segunda-feira, 9 de novembro de 2015

cromices #92: A pequena acumuladora



O meu marido partilha uma característica com a minha mãe que, volta e meia, causa faísca com a minha personalidade. Embora nenhum de nós os dois chegue aos calcanhares da minha mãe no que toca a limpeza e organização, de vez em quando dá-lhe na cabeça fazer uma espécie de purga cá por casa que resulta em sacos e mais sacos de coisas que vão fora.

Mora em mim o gérmen recalcado de uma pequena acumuladora. "Ainda está em bom estado" e "Pode dar jeito" são dois dos argumentos que me saem amiúde boca fora nos dias de Grande Purga, normalmente sem grandes resultados.

A minha mãe dava em doida comigo porque colecionava resmas de papéis e revistas, especialmente científicas, que se iam amontando numa pilha num canto do meu quarto, já que as estantes estavam totalmente prenhes de livros. Aquilo mexia-nos com os nervos: a ela causava-lhe uma espécie de urticária entrar no meu quarto e não poder satisfazer o ímpeto de levar aquilo tudo para o contentor do lixo. E a mim porque bem lhe notava aquele desejo no olhar, e temia um dia entrar nos meus domínios e dar conta que o Furacão Mãe tinha feito das suas, mesmo depois de termos acordado que um pouco de caos me seria permitido, desde que não fosse além daquele monte.

Até que um dia deixou de haver razão para a tal pilha existir. Já havia internet, fácil, acessível, e com ela findou a necessidade de guardar informação no formato daquela resma que tanto desagrado causava.

Já por aqui comecei a colecionar revistas, especialmente edições da National Geographic e de decoração. Mal notei os primeiros sinais de humidade foi tudo para a reciclagem. Deixei de colecionar revistas e até de comprá-las. Exaspera-me a curta validade de muitas das coisas que consumimos, a ideia de gastar tantos recursos para algo ser descartável, acabar rapidamente como lixo, das quais as publicações são um bom exemplo. Sou adepta das edições online.

A pequena acumuladora em mim nunca se tornará uma grande acumuladora, acima de tudo porque mais coisas implicam mais trabalho, e afinal de quanta tralha precisamos na nossa vida?!
E se já viram um ou outro episódio de "Hoarders", aquilo é tipo filme de terror que nos faz pensar duas vezes antes de guardar seja aquilo que for.

Não são muitas as coisas que guardo por valor sentimental, nem sou pessoa de ter ataques de consumismo, bem pelo contrário. O que a mim me custa é a noção de desperdício que associo ao acto de nos desfazermos de coisas em bom estado, que ainda carregam o potencial da utilidade. Vale o facto de muitas dessas coisas encontrarem nova vida na mão de outros.

Já não respingo tanto nos dias de Grande Purga. Consegui o hábito de deixar o marido só com o seu discernimento. Mas mantenho o direito de barafustar alto e a bom som, com todas as asneiras que me der gana, nos momentos em que afinal, "aquilo" agora até dava jeito.