terça-feira, 1 de março de 2016

coisas de opinar: Sobre o assalto do outro dia...



Tenho a sorte de viver numa pequena localidade onde as pessoas se conhecem e se cumprimentam, onde trato todos por "vizinhos", pois sinto que é o que somos, mesmo que moremos a ruas de distância.
Distribuo e colho sorrisos e dedos de conversa com pessoas de todos os géneros e idades, num contexto de pacatez que para mim é sinónimo de qualidade de vida, refúgio, segurança e felicidade.

Num mundo infelizmente tão fértil em cenários de guerra e violência dantescos, é um absoluto e verdadeiro privilégio ser a protagonista de uma vida onde me possa dar ao luxo de me ralar com caca de cão nas ruas, pensamentos filosóficos e coisas assim. É sinal que a vida me corre de uma forma brilhante, especialmente quando comparada com a realidade de infortúnio de muitos milhões por este planeta fora. Tenho a plena consciência do quanto sou abençoada, e raro é o dia em que não me sinta grata. Mil vezes grata.

Nos meus melhores dias, desejo a todos o fim das suas tormentas, uma vida como a minha onde possam encontrar paz, alimento para o corpo e espírito.

Domingo passado não foi um bom dia.
Esta pequena e tranquila localidade foi palco de um assalto a uma carrinha de valores por parte de um grupo armado, triplo carjacking e homicídio. Cena com contornos de violência pouco habituais no nosso país, e que resultou na perda de uma vida.

Entre o politicamente correcto e a franqueza, escolho a segunda, e devo admitir o seguinte:
Qualquer ser humano, e eu não sou excepção, possui um instinto de sobrevivência e uma necessidade de ver as suas pessoas protegidas, de tal forma primal que, quando algo acontece à nossa porta, todos os outros males do mundo empalidecem e passam para segundo plano.

Não há nada mais importante que a nossa segurança e a dos nossos. Abomino tudo e todos que a coloquem em causa. De tal forma que a racionalidade, a empatia, o discernimento e a sensibilidade que devo ter demorado umas quinhentas vidas para adquirir e apurar, se evaporam em menos de nada quando a ameaça existe e é real.

Embora não aprove, consigo entender que existam pessoas, cuja vida lhes corra tão mal e se sintam tão esmagados pelas circunstâncias, tão incapazes de providenciar o básico aos seus, que possam sentir a determinada altura que não tenham alternativa à via da criminalidade. Sublinho que mesmo nas situações de maior desespero o recurso à violência é sempre uma opção. Optar pela violência, pelo terror, ceifar vidas inocentes, não é nem nunca será sinal de necessidade, mas somente de má índole. E para com estes não consigo ter nem uma réstia de piedade ou compaixão. Somente um desejo, também ele sanguinário, de retribuição.
Dizem que em nós vivem dois lobos: um ser de luz e um de sombra. Domina aquele que decidimos alimentar. Em mim, são estas situações que fazem a minha sombra tomar conta da ribalta.

Não estive lá, mas podia ter estado. Podia perfeitamente ter sido eu, uma das minhas pessoas, algum dos meus vizinhos a ter sido baleado.
E eu, que não sou boa pessoa nem nunca o afirmei ser, já comentei que, estivesse eu na A16 naquele momento provavelmente teria acelerado a fundo para os passar a ferro. Que foi uma pena terem saído ilesos do despiste. Que se tivesse sido uma das minhas pessoas a vítima mortal, que se tivessem feito de mim a viúva, a minha missão pessoal passaria a ser persegui-los até aos confins da Terra se necessário, para às minhas mãos, lhes dar um tratamento digno de Vlad, o Empalador.

Sem paninhos quentes, com toda a franqueza.