segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Desejo de ano novo #3: Direccionar a minha raiva a quem a merece.



Ontem à noite chateei-me com o Kiko. Hoje de manhãzinha cedo voltei a chatear-me com o Kiko.

E se há coisa que eu não gosto mesmo nada é de me chatear com ele. É um bom cão, adoro-o e odeio que hajam momentos em que demonstre algo menos nobre que esse amor que lhe tenho.

Mas é inevitável passar-me dos carretos. Assim como é inevitável ficar triste e de consciência pesada por tê-lo feito. Porque embora me expresse emocionalmente com a mesma subtileza que o Hulk, até sou bastante racional e sei que feitas as contas, se não fossem as pessoas não teria que me chatear com o meu cão nem um décimo das vezes.

Ele não tem a culpa que as pessoas sejam porcas. Que as ruas estejam minadas de dejectos caninos, lixo de toda a espécie e restos de comida. Que são tudo coisas que o atraem pelo olfacto e que ele quer explorar. A ele, não lhe passa pela cabeça, que não deve meter tal objecto na boca porque é cortante, que deve resistir a ir aos restos de comida que alguém deixa supostamente para os animais abandonados, mas que não se quer dar ao trabalho de os deitar no lixo após algum tempo e lá ficam meses.
Não entendo esta gente que se acha muito solidária e generosa por deixar restos na rua para os animais, mas que, por deixar a coisa a meio e nunca mais se ralarem com os saquinhos que deixam esquecidos pelas ruas, podem muito bem ser os grandes causadores do envenenamento de um qualquer animal. Porque senhores, caso não saibam, a comida estraga-se e torna-se imprópria para consumo! Imaginem que bem deve fazer a um qualquer ser vivo, um esparguete à bolonhesa há meses na rua!
Sim, há que matar a sede e a fome dos animais errantes. É um dever moral, e um acto de generosidade e amor com o próximo, mas há formas correctas de o fazer.

Não fossem as pessoas com os seus hábitos, o seu lixo, os seus animais à solta, os nossos passeios seriam um deleite. Bastaria um puxão ocasional pela trela para lembrar o Kiko que não deve ir para a estrada ao invés dos mil e quinhentos a que sou obrigada para que não abocanhe uma qualquer porcaria. Que inevitavelmente ele acabará por ser bem sucedido, e acabarei, como esta manhã, com os dedos na sua boca, a berrar-lhe que largue, com um nó na garganta e lágrimas nos olhos porque o que é demais também cansa, e há dias que estamos assim e pronto.

Acho que após um ano disto, 2016 será o ano em que perderei totalmente as estribeiras e a vergonha e começarei a interpelar as pessoas quando apanhar alguém em flagrante numa destas situações.