quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

cromices #114: Novidades da frente de batalha contra o medo


Conhecem aqueles momentos em que estamos doentes mas, mal marcamos uma consulta parece que nos começamos a sentir melhor?

Pois acho que isto define precisamente o que se anda a passar comigo acerca do meu medo de cães grandes.

Milagrosamente, a partir do momento em que desabafei aqui convosco e com alguns amigos sobre os meus ataques de pânico, o meu medo e como me sentia, tudo começou a melhorar.
Nada de drástico, mas não dizem que a grandiosidade reside nos detalhes?!

O primeiro passo foi quando, numa ida às compras, apanhei um rapaz a passear um Pit Bull. Embora seja uma das raças com as quais não me sinto à vontade, consigo apreciá-los e aquele era um exemplar lindo, cinza e branco.
Estando sozinha, decidi não desperdiçar a oportunidade. Pensei: "és uma pessoa ou um rato"?!
Abordei o rapaz, elogiei o cão, trocámos dois dedos de conversa, deixei que o bicho me cheirasse sem recuar um único passo e ainda lhe dei uma festa. Quando estiquei a mão para que ele a cheirasse só pensei "seja o que Deus quiser".
Podem achar-me muito mariquinhas, mas considerei-o uma grande vitória, especialmente depois de notar que era um cão sem treino de obediência, porque se fosse treinado o dono dar-lhe-ia os treats à boca ao invés de os atirar ao ar ou para o chão, o que dá a entender de certa forma falta de confiança no próprio animal, falta de treino e de controle sobre este.

Quando nos despedimos ia muito satisfeita comigo própria, mas com a certeza reforçada que continuo a ter mil e um motivos para considerar que o quarteirão da loja de animais é território que nos é interdito. Que sempre que lá for, vou continuar a optar por levar o cão ao colo e dar uma corrida até entrar na loja, que não ando a criar o Kiko com tanto enlevo para acabar como boneco de roer de outro animal.
Que se tivesse o hábito de ir para lá passear muito provavelmente já não tinha cão, pois as pessoas mantém o hábito de deixarem os cães à solta, e estamos a falar de várias raças como Labradores, Pit Bulls, Staffordshire Terriers, Serras da Estrela. Mais precisamente de machos, que como todos independentemente da raça ou porte, demonstram comportamentos territoriais e de dominância numa ou outra ocasião.

O segundo passo foi tornar-me mais assertiva.
Já mando o Jimmy para casa com um tom que ele nem se atreve a desobedecer-me.
Já saí de casa para perseguir o Urso - o cão que já me pregou uns cagaços por se parecer com um lobo, disposta a enfrentá-lo, agarrar o fugitivo pela coleira e levá-lo até à sua casa se fosse preciso. Não foi preciso tanto, mas agora estou nessa disposição: cão que apanhe à solta que eu saiba quem são os donos, vou lá entregá-lo. E mai nada!
Quanto ao cão que nos tentou morder, o marido, que entretanto já se cruzou com ele, diz que a solução é soltar o Kiko. Que o nosso menino mete esse a correr para casa com o turbo ligado.
Duvido que se torne a minha estratégia, mas sinto-me capaz de agarrar no Kiko ao colo, e desatar a correr atrás do meliante. Até lhe ladro e rosno se for preciso.

O terceiro passo é a consolidação do conhecimento sobre o comportamento do meu próprio animal, e sobre quais os cães com que ele pode ou não socializar.

Na lista do "talvez" está o Jake, um cachorro cruzado de Leão da Rodésia, boa onda pela sua tenra idade, mas que pelo seu porte e por transbordar de energia, voa para cima do Kiko e magoa-o, embora sem querer. Por isso prefiro evitar.

A lista do "não" é muito mais extensa. Nela está, por exemplo, o Mondego, pela sua dominância e territorialidade. Já se mostrou agressivo para com o Kiko e é sem dúvida um dos grandes responsáveis pelo facto do meu cão não gostar nem um pouco da maioria dos machos de médio/grande porte, especialmente quando mostram traços de comportamento dominante e agem como bullies.
O Soneca, que embora sendo um cão doce e medricas, e já tenha brincado solto com o Kiko sem qualquer problema, há pouco tempo reagiu negativamente ao nosso cão e este a ele. Demonstra em relação ao Kiko um comportamento intermitente, oscilando entre medo, embora seja muito maior, e umas investidas repentinas. A partir daí passou para a lista do "não".
O podengo Kiko, por ser territorial, desobediente e gostar de provocar os outros cães.
E a lista continua. O ponto negativo é nela haver cães, todos maiores que o meu, que se o apanhassem não duvido que o estraçalhavam. O ponto positivo é que sabê-lo é meio caminho andado para nos conseguirmos proteger.

Na lista do "sim" estão os amigos do Kiko e praticamente 90% das cadelas deste mundo.
Em lugar cimeiro está o Gaiato, o único cão com que eu permito brincadeiras quando sou eu a levá-lo à rua. Confio de tal forma no dono e nos nossos animais, que me sinto totalmente descontraída e posso apreciar a interacção entre os nossos putos, a pura felicidade de ambos mal se vêem, as caudas a abanar, os abracinhos de urso. É claro que também ajuda serem do mesmo tamanho.

Quanto a cadelas "especiais", o destaque neste momento vai para a Anya, uma Pastora Alemã. Precisamente aquela, que por tê-la conhecido a primeira vez, à solta com o dono na rua, passei a fugir deles como o diabo da cruz. A evitar percursos, a passar para o outro lado da rua. Nem sabia que era uma fêmea.
Um dia o marido chega a casa e conta-me tratar-se de uma menina, que andaram ambos soltos a brincar, que se parecem adorar.
E eu que já pude assistir in loco à demonstração desse "amor de paixão", embora a uma distância segura, dela a abanar a cauda, do meu Kiko a uivar pela sua amada, decidi há uns dias não fugir da aproximação. Inclusive depois de pôr o Kiko em casa, levei-lhe um treat especial e dei-lhe um beijo no nariz.