domingo, 31 de janeiro de 2016

Felicidade é... #1



... ser a primeira a acordar, ainda antes do sol nascer. Despertar tranquila e com as energias repostas.

Ficar na cama até o sol raiar, num estado de pura preguiça embalada pelo som da respiração do marido e do Kiko.
Colocar o braço em cima do lombo do nosso porquinho, que se aninha entre nós, e ouvi-lo soltar um suspiro de satisfação.

Um estado de quase-silêncio que perdura. O silêncio é de ouro, e há horas que precisamente por causa da ausência de ruído tudo luz, tudo brilha, tudo se torna precioso.

Nas ruas desertas, os únicos sons são do vento a trespassar a folhagem de uma qualquer árvore e de duas rolas tagarelas, curiosas como todas as rolas com que me cruzo, que vão voando de poste em poste, atentas a nós.

Felicidade é a curta hora em que o mundo parece ser só meu. Sem ruído.


sábado, 30 de janeiro de 2016

Vida de cão #46: Ode ao diálogo




Sou daquelas pessoas a quem "bate forte, mas passa rápido".

Noto que, com o passar dos anos, cada vez me "bate mais forte", ou talvez o que se passa é que prefiro ver-me livre dos maus sentimentos através de uma catarse imediata. Não é bonito de ver, mas é essencial gastar logo toda aquela energia gerada pela irritação.

Ontem quando fui passear o Kiko, tivemos mais uma cena dessas.
Passamos diariamente por uma rua, que é das melhores da localidade para passear o cão, por ser longa, ter um relvado que se estende por todo o seu comprimento, e árvores.
Em frente a uma das casas estão sempre restos de comida, colocados displicentemente em cima da relva, que podem ir de bocados de pão, massa, batatas com sabe-se lá o quê, ossos a latas de atum.

Ontem, no cardápio havia, para além de um resto de batatas com acompanhamento mistério encostadas ao muro da habitação, espinhas de peixe espalhadas pela relva e camufladas por esta.

Nada do que por ali aparece é benéfico para qualquer cão. Tanto que o Kiko embora levado pela gula tente alcançar os restos, sabe que na grande maioria das vezes, essa teimosia só resultará num "Não!" bem audível e se necessário puxões na trela.

Andamos a treinar o comando "dá", que serve tanto para brincar com bolas, como para estas ocasiões em que ele agarra qualquer coisa que não deve. Resulta algumas vezes, nem todas.

 Então, lá estava eu, com um saquinho dos cócós a servir de luva a tirar-lhe as espinhas da boca. Não foi nada fácil, mas consegui. Fiquei foi com um dedo a sangrar, porque ou me espetei com as espinhas ou da pressão dos dentes do Kiko. Nada de especial.

Tentei prosseguir o passeio, embora já furiosa, porque sendo o miúdo certinho que nem um relógio, era importante que ele fizesse um nº2. Que não fez porque andava totalmente desaustinado, parecia querer abocanhar tudo o que aparecia e eu, cada vez mais possessa, achei preferível levá-lo para casa o quanto antes.

Decidi que, após mais de um ano a encontrar restos de comida ali, de ontem não passaria e que iria abordar os donos daquela casa.

Assim fiz. Não sem antes ir tomar um café e fumar um cigarro. Porque até eu, dada a amoks, tenho um nível de inteligência emocional que me permite saber que nunca se deve abordar ninguém quando estamos furiosos.

Como não encontrei nenhuma campainha, coloquei-me ao portão da casa a chamar. Apareceu um senhor com alguma idade e uma senhora mais idosa, que deveria ser sua mãe.
Disse-lhes que precisava de lhes dar uma palavrinha, de lhes pedir um favor. Que lamentava abordá-los na sua casa, mas que depois da aventura de ter que arrancar espinhas da boca do meu cão, coisa que poderia ter acabado numa ida ao veterinário, tinha que lhes pedir que fizessem o favor de não deixar restos de comida na via pública.
O senhor não fazia a mínima ideia do que se passava. Eu voltei a explicar que todos os dias estão restos de comida na outra entrada da casa, a que dava para a rua X. Que em algumas ocasiões até latas de atum abertas, que podem cortar o focinho de um animal mais curioso.
A senhora admitiu que punha lá pão, e tinha lá posto batatas com qualquer coisa, mas nunca latas de atum nem espinhas. Talvez isso fosse da responsabilidade dos vizinhos do lado.

