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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Vida de cão: O cenário de férias com que sonhamos


No Verão passado comecei uma pesquisa exaustiva sobre locais onde poderíamos ir de férias com o Kiko. Foi, de certa forma, infrutífera porque não chegámos a encontrar nenhum destino apelativo.

Decidimos não nos ralar muito com isso: o Kiko ainda era, aos nossos olhos, demasiado novo e com muito para aprender antes de embarcarmos em grandes aventuras.
Por outro lado, não nos desagrada passar férias mesmo por aqui, porque em redor existem inúmeras atracções, cenários e actividades capazes de preencher mais que satisfatoriamente o horário de qualquer veraneante.

Há dias recomecei a pesquisa. A primeira impressão, ao digitar o que procuro no motor de busca, é que no espaço de um ano houve um boom no que toca às ofertas a pensar nos animais de estimação.

Fui direcionada para um qualquer site com um mapa interactivo do território nacional onde, supostamente, apareciam alojamentos onde animais eram aceites.

Ao pensar numa primeira experiência com o Kiko queremos algo por um curto período e que não diste demasiado de casa.

Encontrei um clube de campo inserido em território alentejano. À primeira vista pareceu-me ouro sobre azul: espaço a rodos, um cenário maravilhoso, um conceito de turismo de natureza sem dispensar os confortos que aqui a "je" aprecia, como o spa.
Enviei um mail à unidade hoteleira para confirmar se aceitavam animais, e a questionar sobre que condições existiam para estes.
Podem-se rir à vontade, que nós por cá rimo-nos a bandeiras despregadas com o meu mail: é que no meu contacto para além de perguntar se realmente aceitavam animais, perguntei se haviam espaços onde estes poderiam andar sem trela, se existiam actividades pensadas para estes e até a disponibilidade da cozinha do hotel lhe preparar refeições.
A resposta foi que não aceitavam animais, logo a informação presente no outro site não era fidedigna.

Sim, porque no passado, na minha primeira pesquisa deparei-me com unidades cujo conceito de aceitação de animais de estimação é a existência de, algures na propriedade, de um canil, com jaulas e chão de cimento onde os donos deixam a bicheza enquanto usufruem do espaço.
Ora isso para nós não é aceitável. Não é de todo o cenário que imaginamos de férias em família.
Sim, porque o Kiko é família.
Segundo a nossa forma de pensar um espaço onde os animais estão interditos em todas as áreas com excepção do tal "canil" não se pode considerar que aceite animais no verdadeiro sentido. E não estamos dispostos a pagar, (na maioria dos casos, bem), para que o Kiko esteja numa situação que fica um mundo aquém das condições que tem em casa.

Em conversa esboçámos o que gostaríamos de encontrar, o espaço que nos permitiria as verdadeiras férias em família que desejamos. E seria mais ou menos assim:

Imagino uma propriedade num qualquer cenário campestre, onde existissem bungalows, chalés ou casinhas espalhadas por vários pontos, suficientemente afastadas umas das outras para que os hóspedes se sintam à vontade, num ambiente de total sossego e privacidade.
Onde cada bungalow teria o seu pátio. Um espaço exterior de simpáticas dimensões, esteticamente agradável e ladeado por uma vedação bem alta, que impedisse o animal mais tresloucado de entrar ou sair. Onde alguns possuíram piscina privada para quem preferisse.
Os bungalows teriam uma cozinha funcional, mas na propriedade existiria restaurante para quem dispensa cozinhar nas férias.
Existiria um mini mercado na propriedade.
O restaurante teria uma zona de esplanada que os donos poderiam usufruir com os seus animais, um par de cercados onde poderíamos brincar com os patudos sem trela, quem sabe até uma piscina para cães e outras actividades pensadas para estes, em grupo ou individualmente para evitar stresses entre animais.
Para os donos várias actividades, incluindo a existência do belo spa com massagens, piscina, banho turco, sauna e afins.
Ouro sobre azul seria a existência do serviço de dog-sitting, para que os donos pudessem ir dar uma volta ou fazer uma qualquer actividade com a garantia que o animal estaria sob o cuidado de alguém experiente.





segunda-feira, 2 de maio de 2016

Vida de cão: O dia em que D.Kiko Juan de Casanova não encantou


O Kiko é um sucesso com as meninas. Até a cadela mais encorpada, mais casmurra, mais intolerante se acaba por render aos seus encantos. Nem que seja porque um Jack Russell tem sempre mais energia e, eventualmente, acaba por vencê-las pelo cansaço.

D. Kiko é um gentleman, um cavalheiro: nunca tira o sorriso por mais patadas que leve de uma menina. E, mesmo depois de vencidas, exaustas, nunca vai além de umas lambidelas no focinho, e nariz perscrutador lá nas partes.

Como qualquer D. Juan ou Casanova que se preze, D. Kiko ama todas as fêmeas, independentemente da raça, idade ou porte. Pelo menos até esse amor ser correspondido na mesma medida. Pelo que já pude perceber, regra geral, quando uma fêmea retribui o entusiasmo na mesma dose, o dele esfria.

D. Kiko ama todas as fêmeas por igual. Democrático, o meu cavalheiro cão. Ou assim pensei eu.

É que D. Kiko nunca havia colocado os olhos e o faro numa fêmea da sua raça. Até hoje.
Nós, e dono e cadela, encetámos uma aproximação. A miúda não lhe passou cartão. O Kiko babou-se, ganiu, rosnou, chorou, arfou, roncou e sei lá que mais, tal a excitação. Tudo em 20 segundos. Horrorizou dono e cadela.
Mal puderam pisgaram-se para o carro. Não tivesse o miúdo bem preso pela trela ia atrás. Ainda me puxou com todas as forças para correr atrás do carro.

cromices #128: O que uma "mãe de cão" recebe no dia da Mãe?



Era o meu dia de me levantar cedinho para levar o Kiko à rua. Marido fê-lo por mim.
A seguir ao pequeno-almoço levou o miúdo a passear à praia. Não me apeteceu ir.

Ficar na cama mais um bocado e ter uma manhã livre? Boa marido! Na mouche!

Dois dos passeios da tarde ficaram por minha conta. O miúdo foi de um comportamento exemplar. Até fiquei parada a olhar para ele, à beira da estrada, num misto de estranheza e admiração: em todas as estradas que atravessámos durante o percurso, parou e sentou-se antes de eu ter tempo de soltar qualquer comando.
Inclusive fez questão de despachar logo o cocó. Boa miúdo!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Vida de cão: dias sem "acidentes" = zero.


Por acidentes entenda-se amoks.

Faz-me lembrar uma qualquer cena dos Simpsons, em que o Homer faz uma das suas na central nuclear, e alguém com um ar resignado apaga o registo de "dias sem acidentes" no quadro de ardósia para dar início a uma nova contagem.

