sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Coisas de opinar: Outros tempos



Através da partilha de uma amiga, chegou à minha atenção um texto da autoria de João Miguel Tavares do blogue Pais de Quatro, intitulado "Apelo aos professores por parte de um pai desesperado e farto de trabalhos manuais".

Há um parágrafo em especial que me fez recordar a minha infância:

"3. Nunca - mas nunca - enviem trabalhos de casa que eles não consigam fazer sozinhos!

 Perdoem-me o sublinhado, mas este é o ponto mais importante. Eles não são auto-suficientes para fazer aquilo? Não mandem! Claro está que não me refiro às dúvidas que surgem ao tentar resolver um exercício de Matemática ou de Português. Isso é naturalíssimo e estou cá para ajudar. Refiro-me àqueles trabalhos manuais de encher o olho, àqueles projectos especiais hiperbólicos que estimulam imenso a competitividade dos pais, porque não será o meu filho a ter um globo terrestre em alto relevo mais pobrezinho do que o do Asdrúbal."


Não estou a ir para nova, é certo. Mas parece-me que esta coisa entre pais, escola e trabalhos de casa mudou muito em relativamente pouco tempo.

Eu também levava trabalhos para casa. Na sua maioria os regulares tpc das disciplinas.
Sentava-me à mesa da cozinha com os manuais, cadernos e estojo, e lá me ocupava de os fazer antes do jantar, normalmente na companhia da minha mãe, que ia passando a ferro e tratando da comida.

Isto na época pré-pc, que depois tornar-se-ia imperioso que tudo fosse impresso e encadernado.

Enquanto tratava das suas tarefas, a minha mãe ia-me perguntando sobre a escola, a matéria, se estava a perceber tudo, se tinha dúvidas. O meu pai demonstrava o mesmo interesse, e quantas vezes me disseram que se aparecesse uma dúvida, que a apontasse para a retirar com o professor na próxima aula.
Que nunca tivesse vergonha de colocar dúvidas nas aulas, ou até de pedir a um professor que se repetisse, pois esse era o papel deles, e se um dia alguém se o recusasse a fazer que deveria contar-lhes.

Assumiam que existiam matérias que lhes era impossível explicar. Mas estavam sempre presentes e interessados. Inquiriam-me e eram muito atentos sobre o bom cumprimento dos meus deveres, desde o bom comportamento, à pontualidade, assiduidade, a levar todos os materiais necessários para a escola e a ter os trabalhos feitos.
Da mesma forma que me questionavam sobre a prestação dos professores, também os questionavam sobre o meu comportamento.

Houve uma única vez que a minha mãe me ajudou a completar um trabalho. Andava no quinto ou sexto ano e andávamos a fazer bordados em Trabalhos Manuais. Eu, fartinha e frustrada com a minha falta de jeito para a coisa, com já ter sido obrigada a recomeçar nem sei quantas vezes, uma tarde enfiei a malfadada capa de almofada na mala. Em casa, implorei em lágrimas à minha mãe que tratasse ela do assunto.

É que na minha altura, os miúdos que apareciam nas aulas com trabalhos demasiado bem feitos, daqueles que se notava claramente que havia ali dedinho dos pais na coisa eram mal vistos, tanto pelos docentes como pelos colegas. Eram batoteiros. Simples como isso. E como tal era uma coisa rara de acontecer, até porque os professores avisavam os pais que se enviavam tpc, estes eram só para os miúdos. Que não queriam uma coisa perfeita, queriam era algo feito pelos alunos.

Os projectos que envolviam grandes coisas de artes manuais e afins eram normalmente realizados na escola, nas aulas da especialidade ou numa qualquer aula fora do comum, como por exemplo a organização de uma feira ou dia dedicado a uma disciplina ou tema.

Se me mandassem fazer recortes, colagens e afins para casa, enfim, as tais coisas "para encher o olho", para além da carga habitual de deveres, os meus pais reviravam os olhos. "Um desperdício de tempo é o que era, e tantas horas passadas na escola serviam para quê?! Qual a utilidade de andar a perder tempo de descanso e convívio com recortes e coisinhas?". Eu concordava na altura e ainda concordo. Acho que este tipo de actividades são mais úteis e prazeirosas como ocupação de tempos livres durante as férias.

A minha mãe sempre esteve presente em todas as reuniões de pais. Essa assiduidade requeria um sacrifício que muitas vezes não tínhamos a certeza se todos os professores saberiam sequer entender, quanto mais valorizar. Portanto quando o director de turma se lembrava de marcar duas reuniões num espaço de tempo demasiado curto, ou mudava o horário em cima da hora, tornava-me a mensageira dos meus pais: "Diz à tua professora que, como sempre, fazemos por ir, mas que não pode ser assim! Lembra-lhe que as pessoas trabalham, têm responsabilidades e horários para cumprir. Que há quem tenha que dar satisfações à entidade patronal. Que se não há novidades, faça o favor de chamar somente os pais dos alunos com que realmente quer falar."

Entretanto, as coisas mudaram tanto.
Eu, que não percebo nada desta coisa de ter filhos, pergunto-me como é que os pais se conseguem coordenar com tanto tpc e projecto que acabam por ser eles a fazer, (e que pelos vistos nem é esperada outra coisa), com tanta feirinha, festinha e teatrinho, e dia disto e daquilo, e rifas da escola, e mil e quinhentas actividades extra-curriculares.

E se com tudo isto ainda conseguem ter um vislumbre de vida própria, de momentos de lazer, de intimidade vivida a dois, de convívio vivido a muitos, Senhoras e Senhores, tiro-vos o chapéu!