quarta-feira, 27 de maio de 2015
cromices #79: Nada se perde, tudo se transforma...
Foi o que aconteceu com os muitos cigarros que ficaram por fumar hoje: transformaram-se numa fatia de bolo. Não resisti a escolher a maior e mais decadente, cheia de camadas de creme.
coisas que me irritam #16: O verdadeiro significado de andar aos papéis ou, se preferirem, a função pública no seu melhor
Por coisas cá minhas e dos meus projectos preciso (muito!) de um determinado papel.
Tomar posse desse papel exige toda uma demanda pelos meandros da burocracia.
Coisa pouca:
Basicamente Pessoa #1 fez-me chegar através de Pessoa #2 uma resma de papéis, com os quais me dirigi ao Organismo Público #1, para conseguir mais um papel. Onde fui informada que, munida de todos os papéis, me deveria dirigir ao Organismo Público #2, pedir mais um papel, que deveria depois levar ao Organismo Público #3, onde finalmente me dariam um papel com poder hierárquico sobre todos os papéis, uma espécie de super-papel, de Graal dos papéis, com o qual poderia voltar ao Organismo Público #2, e quem sabe, aí, conseguir o "tal" primeiro papel que me faz uma tremenda falta.
No Organismo Público #1 as coisas correram tremendamente bem: tomaram-me muito menos tempo, energia e dinheiro do que estava à espera. Para além de sair de lá com o devido papel, quem me atendeu foi amável o suficiente para me informar dos passos que deveria seguir.
O passo seguinte seria ir ao Organismo Público #2 pedir um de dois papéis, o que fosse mais barato porque em ambos está contida exactamente a mesma informação.
Fui confiante.
Tiro a senha. Espero. Chega a minha vez. Exponho a situação. Peço aconselhamento sobre qual dos meus papéis me convém. Parece ser à escolha do freguês, a diferença é que um leva o selo branco, que dá um ar mais oficial à coisa. Pelo sim, pelo não, escolho esse. "Ah, então vai ter que tirar outra senha, que isso já não é comigo". Tiro a senha. Espero. Chega a minha vez. Exponho a situação. Dizem-me que afinal não posso pedir o papel com o tal selo branco, que afinal só posso pedir o outro. Ainda me perguntam qual prefiro, o que quero fazer. Abro muito os olhos. Respondo que a decisão é óbvia. Que, se entre duas hipóteses, uma é eliminada, só restando outra, não há muito por onde decidir. A estagiária olha para mim como quem olha para um palácio. Eu simplifico: "quero o papel A, por favor". Fica confusa, chama a superior, e dizem-me que então já não é com elas, mas com a primeira técnica que me havia atendido anteriormente. Entretanto já passou tanto tempo que está quase quase no horário de encerramento, o que faz que ande tudo em alvoroço. A superior decide atender-me. Diz-me que corra até à maquineta tirar outra senha. Imprime um formulário para eu preencher e sai de cena. Preencho 90% da coisa até me surgirem dúvidas: não domino a linguagem técnica da coisa. Prefiro pedir ajuda a ter que refazer tudo. Olho em redor. Não tenho outra hipótese senão levantar a voz e perguntar de forma bem audível se não há ninguém que me ajude no procedimento. Passados mais alguns minutos de espera, quem acaba por me atender é a primeira técnica. Dá-me um papel que serve para provar que fui ali pedir um papel. Papel esse que me deveria chegar a casa passadas 3 semanas.
Isto foi no dia 7 do mês passado.
Entretanto telefonei o número indicado no tal papel que me foi dado. Número de um Organismo Público #4, pelos vistos responsável pela gestão do meu processo.
Atendem-me. Exponho a minha situação. Informam-me que a "chefe", que é também a gestora do meu processo, não está. Foi almoçar, embora sejam 15h e o horário de atendimento ao público termine às 16h. A rapariga do outro lado da linha é simpática, espelho da minha própria atitude. Informa-me que a forma correcta de comunicar sobre o meu processo é através de e-mail. Mesmo assim, pede-me o número de telefone e as referências processuais. Vai deixar um recado à chefe, para que me ligue.
Ninguém ligou. Nem nesse dia, nem no dia seguinte. Envio um mail. Exponho a minha situação. Recebo uma resposta automática acusando a recepção do mail. Até hoje, mais nada.
Já ando cansada dos inúmeros contactos com a Pessoa #2 em que a conversa não passa da desconversa sobre a estagnação do processo.