Há manhãs em que acordar com as galinhas custa horrores. Hoje parecia que as pálpebras estavam coladas com super cola 3.
Para pessoa para quem o ritmo madrugador é contranatura, verdade seja dita, nunca esperei vivenciar tantas vezes o extraordinário milagre que é acordar cedo com energia q.b. e uma disposição menos tenebrosa.
Mas, tal não seria considerado milagre se não existissem manhãs ruins, não é?!

Hoje foi uma espécie de tempestade perfeita: má disposição, coordenação motora e verbal abaixo do mínimo, muito sono e cansaço, o ter que andar a correr atrás do cão pela casa para lhe enfiar o casaco e o peitoral e para lhe prender a trela, o ser um pouco mais tarde que o costume, e o S. Pedro e o Murphy a ajudarem à festa.

Se o passeio tivesse corrido como esperado, 15/ 20 minutos teriam sido mais que suficientes para cheirar todos os canteiros do percurso, fazer muito chichis, largar o #2 e ainda dar uma corridinha, com a calma habitual das manhãs, para chegar a casa, lavar-lhe as patas e tomarmos o pequeno-almoço em família.
Durante o resto do dia há mais tempo e oportunidades para caminhadas mais longas.

Só que não.
Como costumo sair mais cedo de casa já não me lembrava que, quanto mais o ponteiro se aproxima das 8 da matina, maior o movimento nas ruas, inclusive mais donos e cães.
E se até se pode considerar salutar a interacção com a primeira meia dúzia, tudo e todos que aparecem em diante são um estorvo, especialmente quando a janela temporal é limitada, e o meu puto fica demasiado excitado e muito mais interessado em farejar o rasto de todos os canídeos ao invés de fazer as necessidades.

Respiro fundo e penso que só mais cinco minutinhos para o puto acalmar, e retomar a concentração no passeio e no que tem que fazer. E pimbas, mais um cão, e outro, e outro ainda.
Muita excitação, nada de cócós.
E eu a entrar em modo Hulk, a vociferar asneiras em catadupa, a sentir a paciência a abandonar-me como se tivesse uma artéria aberta. A maldizer o facto de ter saído de casa mais tarde. A mandar vir com o Kiko para ver se ele atina.

Aqueles minutos extra na cama não valem o preço.



quarta-feira, 6 de abril de 2016

Vida de cão: o dia em que o Kiko engoliu uma meia



Anteontem o Kiko engoliu uma meia.

A maior sorte é que demos conta quase imediatamente, portanto teriam passado cerca de 10/15 minutos quando liguei para a Clínica Veterinária a perguntar o que deveria fazer.
Na verdade não existia a certeza absoluta que ele a tivesse engolido, mas pelo sim, pelo não...
Mea culpa, mas pronto, uma pessoa não é infalível.

Já me tinham informado numa das nossas primeiras consultas que caso ele engolisse algo deveria dar-lhe água oxigenada para forçar o vómito. Mas naquele momento só me vinham dúvidas à cabeça: "Era uma colher de chá ou de sopa?", "Diluída ou pura?", "Quanto tempo após a ingestão se pode fazer isso?", "Se não resultar, dou-lhe mais?", "Se sim, quanto mais?"...

Em menos de nada decidi ligar-lhes. Porque como diz o velho adágio "quem não sabe, pergunta".

Mesmo estando a um par de minutos da hora de encerramento, a querida A. diz-me que, visto que ele tinha engolido a meia havia minutos, que o levasse lá que elas lhe administrariam a água oxigenada.
Esta disponibilidade e atenção são um dos muitos motivos porque considero a equipa da Clínica Veterinária uma espécie de família alargada. Relação que dura há 13 anos, desde o momento em que trouxemos o Ulisses cá para casa.

E lá fui, metade do caminho a correr com o Kiko ao colo, metade a correr puxada pelo meu pequeno pónei.

A sala de espera cheia. Mesmo assim, em menos de nada levaram-no para tomar a primeira dose de água oxigenada.

Nesta altura já o "paizinho" também esperava pela criatura. A A. trouxe o Kiko e disse-nos para darmos uma voltinha de dez minutos. Supostamente seria o tempo que demoraria a ficar indisposto e vomitar.
Mas é nestas coisas que um Jack Russell se revela como tal, e o Kiko é simplesmente o Kiko.
Qual indisposição, qual quê! Andava feliz da vida a passear, excitado por ver outros cães, por sentir os cheiros na rua, na relva, a marcar território. Enfim, a ser o Kiko em modo normal.

Segunda dose. Agora é que é! Mas também não foi. Um frio de rachar e nós para trás e para a frente, sem qualquer indício de indisposição.

Por fim, uma terceira e última dose. Resultado: um arroto. Excitação ainda no pique.

Ficámos lá uma hora e meia até que decidimos todos que o melhor a fazer seria trazê-lo para casa, afastá-lo de tudo o que o excita. Levei a recomendação da Dra. I. que, se passado um bom bocado ele não vomitasse lhe deveria dar uma cápsula para proteger o estômago, por causa da água oxigenada.
Que depois dissesse qualquer coisa sobre o estado do Kiko.

Em casa, passados uns minutos lá vomitou um bocadinho do jantar. Sempre bem disposto.

Ontem às 6h da manhã vomitou e afinal tinha mesmo engolido uma meia. Saiu inteirinha, felizmente.
Podia ter sido tão pior. Podia ter acabado em cirurgia.

O momento pós-vómito foi hilariante: um cão feliz por estar a ser muito elogiado, e cada um de nós com o seu telemóvel a fotografar a meia regurgitada.

Já me flagelei mentalmente uma mão cheia de vezes. A partir de agora atenção e cuidados redobrados.

Ontem não resisti a entregar a notícia pessoalmente lá na Clínica sobre como o "caso da meia" estava resolvido, com sucesso.






domingo, 3 de abril de 2016

Vida de cão: Mantra canino



O Kiko ainda se assusta quando alguns veículos passam por nós. Não simpatiza muito com autocarros, nem camiões, nem com o ocasional cromo do tunning ou com o motard que não resistem a uma recta para se exibirem.

É aí que o saquinho que levo sempre à cintura com pedacinhos de ração entra em acção.

O instinto dele é fugir, coitadinho, mas aos poucos conseguimos contrariar essa tendência.

Saco de um croquete, olho-o nos olhos e começo a debitar a minha lengalenga, num tom suave:

"Tu és lindo. Tu és bravo. Tu és destemido. Tu és corajoso." E toma lá croquete.


Foge cada vez menos. Começa a preferir sentar-se ao meu lado, olhando-me nos olhos enquanto entoo o nosso mantra. Depois prosseguimos caminho, ele com a cauda bem erecta, sinal que o medo também passou.



quinta-feira, 10 de março de 2016

Vida de cão: Como as dietas são difíceis!



Numa das últimas visitas à vet, embora o Kiko não seja um cão gordo, somente um pouquinho roliço, surgiu o conselho de que ele deveria perder umas 700 gramas.

