segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
cromices #94: Tanta coisa, tanta coisa...
Andamos à procura de um substituto para o sofá velhinho do escritório.
Quando encontramos uma alternativa que nos agrada a ambos, o Murphy aplica a sua lei, e não há o produto na loja onde nos encontramos. Óbvio!
Perguntamos a uma das funcionárias se seria possível informar-se sobre a disponibilidade do produto noutras lojas. Gentilmente replica que ser até seria, se a internet não estivesse em baixo.
Não faz mal, pensamos. Telefonamos nós e obtemos a informação.
Hoje ligo-me ao site. Começo por ligar para para a linha de apoio ao cliente. Uma mensagem gravada numa voz simultaneamente mecânica e num português com uma pronúncia muito manhosa dita a típica mensagem "se quer X prima tecla Y". Sigo o procedimento mas desligo a chamada quando me farto de Jingle Bells ao ouvido.
Tento o número da loja que pensávamos visitar como alternativa e em todas as vezes o único sinal é o de linha ocupada.
Quando experimento o chat do Apoio ao cliente do site da marca, outra mensagem automatizada informa-me que existem 3 pessoas à espera de atendimento. Ideia reforçada por uma segunda mensagem que avisa que os operadores estão ocupados de momento. Coisa que não anda nem desanda há um bom bocado.
Suspiro. Creio que com tanta tecnologia disponível não me resta outra alternativa senão enfiarmo-nos no carro, ir até lá, e ver com os próprios olhinhos se há a coisa ou não.
Parte de mim não resiste a enviar aos senhores do Apoio ao Cliente a seguinte mensagem telepática: "Três pessoas para atender e ficam no lodo?! A sério? A sério, a sério? Mesmo a sério?!"
sábado, 5 de dezembro de 2015
Antropoformização involuntária #5
De 5 a 23 de Dezembro podemos encontrar o Reino do Natal em Sintra.
Como muitos outros "pais", também levámos o nosso miúdo ao Parque da Liberdade para ver as decorações, os elfos e toda a actividade temática.
Crianças apontavam excitadíssimas para o cão. O cão em êxtase por ver tanta criança.
Sempre imaginei que, se Kiko soubesse escrever e enviasse uma carta ao Pai Natal, pediria algures entre snacks e petiscos, miúdos, resmas de miúdos, tal é a paixão pela criançada.
Hoje, ao vê-lo rodeado no tal parque cheio de crianças em todos os recantos, com um ar de êxtase e felicidade que só visto, tive a certeza.
Pois bem, Feliz Natal meu puto!
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Coisas de opinar: Outros tempos
Através da partilha de uma amiga, chegou à minha atenção um texto da autoria de João Miguel Tavares do blogue Pais de Quatro, intitulado "Apelo aos professores por parte de um pai desesperado e farto de trabalhos manuais".
Há um parágrafo em especial que me fez recordar a minha infância:
"3. Nunca - mas nunca - enviem trabalhos de casa que eles não consigam fazer sozinhos!
Perdoem-me o sublinhado, mas este é o ponto mais importante. Eles não são auto-suficientes para fazer aquilo? Não mandem! Claro está que não me refiro às dúvidas que surgem ao tentar resolver um exercício de Matemática ou de Português. Isso é naturalíssimo e estou cá para ajudar. Refiro-me àqueles trabalhos manuais de encher o olho, àqueles projectos especiais hiperbólicos que estimulam imenso a competitividade dos pais, porque não será o meu filho a ter um globo terrestre em alto relevo mais pobrezinho do que o do Asdrúbal."
Não estou a ir para nova, é certo. Mas parece-me que esta coisa entre pais, escola e trabalhos de casa mudou muito em relativamente pouco tempo.
Eu também levava trabalhos para casa. Na sua maioria os regulares tpc das disciplinas.
Sentava-me à mesa da cozinha com os manuais, cadernos e estojo, e lá me ocupava de os fazer antes do jantar, normalmente na companhia da minha mãe, que ia passando a ferro e tratando da comida.
Isto na época pré-pc, que depois tornar-se-ia imperioso que tudo fosse impresso e encadernado.
Enquanto tratava das suas tarefas, a minha mãe ia-me perguntando sobre a escola, a matéria, se estava a perceber tudo, se tinha dúvidas. O meu pai demonstrava o mesmo interesse, e quantas vezes me disseram que se aparecesse uma dúvida, que a apontasse para a retirar com o professor na próxima aula.
Que nunca tivesse vergonha de colocar dúvidas nas aulas, ou até de pedir a um professor que se repetisse, pois esse era o papel deles, e se um dia alguém se o recusasse a fazer que deveria contar-lhes.