Já coro, fruto da vergonha alheia, como se a ineficiência fosse minha.
Rio da situação. Parece uma anedota das más. Rio para não chorar, porque nesta demanda pelos papéis ainda a procissão vai no adro. Não me ocorre que mais possa fazer. Já começo a entender o que leva aquelas pessoas a passarem-se de tal forma da marmita que se barricam nos tais organismos públicos, com armas de fogo, reféns e trinta por uma linha.
Não chego a tanto, mas apetece-me passar por lá para pedir o livro de reclamações. Já o teria feito se não achasse que este pessoal da função pública é capaz de ter mau feitio e retaliar de forma a que nunca mais veja papel algum.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
coisas de opinar: shame on them, shame on us!
Agora que os ânimos acalmaram um pouco em relação aos casos de violência juvenil que têm incendiado os media e a opinião pública nos últimos tempos, acho que é a altura mais correcta para partilhar a minha opinião.
Confesso que não é a primeira vez que me sento aqui a debitar caracteres sobre este tema. Em todas as outras vezes optei por apagar os rascunhos. Se a maturidade me serve de algo é, de me dar por vezes, a lucidez necessária para não tornar público um ponto de vista sobre qualquer matéria que não seja mais que um subproduto de fígados inflamados.
É que a quente também eu solto desabafos como "mata e esfola, faz e acontece". Quando na realidade, descascadas todas essas camadas emotivas, reacionárias, tenho é pena dos miúdos e, consequentemente, de todos nós.
É que, independentemente da época, torna-se mais fácil para qualquer miúdo tomar decisões mais decentes na vida se estiver rodeado de exemplos e influências positivas. É que deixá-los ao deus dará nunca na história do mundo trará bons resultados.
É da natureza de todas as crianças e jovens deixarem-se influenciar por tudo o que existe ao seu redor, seja bom ou mau. São como esponjas, como macaquinhos de imitação. Saber separar o trigo do joio não é uma competência inata, tem de ser ensinada. O que requer tempo, amor, positivismo, paciência, disciplina, know how, consistência e muita dedicação. Ênfase em todos os itens, pois todos são igualmente necessários a uma educação de valor.
Os bons modelos não nascem simplesmente. São fruto de uma labuta árdua, de um investimento constante por parte de todos os envolvidos na sua educação.
Quando aparece uma qualquer notícia em redor do comportamento de um qualquer jovem, o alvo mais óbvio de todas as críticas são os pais. Para além de ser natural, pois são estes os principais educadores, os responsáveis óbvios pela criatura, etc, quase sempre a culpa e as críticas são merecidas.
Mas a culpa não pode morrer solteira, como diz o ditado. Porque, como diz outro ditado, "é necessária toda uma aldeia para criar uma criança". E, se por um momento tirarmos as palas dos olhos saberemos que quota parte da responsabilidade de existirem por aí, em cada vez maior grau e número, membros desta nova geração que nos fazem temer o futuro, e até pensar, por sombrios momentos, que alguns mais valiam não ter nascido sequer, não deve somente pesar nas costas dos progenitores, por mais horrorosos que sejam, mas dividida por todos nós.
Se tivermos que apontar o dedo, (e devemos fazê-lo não simplesmente como exercício de culpa, mas sim com o propósito de diagnóstico como caminho para a cura), devemos passar dos pais para as escolas e todas as pessoas que nestas trabalham.
Porque se é verdade que a educação deve começar em casa, que os principais modelos serão sempre os pais e os familiares que convivem com os jovens, esta deve ser continuamente trabalhada em todos os locais e pessoas que façam parte da sua vida.
E se o horário escolar ocupa tanto tempo, tantas horas diárias quanto um full time, (chega a significar que por vezes os miúdos passam mais tempo na escola do que em ambiente familiar), com que direito é que os professores e o restante pessoal dito da Educação lavam as mãos feito Pôncio Pilatos e simplesmente se descartam de toda e qualquer responsabilidade nesta matéria?!
Pois eu digo que não devem. E por poderem fazer o que não devem é que as escolas, principalmente as públicas, são um reino do caos, onde ao invés de um ambiente seguro onde os pais podem enviar os filhos para aprenderem, abundam violência, drogas, álcool, e até sexo. E não, não estou a exagerar nem um pouco!
