quarta-feira, 22 de julho de 2015

coisas de pensar: Anita, a Eurocéptica



12 de Junho deste ano ficou marcado pelo 30º aniversário da adesão de Portugal à CEE.

Na época eu estaria com cinco anos de idade. Todo este processo, tirando um ou outro pormenor, uma outra expressão captada das conversas entre adultos, me passou ao lado. Lembro-me de simpatizar com o Mário Soares. Achava-lhe piada às bochechas e para uma miúda de cinco anos esse é um motivo tão bom como qualquer outro.

Passados trinta anos as coisas mudam um bocadinho.

Ao contrário do que diz o título deste post, não sou exactamente uma eurocéptica, na teoria. Na teoria o conceito de Comunidade Europeia agrada-me. Afinal, carrega em si um potencial tremendo para o Bem Comum. Na teoria.

Na prática, o que observo e deduzo, apesar da possível falibilidade da minha percepção já que a esta estará sempre inerente a subjectividade, é que a entrada de Portugal na então CEE era inevitável.

Hoje olho para o resultado da crise que vivemos, das suas graves implicações, e que na realidade ninguém consegue explicar de forma simples e coerente que crise é, a que se deve. A questão é que um dos atributos da Verdade é que esta é possível de ser concisa e directa, fácil de explanar. Quando se fala da "crise" todos enrolam a língua num interminável novelo, e fica-se na mesma, sem claridade sobre a matéria.

Hoje com quase 36 anos e correndo o risco de ser adjectivada de maluquinha das teorias das conspirações, olho para o passado e não acho coincidência que o pedido de adesão à CEE por parte de Portugal em 1977, e que a assinatura do Tratado de Adesão em 1985 tenham coincidido com visitas do FMI ao nosso país.

O FMI sempre foi uma ave de mau augúrio. A sua presença sempre serviu para enfraquecer francamente as nossas estruturas, as condições laborais, a qualidade de vida dos cidadãos. Em 1977 reduziu-se a produção nacional, aumentou-se as importações, surgiram os contratos a prazo, aumentaram os impostos, por aí fora.

Olho para os resultados obtidos em 30 anos de Comunidade Europeia e para além de me ocorrer o termo teoria da conspiração, vem-me sempre à mente os estrategas militares. Aqueles tal como Sun Tzu que são encarados como grandes inspirações e modelos a seguir no estudo do mercantilismo, que é também a minha área de estudo.

Nós, Portugal entenda-se, temos a mania que somos pequeninos. É uma mania que nos tem servido extremamente mal, mas sido de grande valor e serventia para com todas as soberanias estrangeiras com quem temos lidado desde sempre.

Então em 1985 a nossa entrada na CEE era inevitável. Para além de pequeninos estávamos entalados graças a Carlucci e ao FMI.
A livre circulação de bens e pessoas em espaço comum europeu era uma das características mais antecipadas deste novo modelo.

Mas o que é uma vantagem, tem também outra face:
Imagino-me mosca durante as negociações dos acordos de adesão e pinto uma qualquer figura à mesa de negociações a soltar algo como "Olhe que a vidinha vai ficar muito mais difícil para os não-membros. Os membros da Comunidade podem, a qualquer altura, decidir não aprovar qualquer troca comercial ou dificultar a entrada de pessoas dos países não-membros em território da Comunidade." Imagino então o negociador português a pensar nos PEC's impostos pelo FMI, nos cinco milhões de portugueses pertencentes à Diáspora, a pensar "agora é que me fodeste!" enquanto saca da caneta e assina diligentemente o que lhe metem à frente. Se terá levado consigo alguma compensação pessoal para ajudar a sarar o dói dói, isso é uma interrogação para outro dia.

Durante parte deste 30 anos houve sempre em mim uma vozinha que se questionava se "aquilo era o chouriço, o que seria o porco?"
Remeto-me é claro para o adagio popular que afirma que ninguém dá um chouriço se não receber em troca um porco.