Assumiam que existiam matérias que lhes era impossível explicar. Mas estavam sempre presentes e interessados. Inquiriam-me e eram muito atentos sobre o bom cumprimento dos meus deveres, desde o bom comportamento, à pontualidade, assiduidade, a levar todos os materiais necessários para a escola e a ter os trabalhos feitos.
Da mesma forma que me questionavam sobre a prestação dos professores, também os questionavam sobre o meu comportamento.
Houve uma única vez que a minha mãe me ajudou a completar um trabalho. Andava no quinto ou sexto ano e andávamos a fazer bordados em Trabalhos Manuais. Eu, fartinha e frustrada com a minha falta de jeito para a coisa, com já ter sido obrigada a recomeçar nem sei quantas vezes, uma tarde enfiei a malfadada capa de almofada na mala. Em casa, implorei em lágrimas à minha mãe que tratasse ela do assunto.
É que na minha altura, os miúdos que apareciam nas aulas com trabalhos demasiado bem feitos, daqueles que se notava claramente que havia ali dedinho dos pais na coisa eram mal vistos, tanto pelos docentes como pelos colegas. Eram batoteiros. Simples como isso. E como tal era uma coisa rara de acontecer, até porque os professores avisavam os pais que se enviavam tpc, estes eram só para os miúdos. Que não queriam uma coisa perfeita, queriam era algo feito pelos alunos.
Os projectos que envolviam grandes coisas de artes manuais e afins eram normalmente realizados na escola, nas aulas da especialidade ou numa qualquer aula fora do comum, como por exemplo a organização de uma feira ou dia dedicado a uma disciplina ou tema.
Se me mandassem fazer recortes, colagens e afins para casa, enfim, as tais coisas "para encher o olho", para além da carga habitual de deveres, os meus pais reviravam os olhos. "Um desperdício de tempo é o que era, e tantas horas passadas na escola serviam para quê?! Qual a utilidade de andar a perder tempo de descanso e convívio com recortes e coisinhas?". Eu concordava na altura e ainda concordo. Acho que este tipo de actividades são mais úteis e prazeirosas como ocupação de tempos livres durante as férias.
A minha mãe sempre esteve presente em todas as reuniões de pais. Essa assiduidade requeria um sacrifício que muitas vezes não tínhamos a certeza se todos os professores saberiam sequer entender, quanto mais valorizar. Portanto quando o director de turma se lembrava de marcar duas reuniões num espaço de tempo demasiado curto, ou mudava o horário em cima da hora, tornava-me a mensageira dos meus pais: "Diz à tua professora que, como sempre, fazemos por ir, mas que não pode ser assim! Lembra-lhe que as pessoas trabalham, têm responsabilidades e horários para cumprir. Que há quem tenha que dar satisfações à entidade patronal. Que se não há novidades, faça o favor de chamar somente os pais dos alunos com que realmente quer falar."
Entretanto, as coisas mudaram tanto.
Eu, que não percebo nada desta coisa de ter filhos, pergunto-me como é que os pais se conseguem coordenar com tanto tpc e projecto que acabam por ser eles a fazer, (e que pelos vistos nem é esperada outra coisa), com tanta feirinha, festinha e teatrinho, e dia disto e daquilo, e rifas da escola, e mil e quinhentas actividades extra-curriculares.
E se com tudo isto ainda conseguem ter um vislumbre de vida própria, de momentos de lazer, de intimidade vivida a dois, de convívio vivido a muitos, Senhoras e Senhores, tiro-vos o chapéu!
coisas de ver #60: Esta é especialmente para nerds...
... como nós.
Durante anos a fio, praticamente todo o nosso tempo livre era dedicado a um hobby: World of Warcraft.
Vivemos a evolução do jogo, desde a edição "vanilla" - que é a expressão utilizada pelos jogadores quando se referem ao jogo pré-expansões, - até ao lançamento da 4ª expansão, "Mists of Pandaria" em finais de 2012.
Para mim, continua a ser dos jogos mais excepcionais de sempre e confesso que por vezes bate uma saudade, tanto do jogo como dos jogadores. Fizemos amigos com jogadores de todos os cantos da Europa, (porque jogávamos no servidor europeu), desde a Escócia, à Inglaterra, à Finlândia, etc. Ainda mantemos o contacto com alguns.
O maior defeito do Wow era ser tão bom e consumir demasiado tempo.