É da também da natureza de qualquer jovem testar os adultos, ir puxando a corda como se diz, verificar constantemente os limites, ver até onde o deixam ir. Sublinho que são todos assim, independentemente do ambiente e cultura familiar, estatuto sócio-económico, etc, ou será que já nos esquecemos que também já fomos miúdos?!
Não há pior influência possível para a formação de um jovem que estar inserido num ambiente onde não é controlado, nem chamado à atenção nem disciplinado. Onde tem a liberdade de passar de pequenas a grandes asneiras sem qualquer sanção ou travão. Dito assim parece que enviamos as nossas crianças directamente para serem instruídas por presos em estabelecimentos prisionais, mas estou mesmo a descrever as nossas escolas.
Alguns que me poderão ler, pensarão talvez, "Ah e tal, é verdadeiramente uma pena, mas eu cá tenho o puto no privado."
Digamos que a dimuição drástica da qualidade de um sistema público de ensino que já foi considerado um dos melhores do mundo, (se continuar a ser, digam-me que vou já ali cortar os pulsos!) - a sério, que mania esta a de foder o que temos de melhorzinho, pá! - levou muito boa gente a meter os putos em colégios privados, (nada contra, embora acredite que todas escolas, públicas ou privadas, devam primar pela excelência), o que levou a um boom deste sector porque muita gente, (muitos com mais vocação para o negócio do que propriamente para o ensino e a educação), a achar que estavam perante uma fantástica oportunidade, uma galinha dos ovos de ouro. Em resumo, nem os privados continuam a ser o que eram! Outros tempos, senhores, outros tempos!
Com estas linhas corro o risco de ser tremendamente injusta, (bem o sei!), para com todos aqueles que dão tudo por tudo na sua profissão relacionada com a Educação, com os putos que não descarrilam mesmo sob pressão dos seus pares, para com os pais que realmente se esforçam e até os estranhos que decidem não fechar os olhos, que se envolvem e intercedem. Saibam que vos tenho reconhecimento, mas com meiguices não vamos lá.
Casco na escolas e profissionais da Educação porque sinto que o posso e devo fazer com base na minha experiência pessoal.
Durante o meu percurso escolar passei pelo ensino privado e público. A escola mais exemplar por onde passei foi um colégio de freiras, onde fiz o 5º e o 6º ano, que embora fosse público só tinha vagas para 50 alunos.
Lá não existiam furos - se alguma professora faltasse, obrigatoriamente avisava e outra ocuparia o seu lugar.
Lá existiam horários para tudo: para o lanche, para o recreio, até para as idas ao wc ou atravessar a estrada no fim do dia. Atrasos eram inadmissiveis, faltas eram impensáveis.
Lá a vigilância era constante: havia sempre alguém a vigiar-nos, durante as aulas ou o recreio. Por tal não era um espaço propício à existência de bullying ou de grandes deslizes. Mesmo as pequenas partidas passavam raramente despercebidas, e qualquer traço de mau comportamento era comunicado aos pais nas reuniões. Acho que me lembro de um colega mais afoito a sair da escola, depois de uma reunião, a ritmo de calduços e palmadas por parte dos pais. Ninguém gozou. Os meus pais fariam exactamente a mesma coisa todas as vezes que achassem necessário.
Da mesma forma, as mesmas reuniões eram usadas para elogiar o que merecesse ser elogiado.
Lá a Educação era mais que a transmissão de matérias escolares, ia mais além do que é "obrigatório", do que vem explícito no "programa": desde uma Irmã que ficava de plantão junto dos lavatórios para garantir que todos lavavam correctamente as mãos; que o wc, a sala de aula ou o recreio ficavam arrumados e limpos; que, se necessário fosse ajudaríamos a servir o almoço aos pequeninos da infantil.
Lá existiam regras bem explícitas sobre o que deveríamos fazer e o que era considerado errado, assim como as recompensas e as sanções. Igualmente importante, existia consistência na aplicação das mesmas.
Lá a qualidade do ensino era excelente, tanto que, durante o primeiro ano do Liceu sentimos todos que faríamos aquilo com uma perna às costas.
Pode parecer um ambiente duro, especialmente segundo os parâmetros actuais, mas éramos miúdos totalmente normais e felizes.
A transição para o liceu foi um choque pela diferença. Pessoalmente são memórias com tanto de mau como de bom. Já se notava bem que muitas das pessoas que faziam parte da estrutura escolar se haviam divorciado do papel de educadores, não dando a mínima ao que se passasse fora da esfera de transmissão de matéria, e algumas mesmo nesse campo deixavam a desejar. A escola tornava-se terreno fértil para o bullying, o absentismo, o mau ou, vá lá, pior rendimento escolar, e outros vícios.
