quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Vida de peixe: Um guppy chamado Calígula, ou como nos metemos nisto.


Meses atrás o marido finalmente convenceu-me que talvez fosse giro termos um aquário. O sucesso esteve muito relacionado com o facto de ele ter acordado que toda a manutenção da coisa seria unicamente da sua responsabilidade. Que eu posso alimentar os bichos e dar-lhes atenção, e até dar-lhe uma mãozinha, mas que não conte comigo para mudas de água, limpezas de filtros e afins. Simplesmente não é tarefa que me cative, nem considero ter paciência e jeito.
Felizmente ele já demonstrou ter todos os requisitos: gosta de todas essas tarefas, e sai-se bem.

Decidimo-nos por um kit de iniciante: uma coisinha pequena com capacidade para 17 litros, que já trazia luz, termóstato, e filtro. Escolhemos o areão para o fundo. Um par de anubias, que são plantas anfíbias naturais e das muitas espécies existentes as de mais simples manutenção, portanto indicadas para alguém sem experiência. Uma gruta para que a bicharada tivesse um esconderijo, um par de produtos para o tratamento da água - um anti-cloro e umas gotinhas que ajudam à formação de "bactérias boas", essenciais à criação de um bom ecossistema, e o essencial termómetro.

Sei que o meu marido estava de olho em aquários não tão pequenos quanto aquele, mas deu-me razão quando argumentei que sem termos a certeza que iríamos gostar da experiência, ou até se teríamos jeito para a coisa, não valia a pena investir num maior ou mais complicado.

Passadas três semanas com o aquário montado - o chamado ciclo de maturação, - finalmente pudemos ir buscar os seus primeiros habitantes: um par de corydoras bronzeadas, cinco néons e um caracolito, que são espécies pacíficas, dão-se bem em aquários comunitários, e pequeninos, logo adequados a um aquário de reduzidas dimensões.
As corydoras como andam no fundo são excelentes para ajudar a manter o areão limpo, e o caracolito é o limpa-vidros de serviço, pois vai-se alimentando das algas que vão aparecendo.

O meu encanto e interesse aumentou exponencialmente quando os vi em casa, dentro do aquário que lhes havíamos preparado, enérgicos, e até curiosos em relação a nós. Desde o início que os alimento sempre por volta da mesma hora, e acho mesmo giro que saibam que é hora de jantar, que se agrupem e fiquem todos excitados.

Após um par de semanas, quando tivemos que ir comprar pastilhas para o filtro, aproveitámos para trazer mais alguns peixes. Os peixes não devem ser todos colocados ao mesmo tempo, foi-nos indicado que seria mais seguro ir adicionando-os em várias fases. Voltámos com um guppy macho e duas fêmeas (este rácio existe porque os machos são muito chatinhos), e mais um caracolito.

Passado pouco tempo decidimos investir num filtro melhor. É que nos primeiros dias um pequeno néon fez a impensável proeza de se enfiar dentro de um tubo, (ainda ninguém percebeu como), e quando demos por ele já estava morto. Deixámos de confiar no equipamento quando tivemos que ajudar o jovem guppy a desencostar-se das ranhuras do mesmo, e não perdemos tempo em trocá-lo por algo de maior qualidade e que nos parecesse à prova de acidentes.

Devo confessar que houve uma altura em que ambos nos arrependemos de nos metermos nisto da aquariofilia. É que para além daquele pequeno néon, perdemos também o guppy macho, uma fêmea e um caracolito, e ficámos muito desanimados com a perda dos bichinhos.

Respirámos fundo e trouxemos um par de platys e mais um guppy, para que a, agora fêmea, não ficasse sozinha.

Pelo que havia lido em sites e fóruns da especialidade, escolhi um peixinho pequeno, para que fosse jovem, e que fosse activo, como indicador de boa saúde. Um lindo guppy com uma enorme barbatana azul, com subtis traços amarelos e pintinhas negras, muito pequenino mas todo vivaço e enérgico. Aliás, o mais mexido de todos! Acho que os outros guppies devem ter feito uma festa quando se livraram daquele espalha-brasas.

Nunca tivemos a intenção ou sequer esperança de vermos crias. A verdade é que há um par de dias dei conta que já vamos na 3ª geração de guppies nascidos por cá: no total 4 juvenis que ainda não consigo discernir o género.

Mas desde que foi pai, o pequeno guppy para além de continuar a ser incrivelmente chato, passou a perseguir e a investir contra todos os outros peixes. Por essa atitude ganhou o nome de Calígula, e um apartamento de solteiro: uma maternidade onde o colocamos de castigo, para dar algum tempo de paz e sossego a todos os outros.