quinta-feira, 20 de agosto de 2015

coisas que me irritam #18: "Tire só fotografias, deixe apenas pegadas"



Não sei dizer há quantos anos ouvi pela primeira vez este slogan ou uma qualquer variante do mesmo, criado com o intuito de desenvolver na público uma maior consciência ambiental, um maior civismo no usufruto dos espaços públicos, especialmente dos cenários naturais.
Acima de tudo sei dizer que é uma mensagem que ressoou em mim e tornou-se parte intrínseca da minha conduta.

Acho que só se vestissem a minha pele por momentos é que perceberiam com exactidão o quanto me deixa desagradada encontrar lixo por todo o lado.

Por querermos providenciar a melhor vida que nos for possível ao Kiko, levamo-lo com frequência a passear fora da nossa localidade. Porque os passeios à trela pelas ruas não são suficientes para que este gaste as suas energias, porque o seu ar de felicidade é tremendo quando lhe damos a oportunidade de correr solto, porque o lixo que as pessoas deixam pelas ruas tornam-nos prisioneiros, forçados a uma rotina nada prazenteira em que temos que ir híper alertas a tudo o que se encontra no pavimento, a dizer "não" quinhentas vezes, a desviarmo-nos, a considerar que certas ruas são intransitáveis de tão porcas. É insatisfatório tanto para nós como para o cão.

Antes de começar a época balnear corríamos algumas praias. A favorita do marido era a de Magoito, também pelo facto de não ser imediato o acesso ao estacionamento e à estrada o que se tornava mais seguro. Cheguei a deitar alguns anzóis no lixo que encontrei na areia. Pelo menos aqueles foram apanhados por mim e não por um animal ou uma criança. Não seria preciso muito mais para se magoarem.
No dia em que vimos uma seringa no areal agarrámos no Kiko e viemos embora. Eu danada.

Começámos a passar mais tempo no pinhal de Janas, perfeitamente satisfeitos com o cenário. Pelo menos, durante uns tempos. Havia algum lixo, especialmente junto de algumas rampas improvisadas para a prática de motocross, mas habituámo-nos a evitar esses pontos. O puto podia correr a seu bel-prazer, roer todos os paus que lhe desse na gana, e como raramente víamos lá vivalma, até eu começava a conseguir descontrair um pouco mais em cada visita.
Ainda por cima, numas das casas que existem por lá, vive uma pequena matilha de cães que se tornaram amigos do Kiko, o que fazia daquele passeio também uma oportunidade para a socialização e a brincadeira com outros da sua espécie.

Com a chegada do Verão este espaço começou a ser procurado para picnics e afins. Começaram a proliferar os restos de comida, as latas vazias, vidros de garrafas. Se os primeiros podem originar uma intoxicação a qualquer animal, inclusive à fauna local, os segundos podem dar origem a ferimentos e até incêndios.

Um dia, o Kiko que tem um olfacto super apurado, deu com um cheiro qualquer e enfiou-se para dentro do mato. Quase uma centena de metros à frente demos com ele a cheirar um saco de plástico transparente cheio de coisas sangrentas que não consegui identificar. Pelo facto de estar escondido no chão junto a uma árvore, debaixo da vegetação rasteira, não nos pareceu que fosse coisa boa. No momento ocorreu-me que pudesse ser parte de uma macumba, ou algo assim.
Enojados sentimo-nos gratos pelo facto do miúdo não ter furado o saco e entrado em contacto com o sangue. Garanto-vos que teria corrido para uma consulta veterinária de urgência se assim fosse, tal o nojo que aquilo que nos meteu.
Foi a última vez que lá metemos os pés.

Neste momento o local dos nossos passeios são as falésias que ligam duas praias, cuja localização não vou identificar enquanto este destino nos servir.
Só vos digo que até numa falésia se encontram cacos de garrafas de cerveja! Pardon my french mas, puta que os pariu a todos!

É tão difícil perceber que se têm mãozinhas para as levar para lá, o mais decente a fazer seria levá-las de lá?! Não deixar vestígio algum que não as pegadas!

Aos que ainda não perceberam esta noção, que é tão básica ao nível do senso comum, do civismo, da decência, e ao mesmo tempo tão essencial, desejo-vos que de cada vez que poluírem andem uma semana a cagar vidrinhos!