Uma das sensações era que a Blizzard estava à frente do seu tempo e não houve, durante anos, concorrente com capacidade para lhe fazer frente. A atenção aos detalhes, o perfeccionismo, a qualidade notava-se em tudo desde a jogabilidade, aos gráficos, à criatividade. Os filmes, ou cinematics, que serviam de trailer ao jogo e às expansões eram assombrosos e sempre nos deixaram com água na boca para um "filme a sério".
Podem ver aqui quase todos os trailers.
E eis que, finalmente, é anunciado o filme "Warcraft", com estreia prevista para Junho de 2016. Mal posso esperar!
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Vida de cão #38: O cão suiço
Divago a pensar que, se realmente olhássemos com verdadeira atenção para a radiografia de um cão, não encontraríamos algures um relógio. Se não, qual a explicação para o facto de eles serem tão certinhos com os horários?
Passa pouco das 7h da manhã quando o Kiko dá sinal para ir à rua. Quantas vezes ele dá sinal e segundos depois toca o despertador. Se for antes, ele espreguiça-se, boceja, abre um olho e volta a dormir, provando que sabe bem ainda não ser a hora do costume.
O mesmo acontece com os restantes três passeios diários, com a hora das refeições, com a chegada do adorado paizinho a casa e até com a sesta que dorme após o almoço.
Certinho como um relógio suíço!
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
cromices #93: Metro de Lisboa sempre a inovar!
Manhã cedo. Chega a hora definida e o rádio despertador liga-se. Marido e Kiko já saíram para a caminhada matinal e eu fico a ronhar mais um pouco enquanto ouço o noticiário.
Tenho uma vertente sádica, (já vos tinha avisado que sou uma pessoa horrível, não já?!), e confesso que um dos prós de ser dona de casa é ouvir os relatórios sobre o trânsito. Não consigo evitar sorrir, às vezes ainda de olhos fechados, e pensar "Ufa! A mim nunca mais me apanham nessas embrulhadas!"
Mas, as agruras de quem se dirige a Lisboa todas as manhãs não se ficam pelo trânsito. Não nos podemos esquecer das greves que, têm sido de tal forma frequentes, que acredito estarem em campanha activa pela conquista da medalha de ouro no pódio das inconveniências.
Então, pela maquineta de ondas hertzianas sai a expressão "greve preventiva". E uma pessoa abre os olhinhos, num misto de estranheza e risota "Wtf?! Que raio de coisa?"
Segundo as palavras de Joana Petiz, "Não é contra as políticas ou a gestão de António Costa - concorde-se ou discorde-se dos seus planos para Portugal, é primeiro-ministro há menos de duas semanas! - que se param as máquinas e se deixam largas dezenas de milhares de utentes em terra. É contra as ações levadas a cabo pelo anterior governo. O que os trabalhadores do Metropolitano se preparam para fazer é assim uma espécie de greve preventiva, em que se reclama por antecipação e se ameaça fazer pior se as suas exigências não merecerem atenção e ação."
Com esta os grevistas do Metro candidatam-se a vários prémios:
- Criatividade e Inovação pelo novo conceito;
- Defesa dos Preliminares no local de trabalho;
- Galardão "Céu é o limite", por demonstrarem que, por piores que fossem os estereótipos com que os funcionários públicos são habitualmente associados, afinal a coisa pode ser alargada para todo um novo patamar;
- Prémio "Pimp the Institution", pelo extraordinário feito de chularem de tal forma o direito de greve que conseguiram transformar a outrora Mui Honorável Sra D. Greve numa pega velha, sem a credibilidade e seriedade de outros tempos.
Cá para mim são os claros vencedores!
Os vencidos são, como sempre, todos os utentes do Metropolitano. Por falar nisso, meus amigos, já consideraram que há melhores fins para o dinheiro do passe?
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
coisas de pensar: Haverá solução para a pobreza?
Ainda sobre a erradicação da pobreza. Antes de encerrar este tema, apetece-me deambular um pouco mais por esta matéria, apresentando-vos uma reflexão.
Quando imagino o melhor dos mundos possíveis ocorre-me a construção de uma sociedade humana regida por princípios como a igualdade, paz, sustentabilidade, respeito pelo próximo e pelo meio ambiente.
Há muitos entraves na realização desta visão e a pobreza é um deles.
A pobreza material força muitas vezes o sacrifício de valores éticos e morais que gostaríamos de ver como bússola das condutas em todos os momentos.
A alguém que falte o essencial e, como tal, não consiga ter olhos nem consciência para algo que não seja a sua própria condição, é muito difícil esperar, pedir ou exigir, que viva sob regras pacifistas, que se recuse ao crime, que se eleve, que defenda o meio ambiente...
