quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Desejo de ano novo #2



Ver, com estes olhinhos, as mais diversas e nobres causas solidárias receberem METADE da atenção, energia e dinheiro que a nossa sociedade dedica ao futebol.

Só metade dos 400 milhões de euros que a NOS gastou na compra dos direitos televisivos do Benfica, somada à metade dos 500 milhões que se pensa que a mesma entidade pagará ao Sporting, daria para realizar verdadeiros milagres.

coisas sobre mim #3: Algumas das minhas excentricidades.



Com o passar dos anos fui adquirindo algumas excentricidades. Chamemos-lhe assim.

Por exemplo, há anos que deixei de conduzir, porque é algo que me deixa os nervos em frangalhos. Honestamente, em nome da segurança rodoviária, há por aí um mar de gente que deveria seguir o meu exemplo.
Na realidade, até não era das piores condutoras que andam por aí. Talvez inexperiente, sim, mas cumpridora e com bom senso. Que até passei nos exames à primeira, e nem sequer foi numa daquelas "escolas de condução" onde há quem pague para tirar a carta num fim de semana.
Mas, houve um momento em que me apercebi que já não tinha estaleca para entrar no modo de condução defensiva que acredito ser necessário para nos proteger dos maus exemplos de muitos condutores com quem partilhamos as estradas, e as más condições de algumas das mesmas.

O que perdi em autonomia e mobilidade, ganhei em paz de espírito. Só por isso valeu a pena.
Se penso voltar a conduzir? Em princípio não. Mas se mudar de ideias, garanto-vos que invisto num curso de condução defensiva e evasiva antes de regressar às nossas estradas.

Outra excentricidade que devo assumir, é que, no contexto de uma qualquer reunião social passei a preferir almoços a jantares. Tornou-se uma preferência tão vincada que já nem lembro da última vez que aceitei o convite para um jantar que não fosse com familiares. Muito provavelmente nem volto a alinhar em nenhum, a não ser que aconteça num dos muitos spots existentes num raio suficientemente próximo da minha casa para me deixar confortável.

Que diferença faz ser almoço ou jantar? Para mim, senhores, desculpem o trocadilho, mas é do dia para a noite!

É que, tendo em conta que o local escolhido para a grande maioria destes jantares de grupo fica invariavelmente em Lisboa, ir exige rebelar-me contra a minha natureza. Seja porque tenho que obrigar o marido a ir, o que para ele é geralmente uma seca, e não tenho feitio para isso, ou para aceitar que ele me vá buscar, coisa que mesmo quando ele oferece eu recuso porque não tenho feitio para isso.
Também não tenho feitio para aceitar que alguém me dê boleia para casa, porque é chato, pesa e é um incómodo, especialmente quando falamos de algumas dezenas de quilómetros. Nada que já não tivéssemos feito por outras pessoas, mas não me deixa à vontade. Coisa que está absolutamente fora de questão depois um jantar bem regado, assim como enfiar-me num transporte público a essas horas ou pagar a astronómica tarifa de táxi. Tenho melhores coisas para fazer ao dinheiro.

Um almoço permite-me autonomia e tranquilidade. Se for daqueles eventos que o marido dispensa ou não possa atender, chegar a Lisboa não me implica mais que uma viagem de comboio que em pouco ultrapassa a meia hora.

Pronto, está confessado o motivo porque nunca alinho em jantares. Organizem antes um almoço e terei todo o gosto em rever colegas, amigos e amigas, familiares distantes...
Podem contar comigo para meter a conversa em dia, distribuir sorrisos e abraços, mas só em almoços!



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

coisas de opinar: Sobre o ciúme



Há tanto que me passaria ao lado não fossem as redes sociais e a blogosfera!

Pelos vistos, o tópico quente do minuto é a cena de ciúmes protagonizada por Ivete Sangalo, que parou de cantar durante um concerto para chamar a atenção do marido que se demorava numa conversa com uma mulher.

Em instantes o tema virou viral, assim como o vídeo da cena. As pessoas dividem-se, como é costume, desta vez entre quem admite ser ciumento e quem não se revê e até fica embaraçado com estas demonstrações.

