segunda-feira, 21 de março de 2016

coisas da casa: O corredor



Não sei se convosco se passa o mesmo, mas há uma arquitecta/ designer de interiores que habita em mim. O raio da entidade é tão opinativa que tem sempre uma palavra a dizer sobre todos os espaços que visito, conheço ou vislumbro. Seja habitação, espaço comercial ou qualquer outro, lá está ela a sussurrar-me ao ouvido sobre que paredes deitava abaixo, o que acrescentaria, o que modificaria aqui e ali.

Claro está, a nossa casa não é excepção.

Fosse fazer-lhe a vontade por aqui e em nome do design e da imaginação, a intervenção seria de tal forma geral, que de antigo só ficaria a carcaça.

Honestamente adoraria fazer-lhe a vontade, nem que fosse para ter aquela sensação de realização, de ver as ideias ganharem vida, passarem do abstracto para a realidade. Até porque algumas das ideias, perdoem-me a falta de humildade, são realmente boas.
O que me trava é que obras em casa, para além de significarem um enorme dispêndio de dinheiro e tempo, são sinónimo de grandes chatices e dores de cabeça. Elevadas ao cubo numa casa que se encontra habitada. Credo! Cruzes canhoto! Só de pensar é coisinha para fazer esmorecer a vontade.

Um dos espaços que mais gosto nesta casa é a zona de hall de entrada e corredor. Os primeiros proprietários, que apanharam a casa ainda na fase de construção, tiveram várias divergências com o construtor ao nível da estética e exigiram várias modificações, pelas quais estamos gratos. Não fossem as suas exigências e teríamos armários castanhos na cozinha ao invés de brancos, e o corredor seria revestido a azulejo ao invés de lambri de madeira, que é uma opção que, tendo em vista o padrão de azulejos escolhido, nos agrada muito mais.

Agora as tendências são outras, mas durante muito tempo não havia casa construída em Portugal que não levasse com os proverbiais azulejos nas áreas de circulação.
Nada tenho contra a azulejaria portuguesa, pelo contrário, apenas acho que muitos construtores conseguiram ser pródigos em escolhas infelizes, (com tanto padrão bonito, como é possível escolher tamanhos mamarrachos!).
É importante haver consonância entre a identidade, a alma da casa e as escolha destes pormenores.

Adiante.

O grande ponto forte do meu corredor é ter uma largura bastante simpática. Assim sendo, permite-nos não só ter uma zona de bengaleiro, mas também algum espaço para arrumação sem que a circulação fique comprometida.

Mesmo assim, acho que o espaço está mal aproveitado, que tem potencial para muito mais. E acho importante, especialmente em casas que não primem pelas grandes dimensões, dar o devido valor a cada centímetro. Preferencialmente de uma forma que não sacrifique a estética.

Nas zonas de passagem os revestimentos são importantes para proteger as paredes de danos e sujidade. É muito mais fácil a limpeza e manutenção de um qualquer revestimento, seja madeira, azulejo ou outro, do que uma parede simplesmente estucada ou pintada.

Imagino as paredes neste espaço, à excepção de uma, totalmente revestidas a ardósia. Gosto de materiais naturais, e os espaços onde predominam a pedra sempre me transmitiram uma agradável sensação de conforto e bem estar, para além de os achar visualmente apelativos.

Manteria o tecto falso em madeira porque sou fã destes tectos pela sua facilidade de manutenção, aspecto e porque permitem personalizar a iluminação, colocando-se tantos focos de luz quantos os desejados e onde se desejam.

Mesmo assim, o grande pormenor da mudança residiria em ocupar toda uma parede com um móvel feito à medida.
Há anos, vi num qualquer artigo de decoração sobre a casa de um arquitecto, uma estante que passou, para mim, a ser "a" estante. Estava construída de forma tão perfeita que, para os menos atentos, parecia somente uma parede revestida a madeira, completamente lisa, sem quaisquer rococós. A ausência de adereços salientava a beleza natural da madeira. Se a memória não me engana, (já que não consigo reencontrar o dito artigo nem por nada), um extra de criatividade e interesse visual residiam no facto da estante estar dividida em cubículos iguais, (não se notando tratarem-se de portas), onde se iam alternando a direcção dos veios da madeira, ora na horizontal ora na vertical.

Adoraria ver uma parede específica do corredor ocupada com uma estante do género, com compartimentos adequados às nossas necessidades. Porque uma estante é tudo o que quisermos e necessitarmos.
Imagino-a com um nicho onde possamos colocar largar as chaves, os telemóveis e o correio. Com arrumação para sapatos, malas, casacos. Com compartimentos especiais onde arrumar a bicicleta, as pranchas, os patins. Com espaço extra para livros e tantas outras coisas. Tudo organizado, escondido, detrás de uma peça de inequívoca beleza.

E para quem não aprecie o look natural da madeira porque não colar-lhe a impressão de um dos quadros favoritos? Já imaginaram ter em casa um Miró, um Kandinsky, um Almada Negreiros ou Vhils do tamanho de uma parede?