A pobreza material é um tremendo entrave à realização do próprio ser humano, na sua elevação, na conquista do seu melhor. Sem pessoas melhores não haverá um mundo melhor. O mundo e a mudança que queremos ver neste nasce, invariavelmente, dentro de nós. Não é que o Mundo seja somente a nossa espécie, mas a sobrevivência de todas as outras depende intimamente da nossa capacidade de crescer para além da nossa condição sub-humana de destruidores de vistas curtas.
Acredito que a erradicação da pobreza é possível. Sem dúvida difícil, como tudo o que vale a pena, mas possível.
O primeiro passo é transformar o próprio conceito de riqueza. Todos os dias, e cada vez mais, somos bombardeados, através dos media, por campanhas engenhosas de marketing e publicidade e a aclamação de figuras públicas que o são pelo seu exemplo de futilidade, excesso e desperdício.
Como não estarmos cada vez mais próximos da insurreição social, com cada vez mais pessoas insatisfeitas, frustradas e zangadas, se ao longo dos anos temos sido, através de muitos meios e canais, formatados para acreditar piamente que a felicidade e valor de cada um estão intimamente ligados à quantidade de recursos que se possui? E o que se possui há-de ser igual aos exemplos de futilidade que habitam em ecrãs e monitores: as casas, os carros, a tecnologia, a roupa, os hábitos...
Este conceito de riqueza é a nossa sentença de morte, de extinção. Não é sustentável, nem sequer possível que vivamos num planeta com mais de 8 mil milhões de pessoas e que todas queiram uma casa, e um carro, pc's, tablets, telemóveis, roupas, sapatos e acessórios da última moda e toda a parafernália que nos habituámos a possuir.
Há que redefinir o conceito de riqueza como algo mais frugal, que cubra todas as nossas necessidades essenciais, que nos faça sentir seguros, com um nível simpático de conforto, mas acima de tudo sustentável e sem excessos.
O segundo passo tem a ver com Igualdade. Para erradicar a pobreza há que extinguir os casos de grande riqueza. A extinção de uns está dependente da extinção dos outros.
É essencial que deixe de existir o tremendo fosso que hoje os separa, o melhor sendo a não existência de fosso algum.
Após milénios e milénios de existência de sociedades humanas organizadas em pirâmide, tem havido uma incessante recusa em implementar o óbvio: que se a integridade de toda a estrutura depende da sua base, então há que fortificar esta.
Acho mil vezes preferível uma sociedade onde só exista classe média, em que a diferença entre os que auferem menos e mais existe mas não é gritante.
Por fim, enquanto houver sobrepopulação existirá pobreza. Em 2011 quando foi noticiado o marco dos 7 mil milhões de humanos, não vi qualquer motivo para celebrar mas um motivo de preocupação.
Com excesso de população a pobreza será sempre inevitável, e com esta as guerras pelos recursos, as calamidades naturais e ecológicas, o desrespeito pelos Direitos Humanos, o desemprego, a criminalidade, o abuso dos mais frágeis, a estupidificação das massas, a escassez de recursos, o retrocesso da civilização...
Em suma, defendo que é possível a erradicação da pobreza através da redefinição da percepção do conceito de riqueza, da Igualdade, e do controlo de natalidade.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
coisas de opinar: Erradique-se a pobreza...
Ontem passou num canal de televisão um documentário que prometia ajudar a decifrar esta coisa, esta entidade, esta seita de barbudos radicais que anda aí a aterrorizar meio mundo.
Nós, longe de sermos obcecados pelo tema, ficámos curiosos o suficiente para assistir. Uma curiosidade que pouco ou nada tem a ver com voyeurismo, mas com uma necessidade de tentar conhecer e entender algo que difere de nós e do nosso mundo em tudo e mais um par de botas.
A mim, que é intrínseco duvidar, questionar e desafiar o que me dizem e sobretudo o que me mandam quando sinto que o devo fazer, sempre me fez muita confusão o historial bélico do nosso mundo. Basta-me ler uma notícia, ver um filme ou documentário sobre tal, (a II G.G. é um óptimo exemplo), e inevitavelmente dou por mim a pensar como é que é possível existirem pessoas que se deixam cativar, doutrinar por ideologias tão maradas e cometer actos tão errados em seu nome.
Como é que é possível que em todas as guerras, as decisões sejam tomadas por um pequeno grupo de gajos, sentados confortavelmente algures enquanto outros aceitam ser seus paus-mandados, carne para canhão, cegos obedientes e os únicos a sujar as mãos de sangue?!