Começámos a cortar nos snacks e na quantidade de comida em cada refeição. Basicamente passei a dar-lhe entre as 70-80 gr ao invés de 100, o que já começou a dar frutos.

Pôr o Kiko a dieta não é fácil por dois grandes motivos: em primeiro lugar o bicho parece estar sempre esganado de fome, mesmo que tenha, como agora, acabado de almoçar há menos de 5 minutos. Em segundo é complicado cozinhar em micro escala. Para mim, é particularmente difícil, visto que já me apontaram diversas vezes que faço comida em doses industriais, para um batalhão.

Pois bem, o almoço do Kiko foi meio bifinho de peru grelhado, com 50 gr exactas. Junte-se uma rodela de batata doce, três rodelinhas de cenoura e uma couve de bruxelas, e a balança já estava mais próxima das 100 gr que das 80.

E eu a olhar para aquela mãozinha pouca de comida e a pensar que não, não é fácil.


quarta-feira, 9 de março de 2016

Vida de cão: Qual de nós o mais teimoso?!


Dizem os especialistas em raças e coiso e tal que os Jack são dos cães mais obstinados e teimosos. Por esse mesmo motivo, desaconselhado a leigos.

Eu, que não sou especialista, nem nunca tive outro cão sequer, não vos posso confirmar que os cães desta raça são mais teimosos que os outros, ou qual o nível de teimosia do próprio Kiko quando comparado com indivíduos da mesma raça. Posso é afiançar que o miúdo é teimoso. Bastante. Ponto.

Por aqui o lema é uma no cravo, outra na ferradura. Tratamo-lo como um ser consciente, ao mesmo nível de uma criança pequena. Se por um lado o mimamos e até lhe damos uma dose q.b. de liberdade, por outro sabemos que existem momentos cruciais em que a disciplina e a nossa vontade devem ser impostas, por mais que desagrade ao menino.

Mais uma vez há uma similaridade incrível com as crianças. Nunca trouxe bem nenhum ao mundo educar uma criança fazendo-lhe todas as vontadinhas, a não ser que o objectivo seja criar um(a) déspota. Com um cão é igual. Aliás, há uma razão de ser no facto do "não" ser dos primeiros comandos que se ensinam.

De vez em quando o Kiko faz birra. Eu quero ir por determinado caminho e ele puxa-me na direcção oposta.
Sim, existem ocasiões em que o deixamos escolher o itinerário, mas não pode ser sempre. Aliás, é um privilégio que abunda ou escasseia conforme o seu comportamento. Que quem se porta mal não merece cá privilégios!

Se por vezes a birra se resolve rapidamente com um par de puxões na trela e uma advertência verbal, outras há em que ele, especialmente obstinado, choraminga, manda vir, abocanha a trela e tenta-me puxar, e parece totalmente decidido em levar a sua avante.

Pois é exactamente nestes momentos em que devemos fincar pé, ser mais autoritários que nunca, e recusar-nos a fazer-lhe a vontadinha.
A solução requer paciência e tempo, mas é tremendamente simples: basta ser mais teimosa que ele.

Ontem foi um bom exemplo. Disse-lhe, (sim, que eu sou daquelas maluquinhas que falam com os cães): "Temos o dia todo! Aqui, quem manda sou eu! Enquanto não o perceberes não saímos do mesmo sítio."

Durante um bom bocado, (mas muito menos do que estava espera, pois estava decidida a ficar horas se necessário), uns quinze minutos ou mais, ficámos parados. Quanto mais ele me puxava mais eu lhe encurtava a trela. Sentava-se. Ficava quieto. Mordia uns paus. Tentava novamente e eu voltava a encurtar-lhe a trela, mas sem lhe passar cavaco. Lançava-lhe o comando para ele prosseguir na direcção desejada e ele nada. E mantinha-me imóvel e resoluta.

Por fim decidiu, sem comando algum, obedecer-me. O que não era mais que o desfecho desejado e previsível, pois a pior coisa que se pode fazer na educação de um cão é sairmos derrotados de um destes "braços de ferro". Se começamos uma coisa destas, temos que sair vitoriosos, sempre. Ou sujeitamo-nos a uma regressão no comportamento do animal.

Lancei um novo comando que foi prontamente obedecido. Aí, dei-lhe uma mão cheia de treats e levou muitos elogios ao longo do caminho, coisa que ele adora e se nota bem pelo sorriso e cauda a abanar.

O seu comportamento foi exemplar o resto do passeio.

Portanto, quando a teimosia é o problema, uma dose maior da mesma é a solução.








sexta-feira, 4 de março de 2016

vida de cão: O Kiko e as crianças



O Kiko não gosta de crianças: adora! E talvez por ele ser pequenino e parecer um peluche, o sentimento parece ser recíproco.

Esta adoração é-lhe inata. Não fomos nós que o ensinámos a gostar de crianças, nem como se deveria comportar com estas. Foi ele que nos surpreendeu ao demonstrar que já nasceu ensinado.

Lembro-me de ocasiões várias em que as suas atitudes nos deixaram simplesmente perplexos. Como os passeios, nas noites cálidas de Verão, em que íamos até ao Palácio da Vila. Nós sentados na escadaria e o puto à solta a correr que nem um foguete pelo Largo, a fazer rir os presentes. Em como havia sempre casais com miúdos que o abordavam sem medos, alguns com bebés ainda bem pequeninos, e como o Kiko, parecendo saber-se na presença de uma vida mais frágil, desacelerava, ficando numa postura calma e submissa, querendo retribuir a atenção com lambidelas.
Em várias ocasiões cheguei a vê-lo a rastejar pelo chão, para se aproximar dos petizes, muito devagarinho, com todos os cuidados.

Também me ficou gravado na memória o dia, em que estando nós na praia a brincar com uma bolinha, várias crianças se quiseram juntar à brincadeira. Durante um bom bocado lá andaram meninas e cão numa correria desvairada. Quando uma das crianças lhe queria tirar a bola da boca, ele simplesmente largava-a. Também ninguém lhe ensinou isso, e connosco não é assim tão meigo, o que para mim prova, mais uma vez, que ele sabe perfeitamente diferenciar crianças de adultos.

Há crianças por aqui, que conhecem o Kiko desde que nasceram. Como a linda bebé M. que o avô nos veio apresentar ainda muito pequenina. O Kiko lambia-lhe os pés, e ela ria-se com cócegas. Hoje já anda e quando nos vê já chama pelo "cão".

E eu fico de coração cheio ao ver a minha "criança" a brincar com outras crianças. É muito cativante assistir a esta atracção mútua, a esta empatia e entendimento que lhes parece ser tão natural.

No entanto, nunca estou menos atenta e vigilante. Confio no meu cão, mas em todas as interacções estou sempre de olho na linguagem do Kiko e no comportamento da criança.