Pertenço ao clube de pessoas para quem as relações são mais aprazíveis, saudáveis e felizes se não existirem ciúmes.
Para mim o ciúme é sinónimo de insegurança, sentimento exacerbado de posse, narcisismo mas nunca de amor. "É um temperozinho para apimentar a relação", dizem alguns. Eu, que não gosto de nada temperado com vinagrete de nitroglicerina e xanax, lembro que há mil e uma maneiras de chegar ao mesmo destino sem passar pelo ciúme.

Nunca relação amorosa saudável existe confiança e estabilidade. Na ausência destes atributos, a solução nunca estará no ciúme como forma de controlo e vigilância do outro, nem noutra qualquer forma de controlar entenda-se. Isso seria como tentar curar uma gripe com uma pneumonia.

Somos humanos, imperfeitos e frágeis, e todos nós sentimos inseguranças. Mas, a magia das boas relações é que, após passar algum tempo, o suficiente para ambos se conhecerem, transformam-se num porto seguro, num refúgio onde podemos em segurança despir todos os medos e incertezas. Tanto aquelas em relação a nós como ao outro.
Se não houver essa magia, se calhar também não há futuro para a relação.

Sempre olhei para os ciúmes como um deal breaker, um quebra-relações. E com isto refiro-me tanto às pessoas que fazem cenas de ciúme como às que apreciam ser o foco dessa atenção.
Para mim, só há uma única resposta digna de dar a um parceiro ciumento: "Põe-te nas putas! A tua mãezinha que te ature!"

É que fico sempre cismada com as pessoas ciumentas. O que no inicio da relação pode parecer aquela "pimentinha" pode progredir até para violência doméstica e acabar, no pior dos casos, como crime passional.
E mesmo que não chegue a tanto, quem é que, estando no seu juízo perfeito, se imagina feliz numa relação em que, sem dar motivo, tem que gramar com interrogatórios sobre as pessoas com que se conversa, com que se trabalha, sobre a roupa que se veste, os hábitos, tudo e mais alguma coisa! De haver dramas e apontares de dedo por se chegar um pouco mais tarde... É caso para bater na madeira, chiça penico! Vade retro!

Por tudo isso, defendo que ciúme nunca será amor, mas doença. Que mói e por vezes também mata.






coisas sobre mim #2: Sementes de cordialidade



Não sei se me defina como introvertida ou extrovertida. Acho que metade de mim pende para cada lado. Se, por um lado, preciso de uma dose diária de isolamento como de pão para a boca, por outro, a interação com o próximo é-me tão natural quanto respirar.

Levo muito a sério a filosofia de ser cordial com todos os que se cruzam no meu caminho, estranhos ou não. Estranhos que deixam de ser estranhos. E há algo de recompensador em ver um estranho deixar de nos ser assim tão desconhecido, quase como ver uma semente germinar. Também há algo de cómico, quase próprio de um sketch televisivo, como ir de Sintra a casa a pé e fazer esses quilómetros a sorrir e a acenar , qual rainha de Inglaterra, para responder aos cumprimentos dos conhecidos, que passam por mim, carro sim, carro não.

Sentido de humor à parte, são coisas que gosto, que me fazem sorrir. Talvez nem todos entendam o meu ponto de vista, mas tenho a certeza que a cordialidade compensa, de uma forma tangível até, quando determinada pessoa, outrora carrancuda, abre um sorriso e apressa-se a ser o primeiro de nós os dois a desejar bons dias e um bom ano.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

cromices #106: E o prémio para produto inovador vai para...



Chama-se, (preparem-se!): Le trompe l' oeil à faire caca. O anúncio é mais que explícito e completo na apresentação deste "sistema de camuflagem" para aquelas ocasiões em que ficamos tão aflitinhos que não dá para esperar até chegar ao próximo wc disponível.

Aos que ficaram mesmo tristes por já ter passado o Natal, lembrem-se que a troca de presentes ainda é válida até ao dia de reis!




cromices #105: Como desmontar uma noção "politicamente correcta" em 3 segundos...



Ou, como me vieram as lágrimas aos olhos no instante em que vi um rottweiler a correr para o areal, solto.


cromices #104: Desejo de ano novo #1



Pouco passa das 7h da manhã quando o Kiko dá sinal que quer ir à rua.