Em menor ou maior grau, todos nós alunos, fomos afectados por tal ambiente, tivemos mudanças no nosso comportamento. Porque independentemente do ambiente familiar não há miúdo algum que seja imune ao charme da quase ausência de consequências ao peer pressure.
Parte de mim sempre lamentou que o tal colégio de freiras não desse aulas até ao 12º ano, que não fosse o modelo regente em todas as escolas.
Sim. Tenho pena dos miúdos. Tão permeáveis, tão influenciáveis, e nunca houve época tão fértil em estímulos, com a tv por cabo, a internet, os smartphones, as redes sociais e tanta gente que se demite da responsabilidade de ser uma influência positiva, um mentor, um guia, um disciplinador. Logo hoje em dia, quando tal é mais necessário que nunca.
Porque se a programação da tv é medíocre de tão violenta, gráfica, sexual, ignorante, há que direccionar a energia dos miúdos para bons livros, desporto, artes.
Se vivemos na época das redes sociais, selfies e milhares de sms por semana, há que redobrar a vigilância, garantir que não há cá perfis com fotos ridículas a fazer boquinha, de pose em roupa interior em frente ao espelho, saber quem são os amigos, os contactos. Que o acesso à internet deve ser vigiado. Que não há qualquer desculpa para menores de 16 serem notícia por se embriagarem no Bairro Alto.
Que até lá continuaremos a ler notícias de maus comportamentos juvenis que nos chocam, não só pelo teor, mas também porque nos lembram que, no que toca às gerações futuras, chumbámos.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
terça-feira, 5 de maio de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
vida de cão #21: Por um triz!
Às vezes temos a grande sorte de estar no sítio certo no momento certo.
Ontem, quando me pus a caminho do supermercado, nem me passava pela cabeça que estaria prestes a vivenciar um desses momentos.
Do outro lado da estrada observo um casal de idosos acompanhado de uma jovem beagle sem trela.
Acontece que o cão não era deles, (como vim a saber), e em menos de nada, naquele espírito infantil que habita todos os cachorros, a patuda atravessa a estrada à maluca para vir ter comigo. Ia sendo atropelada.
Sem me dar tempo de reagir convenientemente, volta a atravessar a estrada mais duas ou três vezes, obrigando ao todo quatro carros a travar bruscamente.
Eu de mãos na cabeça, coração na boca, a repetir uma série de - "Ai meu Deus!" - enquanto bendizia mentalmente os excelentes reflexos dos condutores que estiveram tão, mas tão perto de passar por cima da cadela. Daqueles momentos que parecem fazer aparecer mais um dúzia de cabelos brancos numa questão de segundos.
Atravessei a estrada, também meio à maluca, para evitar que ela voltasse a fazer do mesmo.
Aos passantes perguntava se eram os donos, ou conheciam o dono do animal.
Tive a imensa sorte de me cruzar com uma senhora que sabia exactamente a que casa o animal pertencia.
Lá fomos as duas entregar a cadela. Um dos portões tinha ficado aberto, por lapso, e por muito pouco essa falta de atenção teria tido um preço demasiado alto.
domingo, 26 de abril de 2015
cromices #78: Que las hay, las hay
Pois bem, meus amigos, hoje trago-vos mais uma publicação de cariz metereológico / geológico / geográfico, etc e tal.
No passado, já vos havia confessado, aqui e aqui, que de cada vez que sinto um desejo de viajar para qualquer lado, pimbas, acontece uma catástrofe qualquer por lá.
Sinto que entre vós ainda possam existir alguns cépticos. Afinal, algo que acontece por duas vezes, aos olhos da ciência não é mais que uma mera coincidência.
Mas, e uma terceira ocorrência?
Ora bem, na véspera de tão malogrado sismo no Nepal, apanhei no canal Discovery um programa que documentava a viagem de um mágico por terras nepalesas em busca de magia real.
Tudo culminou com o encontro com um monge que acedeu levitar perante os seus olhos e câmaras.
E dei por mim a pensar que o Nepal seria um local mesmo, mas mesmo giro, para visitar.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
coisas de pensar: Os benefícios salariais de uma dona de casa.
Tornar-me dona de casa foi, acima de tudo, uma espécie de viagem espiritual.