Quando se tratam de miúdos especialmente pequenos tenho sempre o Kiko agarrado pela alça do peitoral, não vá ele querer lamber-lhes a cara e fazer com que percam o equilíbrio.
Aproveito estas ocasiões para educar as crianças sobre a forma correcta de interagir com cães. É verdade que sou uma leiga na matéria, mas não é preciso nenhum doutoramento na matéria para ter o bom senso de os avisar que não se puxam orelhas nem rabos, não se dão palmadas e muito menos pontapés, (sim, um dos miúdos Fukushima levantou-lhe a perninha uma vez, se tivesse acertado no Kiko quem lhe mordia era eu, levou uma reprimenda e acabaram-se as interacções de vez), que é preciso usar de meiguice e tranquilidade. Que o animal não é de peluche para ter que aturar coisas que o magoem ou que não goste.

Conheço minimamente bem o meu cão para saber quando já está enfadado, embora não reaja negativamente. Que se farta mais rapidamente dos miúdos que são sufocantes, abrutalhados e barulhentos. Nisso sai à sua mãezinha.
A questão é que talvez o meu cão nunca tenha reagido negativamente a nenhuma criança precisamente porque tem donos que estão atentos à sua linguagem, e que acreditam que ter a paciência devida para com as crianças não é, de forma alguma, permitir-lhes todo e qualquer abuso para com o animal, nem uma interacção sem vigilância, pelo bem de ambos.
Como, volta e meia aparecem nos media histórias tristes que envolvem crianças e cães, esta é a mensagem que gostaria de deixar.




quarta-feira, 2 de março de 2016

Vida de cão: Que orgulho no meu Kiko!



A história da criação dos Jack Russell Terrier está intimamente ligada à caça. Mais especificamente à caça da raposa. Os Jack, por serem rodinhas baixas, eram levados pelos caçadores na garupa do cavalo até ao local. O objectivo do criador desta raça era desenvolver um cão que se enfiasse nas tocas das raposas, e sem as agredir fosse capaz de as afugentar para que os caçadores com a ajuda de outras raças de cães as pudessem caçar.

Ora se há actividade que condeno veementemente é a caça desportiva. Acho que é uma ocupação bárbara, cruel e deixa muito má impressão sobre quem a pratica. Há milhões de coisas mais salutares com que ocupar o tempo.

Como todas mães, também eu acho que o meu menino é especial. Tem um coração tão puro que parece irradiar, e é o retrato perfeito da alegria de viver. Mas algo verdadeiramente especial é que, embora esteja irremediavelmente presente na sua genética o instinto de caçador, ele opta por não lhe dar uso.

Fica excitadíssimo quando se cruza com outros animais, mas, até ao momento, sempre com o intuito de brincar.
Corre em redor destes, ladra, atira-se para o chão naquela típica posição canina que se traduz num "vamos brincar" e prefere fugir quando os outros animais são menos simpáticos, nunca se mostrando agressivo, sejam gatos ou até... preparem-se... galinhas.

Contou o marido que ontem se cruzaram, no meio da rua, com uma das galinhas do sr. S. que havia decidido explorar o mundo para além do quintal.  Foi de tal forma um regabofe que quem passava naquela rua ficou incrédulo a assistir à cena de um cão e uma galinha a brincarem. O Kiko sendo o miúdo enérgico, excitado e chato de sempre, sempre a espicaçar para a brincadeira, mas a fugir, (embora feliz da vida), das investidas de uma senhora galinha cheia de si.






sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Vida de cão: Transformar as rotinas em brincadeiras



Os cães são, em muitos aspectos, tal e qual as crianças humanas. Para um pai ou uma mãe não será novidade nenhuma afirmar que as rotinas se tornam muito mais fáceis, se forem transformadas em brincadeiras, ou pelo menos se convencermos os gaiatos que assim é.

Tenho notado que com o Kiko o mesmo truque se aplica.

Após cada ida à rua há um ritual, indispensável, de higiene. Este nunca é descurado porque lhe é permitido andar à vontade por todas as divisões, em cima do sofá, da cama, etc. Esta também é a sua casa e queremos que ele tenha deste espaço a fruição plena, daí a importância da limpeza.

Embora não escape de uma ida à banheira depois do último passeio, durante o resto do dia e dependendo do estado em que ele chegue a casa basta limpá-lo com uma daquelas toalhitas húmidas para bébé.
A falta de colaboração do Kiko começou-me a maçar, afinal trata-se de uma rotina diária, repetida várias vezes. Até que comecei a engendrar uma forma de tornar aquilo agradável.

A solução foi simples: ele é tão, mas tão guloso, que bastou adicionar comida ao ritual. Coloco uns quantos pedaços de ração no chão, (se for na taça já não tem o mesmo efeito, sabe-se lá porquê), e vou limpando-o. Resulta tão bem que mal me vê com uma toalhita na mão o sacaninha abre um sorriso de orelha a orelha, e até já levanta as patas para serem limpas.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

cromices #114: Novidades da frente de batalha contra o medo


Conhecem aqueles momentos em que estamos doentes mas, mal marcamos uma consulta parece que nos começamos a sentir melhor?

Pois acho que isto define precisamente o que se anda a passar comigo acerca do meu medo de cães grandes.

Milagrosamente, a partir do momento em que desabafei aqui convosco e com alguns amigos sobre os meus ataques de pânico, o meu medo e como me sentia, tudo começou a melhorar.
Nada de drástico, mas não dizem que a grandiosidade reside nos detalhes?!

O primeiro passo foi quando, numa ida às compras, apanhei um rapaz a passear um Pit Bull. Embora seja uma das raças com as quais não me sinto à vontade, consigo apreciá-los e aquele era um exemplar lindo, cinza e branco.
Estando sozinha, decidi não desperdiçar a oportunidade. Pensei: "és uma pessoa ou um rato"?!
Abordei o rapaz, elogiei o cão, trocámos dois dedos de conversa, deixei que o bicho me cheirasse sem recuar um único passo e ainda lhe dei uma festa. Quando estiquei a mão para que ele a cheirasse só pensei "seja o que Deus quiser".
Podem achar-me muito mariquinhas, mas considerei-o uma grande vitória, especialmente depois de notar que era um cão sem treino de obediência, porque se fosse treinado o dono dar-lhe-ia os treats à boca ao invés de os atirar ao ar ou para o chão, o que dá a entender de certa forma falta de confiança no próprio animal, falta de treino e de controle sobre este.

Quando nos despedimos ia muito satisfeita comigo própria, mas com a certeza reforçada que continuo a ter mil e um motivos para considerar que o quarteirão da loja de animais é território que nos é interdito. Que sempre que lá for, vou continuar a optar por levar o cão ao colo e dar uma corrida até entrar na loja, que não ando a criar o Kiko com tanto enlevo para acabar como boneco de roer de outro animal.
Que se tivesse o hábito de ir para lá passear muito provavelmente já não tinha cão, pois as pessoas mantém o hábito de deixarem os cães à solta, e estamos a falar de várias raças como Labradores, Pit Bulls, Staffordshire Terriers, Serras da Estrela. Mais precisamente de machos, que como todos independentemente da raça ou porte, demonstram comportamentos territoriais e de dominância numa ou outra ocasião.