Não há ninguém que ao receber uma ordem que, aos olhos de uma pessoa de bem é claramente errada e inadmissível, se vire para esses gajos com um: "Isso é que era bom! Queres? Vai tu!".
Será a obediência uma característica genética tão profunda na nossa espécie que nos torna, sem grandes alternativas, fracos e maleáveis perante a vontade de psicopatas?! Que triste!
A qualidade do documentário em si foi de nível "meh". Não passou de uma colectânea de vídeos propagandistas produzidos pela massiva máquina de marketing dos próprios barbudos que são censurados nos meios de comunicação ocidentais, e ainda bem. Apoiar a censura abre um precedente perigoso mas aqui tem toda a razão de ser. Nunca se sabe quantas cabecinhas tontas, fracas e permeáveis existem à escala global, e o seguro morreu de velho.
As cenas que eram montadas para mostrar o apoio e satisfação da população fizeram-me lembrar a história de Pablo Escobar, o icónico traficante colombiano. Escobar podia ser violento, temido e impedioso, mas muita da população de Medellín era-lhe leal pois financiava a construção de alguns estádios de futebol, algumas equipas, e dizia ser uma espécie de Robin Hood que tirava dos ricos para dar aos pobres. Mais do que por bondade, Escobar sabia que esta é uma estratégia inteligente para se alicerçar uma posição de poder, e os barbudos também sabem. E que quanto mais pobre for a população alvo, mais barata é a sua lealdade.
A pobreza é a raiz de muitos males. Erradique-se a pobreza e, de uma ver por todas, o mundo será chão pouco fértil para muitas outras maleitas.
A capacidade que tenho de duvidar, questionar, desafiar e escolher por mim deve-se em muito ao facto de não ser pobre. Tal como aparece na velhinha Pirâmide das Necessidade de Maslow, se tenho energia para dedicar à moralidade e a questões que se encaixam na categoria de topo - realização pessoal - é porque me encontro satisfeita em todas as outras categorias, da fisiológica à estima.
Qualquer um de nós num cenário onde as necessidades fisiológicas e de segurança não fossem preenchidas, faltando-nos casa, comida, acesso a cuidados de saúde, educação, etc, seriamos também presas fáceis de manipular.
Portanto, enquanto houver pobreza haverá, com toda a certeza, novos capítulos para a história bélica do mundo, cheios de terror e tristeza.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
As pessoas de quem gosto #4
Tenho um fraquinho por velhinhas - termo que uso com o maior dos carinhos.
Uma das minhas filosofias de vida é ter dois minutos de atenção e disponibilidade para com os mais velhos. Acredito que devemos respeitar os idosos, e esta é a minha forma de transformar o meu pensamento em acção.
Uns minutos de conversa, acompanhados de um sorriso pode não ser muito, e efectivamente não é, mas faço por ter em mente que desconheço a vida daquela pessoa. Que em alguns dos casos o nosso encontro, ainda que breve, pode muito bem ser a primeira interação que aquela pessoa teve durante o dia, e por isso acho tão importante fazê-lo.
Confesso que o termo obrigação se aplica em alguns dos casos. É óbvio que o faço também por gosto e, não só porque acho correcto. Mas confesso que o gosto decresce e a noção de sentido de dever aumenta com aquelas pessoas que são mais negativas e lamuriosas.
Felizmente nem sempre é assim. Há pessoas com quem é privilégio partilhar o mesmo oxigénio, que dão gosto conviver, que são uma inspiração não importa a idade que tenhamos.
Duas dessas pessoas são a Dona M. e a Dona Z..
Ambas são quase octogenárias, viúvas, independentes e, independentemente dos seus problemas de saúde e outros, são sempre uma lufada de ar fresco onde quer que entrem, tal é a sua boa disposição.
Todos os dias, acompanhada pelo Kiko, passo pela rua da D. M..
Numa destas manhãs, M. sai de casa, no seu conjunto de tweed que lhe assenta de forma escorreita e, com o sorriso costumeiro emoldurado pelo penteado níveo e impecável, atravessa a rua para nos vir cumprimentar.
Conta-me que vai ao médico, mas despacha rapidamente o assunto com um "tem que ser, é a vida!", como se essa coisa das maleitas nem fosse digna o suficiente para servir de tema às conversas.
Prefere sacar de dentro da mala um volume impressionante de fotografias, através das quais me dá a conhecer a família. Em algumas das fotos mais antigas ri dos penteados e das modas do passado.
"Chegou a conhecer o meu marido?" - pergunta-me, com talvez uma ponta de saudosismo, mas sem qualquer névoa de amargura.
