segunda-feira, 3 de novembro de 2014
A lição dos quatro patas
Um dia quando morrer, e digo-o sem qualquer morbidez, (e que seja daqui a muitos e bons anos!), imagino-me perante uma plateia, que assiste comigo ao filme da minha vida e me questiona, curiosa, sobre o que andei por aqui a fazer.
Não me é difícil imaginar que a maioria das cenas a que assistiremos nesse grande ecrã celestial, me deixem meio embaraçada, de mão na testa, corada, e a soltar um repetido "tótó do caraças!" entre risinhos nervosos.
E a multidão rirá comigo, benevolente, porque saberão que a cada vida que recomeça há que reinventar a roda, partir sempre do zero.
Também no meu filme haverão momentos em que o constrangimento de não ter sabido fazer melhor é trocado por um sorriso.
Alguns dos momentos não existiriam sem os patudos.
Alimentar um animal que não era "meu" foi das coisas mais decentes, correctas e "de jeito" que já fiz na vida.
Quando o comecei a fazer, fi-lo sem pensar em nada. Somente reagi, nada mais. Pensei na possível fome daquele par de animais, e reagi. Não foi nada de extraordinário, não foi feito para ser notado nem reconhecido, para ficar "bem na fotografia", nem coisa alguma. Estava totalmente estéril de pensamentos, não fosse um único, o de fazê-lo sempre, pois a confiança de um animal não deve ser defraudada, não se pode começar a dar e depois parar de o fazer.
Descobri nessa altura que ao fazê-lo, me incluia num grupo alargado de pessoas que sem se conhecerem inicialmente, concertavam os seus hábitos para ajudarem os mesmos animais, e isso é coisa de alimentar a nossa fé no próximo, e de que maneira!
E quando pensava que a lição residia nisso mesmo, fiquei siderada com o que ainda havia por vir.
A lição maior veio em forma de um pequeno cão amarelo, um velhinho charmoso de dentes tortos, baptizado de Kamala por uns, de Pirilampo por outros, que no fim de cada refeição vinha ao meu encontro. Fechava os olhos e ficava de cabeça encostada às minhas pernas, numa expressão de gratidão incondicional que era avassaladora, tocante e palpável, de deixar um nó na garganta.
Veio em forma da sua companheira, a Preta, uma cadela sénior, em todas as suas expressões de genuína alegria e companheirismo.
Veio em forma de um gato. Cabeça enorme para aquele magro corpo. Fugídio e desconfiado. Que após duas semanas de lhe levar alimento, e de me ter habituado a manter a distância enquanto ele comia, ignorou a gamela e dirigiu-se a mim. Decidido e alegre como nunca o tinha visto, veio roçar-se em mim, ronronando.
Aquela reciprocidade, que nunca esperei, em forma de extrema confiança e meiguice, tocou-me imensamente. Fiquei imóvel. Durante um par de minutos não consegui ter qualquer reacção. Fiquei muito comovida e as lágrimas escorriam-me pela cara.
Aprendi a ser grata por todos os meus amigos animais, que de uma forma ou outra vão aparecendo na minha vida. Que a nossa troca é desigual, ou começa assim. Em troca do que lhes levo, eles dão-se, a si próprios, sem meias medidas. São eles que me alimentam, me matam uma fome que eu nem sabia que tinha.
coisas de ver #48
Hoje trago-vos um dos reality shows do mediático chef Gordon Ramsay: Hotel Hell.
Cá por casa partilhamos da opinião que este escocês de mau feitio é um psicólogo do caraças.
Ver o Gordon em formatos como este Hotel Hell ou Kitchen Nightmares, em que se este se dirige a estabelecimentos reais de forma a diagnosticar e a resolver os problemas que os impedem de ser um sucesso, impressionou-me mais do que vê-lo no ambiente do Hell's Kitchen.
Acabei por me enjoar do Hell's Kitchen. Pensava como seria difícil trabalhar com alguém com aquele feitio especial, embora desse para entender que em algumas das situações aquelas explosões eram necessárias, para além que cheguei a um ponto em que já não conseguia assistir à preparação de vieiras nem de lombo à Wellington pela enésima vez.
Fora desse contexto percebemos como esse mau feitio, frontalidade e o uso linguagem sem filtro são uma excelente ferramenta. Em qualquer um dos episódios do Hotel Hell, dá para apreciar isso.
Os estabelecimentos hoteleiros visitados pelo Ramsay têm problemas, muitos problemas. São falhas óbvias. Não é preciso nenhum génio para num curto espaço de tempo concluir os motivos do seu fracasso, qualquer pessoa com dois dedinhos de testa o consegue fazer.
Mas, o Gordon é o Gordon, e por ser quem é, as pessoas ouvem-no.