O segundo passo foi tornar-me mais assertiva.
Já mando o Jimmy para casa com um tom que ele nem se atreve a desobedecer-me.
Já saí de casa para perseguir o Urso - o cão que já me pregou uns cagaços por se parecer com um lobo, disposta a enfrentá-lo, agarrar o fugitivo pela coleira e levá-lo até à sua casa se fosse preciso. Não foi preciso tanto, mas agora estou nessa disposição: cão que apanhe à solta que eu saiba quem são os donos, vou lá entregá-lo. E mai nada!
Quanto ao cão que nos tentou morder, o marido, que entretanto já se cruzou com ele, diz que a solução é soltar o Kiko. Que o nosso menino mete esse a correr para casa com o turbo ligado.
Duvido que se torne a minha estratégia, mas sinto-me capaz de agarrar no Kiko ao colo, e desatar a correr atrás do meliante. Até lhe ladro e rosno se for preciso.

O terceiro passo é a consolidação do conhecimento sobre o comportamento do meu próprio animal, e sobre quais os cães com que ele pode ou não socializar.

Na lista do "talvez" está o Jake, um cachorro cruzado de Leão da Rodésia, boa onda pela sua tenra idade, mas que pelo seu porte e por transbordar de energia, voa para cima do Kiko e magoa-o, embora sem querer. Por isso prefiro evitar.

A lista do "não" é muito mais extensa. Nela está, por exemplo, o Mondego, pela sua dominância e territorialidade. Já se mostrou agressivo para com o Kiko e é sem dúvida um dos grandes responsáveis pelo facto do meu cão não gostar nem um pouco da maioria dos machos de médio/grande porte, especialmente quando mostram traços de comportamento dominante e agem como bullies.
O Soneca, que embora sendo um cão doce e medricas, e já tenha brincado solto com o Kiko sem qualquer problema, há pouco tempo reagiu negativamente ao nosso cão e este a ele. Demonstra em relação ao Kiko um comportamento intermitente, oscilando entre medo, embora seja muito maior, e umas investidas repentinas. A partir daí passou para a lista do "não".
O podengo Kiko, por ser territorial, desobediente e gostar de provocar os outros cães.
E a lista continua. O ponto negativo é nela haver cães, todos maiores que o meu, que se o apanhassem não duvido que o estraçalhavam. O ponto positivo é que sabê-lo é meio caminho andado para nos conseguirmos proteger.

Na lista do "sim" estão os amigos do Kiko e praticamente 90% das cadelas deste mundo.
Em lugar cimeiro está o Gaiato, o único cão com que eu permito brincadeiras quando sou eu a levá-lo à rua. Confio de tal forma no dono e nos nossos animais, que me sinto totalmente descontraída e posso apreciar a interacção entre os nossos putos, a pura felicidade de ambos mal se vêem, as caudas a abanar, os abracinhos de urso. É claro que também ajuda serem do mesmo tamanho.

Quanto a cadelas "especiais", o destaque neste momento vai para a Anya, uma Pastora Alemã. Precisamente aquela, que por tê-la conhecido a primeira vez, à solta com o dono na rua, passei a fugir deles como o diabo da cruz. A evitar percursos, a passar para o outro lado da rua. Nem sabia que era uma fêmea.
Um dia o marido chega a casa e conta-me tratar-se de uma menina, que andaram ambos soltos a brincar, que se parecem adorar.
E eu que já pude assistir in loco à demonstração desse "amor de paixão", embora a uma distância segura, dela a abanar a cauda, do meu Kiko a uivar pela sua amada, decidi há uns dias não fugir da aproximação. Inclusive depois de pôr o Kiko em casa, levei-lhe um treat especial e dei-lhe um beijo no nariz.



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Vida de cão #48: Dar comprimidos.



Uma das inegáveis e mais distintas diferenças entre ter cães e gatos, pelo menos no que toca à minha experiência, refere-se ao momento em que lhes temos que dar algum medicamento.

Com os gatos era um absoluto inferno. De cada vez que os levava, por um qualquer motivo, a uma consulta, rezava cá para os meus botões para que qualquer coisa que eles tivessem que tomar fosse dado mesmo ali, no consultório, e de preferência pelas mãos da veterinária.
Levar qualquer tipo de medicamento para dar em casa ia ser o cabo dos trabalhos, uma aventura que só visto.

O Zeus então era do pior. Aquele sacaninha nem para tomar a pasta de malte para bolas de pêlo, que a maioria adora, dava tréguas. Tinha que colocar uma bolinha desta em cima das patas para que ele sentisse a necessidade de se limpar e a acabasse por ingerir assim.

Mas isso não era nada. Inferno, inferno, mesmo a valer, foi quando lhe foi diagnosticada a trampa da insuficiência renal. Há pouca coisa mais horrível nesta vida que ter um animal doente, em natural sofrimento, que não entende que tem que tomar os medicamentos para se sentir melhor, e ter que prender aquele ser na sua altura mais frágil entre as pernas e segurá-lo pelo cachaço para lhe forçar a medicação goela abaixo, e este num estado totalmente feral e assanhado.

Em comparação, o Kiko é um paz de alma para tomar seja o que for, desde picas a comprimidos.
Por exemplo, para lhe dar o comprimido da desparasitação interna, basta ir com ele à clínica, comprar a coisa, e dar-lha ali mesmo que ele engole em menos de nada e ainda abana a cauda de contente.

Nestes dias ele anda a tomar uma cápsula e parte de um comprimido por dia. O truque, ao contrário do que me contam sobre outros cães, é não o tentar enganar. Ele é demasiado esperto, topa as coisas e fica sentido e desconfiado quando o tentam enganar. Foi algo que aprendemos.
Basta pegar num pedaço de queijo. Mostramos o comprimido numa mão e o queijo noutra. Mostramos que estamos a enrolar o pedacinho de queijo à volta do comprimido e ele engole-o sem qualquer alarido nem dificuldade.





segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

vida de cão #47: o cão chamariz.



Nunca observei tantas aves de rapina como desde que temos o Kiko.

Digamos que um cão pequeno é o perfeito companheiro para um observador de aves, especialmente daquelas que, quando nos olham lá de cima, estão-se nas tintas se aquilo é um cão ou um coelho. Aliás, presumo que na sua perspectiva, se se parece com almoço, então é almoço.

Ainda ontem na praia, tivemos a companhia talvez de uma águia ou bútio, (não sou, de forma alguma, entendida em ornitologia!), que voava em círculos bem por cima de nós.


sábado, 30 de janeiro de 2016

Vida de cão #46: Ode ao diálogo




Sou daquelas pessoas a quem "bate forte, mas passa rápido".