Abre um saco e mostra-me um casaquinho que tricotou para mais um recém-nascido. Modelito único, que lhe ensinou a sogra, que nas últimas três décadas serviu de molde para um abismal número de agasalhos saídos das suas mãos.
Fala e mexe-se com desembaraço e vivacidade. Pergunta-me se sei a sua idade, e desafia-me a arriscar um número. Eu aposto um pouco baixo, e erro. É uma cordialidade, um "cavalheirismo" que mesmo sendo mulher, me sinto na obrigação de ter, especialmente com as senhoras mais maturas.
Elogio-lhe a elegância e a jovialidade, e sou totalmente honesta no que digo: M. sai-se com um "tem que ser, filha, tem que ser!", antes de se despedir e descer a rua, sorrindo.
Partilho a mesma rua com a Dona Z.
Quando me vê, aproxima-se para me dar dois beijinhos que eu retribuo com gosto. Fala-me dos passatempos, dos passeios e das férias além-fronteiras, da família, do quotidiano. Gabo-lhe ser tão activa e extrovertida.
Elogia os vizinhos. Denuncia um pouco de solidão quando suspira que estão todos ocupados a trabalhar, "pois tem que ser, não é?!".
Partilha com a D. M. o sorriso aberto, bonito, e o cabelo níveo, sempre bem arranjado.
Cruzamo-nos num dos corredores do supermercado e eu ajudo-a com os cupões promocionais, aqueles que dão descontos nos produtos X ou Y. Seguimos caminhos diferentes.
Voltamo-nos a encontrar na caixa. Deixo passar a pessoa que está atrás de mim para que estejamos juntas, e eu a possa ajudar se for necessário.
Pergunto-lhe se vai a pé para casa, tal como eu: "Vou, vou. Trouxe o meu carrinho e tudo."
Arremato oferecendo-lhe companhia para o caminho - "Com companhia custa menos!", pisco-lhe o olho.
Deixamos passar mais uma pessoa à frente e eu ajudo-a a colocar as compras no tapete rolante.
Aponta para duas caixas de chocolates. Gosta de ter sempre chocolates para oferecer a alguém, nem que seja às crianças do prédio ou a qualquer vizinho nas ocasiões em que a ajudam a levar as compras escadas acima.
Guardo-lhe as compras no carrinho e seguimos, ela com o seu trolley, eu com os meus sacos.
Alguns minutos depois chegamos e eu que não me esqueci da nossa conversa, ofereço-me para subir com o trolley. À porta de casa, insiste e acaba assim por me forçar a entrar.
"Obrigada. Mas só por um par de minutos", digo, lembrando-a que deixei os meus sacos no átrio. Mostra-me a casa e os trabalhos de tricot, conversamos mais um pouco.
Quando nos despedimos e começo a descer o primeiro lance de escadas, chama-me. Quer-me oferecer uma caixa de chocolates.
Não a quero ofender, mas não quero aceitar. Tão simplesmente porque o que fiz, fiz por gosto, porque quis, e em nada perdi. Não foi um favor, nem preciso de compensação por tal.
Digo-lhe que os guarde para as crianças. Z. insiste e eu replico que se me quer dar alguma coisa que me dê mais dois beijinhos. Ri-se e beija-me. E eu despeço-me galgando já as escadas.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Bucket list #7: O Parque do Kiko
Se encontrasse aqui mesmo ao lado de casa, um qualquer terreno de tal forma baratinho, tipo ao preço da chuva, quase dado, (nunca é demais o ênfase no "baratinho"), comprava-o. Investia numa vedação robusta, num portão, procedia à sua limpeza e "desparasitação", (não sei que termo se utiliza em relação a terrenos), de forma a dar cabo das pulgas, carraças e afins.
Chamar-lhe-ia o "Parque do Kiko".
Seria um espaço onde poderíamos ir brincar, correr, sem trela, sem perigo de atropelamentos, nem interacções com outros cães que não sejam desejadas naquele momento, sem lixo.
Teria todo o gosto em que o acesso ao Parque do Kiko fosse aberto a outros cães, num horário abrangente mas definido. Todos seriam bem vindos desde que seguissem as "regras da Ana". Sim, que o parque seria do Kiko, mas as regras, essas são da dona.
Não seriam regras complicadas. Basicamente, consistiriam em deixar o espaço limpo, apanhar os dejectos do animal, não estragar nem retirar nada do que lá se encontrasse. Os que soubessem seguir estas simples normas de conduta, que não vão além do bom senso e práticas básicas de civismo, seriam mais que bem vindos a usufruir connosco do parque.