Trocámos pedidos de desculpas pelo incómodo e prometeram-me que não voltaria a acontecer.

E eu terminei a minha tarde com a esperança renovada no poder do diálogo. Que a solução passará sempre, e em primeiro lugar, por abordar com o melhor dos espíritos e das atitudes aqueles que por um qualquer motivo nos incomodam com alguma atitude ou acção.






sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Dúvidas que me atormentam #2



Quando falamos de mobilidade há muito meio de transporte por onde escolher, desde o automóvel, à bicicleta, à moto, etc.

Mas antes de sermos automobilistas, ciclistas ou motards, somos peões e seremos sempre peões independentemente dos outros meios de transporte que utilizemos.

Alguns de nós nunca serão ciclistas, nem motards e talvez nem automobilistas. Mas, sublinho que todos somos e seremos peões. Esse é o denominador comum que nos une a todos. E por tal, entender as necessidades dos peões não deveria ser um exercício muito complicado e abstracto de empatia, bom senso e lógica, visto que é algo que também nos toca a nós, e não só ao vizinho do lado para quem normalmente nos estamos a marimbar. Logo, neste caso, ser daquelas pessoas que só sabem olhar para o seu umbigo não é desculpa.

Aposto que mesmo aqueles que passam a maior do tempo em deslocações sobre rodas já experimentaram o quão difícil é andar a pé. Decerto já encontraram passeios ocupados por veículos estacionados, passeios em mau estado, ou até já tiveram que fazer um qualquer percurso onde ao invés de passeio existia uma valeta ou nem isso, fazendo-vos olhar para os carros que passam como um perigo bem real, que sair dali ileso é coisa próxima de um milagre. Já para nem falar dos muitos automobilistas, motards e ciclistas que passam a toda a brida pelas passadeiras, desrespeitando lei e peões, exemplos da tal falta de empatia e civismo.

Ontem, dei conta da fantástica notícia sobre a construção de uma ciclovia a ligar Ouressa à Portela de Sintra. É realmente uma notícia fantástica, e é um primeiro passo no meu sonho de ver as localidades do meu concelho ligadas entre si através de pedovias e ciclovias. Desejo que este primeiro projecto seja um tremendo sucesso para que veja chegar a mesma inovação à minha localidade.

Sendo a notícia sobre a construção de uma ciclovia, houve quem, (e na minha singela opinião, muito bem), questionasse sobre se a obra incluiria uma pedovia, porque os passeios existentes estão longe de ter as condições mínimas para se caminhar com segurança e saúde.
Na minha opinião era coisa para se fazer já, ciclovia e pedovia lado a lado, que fazê-lo mais tarde apenas levará mais tempo e dinheiro.

Na mesma caixa de comentários um ciclista queixava-se já que os peões serão pouco cívicos e acabarão por utilizar esta ciclovia, da mesma forma que o fazem com outras, que para quem caminha existem os passeios.
Acho que este ciclista enfurecido teria toda a razão se existissem boas condições para quem anda a pé. Aí fazer uso de uma ciclovia seria expressão da falta de civismo pura e dura, ao invés de uma transgressão por falta de alternativas.

A dúvida que me atormenta é, se somos todos peões, porque é que são estes os que ficam sempre para último lugar, esquecidos, seja quando se implementa algo a nível urbanístico seja na atitude das pessoas quando se deslocam sobre rodas?!


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As pessoas de quem gosto #5






coisas de opinar: Sobre o racismo, #1.