Viro-me para o lado da janela e abro os olhos. O cenário está tudo menos convidativo. O vento uiva e o dia ainda não nasceu.
Levanto ligeiramente o pescoço, o suficiente para ver para lá da grande muralha de almofadas e espreitar as horas. "Oh Kiko, aguenta só mais uns minutos. Só mais cinco minutinhos, prometo!"
Ele volta a subir para cima da cama e ataca-nos, à vez, com lambidelas numa avidez de ver qualquer um de nós levantar-se. Como bons pais que somos vamos jogando ao jogo do empurra: "Oh Kiko, vai chatear a tua mãe"; "Oh Kiko, vai ter com o pai".

Mais uns guinchinhos lamurientos do menino, e sai um "Ahhhh, porque é que não sabes ir à sanita?! Isso é que era!"


domingo, 3 de janeiro de 2016

Antropoformização involuntária #6



O Kiko tem a sorte de pertencer a um grupo de animais verdadeiramente abençoado. Aqueles que desconhecem a violência, os maus tratos, o abandono, o frio, a fome. Que dormem na cama dos donos ou numa caminha confortável, ao invés da rua, acorrentados a uma casota, ou numa varanda. Que têm companhia, passeiam muito, e todos os dias são acarinhados.

São inúmeras as histórias de animais menos afortunados que enchem as redes sociais. Infelizmente são uma gota de água na realidade tão triste que assola tantos bichinhos.
De cada vez que dou de caras com uma destas histórias o meu coração fica apertado. Desde que o Kiko faz parte da família, ganhei o reflexo de o procurar com o olhar. É um sentimento agridoce: se por um lado conforta-me um pouco sabê-lo bem, ignorante de toda a malícia, dor e desalento que atinge tantos da sua espécie, por outro dói não poder fazer estender esse bem a todos os outros.

Por vezes e, ainda há pouco assim foi, sai-nos um "Não sabes a sorte que tens!". E lembrámo-nos que ambos ouvimos essa mesma frase tanta e tantas vezes da boca dos nossos pais.

sabedoria dos intas em 10 segundos #39


Depois de chegar a casa marido comentou, com uma expressão de desagrado, sobre ter visto um dos nossos vizinhos mais novos a ser respondão e malcriado com a avó, quando esta, pela janela, lançou o aviso que não se joga à bola no meio do estacionamento.

É claro que não tardou a haver resposta na figura do avô, que deu por encerrada a brincadeira e o levou para casa sob o aviso que tinham que conversar.

Eu, que sou daquelas pessoas horríveis que muitas vezes não se conseguem conter e metem o bedelho onde não são chamadas, tive, de certa forma, pena de não ter sido eu a assistir à cena, ao invés do meu marido.

Não sei se o miúdo já tem idade suficiente para compreender, mas gostaria de o ter chamado à minha beira. Dizer-lhe que um dia, daqui a muitos anos, quando ele tiver a minha idade, provavelmente já não terá avós. Que os adultos podem parecer uns grandes chatos, mas um dia irá sentir muita saudade, e vai desejar nunca ter sido torto nem respondão, e ter-lhes dado mais mimos e abraços.

Que qualquer um de nós será mais feliz ao aprender a ser tolerante e amável, especialmente com aqueles que nos querem bem, por mais chatos que possam ser.

sábado, 2 de janeiro de 2016

cromices #103: O porquinho mealheiro



O Kiko com a sua pele cor-de-rosa, as pernas curtas, o peito pronunciado e aquela barriga de lontra, faz mesmo lembrar um leitão.

Uma das suas guloseimas são umas moedinhas de frango.

Não conseguimos deixar de achar piada e gozar com o "nosso porquinho", então de cada vez que lhe vamos dar um desses treats, dizemos que vamos pôr uma moeda no porquinho mealheiro.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

cromices #102: Logo a mim, que nunca me engano e raramente tenho dúvidas.



Talvez eu tenha finalmente cruzado o ponto de não retorno nisto da senilidade e esteja oficialmente xexé.

Ia jurar que no primeiro dia do ano era costume o comércio encerrar. Que as bombas de gasolina e algumas salas de cinema eram a excepção.

