terça-feira, 1 de novembro de 2016

cromices #139: Visitas de estudo e pão com manteiga



Quando era criança o ponto alto de cada ano lectivo eram as visitas de estudo.

As minhas recordações favoritas neste capítulo remotam à escola primária: visitámos tantos museus e ex libris patrimoniais desde o Museu do Coche, do Traje, da Marinha, da Marioneta, o Aquário Vasco da Gama, o Jardim Zoológico, o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Palácio Nacional de Mafra, o Portugal dos Pequenitos, (tanto o de Coimbra como o de Mafra), a fábrica da Longa Vida, e isto só para citar alguns.

Seria injusto não me recordar das realizadas anos depois, como a ida à Universidade de Coimbra e à Quinta das Lágrimas, que foi talvez a minha preferida de todo o liceu. A Biblioteca Joanina é um assombro e tem o condão de maravilhar os visitantes, especialmente aquando a sua primeira vez.

Mas, tenho que confessar que a época de ouro das visitas de estudo no meu percurso escolar vivi-a mesmo na escola primária. As visitas eram frequentes e os destinos sempre interessantes, o que decididamente contribuiu para que viesse a gostar de museus e monumentos por toda a vida. O lado negativo é que saímos daquela escola mal habituados, habituados a uma rotina a que mais nenhuma outra conseguiu corresponder, quanto mais exceder.

Verdade seja, nos anos seguintes se houvesse uma visita de estudo, decente ou não, por ano já era bem bom. 

O que é uma má visita de estudo? Dois exemplos:

10º ano, as professoras da disciplina de Alemão decidem que, dentro da temática ecologia e afins, uma ida a um centro de reciclagem se enquadraria na perfeição. Na teoria, fantástico. Na prática, das piores secas possíveis, e mal cheirosa.

5º ou 6º ano, visita a um dos Palácios de Sintra, não me recordo com exactidão qual. A expectativa era alta, assim como o entusiasmo. Para além da visita iriam haver actividades especiais, o que justificava o preço pago por cada aluno.
Como estragar algo assim?
Excluindo parte dos alunos. Enquanto alguns foram eleitos para se vestirem à época e enquadrarem vários cenários, onde por exemplo lhes seriam ensinadas danças de época e até curiosidades como a língua secreta dos leques, outros foram para a cozinha do palácio preparar fatias de pão com manteiga para o lanche de todos.

Ainda passados quase trinta anos fico zangada quando penso nesta visita de estudo. Sempre fui apologista do "ou há para todos, ou não há para nenhum".

Arrependo-me de ter sido sempre bem comportada e boa aluna, porque a redacção merecida nesta ocasião teria sido "Não aprendi nada de novo. Passei a visita a cortar pão. Quero o meu dinheiro de volta, e ser paga pelo meu trabalho."