quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

cromices #69: Epístola de santa croma aos condóminos



Durante a maior parte da minha existência acreditei ter uma fé imensa nas pessoas. Com o avançar dos anos ou perdi essa fé ou descobri que nunca a tive realmente.

Que esta a existir de forma inabalável residirá na Razão, na Lógica e na Argumentação e não no ser humano. Porque cada vez mais me convenço que a maioria das pessoas precisa de ser convencida a tomar a acção mais elevada e correcta, que é comportamento somente natural a poucos. Mas, que se procurarmos inspiração na Razão, com um pouco de Empatia e muita Paciência, poderemos encontrar um Argumento válido e transparente que ajude a engrossar as fileiras dessa minoria.

Não faltarão oportunidades a qualquer esquina da existência, na sua vertente mais prosaica, para praticar esta doutrina.

No passado, talvez por ingenuidade, achei aqui mesmo à porta de casa uma oportunidade dessas, no condomínio, pois era necessário que alguém envergasse a pele de pacificador, de negociador, mediador.
Convenci-me que valeria a pena investir o tempo e a energia necessários em busca do tal denominador comum que nos unisse, que buscasse a clareza de pensamento e de discurso para transmitir esse mesmo Argumento, o tal que inspirasse a melhores comportamentos.

As principais situações, mais que comuns por todo o lado, eram o absentismo nas reuniões de condomínio, o não pagamento da mensalidade e o não querer deixar avançar ou contribuir para as obras de manutenção dos espaços comuns, que é de lei.

Concluí que o argumento moral, o "agir de forma correcta" nunca me traria o sucesso pretendido. Poderia ser apresentado como algo secundário, mas nunca como argumento principal. As pessoas sabem perfeitamente quando não agem de forma correcta, e apontar-lhes isso mesmo, mesmo que indirectamente tem o efeito do vinagre e não do mel.

Decidi, através do meu discurso, lembrar-lhes que a presença e a participação nas reuniões, o pagamento da mensalidade a tempo e horas, e a participação nas acções que a assembleia decida levar avante, que tenham em vista a manutenção e a melhoria do espaço, é um dever e não um favor.
Que quem cumpre deve ser reconhecido por tal, mas mais por uma questão de cortesia e respeito do que outra coisa, porque o maior favor está a ser feito a si próprio, que é cuidar do próprio património.
Que quem cuida do próprio património não só está a ter atenção com a sua qualidade de vida, mas a diminuir a desvalorização deste. Coisa útil se no futuro se pretender vender o imóvel. Uma casa bem cuidada vale muito mais no mercado e atrai mais compradores em menos tempo.
Que tal qual acontece connosco, seres humanos, as coisas materiais também padecem de males. Se tratadas com frequência, os pequenos sintomas nunca passarão a grandes doenças, com curas improvavéis e muito mais dispendiosas.

Que o facto de partilharmos o mesmo espaço, de vivermos paredes meias - que tantas vezes parecem de papel - e por isso acabamos por ouvir mais da vida uns dos outros do que teríamos intenção, ou até gostaríamos, é o suficiente para que nos consideremos primos honorários, uma espécie de comunidade ou família. Que no mínimo devemos nas nossas relações semear a cortesia e o respeito, a concórdia e a empatia.
Que um apartamento poderá não ser a nossa casa de sonho, mas que existem vantagens em viver num como ter sempre alguém disponível num caso de aflição ou a partilha de custos e responsabilidades na gestão do espaço.

Que o tempo, a energia e a paciência são bens tão ou mais escassos que o dinheiro. Que dependendo da seriedade e do carácter dos condóminos, do facto de estes serem ou não cumpridores dos seus deveres, ou se pode investir estes quatro bens em manutenção e melhorias, ou tudo se esgota em perseguição aos devedores. Ou um ou outro, não chega para tudo.
Que ser cumpridor é um dever, mas ser incumpridor é ter uma falta de respeito colossal para com todos. É ser um filho da puta. Acima de tudo, é ser dos seres mais estúpidos à face da Terra, pois uma coisa é ser um cabrão para querer lixar o próximo, mas ser um cabrão lorpa e cretino para agir contra os próprios interesses é pertencer a uma liga especial de asnos.

Que quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga. E no dia que a paciência se esgote de vez ao grupo de pessoas cumpridoras, a gestão passa para as mãos de uma empresa. Consequentemente os custos aumentarão, pois até as trocas de lâmpadas serão cobradas regiamente, logo a mensalidade aumentará, deixará de haver a poupança na conta condomínio que sabe tão bem a todos na hora de dividir orçamentos de obras pelas fracções. Em compensação deixará de "haver pão para malucos", e os mau pagadores serão processados em menos de nada.


Funcionou. Fiquei feliz, e prolongou-se a fé que eu pensava ter nas pessoas por mais algum tempo.
Foi temporário - o resultado e a fé.
Foram-se algumas pessoas, entraram outras. É engraçado como mesmo num grupo pequeno há sempre alguém que se ocupe de ser a má rês. Todos nós temos os nossos papéis.
Eu quis ser a pacificadora, sendo também a chata, a que chega para pregar aos peixes e enfastiar com o seu tom dominical. Temos pena. Encontrei um problema e avancei. Não lamento, não tenho é paciência para repetir a dose.
Se outrora tentava ir buscar a Ghandi uma ínfima migalhinha de inspiração, hoje revejo-me, (e cada vez mais), no Zaratustra de Nietzsche, que muito de vez em quando visitava a povoação, mas não se tardava e regressava o quanto antes ao ermitério no topo da montanha, não fosse a estupidez contagiante.

(Já bem me basta a minha, obrigada.)