quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Coisas de comer: Qual é a ementa da vossa vida?



Imaginem que vos pediriam para esboçar uma ementa com aqueles pratos que, por um qualquer motivo, sentem uma ligação emocional, vos trazem memórias. Quais seriam?

A minha ementa seria esta:

 1 - Sopas de tomate com cação, porque era algo que a minha Avó Felizarda fazia sempre que íamos visitar os meus Avós ao Alentejo. Que saudades! Nunca voltei a comer sopas tão boas como as feitas pela minha Avó.

2 - Chouriças de mel de Trás-os-Montes. Esta memória gastronómica remete-me para os meus Avós maternos, especialmente para a minha Avó Teresa. Desde pequenina que me perdia por estas chouriças doces que, embora há quem coma como sobremesa, sempre as comi acompanhadas de batata cozida. Divinal! São tão raras, que a última vez que a minha mãe as conseguiu encontrar, (embora não fossem tão boas como as da minha Avó), até me vieram as lágrimas aos olhos.

3 - Aletria à moda antiga. Para a minha Mãe não existe Natal se não houver Aletria à mesa. Faz parte das suas memórias de infância e tornou-se uma das nossas poucas tradições familiares. Uma que partilho com gosto.

4 - Arroz doce. Adoro arroz doce e ninguém o faz tão bem como o meu Pai.

5 - Sopa de feijão verde. Temo repetir-me, mas realmente a melhor é a da minha Mãe! Nunca fiz birra para comer a sopa, pelo contrário, e esta sempre foi uma das minhas favoritas.

6 - Pargo no Forno com Bacon e Batatas, cozinhado em dueto pelos meus pais. Daquelas receitas que me fazem lembrar os almoços de Domingo ao longo da minha vida, assim como as reuniões familiares em nossa casa.

7 - Peach Melba. Esta sobremesa clássica tornou-se também um clássico familiar nosso. A sobremesa predilecta dos meus pais para apresentar nas muitas ocasiões em que partilhávamos a mesa com convidados.

8 - Cozido à Portuguesa. Para mim, o expoente nacional máximo de "Comfort food". Por ser daquelas receitas tão típicas, toda a gente o sabe fazer, mas toda a gente o faz da sua maneira. Concordo a 100% com a minha Mãe quando diz que o melhor cozido tem que ter várias qualidades de couve, que em especial não pode faltar a couve portuguesa, que deve ter abundância de vegetais, carnes e enchidos de boa qualidade.
Lembro-me de chegar a casa, vinda da faculdade, por volta da 1h da manhã, esganada de fome, e a minha mãe levantar-se para me servir um bom prato de cozido, com beijinhos.

9 - Ovos mexidos com batatinhas aos cubos. Esta memória vem mesmo lá de trás, da minha infância. Quando era pequena a minha mãe servia-me este prato que consistia em batatas fritas aos cubinhos, que depois colocava na frigideira e despejava os ovos por cima. E não havia nada que eu gostasse mais!
Aliás, até levava a minha mãe a revirar os olhos de exaustão porque estava sempre a pedir-lhe ovos com batatinhas. Aliás, acho que vou voltar a pedir-lhe para me fazer uns ovinhos!

10 - Sopas de pão e leite. Antes de ter idade de ir para a escola primária, quem cuidava de mim enquanto os meus pais trabalhavam era a minha ama Gertrudes. A Gertrudes foi para mim muito mais que uma ama, e considero-a a minha terceira Avó. Como tinha que acordar muito cedo, e andava ensonada, dar-me o pequeno-almoço não era fácil. (O truque do meu pai, por exemplo, era dizer que havia uma surpresa no prato que só conseguiria ver se comesse o Nestum todo.)
Até que um dia me deu a provar sopas de pão e leite. E caramba, como eram boas!


Existem muitas mais memórias gastronómicas, mais comidas do coração. E é uma ementa que não é só composta por iguarias de um passado mais ou menos distante, mas que também inclui as memórias que vamos criando hoje, também na nossa casa, com o meu marido.
Mas isso fica para a próxima, que já vamos em duas mãos cheias.