Quando era miúda, o país andava num frenesim com a histórias dos fundos a fundo perdido que chegavam de Bruxelas. As inaugurações de estradas e pontes passaram a ser mais que muitas. Não havia batata com dois olhos, um qualquer candidato à freguesia de santa coina do agrião que não tivesse uma fitinha para cortar e aparecer no noticiária da noite em época de eleições.
Não é que seja padecimento ou coisa má para os habitantes de santa coina do agrião estarem ligados ao mundo por meio de uma via rápida.
Mas, enquanto isso, o nosso sector primário ficou k.o.. Só se falavam de quotas, do quanto se tinha ultrapassado as ditas quotas na pecuária, na agricultura, na produção de leite, na pesca... Que ultrapassar as tais quotas significariam pesadas multas para os produtores e sanções aplicadas a Portugal por Bruxelas. Que o espaço marítimo português era cobiçado e dos muitos que nos exigiam uma fatia do mesmo. Que no que toca à negociação das tais quotas, se éramos "pequeninos" então assim deveria ser a nossa fatia. Que o grosso da coisa pertence aos "grandes".
De saber, pelos noticiários, das toneladas de alimentos que eram deixados a apodrecer, que eram deitados fora, enquanto nos pontos de venda começavam a proliferar os mesmos alimentos mas de origem não portuguesa, o que sempre me pareceu das coisas mais estúpidas e contraproducentes.

De como parte dos fundos a fundo perdido eram utilizados para não se produzir, para se deixar quieto, ao abandono, tornar estéril o que havia sido fértil.
De como deixámos de ter agricultores para ver explodir em número e grau uma nova raça de engenheiros agrónomos. Pois agora que as pessoas eram pagas para não produzir, a Agricultura deixava de ser trabalhosa e plebeia para ser "bem", para estar na berra.

Os tais fundos pagavam jipes topo de gama, à socapa, naquela boa maneira do chico espertismo. Jipes e mais umas quantas coisas, que de repente o Alentejo e uma boa parte da geografia provinciana portuguesa passou a estar na moda. Nunca houve tanto lisboeta a possuir herdades, a vestir oleados e a calçar botas de equitação, mesmo que continuassem a não praticar nem a entender um caralho de Agricultura.

Este tipo de situações eram conhecidas por todos, pois por todo o lado haviam uns quantos borra botas que se enfiavam nos cafés a gabarem-se, para quem quisesse ouvir, da nova prosperidade que havia sido subsidiada por Bruxelas, através dos tais métodos menos convencionais.

E eu, que já desde miúda nunca gostei muito de chicos-espertos, achava que se os "outros europeus" eram assim tão mais avançados e sofisticados que nós "os pequeninos do sul", que afinal o grande objectivo de entrarmos na tal CEE era conseguirmos atingir o mesmo patamar de brilhantismo, não tardaria que os pelintras fossem apanhados e obrigados a devolver tudo o que foi arrecadado ilicitamente.
Nunca ouvi que tal acontecesse e também por isso multiplicou-se a população de pulguinhas que já faziam ninho atrás da orelha.
A tendência da subsidio-dependência proliferou como um fogo selvagem em mato seco. Como exemplo lembro-me também das micro e pequenas empresas de formação e consultoria, entre outras, que chegaram a ser mais que as mães, não tendo a maioria qualquer serventia nem estrutura fiável nem viável, pois muitas não foram fundadas com qualquer outro propósito que não mamar nas tetas de Bruxelas. Mal estas secassem desapareceriam as mesmas na neblina da falência e insolvência.

Proibidos e incapacitados de produzir em quantidade, obrigados a importar exactamente os mesmos tipos de bens que agora não podiam ser gerados em território nacional senão dentro de um intervalo estipulado pelas benditas quotas, (alimentos criados por países membros que recebiam subsídios nesse sentido conseguindo assim preços mais competitivos que os do mercado interno), estava também a ser alimentada, através dos tais "fundos", a semente da incapacidade, indolência e corrupção que, sejamos honestos, existe em todos os países do mundo, e que assim encontrou condições ideais para se frutificar.

Jipes, estradas e subsídios fazem-me lembrar as bugigangas, missangas e armamento em desuso que todos os colonizadores (não só os portugueses atenção!) trocavam pelas valiosas especiarias, ouro, prata e afins. Digo isto porque acredito que retirar a capacidade para a auto-suficiência a uma qualquer nação, entidade ou pessoa é dar-lhe uma das mais limitativas deficiências. Que não interessa o que se dê em troca, nada vai suplantar a ausência dessa capacidade. Que é um pilar absoluto e imprescindível na construção da sustentabilidade e da liberdade.

O segundo acto desenrola-se com a implementação da moeda única: O Ecu que virou Euro.