Andou o marido a insistir comigo para irmos dar uma volta praticamente desde manhã cedo. Eu, resoluta em ficar por casa, especialmente depois de ter ido levar o Kiko à rua com frio, chuva e uma ventania que fazia voar lixo e folhas à nossa volta e, parecia querer arrancar toldos e tudo o que estivesse à mão de semear, inclusive o meu gorro, tentava desmontar essa vontade. "Mas não sabes que hoje está tudo fechado?! Queres ir onde fazer o quê?! Ainda por cima com este tempo!".
Não sentia vontade de sair para o frio só para constatar que estava tudo fechado.

A meio da tarde havia sido vencida pelo cansaço e lá fomos com o Kiko até à praia. Pelo caminho foi um fartote de riso e gozação pois em todas as ruas haviam restaurantes, cafés, esplanadas em funcionamento.

E o trânsito para a praia?! O estacionamento cheio. A quantidade de pessoas que partilharam a mesma ideia!
Mas foi bom e valeu a pena, mesmo com frio e vento.

A ver se para o ano me lembro que, afinal, agora os costumes são outros. Que há o que fazer e onde ir. Só espero é que para o ano não me troquem as voltas.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Vida de cão #42: As minhas figuras tristes...



Continuo a stressar como tudo quando nos cruzamos com cães soltos. Então quando estes não estão na companhia dos donos é o histerismo total.
Há muito boa gente que me diz que se o cão anda solto por aí então é porque não faz mal. A esses só me apetece esfregar na cara a última notícia sobre o pit bull que matou, em plena via pública, um caniche. Atenção que eu não descrimino os animais por raça, para mim qualquer animal à solta é uma potencial ameaça. É claro que, maior a bocarra maior a dentada. Mesmo que seja um cão normalmente amável, há sempre a hipótese de acontecer algo, afinal nem nós humanos, com toda a nossa racionalidade e modos gostamos de todos os que nos rodeiam, e é um risco que eu não quero correr. Gosto demasiado do meu Kikinho e seria um tremendo choque para mim se não o conseguisse proteger de uma desgraça.

Gosto igualmente de cães e gatos, mas acho que tenho uma felina maneira de ser. Olho para um gato, mesmo que não o conheça, e consigo lê-lo e comunicar. Os cães ainda são para mim uma incógnita. Quando um cão vem na nossa direcção não consigo mesmo descodificar a sua postura, então aplico sempre a mesma resposta: evitar os encontros, optando por outro caminho, ou enxotá-los.

Prefiro sempre a primeira hipótese, porque se tiver que enxotar um animal é certinho como o destino que farei uma figura triste, e uma bastante pública.
É que já me apercebi que os cães não se sentem intimidados por mim, muito provavelmente nem me respeitam. Normalmente sentem-se atraídos pelas minhas figuras, o que é uma maçada.

Ao longo do tempo tenho improvisado algumas "técnicas" que não aconselho a ninguém:

1- O suborno:
Saio sempre com o meu saquinho de treats à cintura. Na primeira vez em que aconteceu passar por uma rua e haver um cão que saltou o portão para vir ter connosco, a minha reacção foi correr rua acima com o Kiko, ainda bebé, ao colo. Simultaneamente ia soltando uns guinchinhos enquanto atirava ração na direcção do outro cão.
Por sorte resultou, mas não aconselho.


2- A Exorcista:
 Quando me sai um vernáculo tipo "Xô! Vade retro! Vai-te embora, cão do demo! Oh criatura, xô!


3- Edição Especial Gandalf:
A regra que arranjámos é que enquanto um leva o Kiko à trela, o outro na aproximação de um cão desconhecido à solta, mete-se à frente e evita a aproximação.
"Não passas!" - é coisinha para me sair pela boca.


4- A Ave de Rapina:
Basicamente a última vez que me tive que meter entre o marido, que levava o Kiko, e um cão, calhou abrir os braços e abaná-los, qual ave prestes a levantar vôo. Porquê? Não faço ideia.
Acho que o outro cão parou porque achou a cena muito estranha. Não foi o único.


5- A Mandona:
Quando tenho a esperança que o outro cão obedeça a comandos tipo "Casa! Vai para casa!"