Eu explico:
Um dos principais motivos que me levou a enveredar por determinado curso superior foi a perspectiva de um bom salário. A arrogância, a imaturidade e sobretudo a santa ingenuidade dos meus 19 anos fizeram, que ainda caloira, já tivesse uma ideia fixa de como seria a minha vida, quase até ao final dos meus dias.
Iria trabalhar muito, imenso, que nem uma desalmada. Cumprir prazos extraordinariamente curtos. Fazer quantas directas fossem necessárias. Teria café a correr-me nas veias. Seria um burro de carga, um cavalo de batalha. Iria correr mundo em trabalho, do Japão aos Estados Unidos, e a dezenas de outros destinos. Voltaria mais ou menos fluente em não sei quantas línguas, com disciplina de samurai, samba no pé e um chapéu de cowboy.
Construiria uma reputação imaculada, daquelas que fazem com que os melhores empregadores enviem headhunters para nos acossar com mais e melhores propostas.
Seria apaixonada pelo meu trabalho, mesmo que me tivesse que forçar a tal, que tivesse que me contentar com orgasmos laborais fingidos - se serviu a Fernando Pessoa, seria mais que suficiente para mim, era o mantra de ordem.
Ter a noção que talvez não sobrasse nem tempo nem energia para nada mais que não trabalho. Alegrar-me com o facto de se trabalhar em dupla. Com sorte, uma das melhores amigas seria a outra metade do binómio, ou alguém capaz de o ser, e a energia emocional positiva da relação bastar-nos-ia, pelo menos por uns tempos.
Sempre com a esperança que todo o esforço seria compensado, como numa das leis de Newton. Para começar, um leão de Cannes seria capaz de tocar, certeiro, no "ponto g" profissional.
Em troca queria também e, não esperava nada menos que reconhecimento e uma pipa de massa.
Ênfase na pipa de massa. Sempre me horrorizaram os salários de três dígitos. Acho desumano e uma imensa falta de respeito que uma pessoa, uma qualquer pessoa em qualquer área, viva para trabalhar por um salário que somente dá para sobreviver, e quantas vezes à justa. Que o grosso da colheita que todos semearam vá toda para um "fat cat".
Queria prosperar o suficiente para não só ter construído uma vida com um alicerce confortável para mim mesma, como para poder mimar os meus pais. Imaginava-me a oferecer-lhes férias em cruzeiros de luxo, por exemplo. Acima de tudo, a cumprir com distinção a visão que tenho do papel de filha, garantindo-lhes uma velhice com assistência e cuidados de primeira categoria, do melhor que o dinheiro pode comprar. Porque eles merecem. Os nossos merecem sempre o melhor.
Haver acumulado o suficiente para bater nos entas e sair disparada de cena, feita Cinderela. Reinvidicar tempo para a auto-descoberta, para o ócio e toda uma bucket list.
Seguiria o exemplo de muitos dos meus professores, e também eu daria uma meia dúzia de aulas por semana num par de universidades, um ou outro seminário, três ou quatro workshops e colóquios. Pontualmente, uma ou outra participação como consultora - paga pelas empresas, em regime pro bono para as causas do coração.
Aos 19 anos, por arrogância, imaturidade e sobretudo ingenuidade, queremos tudo. O mundo e mais além. O mundo é uma maçã e parece estar ali à mão, pronta para colher. É natural e salutar. Que mal estaria o Mundo e a Humanidade se os jovens não tivessem uma energia desmedida, revelada também nos seus sonhos e vontades. Mesmo que essas visões nos pareçam, a nós adultos, estapafúrdias e nos façam revirar os olhos como se fosse código para "Pois sim! Deve ser deve!".
E eu que dava ênfase à pipa de massa e ao reconhecimento, lidei com a minha dose de "fat cats", auferi descontentes salários de três dígitos, até que me o meu corpo e a minha psique se rebelaram e se recusaram a mais do mesmo. Então, fui de certa forma Cinderela, salva das empresas madrastas, para reinar em castelo próprio. Metade de um binómio.
"Estranha-se, depois entranha-se."
Há uma primeira fase em que se estranha. Que se sente a falta de algumas rotinas laborais, do cheque ao final do mês, como se se tratasse de um membro amputado. Afinal, somos programados desde o início das nossas vidas para acreditar que não há vida que não seja dedicada ao trabalho, que somos o que fazemos, que valemos o que ganhamos.