Acreditei, ou tinha esperança, na inocência do meu positivismo, que a troca das divisas de cada país por uma moeda única europeia faria desaparecer qualquer desigualdade monetária, que um euro em Portugal valeria exactamente o mesmo que um euro em qualquer outro país membro. Esperava igualmente, e quero acreditar que não era a única, que isto da moeda única significaria a implementação de um salário minímo único vigente em toda a Comunidade Europeia.
Que no meu léxico "única" e "comum" derivam do conceito Igualdade. Então nada poderia ser mais contrário à ode europeia de comunidade do que separar os vários estados membros dotando o Escudo, o Dracma, a Peseta, o Marco, a Libra de valores diferentes.
Onde existe a Igualdade e a União se os salários, os preços, a inflação se fazem distinguir?!

Na realidade, como bem sabem não aconteceu nada disto. A minha memória em relação à introdução do Euro, é que na véspera pagávamos 50 escudos por um café, e no dia seguinte passámos a pagar 50 cêntimos.
Foi necessária uma tremenda campanha e tempo para que a população entendesse o valor do euro e aprendesse a fazer a conversão do Escudo para a nova moeda, em especial a população envelhecida.
Uma chavena de café foi um pequeno exemplo entre muitos outros. Basicamente o poder de compra foi cortado ao meio, pois um quilo de qualquer coisa que custasse 100 escudos passou a custar 1 euro, um papo seco que custasse 5 escudos passou a custar 5 cêntimos e por aí fora.
Basicamente os responsáveis pela estipulação de preços só não se faziam de estúpidos quando era para converter o valor dos salários. Esses mantiveram-se iguais, a anos-luz da média europeia. Estávamos então em 2002 e ainda "pequeninos" e entalados.

O terceiro acto inicia-se com a terceira visita do FMI a Portugal. Com a crise cujos preâmbulos poucos entenderão, porque deriva da abolição do padrão ouro, da economia especulativa, de uma realidade imaginada por poucos, imposta sobre muitos.

São as cantigas de intervenção de outrora a tornarem-se intemporais, pelo desemprego, a pobreza, o fosso entre ricos e pobres que nunca foi tão profundo a não ser em épocas de feudalismo e fascismo. A perda de direitos, de segurança, de esperança, ambições. A crise que justifica o pagamento de uma qualquer dívida que nos assenta como grilhões, que havemos de andar a pagar durante toda a vida sem que ninguém explique, com clareza e verdade, o que se deve, a quem e porquê.
Este novo chicote que nos faz andar cabisbaixos, sem mandar prá puta que os pariu aqueles que mais lucram com a existência de estágios não remunerados, de recibos verdes, de voluntários à força oriundos do IEFP, de eternos contratos a prazo, de assalariados que recebem o salário minímo, dos que acham tremendamente natural que não exista segurança no trabalho, que o normal é sermos saltimbancos, e ainda os escroques vis que oferecem salários abaixos do minímo justicando-se com o "há mais quem queira".

A Saúde e a Educação atingem minímos históricos na sua qualidade. O capital estrangeiro invade-nos para comprar ao desbarato as empresas ligadas aos transportes, às telecomunicações, à energia, querem privatizar a água e dar-lhe o mesmo destino...
Li há poucos dias uma notícia sobre um aeroporto em Espanha que havendo custado 450 milhões foi agora vendido por 10 mil euros. E de repente fez-se luz e pareceu-me haver descoberto finalmente o "porco"!

Não existe uma Comunidade Europeia. Existe é uma Europa liderada por um Cérbero, o cão demónio de três cabeças. No centro, a Germânica, ladeada pela Inglesa e Francesa.

Que o que aconteceu ao longo destes 30 anos começando pela diminuição da capacidade produtiva que resulta que a auto-suficiência seja impossível, à dívida que aumentou exponencialmente com os empréstimos e com o aumento (tantas vezes redundante) de importações, às crises cíclicas e aos sacrifícios impostos à população que serviu para a enfraquecer, talvez não seja mais da implementação metódica e paciente de uma estratégia que, quem sabe, não culminará agora com o grupo dos "pequeninos" no qual nos enquadramos, a pagarem ad eternum tributos feudais ao triunvirato que se auto-proclamou cabeça da Europa, e a ficarmos despojados de todo e qualquer património por uma simbólica fracção do preço de custo?