo grau, também contribuiu, (embora não fosse a causa principal), para que deixasse de frequentar ginásios.
Nestes espaços, quando vamos usar as máquinas de treino, é-nos dada uma toalhinha que devemos usar para limpar o nosso suor da máquina, deixando-a em condições para a próxima pessoa.
Um dia, em amena cavaqueira, os personal trainers disseram-me que já tinham comentado entre si que me achavam "muito gira e muito fofinha" por ter tanto cuidado a limpar as máquinas, o que não era muito usual.
Fiquei assim meio enojada ao saber que a maioria dos clientes não tinham o mesmo cuidado. Parei de usar as máquinas.


Quando o meu centro de saúde era o de Sintra - um edifício velho, onde os pacientes se amontoavam numa exígua sala de espera - muitas vezes optei por esperar pela minha vez na rua, atenta às chamadas. Entrava diversas vezes para observar o número da senha que aparecia no placard, sustendo a respiração até voltar à rua.
Sim, já me sentei diversas vezes na sala de espera, com outros utentes. E faço-o com mais facilidade se estiver acompanhada, logo distraída.


Esta "tara" faz-me desconfiada. Ou melhor, sempre desconfiei que a grande maioria das pessoas, na grande maioria dos sítios, não têm os cuidados que deveriam ter, que não sabem fazê-lo ou estão-se a cagar para a coisa, que os cuidados com manutenção, higiene e desinfecção dos espaços não se aproximam sequer dos níveis adequados. A verdadeira consequência desta "mania" é que me faz ralar com isso, uns dias mais que outros.
Que não há excepções, que se vê disto em todo o lado: locais de trabalho, transportes, restaurantes, cafés, hóteis, mercados, centros de saúde e hospitais...


A minha "tara" tem uma vozinha interior.
Quanto à falta de cuidado que acabei de descrever, e juntando-se-lhe esta coisa da Legionella, a vozinha empertigada diz-me "vês como tenho razão?!".


Esforço-me por não lhe dar ouvidos. Se o fizesse estava bem tramada da vida. Mas isso faz com que seja uma pessoa de Fé.
Fé que, no restaurante, tenham tido os cuidados suficientes para não me matarem com uma salmonella, que no consultório o médico tenha desinfectado o estetoscópio entre utentes, que a pessoa que me prepara o pequeno-almoço tenha lavado devidamente as mãos, e por aí fora. Acho que já deu para compreender.


Em conclusão, passados 8 meses ainda não fui tratar da puta da vacina nem levantar o boletim, pardon my french.


Tirando as nossas férias, essa minha "voz" arranjou sempre uma desculpa à altura. "Olha que há greve de médicos, não vais lá fazer nada"; "Olha, agora foram os enfermeiros, estás fodida!"; "Em Agosto é que te lembras? Deves ter cá uma sorte!";  "Já ouviste falar de ébola?! O seguro morreu de velho!"; "Olha mais uma greve, estás cá com uma pontaria! Já jogaste no euromilhões?"; "Experimenta ligar. Ninguém atende?! Ah "profissionais do sexo", porque não atendem?! Ide todas para o falo!"; "Olha, agora é a legionella! Tens a certeza que queres arriscar?"