segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Antropoformização involuntária #3: "Vá, Kiko, agradece ao senhor!"



Há algo de cão em mim: também eu gosto de me sentir recompensada após realizar algo.

Acredito que mesmo quando fazemos algo que faz parte da nossa "lista de obrigações" tal não significa que não mereçamos algum reconhecimento. Um elogio, um qualquer sinal de apreço cai sempre bem e motiva.
Há momentos em que essa pequena dose de motivação pode fazer uma grande diferença no nosso estado de espírito perante tarefas que são, muitas vezes, trabalhosas e repetitivas.

Atrevo-me até a dizer que esse gesto tem poderes mágicos. Quem, após uma palavra de reconhecimento pelo desempenho de algo, nunca sentiu parte do peso do cansaço, do stress, do possível aborrecimento desaparecer como por magia?

Comigo, por exemplo, ouvir o marido a elogiar os meus cozinhados funciona às mil maravilhas e compensa a rotina que se torna cozinhar quase todos os dias do ano.

Se há algo que a empatia permite é usar essa mesma lição, quando possível, no contacto com os outros. Por vezes, até eu me lembro de o fazer.

Hoje, num dos passeios, apercebemo-nos que era "dia de relva acabada de cortar". Os "dias de relva acabada de cortar" são especiais. Se eu com o meu nariz humano adoro aquele cheiro, o que dizer do Kiko com o seu apurado olfacto canino?!
O puto fica doido de felicidade, totalmente inebriado. Esfrega-se no relvado, mordisca folhinhas, pulula com se fosse um cabrito montês.

A meio caminho, foca a atenção num dos funcionários da empresa que dá manutenção aos espaços verdes. Quem conhece o Kiko sabe que quando se trata de pessoas e da sua vontade de as cumprimentar não há nada que o demova.

Fiz-lhe a vontade.

Abeirámo-nos do senhor:
- Bom dia. Acho que há alguém que lhe quer agradecer pela relva cortada, não é Kiko?

O senhor retribui o cumprimento e pergunta se ele gosta de relva cortada. E o puto, como se entendesse na perfeição a Língua Humana, responde à sua maneira, executando uma enérgica dança da alegria durante um par de minutos, numa coreografia onde entre saltinhos e corridas vai-se espojando na folhagem e desafiando-nos para a brincadeira.

Despedimo-nos a sorrir. O puto já não puxa pela trela. Olha-me nos olhos, com a língua de fora e aquele ar patusco, e eu não resisto a dizer-lhe: "É assim mesmo, puto!".