Os Óscares deram origem ao mais recente conflito sobre o racismo. Tal deu origem a uma troca de opiniões a nível global, diria eu.
Debater um tema é sempre positivo, na minha opinião. Embora não tenha ainda encontrado uma opinião alheia na qual me reveja totalmente, valorizo-as a todas e respeito-as, sobretudo porque me fazem reflectir sobre os meus próprios pontos de vista. Sempre defendi que num debate a divergência de opiniões não é defeito. Aliás, é a diferença que nos faz crescer, alargar os nossos horizontes.
Também há que aceitar que, para um ponto de vista ser válido e correcto não implica que todos os outros estejam errados. Várias premissas podem ser simultaneamente válidas e verdadeiras, mesmo sendo diferentes.
Por fim, gosto de ter a honestidade de admitir que as minhas certezas são muito poucas, que não há vergonha alguma, pelo contrário, em confessar que não sei, que não detenho todas as respostas, mas que estou disposta em perscrutar o que sinto ser a minha perspectiva, que mesmo quando tenho uma opinião já formada esta não está escrita em pedra, não é imutável.
Sou permeável aos bons argumentos porque quero crescer e evoluir. Aos que gentilmente debatem comigo, só peço reciprocidade quanto a esta mesma conduta.

Decidi escrever e partilhar a minha "viagem" em relação a este tema.

A única certeza que possuo em relação a este tópico é o objectivo: sonho, desejo e anseio viver num mundo onde qualquer forma de discriminação e preconceito seja coisa do passado. Acredito que as pessoas devem unicamente ser julgadas pelas suas acções e carácter, nunca pela raça, etnia, género, nacionalidade, religião, orientação sexual ou qualquer outro traço similar.

Acredito piamente na Meritocracia, na Igualdade, como base do Novo Mundo que desejo ver surgir.

Uma pessoa, cuja opinião valorizo bastante, ainda dentro deste celeuma com origem nos Óscares, partilhou um dia algo sobre o quão importante é para as crianças das minorias verem-se representadas em eventos desta magnitude. Não retiro nenhuma validade, verdade ou valor ou a esta afirmação. Também eu quero que qualquer criança se sinta imbuída de poder, do tal "Yes we can!", que acredite em si e tenha uma vontade e uma garra de perseguir os seus sonhos, sem considerar por um único momento que a cor da sua pele, o seu background socioeconómico, o seu género ou qualquer outra característica a possa limitar, seja de que forma for.

Nesta aldeia global, temos que acreditar que, de certa forma, todas as crianças são nossas, e temos que fazer acontecer o que for necessário para que cresçam capazes e felizes.

Mas quando me dizem que o caminho passa também por transformar a cerimónia cinematográfica numa "cena por quotas" torço o nariz. A Meritocracia não vê cor, é daltónica. Merece ou não merece? Ponto final.
Se existirem jurados que escolhem os nomeados com base no preconceito, é despedi-los. Simples.
Não me venham é com argumentos que lá por serem "homens velhos brancos" as suas escolhas e votos não terão por base uma opinião profissional, mas serão sempre toldadas pelo preconceito.
Afirmações tais tiram-me do sério!
Assumir que determinada pessoa terá determinado comportamento apenas com base na cor da sua pele, género e idade é altamente discriminatório e racista! E é algo que condeno veementemente.
Sim, meus amigos, que o racismo é um conceito que se aplica a todas as cores de pele e raças, ou julgavam que não?!

Mas falarei mais sobre isto dos óscares noutra altura.

Quero voltar à questão das crianças e da importância dos exemplos, e ao produto da minha reflexão.
A nossa verdade é sempre nossa, porque é inevitável a subjectividade, irmos beber às nossas experiências.