Quem não fizesse caso das "regras" acabaria por perder, em último caso, o direito de acesso. Afinal, um dos motivos porque a criação do mesmo se encontra na minha "bucket list" é porque estas regras, que para mim são importantes, não são seguidas nos espaços públicos.
Acima de tudo este meu desejo surge porque sinto e acredito que espaços destes fazem muita falta. Locais cuidados e vedados, onde os animais possam andar sem trela, sem qualquer perigo para si e para terceiros. Onde possam, em liberdade, gastar toda aquela energia que vão acumulando, especialmente os que estão confinados a apartamentos e pequenos espaços. Onde os donos, especialmente os tão neuróticos como eu, possam retirar maior prazer dos momentos ao ar livre com os seus patudos, porque naquele espaço estariam protegidos de muitos dos perigos potenciais que nos deixam num estado de sempre alertas e, consequentemente de mau humor, como o trânsito, o lixo, etc.
Infelizmente acredito que sem iniciativa privada muito dificilmente veremos um grande número de parques caninos no nosso país. Isto porque, se nem há fundos para espaços para crianças, quanto mais para animais não é?
Imagino, ao longo do tempo, este espaço a crescer e a ser melhorado, passo a passo, conforme a carteira, (sobretudo a carteira!), a imaginação e a vontade iriam permitindo, com a implementação de coberturas para criar sombra no Verão e proteger da chuva no Inverno e candeeiros solares de jardim para permitir a sua utilização à noite.
Quem sabe até uma piscina para eles.
Imagino muitas coisas, um enorme potencial que se estende para lá da linha do horizonte, como uma possível parceria com uma escola de treino canino e a possibilidade de ali organizar uma ou duas aulas de treino de obediência, e outras modalidades, por semana.
Imagino-me a emprestar o parque ao canil do meu município e às associações, para que, pelo menos uma vez por semana pudessem trazer alguns dos seus animais para aulas de obediência e, para se divertirem, contribuindo para a sua felicidade e aumentando, quem sabe, a possibilidade destes virem a ser adoptados.
No meu íntimo sei que seria um espaço nascido de um desejo um pouco egoísta de querer providenciar o melhor para meu patudo, mas que me encanta sobretudo pela sua capacidade quase infindável e lírica de ser um projecto altruísta, seja pelo desejo de providenciar o mesmo conforto a muitos outros animais, tenham eles dono ou não, de aumentar o nível de consciência para com o bem estar animal, de providenciar momentos de pura alegria entre humanos e animais, de criar uma casa para um grupo de trabalho com ideias solidárias, positivas, de inspirar outros a fazerem o mesmo, mais e melhor até!
Agora, onde raios anda esse terreno baratinho?!
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segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Vida de cão #37: Conjuntivite
O Kiko está com uma conjuntivite num dos olhos.
A conjuntivite canina não é um quebra-cabeças, mas é importante consultar o veterinário porque pode agravar e levar à cegueira.
Há pouco mais de uma semana, esse mesmo olho começou a deitar um maior número de secreções. As chamadas ramelas são normalíssimas, mas é preciso ter sempre atenção em relação à quantidade e aspecto. Então se o animal tentar coçar-se com a pata é mais um sinal.
Passado poucos dias levei o Kiko a uma consulta. Confirmou-se que era conjuntivite. O olho está perfeito, mas nada como passar pomada, (Predniftalmina), de 12 em 12 horas, durante 10 dias.
Pôr pomada nos olhos de um cão não é pêra doce. Há muita coisa que temos que fazer pelo Kiko que pode ser considerada difícil, mas isto é toda uma nova e elevada categoria de dificuldade, o que aumenta o meu espanto e admiração quando a Dra. C. lhe coloca com tanta rapidez e habilidade a primeira dose ainda no consultório.
Aqui o ritual é feito, sempre que possível, a quatro mãos. Primeiro há que limpar o olho e a zona circundante com soro fisiológico e uma gaze esterilizada. Este processo até deve fazer parte da rotina de limpeza do animal, mesmo quando não há qualquer doença: uma gaze para cada olho para evitar qualquer contágio.
Não há como convencê-lo a estar quieto durante o processo: é um misto de força com subornos.
Para colocar a pomada, como amadores que entendemos ser nem nos atrevemos a apontar o tubinho metálico da pomada ao olho do bicho. Preferimos usar uma gaze para o efeito.
Acho que hoje foi a primeira vez que realmente acertámos, com 100% de certezas, com a pomada no globo ocular. Normalmente acertamos em redor, e vale-nos uma pequena massagem para garantir que alguma coisa vai efectivamente lá parar. Isso e fazer figas para que assim seja.