Talvez por isso sejamos algo misóginos, injustos e usemos até de um tom paternalista quando nos referimos a donas de casa, corriqueiramente conhecidas como domésticas, como as aves de capoeira, que erradamente, por serem das mais humildes das aves, são consideradas estúpidas.
Ser dona de casa é uma carreira como qualquer outra, com rotinas, prazos, tarefas. Também há dias menos bons, "segundas-feiras", como em qualquer escritório. E dias verdadeiramente bons, acompanhados da sensação de cumprimento, de superação, de sucesso.
De todas as milhentas hipóteses de carreira em que me tentei imaginar, aquando miúda, creio que de todas, esta pode bem ser a que possibilita vivenciar-se algo mais próximo ao verdadeiro conceito de liberdade. É uma excelente sensação de poder pessoal decidir o que fazer, como e quando.
Parte do meu salário recebo-o em raios de sol nas esplanadas, horas de sono, uma vida livre de despertadores, trânsito e greves dos transportes públicos, de tempo, que longe de chegar para tudo - por incrível que possa parecer! - dá para muito, inclusive para ser e aprender mais.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
terça-feira, 21 de abril de 2015
terça-feira, 14 de abril de 2015
vida de cão #20: Sou a única "dona de cão" a sentir a falta disto?
Pergunto-vos.
Antes de mais, o que é "isto" que me traz hoje aqui? Em menos de nada, a resposta. Já já a seguir a mais um cafézinho, que sinto o depósito desta minha frágil maquineta a entrar na reserva.
Ah, muito melhor! (Sabiam que hoje é dia do café?)
Ok, vamos então desenrolar este novelo que me vai na cabeça...
Eu retiro dos passeios com o Kiko somente uma fracção do prazer que poderia e é suposto retirar.
Eu sei que em parte se deve à minha incapacidade de descontrair, mas nem tudo se deve a isso e muitas vezes essa incapacidade não é vã de motivos.
Pois imaginem-me com o meu puto pela trela, com uma atenção desmesurada aos pedaços de chão que ele vai pisando, a scannear com os olhos todos os metros quadrados de relva, calçada ou alcatrão. A fazê-lo desviar-se dos dejectos caninos, dos mil e quinhentos bocados e bocadinhos de lixo "humano", a ter que lhe dar outros mil puxões na trela para evitar que ele abocanhe de tudo, desde beatas, pastilhas elásticas, papéis vários, plásticos, parafusos e outras parafernálias, vidrinhos...
(E não é que as ruas que palmilho sejam extraordinariamente sujas. São iguais às de todos os outros locais.)
A escolher o itinerário das passeatas, que tantas vezes é ditado pelo facto de ter que evitar determinada rua por estar alguém a passear um cão sem trela. E estes são sempre tão maiores e mais brutos que o Kiko.
Ou ainda porque em determinada casa, a vedação é demasiado baixa e passar por lá significa ficar com a cabeçorra de um cão agressivo e irrequieto a uma distância que não nos deixa, a nenhum de nós os dois, minimamente confortáveis.
A vociferar em voz alta coisas tremendamente mal educadas de cada vez que tenho que meter os dedos na boca do miúdo para que este não engula algo que passou despercebido, apesar de toda a minha atenção.
Como hoje, consegui apanhar a tempo um pedaço de vidro, castanho, muito provavelmente de uma garrafa de cerveja, que por sorte não era cortante. E lá começo eu a soltar dizeres indignos, nada mas nada simpáticos e completamente contrários ao espírito cristão que fomos ensinados ter para com as demais pessoas com quem partilhamos este planeta.
Agora que vos servi o contexto, já vos posso revelar qual a coisa que me faz uma falta tremenda enquanto "dona de um cão":
- Um espaço bem vedado, limpo, com relva ou ervas que não fossem de forma alguma tóxicas ou nocivas, onde pudesse soltar o Kiko e deixá-lo cheirar, correr, brincar a seu bel prazer, sem qualquer preocupação.
Houvesse um espaço assim, (que eu baptizaria de Paz de Espírito), e estaria disposta até a pagar uma quota, (dentro de valores razoáveis, obviamente), para usufruirmos deste.
Há por aí tanto terreno vazio, sem propósito, abandonado. Não haverá nenhum proprietário que se chegue à frente com algo assim?
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Vida de Cão
segunda-feira, 13 de abril de 2015
caixa de ressonância
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