Noto que, com o passar dos anos, cada vez me "bate mais forte", ou talvez o que se passa é que prefiro ver-me livre dos maus sentimentos através de uma catarse imediata. Não é bonito de ver, mas é essencial gastar logo toda aquela energia gerada pela irritação.

Ontem quando fui passear o Kiko, tivemos mais uma cena dessas.
Passamos diariamente por uma rua, que é das melhores da localidade para passear o cão, por ser longa, ter um relvado que se estende por todo o seu comprimento, e árvores.
Em frente a uma das casas estão sempre restos de comida, colocados displicentemente em cima da relva, que podem ir de bocados de pão, massa, batatas com sabe-se lá o quê, ossos a latas de atum.

Ontem, no cardápio havia, para além de um resto de batatas com acompanhamento mistério encostadas ao muro da habitação, espinhas de peixe espalhadas pela relva e camufladas por esta.

Nada do que por ali aparece é benéfico para qualquer cão. Tanto que o Kiko embora levado pela gula tente alcançar os restos, sabe que na grande maioria das vezes, essa teimosia só resultará num "Não!" bem audível e se necessário puxões na trela.

Andamos a treinar o comando "dá", que serve tanto para brincar com bolas, como para estas ocasiões em que ele agarra qualquer coisa que não deve. Resulta algumas vezes, nem todas.

 Então, lá estava eu, com um saquinho dos cócós a servir de luva a tirar-lhe as espinhas da boca. Não foi nada fácil, mas consegui. Fiquei foi com um dedo a sangrar, porque ou me espetei com as espinhas ou da pressão dos dentes do Kiko. Nada de especial.

Tentei prosseguir o passeio, embora já furiosa, porque sendo o miúdo certinho que nem um relógio, era importante que ele fizesse um nº2. Que não fez porque andava totalmente desaustinado, parecia querer abocanhar tudo o que aparecia e eu, cada vez mais possessa, achei preferível levá-lo para casa o quanto antes.

Decidi que, após mais de um ano a encontrar restos de comida ali, de ontem não passaria e que iria abordar os donos daquela casa.

Assim fiz. Não sem antes ir tomar um café e fumar um cigarro. Porque até eu, dada a amoks, tenho um nível de inteligência emocional que me permite saber que nunca se deve abordar ninguém quando estamos furiosos.

Como não encontrei nenhuma campainha, coloquei-me ao portão da casa a chamar. Apareceu um senhor com alguma idade e uma senhora mais idosa, que deveria ser sua mãe.
Disse-lhes que precisava de lhes dar uma palavrinha, de lhes pedir um favor. Que lamentava abordá-los na sua casa, mas que depois da aventura de ter que arrancar espinhas da boca do meu cão, coisa que poderia ter acabado numa ida ao veterinário, tinha que lhes pedir que fizessem o favor de não deixar restos de comida na via pública.
O senhor não fazia a mínima ideia do que se passava. Eu voltei a explicar que todos os dias estão restos de comida na outra entrada da casa, a que dava para a rua X. Que em algumas ocasiões até latas de atum abertas, que podem cortar o focinho de um animal mais curioso.
A senhora admitiu que punha lá pão, e tinha lá posto batatas com qualquer coisa, mas nunca latas de atum nem espinhas. Talvez isso fosse da responsabilidade dos vizinhos do lado.

Trocámos pedidos de desculpas pelo incómodo e prometeram-me que não voltaria a acontecer.

E eu terminei a minha tarde com a esperança renovada no poder do diálogo. Que a solução passará sempre, e em primeiro lugar, por abordar com o melhor dos espíritos e das atitudes aqueles que por um qualquer motivo nos incomodam com alguma atitude ou acção.






quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Vida de cão #45: Desculpa Kiko, mas vais continuar a ser filho único.


Todos os animais que vieram parar cá a casa foi por insistência minha.

Primeiro o gato Ulisses. Gato de uma ninhada nascida no mato.
Depois os manos Eros e Zeus, vindos da casa de uma família de acolhimento temporário, porque insisti que faria bem ao Ulisses ter companheiros da mesma espécie.
Quando, na visita à FAT descobrimos que ao invés de um gato à nossa espera, haviam dois, foi o marido que se saiu com "quem cuida de dois, cuida de três". E eu feliz da vida!

Nunca os teríamos trocado por nada deste mundo, nem por milhões de euros, garanto-vos. Mas, como tudo na vida, nem sempre foi pêra doce, e houve até momentos que nos questionámos sobre se realmente a vida não seria mais fácil se tivéssemos ficado por um animal.
Os momentos positivos e as alegrias foram sempre em maior número e intensidade que os pontos negativos, mas dizer que não existiram momentos de frustração e cansaço seria mentir.

Mesmo assim, a sua falta foi tão sentida e deixou um vazio tão grande que, passado algum tempo voltei a insistir para termos mais animais. E foi assim que o Kiko veio cá parar.

Quando andava a melgar o marido a ver se lhe dava a volta, deixei a escolha da espécie em aberto. Precisava tanto de um bichinho que já estava por tudo: hamsters, tartarugas, galinhas, porquinhos, alpacas, cabras... Opá, qualquer coisa!
Menos peixes. Aquários é que não! Não tenho pachorra para cuidar de um aquário, é demasiado minucioso para a minha personalidade.
Ah, e pássaros também não. Não suporto ver pássaros sozinhos, em gaiolas, que me parecem sempre demasiado pequenas e claustrofóbicas.

Voltar a ter gatos foi algo posto de parte pelo marido. Fez-lhe impressão ter gatos num apartamento, que só saíam de casa para ir ao veterinário ou à varanda, sem um jardim, (devidamente vedado, como é obvio), onde brincar e explorar toda a dimensão do seu ser.
(Se bem que não acredito que os felinos estejam fora de questão, porque o marido é o primeiro a parar o carro se lhe parece ver um gatinho de rua. E lá vou eu a correr atrás do sacaninha até este me trocar as voltas e deixá-lo de ver.)
Preferiu um cão, e eu achei fenomenal.

Passado um pouco mais de um ano, continuo a achar fenomenal. O Kiko deixa-me maravilhada e só penso como pude chegar aos 35 anos sem nunca ter tido um cão. Às vezes sonho com enormes ninhadas de Kikos, onde os agarro e beijo-lhes as pancinhas e acordo sorridente.

Desde que o Kiko era bébé que falamos sobre arranjar-lhe uma companheira. Uma menina com quem brincar.
Sim, teria que ser uma fêmea. A minha casa é um lugar de paz onde dispenso cenas stressantes à conta da testosterona e desejo de dominância. E porque o Kiko dá-se tremendamente bem com todas as fêmeas. É um cavalheiro que nunca, mas nunca, mostra a menor agressividade mesmo quando elas são respondonas e lhe dão umas dentaditas.

Sem qualquer dúvida, um dia o Kiko terá a sua companheira. Contudo, quando há pouco tempo o marido mostrou ganas de seguir esse impulso, fui eu a puxar o travão.