Tentei lembrar-me de várias figuras que me inspiraram de alguma forma (não gosto do termo ídolos) ao longo da vida, desde a mais tenra infância aos dias de hoje. Ocorreram-me nomes como Buda, nascido no Nepal. Jesus, judeu nascido na Judeia, hoje Israel. Zeca Afonso, português. Che Guevara, argentino. Natália Correia, portuguesa. Madre Teresa, nascida na Macedónia. Platão, ateniense. Thomas More, nascido em Londres. Rosa Parks, nascida no Alabama. Oprah Winfrey, nascida no Mississippi. Júlio Verne, francês. Nikola Tesla, croata. Marie Curie, polaca. Carolina Beatriz Ângelo, portuguesa. Florbela Espanca, portuguesa. Nietzsche, alemão. Leonardo da Vinci, italiano.

E a lista é tão mais longa, mas as figuras já enumeradas servem para ilustrar que é possível encontrar um sem número de pessoas inspiradoras sem que a nossa escolha se baseie na raça, nacionalidade, género, religião. Para mim, educar ou sequer esperar que uma criança só se consiga rever ou inspirar em pessoas da mesma raça, género ou afins é educar para o preconceito, é alimentar o racismo. É limitador, é triste e um tremendo entrave à construção do mundo igualitário e meritocrático com que sonho.




terça-feira, 26 de janeiro de 2016

coisas de opinar: As despedidas são como as sobremesas.



Um qualquer chef experiente e capaz conhece o poder de uma boa sobremesa. Esta tem o poder de redimir a memória que se leva de uma refeição menos perfeita.

Um qualquer filósofo saberá que as metáforas são universais.

Cavaco Silva não é chef nem filósofo, nem experiente nem aprendiz. Apontavam-lhe ser economista, aquém do seu tempo. A forma como decidiu despedir-se da função de PR, havendo tantos caminhos possíveis e todos mais nobres, capazes de elevar um pouco a memória de uma Presidência que foi "fraquinha", demonstram que afinal é apenas mau. E ser mau é muito pior que ser ultrapassado ou incapaz.


Mais aqui.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Dúvidas que me atormentam #1



A primeira lâmpada Led que entrou cá em casa foi adquirida numa loja do chinês, com o intuito de desenrascar e, também para testar esta mais recente tendência em iluminação.

O destino da tal lâmpada foi o candeeiro de pé alto da sala, que usamos muito para luz ambiente. A nível de luminosidade não era má. O problema era sonoro. É que o raio da lâmpada zumbia. De início pensámos que seria só durante os primeiros minutos, que estivesse a "aquecer" ou algo assim. Mas não.
O raio da lâmpada sibilava, fazia um zunzum constante, um murmurar não gritante mas que ia entrando cabeça adentro e dando cabo dos nervos.

Pensando que seria característica geral desta tecnologia, pensava que por mais respeito que tenha ao meio ambiente e tal nunca seria capaz de ter lâmpadas zumbidoras em toda a casa.

Até que precisámos de trocar esta e mais lâmpadas. Decidimos dar mais uma hipótese às Leds, e ainda bem porque afinal as únicas que zumbem são as made in China.

Este caso fez-me lembrar, entre muitos outros, quando, há imenso tempo atrás, calhou comprar mais umas camisas para o marido, numa loja nacional onde já havíamos comprado boas camisas clássicas de algodão, e estando eu a passá-las a ferro, achei tão estranho estas parecerem tão ranhosas e de pior confecção e corte que fui confirmar a origem: made in China.

Como é que possível que, sendo a China uma das maiores forças produtivas do tempo presente, conseguem que o made in China seja sinónimo de produto mau, rasca, de má qualidade e pouca durabilidade?!




Faltou dizer isto, e é importante.



Gosto de Reciprocidade.
Da mesma forma que defendo que o Voto deveria ser obrigatório, existindo sanções para os não-cumpridores, também defendo que o Estado, quando não garante a todos os cidadãos o exercício deste Direito primordial numa Democracia que se diz Participativa, deveria ressarcir os lesados com o mesmo ênfase. Porque votar tem que ser para todos!

Mais aqui.



