quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Vida de cão #45: Desculpa Kiko, mas vais continuar a ser filho único.


Todos os animais que vieram parar cá a casa foi por insistência minha.

Primeiro o gato Ulisses. Gato de uma ninhada nascida no mato.
Depois os manos Eros e Zeus, vindos da casa de uma família de acolhimento temporário, porque insisti que faria bem ao Ulisses ter companheiros da mesma espécie.
Quando, na visita à FAT descobrimos que ao invés de um gato à nossa espera, haviam dois, foi o marido que se saiu com "quem cuida de dois, cuida de três". E eu feliz da vida!

Nunca os teríamos trocado por nada deste mundo, nem por milhões de euros, garanto-vos. Mas, como tudo na vida, nem sempre foi pêra doce, e houve até momentos que nos questionámos sobre se realmente a vida não seria mais fácil se tivéssemos ficado por um animal.
Os momentos positivos e as alegrias foram sempre em maior número e intensidade que os pontos negativos, mas dizer que não existiram momentos de frustração e cansaço seria mentir.

Mesmo assim, a sua falta foi tão sentida e deixou um vazio tão grande que, passado algum tempo voltei a insistir para termos mais animais. E foi assim que o Kiko veio cá parar.

Quando andava a melgar o marido a ver se lhe dava a volta, deixei a escolha da espécie em aberto. Precisava tanto de um bichinho que já estava por tudo: hamsters, tartarugas, galinhas, porquinhos, alpacas, cabras... Opá, qualquer coisa!
Menos peixes. Aquários é que não! Não tenho pachorra para cuidar de um aquário, é demasiado minucioso para a minha personalidade.
Ah, e pássaros também não. Não suporto ver pássaros sozinhos, em gaiolas, que me parecem sempre demasiado pequenas e claustrofóbicas.

Voltar a ter gatos foi algo posto de parte pelo marido. Fez-lhe impressão ter gatos num apartamento, que só saíam de casa para ir ao veterinário ou à varanda, sem um jardim, (devidamente vedado, como é obvio), onde brincar e explorar toda a dimensão do seu ser.
(Se bem que não acredito que os felinos estejam fora de questão, porque o marido é o primeiro a parar o carro se lhe parece ver um gatinho de rua. E lá vou eu a correr atrás do sacaninha até este me trocar as voltas e deixá-lo de ver.)
Preferiu um cão, e eu achei fenomenal.

Passado um pouco mais de um ano, continuo a achar fenomenal. O Kiko deixa-me maravilhada e só penso como pude chegar aos 35 anos sem nunca ter tido um cão. Às vezes sonho com enormes ninhadas de Kikos, onde os agarro e beijo-lhes as pancinhas e acordo sorridente.

Desde que o Kiko era bébé que falamos sobre arranjar-lhe uma companheira. Uma menina com quem brincar.
Sim, teria que ser uma fêmea. A minha casa é um lugar de paz onde dispenso cenas stressantes à conta da testosterona e desejo de dominância. E porque o Kiko dá-se tremendamente bem com todas as fêmeas. É um cavalheiro que nunca, mas nunca, mostra a menor agressividade mesmo quando elas são respondonas e lhe dão umas dentaditas.

Sem qualquer dúvida, um dia o Kiko terá a sua companheira. Contudo, quando há pouco tempo o marido mostrou ganas de seguir esse impulso, fui eu a puxar o travão.

Clareei a mente, afastando o filtro cor-de-rosa que faz tudo parecer fofinho e delicioso, e imaginei a nossa rotina com mais um cão.

É claro que adoraria ver aumentada a dose de estrogénio cá por casa, ter mais uma pança para beijar, que quem alimenta um, alimenta dois, e o mesmo se aplica às idas ao veterinário, ao grooming, aos banhos, etc. Que a felicidade do Kiko quando brinca com uma amiga é também nossa.

Mas, depois penso nos passeios. Que não me imagino, medricas e ansiosa como sou, com motivos para tal também por causa dos outros donos e animais da zona, a sentir-me à vontade para passear dois cães em simultâneo. Os quatro passeios diários passariam a oito, o que significaria entre cinco a seis horas por dia. Confesso que não estou disposta a abdicar de tanto tempo e sentir que vivo unicamente em função dos passeios dos patudos.

Ainda ontem uma senhora abordou-me para comentar que nunca viu um cão sair tanto à rua como o Kiko. Expliquei-lhe que vivendo nós num apartamento sentimos essa obrigação, e mesmo assim por vezes gostaríamos de ter disponibilidade para mais. Para além das questões óbvias de higiene, é importante que ele faça exercício, que apanhe ar, que gaste energia e se sinta feliz.

Durante um café expus esta mesma perspectiva ao marido. "Como faríamos com os passeios?" - perguntei-lhe.
Ele concluiu que já não seria possível a divisão de tarefas que temos feito até agora. Por exemplo, temos dividido irmãmente a responsabilidade de o levar a rua de manhã cedo. E, podem crer que bem que sabe a qualquer um de nós, ter uma folga e poder ficar mais um bocadinho na cama. Com mais um cão, teríamos que sair sempre os dois de manhã e à noite, e durante o dia eu teria que dobrar os meus passeios.

Imaginar este cenário serviu, também a ele, para lhe esfriar o entusiasmo.

Agora sou eu que considero essencial o tal jardim!
Tivéssemos nós uma casinha com jardim e até me imagino com mais do que dois cães. Porque é bem diferente ir-lhes abrir a porta de manhã e à noitinha para usarem o espaço exterior da casa para fazer as necessidades do que as obrigações existentes para quem vive em apartamento, ter um espaço onde podem brincar e gastar as pilhas o dia todo se lhes apetecer, e sentir a obrigação de os levar a passear somente uma ou duas vezes por dia.