sexta-feira, 4 de março de 2016

vida de cão: O Kiko e as crianças



O Kiko não gosta de crianças: adora! E talvez por ele ser pequenino e parecer um peluche, o sentimento parece ser recíproco.

Esta adoração é-lhe inata. Não fomos nós que o ensinámos a gostar de crianças, nem como se deveria comportar com estas. Foi ele que nos surpreendeu ao demonstrar que já nasceu ensinado.

Lembro-me de ocasiões várias em que as suas atitudes nos deixaram simplesmente perplexos. Como os passeios, nas noites cálidas de Verão, em que íamos até ao Palácio da Vila. Nós sentados na escadaria e o puto à solta a correr que nem um foguete pelo Largo, a fazer rir os presentes. Em como havia sempre casais com miúdos que o abordavam sem medos, alguns com bebés ainda bem pequeninos, e como o Kiko, parecendo saber-se na presença de uma vida mais frágil, desacelerava, ficando numa postura calma e submissa, querendo retribuir a atenção com lambidelas.
Em várias ocasiões cheguei a vê-lo a rastejar pelo chão, para se aproximar dos petizes, muito devagarinho, com todos os cuidados.

Também me ficou gravado na memória o dia, em que estando nós na praia a brincar com uma bolinha, várias crianças se quiseram juntar à brincadeira. Durante um bom bocado lá andaram meninas e cão numa correria desvairada. Quando uma das crianças lhe queria tirar a bola da boca, ele simplesmente largava-a. Também ninguém lhe ensinou isso, e connosco não é assim tão meigo, o que para mim prova, mais uma vez, que ele sabe perfeitamente diferenciar crianças de adultos.

Há crianças por aqui, que conhecem o Kiko desde que nasceram. Como a linda bebé M. que o avô nos veio apresentar ainda muito pequenina. O Kiko lambia-lhe os pés, e ela ria-se com cócegas. Hoje já anda e quando nos vê já chama pelo "cão".

E eu fico de coração cheio ao ver a minha "criança" a brincar com outras crianças. É muito cativante assistir a esta atracção mútua, a esta empatia e entendimento que lhes parece ser tão natural.

No entanto, nunca estou menos atenta e vigilante. Confio no meu cão, mas em todas as interacções estou sempre de olho na linguagem do Kiko e no comportamento da criança.

Quando se tratam de miúdos especialmente pequenos tenho sempre o Kiko agarrado pela alça do peitoral, não vá ele querer lamber-lhes a cara e fazer com que percam o equilíbrio.
Aproveito estas ocasiões para educar as crianças sobre a forma correcta de interagir com cães. É verdade que sou uma leiga na matéria, mas não é preciso nenhum doutoramento na matéria para ter o bom senso de os avisar que não se puxam orelhas nem rabos, não se dão palmadas e muito menos pontapés, (sim, um dos miúdos Fukushima levantou-lhe a perninha uma vez, se tivesse acertado no Kiko quem lhe mordia era eu, levou uma reprimenda e acabaram-se as interacções de vez), que é preciso usar de meiguice e tranquilidade. Que o animal não é de peluche para ter que aturar coisas que o magoem ou que não goste.

Conheço minimamente bem o meu cão para saber quando já está enfadado, embora não reaja negativamente. Que se farta mais rapidamente dos miúdos que são sufocantes, abrutalhados e barulhentos. Nisso sai à sua mãezinha.
A questão é que talvez o meu cão nunca tenha reagido negativamente a nenhuma criança precisamente porque tem donos que estão atentos à sua linguagem, e que acreditam que ter a paciência devida para com as crianças não é, de forma alguma, permitir-lhes todo e qualquer abuso para com o animal, nem uma interacção sem vigilância, pelo bem de ambos.
Como, volta e meia aparecem nos media histórias tristes que envolvem crianças e cães, esta é a mensagem que gostaria de deixar.