Por aqui também se deixa um comentário sobre as Presidenciais.




Não votei em Marcelo, mas nunca tive grandes dúvidas que o Professor seria eleito. A questão, para mim, residia se a vitória seria alcançada à primeira ou à segunda volta.

Acredito que o nosso novo Presidente possui a capacidade para desempenhar bem o seu papel. Torço para que haja também vontade para isso, por todos nós, pois bem precisamos de todas as mãos dispostas a fazerem-nos avançar.

Também não votei Tino, mas vejo na sua candidatura um dos pontos mais positivos destas Presidenciais. É que defendo há muitos anos que a existência de uma Democracia real e frutífera depende da participação de todos na Política. A Política não deve ser exclusiva aos "políticos de carreira", deve incluir todos os cidadãos que sintam vocação para tal, sejam estes professores ou calceteiros. Tino, com o seu jeito algo peculiar, veio demonstrar que isso é possível.
Acho tremendamente positivo que comecemos a expurgar do nosso consciente colectivo, da nossa cultura, a noção que certas portas só se abrem à elite. Os cargos políticos, a participação activa na governação do país não pode nem deve ser exemplo disso, como tem sido.

Afinal, não é suposto a República ser diferente da Monarquia?!

Outro ponto positivo foi a participação de duas candidatas nestas eleições. Num país onde ser mulher ainda é visto como um handicap, também isto é sinal de um futuro mais auspicioso em termos de igualdade de género.

Também não votei em Maria de Belém. Ao contrário do que esta possa julgar, não acredito que o seu insucesso se deva às outras candidaturas. Pessoalmente risquei-a da minha lista imediatamente após aquilo das subvenções vitalícias dos políticos. Eu que defendo a Igualdade, como poderia dar o voto a alguém que demonstra confundir privilégios com direitos, especialmente quando pertence a uma classe de si já tão mais privilegiada que o cidadão comum?!

O terceiro e último ponto positivo foi a expressão de candidatos independentes: 7 em 10.
Eu, que não me revejo em nenhum partido o suficiente para me tornar militante, considero que ideologias partidárias, doutrinas e a imposição de perspectivas, códigos e afins que fazem parte da militância, só servem para poluir e toldar. O Presidente da República tem que transcender todas as limitações que possui enquanto membro de um qualquer partido, por uma questão ética e moral.

Por fim, considero que o grande ponto negativo continua a ser a elevada expressão do abstencionismo, quer este aconteça por falta de interesse ou decisão do eleitor, seja por culpa do Estado não garantir, especialmente no estrangeiro, as condições que permitam o voto.
Como disse o Tino: "metam alguém para atender o telefone!"

Como é algo que se repete em todos os actos eleitorais, defendo que o voto deveria ser obrigatório. Qualquer pessoa tem a liberdade de escolher em quem vota, ou até se vota em branco, ou nulo. E é uma liberdade que deve ser mantida a qualquer custo. Mas, creio que se justifica tornar obrigatória a participação eleitoral pela importância que a repercussão do abstencionismo, falta de interesse e alheamento de metade da população têm na realidade do país, para todos os portugueses.
Para mim, quem não cumprisse o seu dever, e já que é tão fácil saber de quem se trata, pagaria multa. Vendo o seu valor agravar por cada acto eleitoral em que não participasse.




sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

cromices #109: Uma pérola de sabedoria a pensar especialmente nos homens.



Politicamente correcto seria eu dizer que esta é uma dica para todos, independentemente do género. Mas, quem queremos nós enganar?!

Meus queridos,

Se em casa, a refeição vos aparece à frente, prontinha a comer, só há duas coisinhas que vos é admitido verbalizar. A primeira sendo "obrigado", e a segunda "está muito bom".

Mesmo quando não está.

Guardem as críticas gastronómicas para os restaurantes e para o masterchef.

Se querem ver determinado item ausente do cardápio, saibam que há um mundo de diferença entre dizer que "não são grande apreciadores de tal receita" e outras quaisquer afirmações mais coloridas.