6- A versão "passada" ou "todo o mundo me deve e ninguém me paga":
"Oh puta de vida! Mas agora tenho que levar com esta merda sempre que saio?! Se o filho da puta do teu dono fosse pró caralho, pá! Raios partam esta gente que só pensa em si! Filhos de uma grande puta, pá! Ai que nervos!"


7- A "ainda mais" Histérica:
Esta foi a mais recente. Quando os "xô", "não", "vai-te embora" não resultaram e o cão se aproximou de nós, eu que sabia que o dono estava na esplanada do final da rua, comecei a gritar a plenos pulmões: "Importam-se de chamar o cão?". Resultou.


8- Salvos por uma unha:
Depois de um cão nos perseguir estávamos no ponto em que eu servia de barreira ao Kiko, a tentar afastar o outro. Este continuava a aproximar-se devagarinho, a rosnar e eu já via a nossa vida a andar para trás. "Vá lá cão, vai-te embora. Não sejas mau. Por favor, não me obrigues a fazer algo que eu não quero! Olha que se nos atacas levas um biqueiro que eu viro-te do avesso!"
Continuava a rosnar e a aproximar-se. O Kiko entrou no registo de "protector da mãezinha" e começa a ladrar, e eu no meio. Quando paniquei por completo, naquela rua deserta de onde via o meu prédio, comecei aos berros a pedir socorro e a chamar pelo meu marido. É óbvio que era impossível ele ouvir-me. Valeu-nos uma das vizinhas de outro prédio, que ao dar pela algazarra, abriu os estores o que serviu para assustar o outro cão.

9- Em fuga:
Um dos muitos motivos porque gosto de ir passear o Kiko para o pé da clínica veterinária é que posso sempre fugir lá para dentro.
Às vezes consigo disfarçar, e depois de cumprimentar toda a gente, pergunto se posso pesar o Kiko.




terça-feira, 29 de dezembro de 2015

coisas de opinar: Sobre isto do "piropo" #1



Em primeiro lugar, o termo correcto é "importunação". A Ursa explica isso e mais no seu Quadripolaridades, num texto que subscrevo totalmente.
"Piropo", como nos lembrou e bem o amigo L., é uma cortesia, um galanteio, um elogio educado cuja forma, teor e natureza não possui a capacidade de causar pruridos e mal-estar.

A semântica não nos deveria atrapalhar quando discutimos conteúdos sérios mas, pelo que tenho assistido de reacções pelas redes sociais e blogosfera, há muito boa gente que tendo esbarrado nesta a alta velocidade  não consegue prosseguir caminho até ao ponto que seria mais frutífero para todos: a de um debate esclarecido, transparente e informado.

Porque se a grande maioria das pessoas estivesse aberta a um debate lúcido sobre o tema, ficariam a saber que aquilo a que eufemisticamente chamamos "piropo" é uma experiência pela qual passam todas as mulheres, muitas mais que uma vez, qual ritual. E que se trata de uma experiência negativa, constrangedora no seu melhor, e no seu pior pode ser sombria, nojenta e assustadora, assentando âncora num recanto da memória por décadas.

Esperem aí. Se calhar esta coisa da semântica tem razão de ser. Talvez continuar a chamar a "importunação" de "piropo" é destinar esta matéria a um fado em que nunca será levada com a devida seriedade. E eu cá tenho ideia que tratar esta questão com leviandade aproxima-nos, como nunca, de partes do mundo em que as mulheres são obrigadas a andar completamente tapadas para não suscitar o desejo alheio, onde se têm o azar de mostrar o tornozelo ainda são violadas e a culpa é delas, onde raparigas são violadas quando andam de autocarro e jornalistas atacadas selvaticamente por grupos de homens quando cobriam a Primavera Árabe, por exemplo.

Felizmente estamos em Portugal, onde respeitamos e damos mais mérito aos homens, do que nessas partes do mundo onde os tratam como macaquinhos incapazes de controlar os seus ímpetos e onde, quem sabe, o controle do esfíncter já é um grande feito.

Felizmente estamos em Portugal e, apesar de em redor deste tema surgir uma certa picardia, algumas graçolas infelizes e afins, é palpável a esperança da empatia e da percepção que, se causa dano, se incomoda e faz sentir mal, então um "piropo" nunca será uma piada. Nem sequer é um piropo, é um crime. O da importunação.