E quando não ouvem, quando continuam a viver uma ilusão, presas a maus hábitos, o Gordon mostra-nos quão eficaz é como "psicólogo": usando da sua peculiar linguagem e método, deita-os abaixo, chama-lhes nomes, derruba-os. Porque é preciso destruir antes de voltar a construir. E resulta.
sábado, 1 de novembro de 2014
cromices #52: Pão por Deus
Eu gosto do Pão por Deus, deste hábito de ter os miúdos a bater à porta em alegre algazarra. E quando digo que gosto deste dia e deste ritual, falo muito a sério. De tal forma que até o meu marido goza comigo, porque não se percebe quem por cá vibra mais com a coisa, se eu, se os miúdos que recebem rebuçados às mãos cheias.
Eu confesso, vibro mesmo! Toda eu sou um sorriso de orelha a orelha, a receber estes "meus" pirralhos.
E hoje fiquei inchada. No meio de um grupo destes pigmeus, avança uma pequenita que se vira, com um ar todo empertigado para os amiguinhos e saí-se com um "eu cá venho todos os anos a esta senhora!"
Soube-me a atestado, a selo de qualidade! Pimbas, tomem lá, vão buscar! Pirralhitos lindos!
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
E porque hoje é Halloween...
... não resisto a partilhar este vídeo!
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
coisas de ver #46: 7.270.762.526 primos e a aumentar!
Somos todos primos, mesmo!
Cientistas acreditam que toda a população mundial descende de uma tribo africana com cerca de 200 elementos que partiu da Etiópia para os quatro cantos do mundo. Não é fantástico?!
Podem ler mais aqui.
A série The Incredible Human Journey, da BBC, fala-nos dessa viagem.
cromices #51: Há que ter muita paciência
Recentemente, a actriz Luana Piovani fez um comentário polémico sobre Portugal. Podem ler mais aqui.
Só falo disto porque me fez recordar outro episódio.
Em 2007, a actriz brasileira Maitê Proença gerou uma imensa polémica com um vídeo, feito em Portugal, para o programa "saia justa" onde, de forma totalmente ignorante e desrespeitadora, ridicularizava os portugueses, chegando mesmo a cuspir numa fonte do Mosteiro dos Jerónimos.
A repercussão foi bombástica. O mote estava lançado, e em menos de nada proliferavam, um pouco por todo o lado, discursos, comentários e trocas de mimos nada tolerantes por parte de pessoas de ambas as nacionalidades.
Foi um fenómeno sociológico, um que atraiu o meu "lado cientista", também pelo facto de que pessoas, de ambos os lados do Atlântico, usualmente avessas a este tipo de digladiação, sabedoras e informadas, foram igualmente atraídas para o mesmo, em conjunto com milhares de indivíduos notoriamente estúpidos.
Metade de mim ardia de exaltação e fúria, parte desse mesmo fenómeno que a outra metade, a racional, observava com curiosidade, analisava e procurava respostas.
A minha metade exaltada queria andar por aí a distribuir chapadas pela actriz, e todos os "groupies" que se excedem em cordialidades para com gajas como esta, a quem lhes basta soltar um "Amo Portugal! Amo "pastel" de bacalhau! Amo vocês!" para ficarem molhadinhos, numa espécie de êxtase parolo.
Aos que chamo "groupies", apetecia-me genuinamente abaná-los até perceberem que há gente com quem não se deve desperdiçar a hospitalidade, mesmo que esta seja dom que sobeje. E se há quem não mereça, são aqueles que não a sabem retribuir, os dos sorrisos falsos, que depois se vão rir à custa dos "Manéis e Marias com bigode" - (really?!) - enquanto palitam os dentes com as penas dos jantares que souberam "a pato".
Uma das minhas interrogações era sobre o porquê desta situação tão estúpida, desta merdinha de caracacá ter o poder suficiente para me tirar do sério. A mim e a toda uma legião de pessoas.
Em boa consciência e vergonhosamente admito que, a mim, (uma pessoa geralmente dada à ponderação e ao pacifismo), bastou-me ler que "os portugueses são isto e aquilo" para ficar pronta para me atirar à jugular.
Percebê-lo aumentou a minha resolução de entrar ainda mais no conflito para o perceber, e me perceber.
Participei activamente num fórum. No clímax da coisa, os manéis e marias são colocados de parte, e usa-se o argumento do invasor, explorador sanguinário, conquistador genocida, esclavagista, assassino de índios, como artilharia.
E eu lembrei-me de uma viagem de comboio em particular, onde sem qualquer mágoa nem apego, ouvi duas africanas em crioulo, e o seu discurso de que há que sacar o mais que se puder ao colonizador, por vingança e dívida.