Clareei a mente, afastando o filtro cor-de-rosa que faz tudo parecer fofinho e delicioso, e imaginei a nossa rotina com mais um cão.

É claro que adoraria ver aumentada a dose de estrogénio cá por casa, ter mais uma pança para beijar, que quem alimenta um, alimenta dois, e o mesmo se aplica às idas ao veterinário, ao grooming, aos banhos, etc. Que a felicidade do Kiko quando brinca com uma amiga é também nossa.

Mas, depois penso nos passeios. Que não me imagino, medricas e ansiosa como sou, com motivos para tal também por causa dos outros donos e animais da zona, a sentir-me à vontade para passear dois cães em simultâneo. Os quatro passeios diários passariam a oito, o que significaria entre cinco a seis horas por dia. Confesso que não estou disposta a abdicar de tanto tempo e sentir que vivo unicamente em função dos passeios dos patudos.

Ainda ontem uma senhora abordou-me para comentar que nunca viu um cão sair tanto à rua como o Kiko. Expliquei-lhe que vivendo nós num apartamento sentimos essa obrigação, e mesmo assim por vezes gostaríamos de ter disponibilidade para mais. Para além das questões óbvias de higiene, é importante que ele faça exercício, que apanhe ar, que gaste energia e se sinta feliz.

Durante um café expus esta mesma perspectiva ao marido. "Como faríamos com os passeios?" - perguntei-lhe.
Ele concluiu que já não seria possível a divisão de tarefas que temos feito até agora. Por exemplo, temos dividido irmãmente a responsabilidade de o levar a rua de manhã cedo. E, podem crer que bem que sabe a qualquer um de nós, ter uma folga e poder ficar mais um bocadinho na cama. Com mais um cão, teríamos que sair sempre os dois de manhã e à noite, e durante o dia eu teria que dobrar os meus passeios.

Imaginar este cenário serviu, também a ele, para lhe esfriar o entusiasmo.

Agora sou eu que considero essencial o tal jardim!
Tivéssemos nós uma casinha com jardim e até me imagino com mais do que dois cães. Porque é bem diferente ir-lhes abrir a porta de manhã e à noitinha para usarem o espaço exterior da casa para fazer as necessidades do que as obrigações existentes para quem vive em apartamento, ter um espaço onde podem brincar e gastar as pilhas o dia todo se lhes apetecer, e sentir a obrigação de os levar a passear somente uma ou duas vezes por dia.







quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

cromices #108: Não há remédio como... a lei?!



Há dias, depois de mais um episódio a.k.a. figura triste, desabafei com amigos, (às vezes desabafar é preciso porque faz um bem danado!), que esta coisa das pessoas deixarem os cães andarem à solta, sem supervisão, estava a piorar tanto a minha ansiedade que começava a ter ataques de pânico de cada vez que via algum animal sem trela nas proximidades.

A J. perguntou-me se não deveria fazer algo para me ajudar a ultrapassar este problema.

Respondi que sim, que a primeira coisa que iria fazer seria procurar saber quem são os donos e ter uma palavrinha com eles, e de uma forma pacífica pedir-lhes que cumpram a lei.

A J. insistia em terapia, e eu respondia que, para começar, a melhor das terapias, no meu caso, é o cumprimento da lei. (Sim, eu sei que sou casmurra!).

Há dias que não me cruzo com um cão à solta. Há dias que o meu nível de ansiedade está maravilhosamente baixo, não tive outro ataque de pânico, e os passeios com o Kiko têm sido formidáveis. Até noto que ando com uma postura mais descontraída.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Falar de Saúde #3: 1098 ou apresento-vos o Toxocara Canis.



Um cão é o motor de uma espécie de revolução social na vida de uma pessoa. Desde que tenho o Kiko o mais comum é que as pessoas nos venham abordar durante as saídas, seja para lhe dar festas, seja para conversar.

De vez em quando o tema gira em redor de um dos meus ódios de estimação, os cócós na rua. Por incrível que pareça, nem sempre sou eu a abordar o tema.

Seja qual for a opinião de quem me aborda, quase automaticamente saco do rolinho de sacos para cócós que trago no bolso, e quase como quem vende o produto e a ideia saio-me com um "Vê? Não custa nada! Até são baratinhos, e se todos fizermos a nossa parte as nossas ruas andam sempre limpinhas. Não é uma questão de trabalho, é de atitude!"
Que já ninguém corre o risco de sujar os sapatos, diminui-se o risco de transmissão de doenças como a parvovírose, deixam de haver enxames de moscas que se alimentam das fezes e propagam doenças, e que existem tantos microorganismos patogénicos nos dejectos caninos, imunes aos tratamentos que damos às águas, que inquinam a mesma.

Já me apresentaram várias vezes o argumento, (ainda há dias, um senhor se saiu com esta!), que o cócó serve para estrumar os espaços verdes, que não faz mal nenhum, que eles, (leia-se os jardineiros e canteiros ao serviço da câmara municipal), depois passam aí e limpam. Eu, tentando ser o menos antagonista possível, digo que gosto do meu sistema, que não tenho feitio para fazer dos outros meus criados, e encolho os ombros enquanto me recolho nos pensamentos deambulando pelos corredores da mente à procura de uma forma de tentar esclarecer as pessoas sobre algo que a maioria desconhece.

É que o cócó dos cães não funciona como fertilizante ao contrário que muita gente pensa. Nas fezes dos bichinhos, (especialmente daqueles que não se encontram desparasitados internamente como deve ser e que são mais do que possam pensar, pois há aí tanto dono que nem um regime de vacinas consegue cumprir de forma responsável), vive o Toxocara Canis.
Estes parasitas podem sobreviver até 10 anos no solo e são imunes a desinfectantes e ao frio. Cada fêmea pode depositar cerca de 700 ovos por dia, e só são visíveis ao microscópio. Quando ingeridos por um ser humano podem levar a infecções do sistema nervoso, pulmões, fígado e olhos. Se não for devidamente disgnosticado e tratado pode levar à cegueira.

As toxinas presentes nos dejectos caninos envenenam o solo e a água, e são prejudiciais ao meio ambiente e a outros animais. Se estes forem deixados em pastagens, facilitando o contacto entre rebanhos e os parasitas presentes nas fezes, os animais não ficarão visivelmente doentes mas tornar-se-ão portadores de doença que passará para os humanos através do consumo da sua carne e se denotará através da formação de quistos no fígado e nos pulmões, que terão que ser removidos cirurgicamente.

O Toxacara Canis está longe de ser o único parasita presente nos dejectos. Pelo menos, mais de uma dezena de bactérias e parasitas proliferam neste ambiente. Estima-se que numa grama de cócó canino estejam presentes 23 milhões de bactérias coliformes fecais. Todas elas inimigas da saúde humana e dos animais!