E, claro, não poderia faltar uma recompensa no final do processo.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Vida de cão #36: Sabes que estás no bom caminho quando...
O comportamento do Kiko é diferente em casa e na rua.
Na rua é muito mais eléctrico, excitado. Em casa também há momentos em que é assim, especialmente quando quer brincadeira mas, regra geral, é calmo. A não ser quando recebemos visitas. Aí volta a ser o cão "pilhas Duracell". Fica tão alegre que ladra, salta, anda pela casa a correr, parece um cabrito aos pinotes, de forma a que se torna quase impossível alguém dar-lhe festas simplesmente porque ele não pára.
Sabes que estás no bom caminho quando serves a gamela ao teu cão e podes, com confiança, tocar-lhe, dar-lhe festas enquanto come e dizer a quem te visita que pode fazê-lo. Sem medos.
Para chegar a este ponto é preciso habituar o cão, desde tenra idade, a ser manuseado durante as refeições. Implica enfiar a mão na gamela enquanto este come e remexer a comida, como se fosse a coisa mais normal deste mundo, e o cão ignorar como se realmente assim fosse.
Não houve uma única vez que o Kiko reagisse a estes rituais com uma pontinha de agressividade. Talvez porque já está de tal forma habituado que faz parte da sua normalidade. Acho que também ajuda ele ser "filho único". Não há presença de outros cães que possam, talvez, despertar o instinto e a necessidade de proteger a sua refeição.
Não sou perita na matéria nem nada que se pareça, mas sei que é importante fazer os possíveis por eliminar reacções menos boas em relação à comida, especialmente em casas, (embora não seja o nosso caso), onde existam miúdos. Porque as crianças são imprevisíveis, há idades em que são mais desobedientes e muitas vezes não basta criar uma regra para que estas a sigam. E a última coisa que se quer é que aconteça um acidente.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
coisas que gosto: Anita e o Shire, ou o meu lado anglófilo
Acho que é perfeitamente possível sentir a falta de algo que nunca se viveu.
Sou viciada em séries policiais, (ou de investigação, se preferirem esta denominação), britânicas. Desde Sherlock Holmes, a Poirot, a Miss Marple, e mais recentemente a Midsomer Murders, Vera e Lewis.
Para além de gostar do género, do argumento, dos actores, etc, agrada-me sobremaneira o cenário rural inglês em que muitos destes enredos acontecem.
Partilho com Tolkien o gosto por estes "shires" reais que o inspiraram.
Em miúda, muito antes de me tornar efectivamente uma estudante universitária ou de sequer ter a noção de qual seria a minha área de estudo, a presença destes mesmos cenários em produções televisivas e cinematográficas deram origem a uma fantasia em que me imaginava em Oxford ou Cambridge. Que se havia morada digna para albergar o alimento da mente e a placidez do espírito era ali!
Há um qualquer episódio de Lewis que inicia com um grande plano do horizonte de Oxford: cúpulas, torreões e pináculos a elevarem-se, majestosos, para além das copas das árvores. Muda o plano, e mostram-nos os claustros de uma das faculdades, que abraçam um pátio enorme com um relvado imaculado. Dois planos e um minuto que são, por si, suficientes para me recordar da minha velhinha fantasia.
Como lhes invejo o cenário!
Faço parte do grupo de pessoas a quem o velho dito "os olhos também comem" se aplica de uma forma enfática. Que aquilo que nos entra pela vista tem uma imensa influência na forma como pensamos, como sentimos, na inspiração, na sensibilidade, no comportamento, em tudo...
Acredito piamente que quando a Beleza nos rodeia os nossos modos elevam-se para lhe fazer justiça.
Daí o meu gosto pela Arquitectura, essa Arte Maior, que quando brilhantemente concretizada tem exactamente esse mesmo poder sobre nós.
Há sensibilidades que não encontram alimento em cenários urbanísticos suburbanos, com pouco verde, e nenhuma majestade. Mirra-se entre ruas apertadas, traços de alcatrão e linhas verticais de betão numa estética insípida.
Quando imagino o meu sítio perfeito, a ruralidade inglesa é uma das minhas inspirações: a imponência, história e longevidade de edifícios como a Universidade de Oxford, (que serviu de cenário nos Harry Potter), a sua estrutura em pedra, os claustros, os imensos relvados, os muitos e muitos hectares dedicados a parques e jardins botânicos...
... os pubs centenários com dois nomes como o "The Eagle and Child", lugar de reunião dos Inklings...
... e o conceito idílico, romântico e bucólico das "cottages" inglesas e seus jardins que tanto me agrada.
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