Ambas as ocasiões me levaram numa viagem introspectiva de onde regressei mais forte e segura de quem sou:
Eu sou a Ana, nascida em 1979. E recuso-me a padecer da "síndrome do colonizador". Eu não sou os pecados dos nossos antepassados. Não colonizei, não matei, não conquistei, nem nunca tentei evangelizar alma alguma. Não devo nada a ninguém. Recuso-me a carregar às costas o peso de qualquer acontecimento no qual não vivi a tempo de participar. Apenas sou responsável por mim. Recuso dobrar-me perante quem não viveu a tempo de sentir na própria pele as ofensas que clamam. O mal é de quem escolhe vestir as dores de quem já não é, e que não são suas.
Viver no passado é recusar o presente. É deixar de ser quem é, para se emprestar a fantasmas imaginados.
Já fantasiei sobre como teria sido provavelmente um Mundo sem quaisquer incursões ultramarinas, e imagino uma Amazónia do tamanho de todo o continente americano albergando umas quantas tribos nativas, alheias à urgência febril do desenvolvimento europeu, um mega pulmão do planeta, um santuário natural como nenhum outro, e não me desagrada.
Também imagino como seriam os Descobrimentos, se ocorridos no presente dia. Gosto de pensar que, a nossa espécie, com mais 500 anos de evolução espiritual em cima, saberia lidar com os nativos de igual para igual, na base do diálogo e troca de conhecimentos, não lhes tomando qualquer pedaço de terra ou riqueza material.
Por enquanto, há-de haver sempre alguém que, por um qualquer motivo, nos há-de apontar o dedo e chamar de colonizadores, exploradores e mais ainda.
Mas como tudo, também isto o tempo curará. Basta meter os olhos nos romanos. Tiveram o mais grandioso império, construído sobre sangue, como são todos os impérios. No entanto, nunca vi ninguém apontar o dedo aos italianos contemporâneos pelo peso da sua História, pelos actos de César, por exemplo.
Tudo o que precisamos é de tempo. O Império Romano Ocidental extinguiu-se há cerca de 1500 anos, e hoje são mais conhecidos pelas maravilhas que deixaram pelo mundo, como as termas, as estradas, os templos.
Nós, Portugueses, deixámos de ser oficialmente colonizadores em 1999, quando Macau passou definitivamente para os chineses.
Portanto, lá para o ano de 3499 estaremos safos dos apontares de dedos. Até lá, tolerância e paciência q.b., mas não em demasia, porque há que nos curar deste "síndrome do colonizador" que nos faz fáceis de abusar por governos e entidades estrangeiras. É que Portugal é do povo, mas não é "o da Joana".
caixa de ressonância
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Gostaria de tomar um café com... #3
...este quarteto:
Mary Murphy
Nigel Lythgoe
Twitch
e Cat
Havia de ser animado!
caixa de ressonância
coisas de aprender: Patins em linha
Pois é! Não resisti e também fui comprar uns patins.
No início, estava inclinada para os quad, mas quando os experimentei achei-os potencialmente mais perigosos que os patins em linha. Basicamente senti que, se tivesse calçado quads em ambos os pés na loja, começaria a deslizar em tão grande velocidade que só pararia quando me esbarrasse contra uma parede.
Para quem, como eu, não percebe nada de nada sobre como andar de patins, recomendo os tutoriais da Asha.
coisas de comer: sabores de Outono
Gosto de sentir a mudança das estações. A vida seria muito mais monótona sem estas.
Aprecio todas as estações do ano, mas o Outono é especial. No Outono tudo se ameniza e, não há nada como a sua paleta de cores.
E tudo isto se vivencia com todos os sentidos, inclusive o palato, porque a sazonalidade encontra na mesa o seu reflexo.
Com o Outono chega também o apetite por assados.
Como um suculento e macio pernil de porco, que deixámos marinar depois de o envolver numa mistura, que entre várias opções possíveis pode ser de alhos esmagados, sal, pimenta, ervas várias como tomilho e alecrim, pimentão doce, azeite e vinho e, que vai ao forno acompanhado de cores de Outono. Uma qualquer mistura a gosto que envolva batatinhas, batata doce, cebola, cebolinhas, abóbora, castanhas, cenouras.
Como opção vegetariana, o seitan funciona muito bem marinado numa mistura de alhos esmagados, sal, pimenta, sumo de laranja e vinho tinto.
E as frutas da estação?
Como as maçãs reinetas assadas com mel, canela e um toque de vinho branco.
As romãs, as minhas favoritas, que sabem tão bem misturadas com iogurte grego.
Ou aindas as uvas e a pêra rocha, perfeitas para acompanhar queijos curados de sabor intenso.
Sabe-me bem o Outono.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
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