Também se estima que a matéria fecal produzida por 100 cães em 2-3 dias é mais que suficiente para produzir bactérias suficientes para levar ao encerramento de uma praia, baía, ou qualquer corpo de água num espaço de 30 km, tornando-a temporariamente perigosa demais para haver contacto com esta ou consumir bivalves dela provenientes. O efeito dos dejectos caninos na água é o mesmo que o dos esgotos não tratados.
As bactérias presentes levam à proliferação de determinadas algas que consomem o oxigénio presente e dessa forma matam muita da vida marinha.

Em 1991, a EPA, (a Agência de Protecção Ambiental Norte Americana), declarou que os dejectos caninos são um poluente ambiental ao mesmo nível que os herbicidas, insecticidas, petróleo, crude e diversos resíduos tóxicos.

Estudos conduzidos pela mesma entidade concluíram que a água potável, aquela que sai dos canos e bebemos, possui mais matéria fecal que a desejada.


Percebem agora a minha obsessão com esta questão?!

Tudo evitável se as pessoas deixarem de ser preguiçosas e usarem os saquinhos para apanhar os cócós dos seus animais.

Porque pensem assim: o meu Kiko faz, em média, 3 cócós por dia. Ao fim de uma semana são 21. Ao fim de um mês são 90 ou 93. Ao fim de este ano bissexto serão 1098. Já viram se eu não os apanhasse?!
100 donos irresponsáveis contribuem anualmente com mais de 100000 bostas por apanhar, onde em cada grama vivem mais bactérias altamente prejudiciais à nossa saúde e ao meio ambiente que mais cidadãos em Portugal.

Pensem nisso!


Podem ler mais aqui e aqui.




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

vida de cão #43: Maldita testosterona!


Confesso que antes de começar este texto tive que ir googlar sobre testosterona. A minha dúvida era sobre os seus benefícios seriam ou não maiores do que as chatices provocadas por esta hormona.

A testosterona é uma hormona que se encontra em todos os animais, sendo produzida em muito maior escala pelos machos, sendo a principal hormona sexual destes e essencial para o desenvolvimento dos órgãos reprodutores masculinos e o desenvolvimento de características diferenciais dos machos da espécie como maior musculatura, maior pilosidade e massa óssea.

Quando falo de chatices em relação a esta hormona refiro-me aos seus efeitos comportamentais. Esta tem um grande efeito no comportamento social das espécies, (humanos incluídos), e manifesta-se através de impulsividade, agressão, competitividade, dominância, raiva.

Sinceramente não me sinto grande defensora da testosterona. Dou por mim a imaginar que, se esta hormona não existisse estaria encontrada a solução para a paz mundial.

Em relação aos cães, estes comportar-se-iam como "puppies" a vida toda e muitos dos problemas que me apoquentam estariam resolvidos. O início da puberdade é também, no caso dos "filhos caninos", o fim da paz e do sossego para os "pais".
É que, independentemente da raça e do porte, são todos tão queridos, fofinhos e meiguinhos quando são pequeninos, e depois começa a idade da parvalheira e com esta tornam-se inevitáveis os episódios em que a relação com os outros deixa de ser pautada só pelo desejo de brincar, mas também pela necessidade de ser armarem em alfas da matilha, de marcar território, de provar quem é que tem o pipi maior, quem é que é muito macho. Lá está, tal e qual os humanos.
Uma maçada só vos digo, uma maçada!

Contou-me o marido, ontem à noite, quando chegou do último passeio com o Kiko, que foram surpreendidos pela chegada de outro cão quando estavam no relvado. Conheço-o bem, é um podengo médio cerdoso que também se chama Kiko, que por ser daqueles cães que andam à solta por aí já me obrigou a uma das minhas figuras tristes.
Naquele momento estava com o dono.
Cheiraram-se e deram início a um ritual em que corriam pelo relvado e pela rua, parando para marcar território. Um fazia chichi num ponto, o outro fazia por cima, o primeiro voltava atrás para remarcar território e andaram nisto uma vida.
O dono do outro Kiko soltou algo como "O seu é cão? Engraçado! Parecem estar-se a dar bem e o meu não se costuma dar bem com cães!" - (E deixa o animal andar à solta sem supervisão! Até me benzo, senhores! Começo a perceber porque há por aqui quem vá passear o cão de cajado de mão!). O meu marido explicou-lhe que aquilo não era, de forma alguma, "darem-se bem", que estavam a tentar estabelecer uma hierarquia entre eles, a perceber qual dos dois era o dominante.

Como o ritual do chichi não os satisfez, houve um momento em que desataram a rosnar e a mostrar as dentolas. Teria havido bulha na certa não decidisse o marido achar por bem dar por concluída a experiência social, meter-se no meio e agarrar no Kiko.
Pelos vistos o nosso gostou tanto da experiência que depois andava a abanar o rabo, feliz da vida, e fez um nº 2 digno de uma menção honrosa no Guiness. Adolescentes!

Embora o nosso tenha metade do tamanho do outro, é bastante destemido com alguns cães, (ainda não percebi como é que ele os escolhe). Parece que houve um momento em que se levantou nas patas traseiras e inchou o peito para conseguir olhar o outro Kiko ao mesmo nível, olhos nos olhos.

Começamos a acreditar que o Kiko sabe, na maioria das vezes, distinguir os cães que estão "em níveis semelhantes" mesmo que sejam maiores, e aqueles que são "areia demais para a sua camioneta".
Com estes últimos ele, em menos de nada, submete-se. Às vezes ladra a seguir, mas não é um ladrar agressivo, parece soar a algo como "Pronto, és tu que mandas! És o maior! Agora podemos ir brincar?". Só se o outro cão não alinhar na brincadeira é que o tom do Kiko muda. Presumo que seja para lhe chamar uma carrada de nomes.
Mas, há outras situações em que o Kiko, para além de se submeter, encolhe-se, retrai-se e recua com medo. Deve pressentir que existe ali uma verdadeira situação de perigo.
Infelizmente, a última situação destas aconteceu com aquele que foi o seu primeiro grande amigo, antigo colega de escola, que foi o primeiro cão com que o Kiko socializou e que tinha uma paciência de santo para o nosso miúdo.
Entre ambos existia uma amizade, um brilho nos olhos quando se viam, uma alegria desmedida que dava gosto ver!

Depois veio a mudança da idade e a maldita testosterona.
Fiquei tão triste quando o marido me contou que, na última vez que se encontraram, o Kiko correu para o amigo com a alegria do costume. Este não brincou, simplesmente tolerou-o, e passado uns instantes começou a soprar pelo nariz de uma forma muito audível. O Kiko esparramou-se no chão, em posição de submissão e recuou.

No outro dia cruzámo-nos com esses nossos amigos, e há medida que boxer e dono avançavam, não consegui esconder o medo e recuava com o Kiko. Trocámos um breve dedo de conversa e seguimos o nosso caminho, especialmente depois de ambos repararmos que o Kiko estava a tremer de medo só de estar na presença do outro cão. E como tremia o meu menino!

Tão triste! Maldita testosterona!