domingo, 14 de fevereiro de 2016

Desejo de ano novo #6: A liberdade de deambular


Adoro dormir. De tal forma, que continua a ser das minhas coisas favoritas de todos os tempos e não acredito que haja, num tempo próximo ou longínquo, qualquer indício de mudança.

Um dos principais motivos porque adoro o sono, talvez até o principal, são os sonhos. O mundo no plano de Orfeu parece-me tão real quanto o deste lado: sonho a cores, com som, e juro que até já houve umas quantas vezes que também tive a impressão de sentir cheiros e impressões tácteis. Sonhar é vivenciar uma aventura, em que o argumento costuma bater aos pontos os da grande tela. O meu ponto de vista move-se como a câmara num filme, ora em grandes planos, ora em close-ups, ora do ponto de vista de uma qualquer personagem.
A experiência é tão real e inequivocamente tangível que, por vezes se torna difícil discernir qual o mundo onírico e o real, não fosse no primeiro possível levantar vôo sem esforço algum e fazer pouco de todas as leis da Física que regem o nosso lado da existência.

Não é por falta de amor à vida deste lado, mas o mundo de lá bate este aos pontos. Sobretudo porque nele a liberdade reina suprema e não existe medo nem consequências de maior. Em comparação, este mundo é uma prisão.

Enquanto sonho posso, embora de forma virtual, vivenciar o meu lado intrépido, explorador e aventureiro. Posso ser uma espécie de Indiana Jones ou Lara Croft e embrenhar-me selva adentro, descobrir zonas ainda inexploradas, dar com o caminho para o El Dorado, viajar ao centro da Terra, sondar o fundo dos oceanos a bordo do Nautilus, chegar à Atlântida, viajar no tempo e espaço...

Acordada sou a perfeita antítese de tudo isto. É o meu lado cauteloso e medricas o regente. Certamente também por uma questão de feitio, mas sobretudo pelo lugar que fizemos do mundo.

Adoraria que vivêssemos num mundo onde as fronteiras estivessem abertas e existisse segurança para sermos livres de deambular por aí, ao sabor da vontade, ao ritmo do improviso. Que pudéssemos pôr uma mochila às costas, e sozinhos ou acompanhados, fossemos viver aventuras, conhecer gentes, hábitos e culturas, explorar cenários, encher os olhos com outras vistas, sem os perigos e os danos que infligimos aos nossos semelhantes.

Acho triste, frustrante e mais uma prova que a estupidez é um dos nossos traços dominantes, que enquanto espécie tenhamos sobrevivido a vários períodos de quase-extinção, a eras glaciares, ao apetite de animais selvagens, à doença e sabe-se lá mais o quê, apenas para nos tornarmos a nossa maior ameaça.