Os mais soltos de língua poderão perder a fala quando um dia lhes aparecer um fardo de palha à frente.

De nada.

Sobre as subvenções vitalícias dos políticos



Privilégios não são direitos.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Vida de cão #45: Desculpa Kiko, mas vais continuar a ser filho único.


Todos os animais que vieram parar cá a casa foi por insistência minha.

Primeiro o gato Ulisses. Gato de uma ninhada nascida no mato.
Depois os manos Eros e Zeus, vindos da casa de uma família de acolhimento temporário, porque insisti que faria bem ao Ulisses ter companheiros da mesma espécie.
Quando, na visita à FAT descobrimos que ao invés de um gato à nossa espera, haviam dois, foi o marido que se saiu com "quem cuida de dois, cuida de três". E eu feliz da vida!

Nunca os teríamos trocado por nada deste mundo, nem por milhões de euros, garanto-vos. Mas, como tudo na vida, nem sempre foi pêra doce, e houve até momentos que nos questionámos sobre se realmente a vida não seria mais fácil se tivéssemos ficado por um animal.
Os momentos positivos e as alegrias foram sempre em maior número e intensidade que os pontos negativos, mas dizer que não existiram momentos de frustração e cansaço seria mentir.

Mesmo assim, a sua falta foi tão sentida e deixou um vazio tão grande que, passado algum tempo voltei a insistir para termos mais animais. E foi assim que o Kiko veio cá parar.

Quando andava a melgar o marido a ver se lhe dava a volta, deixei a escolha da espécie em aberto. Precisava tanto de um bichinho que já estava por tudo: hamsters, tartarugas, galinhas, porquinhos, alpacas, cabras... Opá, qualquer coisa!
Menos peixes. Aquários é que não! Não tenho pachorra para cuidar de um aquário, é demasiado minucioso para a minha personalidade.
Ah, e pássaros também não. Não suporto ver pássaros sozinhos, em gaiolas, que me parecem sempre demasiado pequenas e claustrofóbicas.

Voltar a ter gatos foi algo posto de parte pelo marido. Fez-lhe impressão ter gatos num apartamento, que só saíam de casa para ir ao veterinário ou à varanda, sem um jardim, (devidamente vedado, como é obvio), onde brincar e explorar toda a dimensão do seu ser.
(Se bem que não acredito que os felinos estejam fora de questão, porque o marido é o primeiro a parar o carro se lhe parece ver um gatinho de rua. E lá vou eu a correr atrás do sacaninha até este me trocar as voltas e deixá-lo de ver.)
Preferiu um cão, e eu achei fenomenal.

Passado um pouco mais de um ano, continuo a achar fenomenal. O Kiko deixa-me maravilhada e só penso como pude chegar aos 35 anos sem nunca ter tido um cão. Às vezes sonho com enormes ninhadas de Kikos, onde os agarro e beijo-lhes as pancinhas e acordo sorridente.

Desde que o Kiko era bébé que falamos sobre arranjar-lhe uma companheira. Uma menina com quem brincar.
Sim, teria que ser uma fêmea. A minha casa é um lugar de paz onde dispenso cenas stressantes à conta da testosterona e desejo de dominância. E porque o Kiko dá-se tremendamente bem com todas as fêmeas. É um cavalheiro que nunca, mas nunca, mostra a menor agressividade mesmo quando elas são respondonas e lhe dão umas dentaditas.

Sem qualquer dúvida, um dia o Kiko terá a sua companheira. Contudo, quando há pouco tempo o marido mostrou ganas de seguir esse impulso, fui eu a puxar o travão.

Clareei a mente, afastando o filtro cor-de-rosa que faz tudo parecer fofinho e delicioso, e imaginei a nossa rotina com mais um cão.

É claro que adoraria ver aumentada a dose de estrogénio cá por casa, ter mais uma pança para beijar, que quem alimenta um, alimenta dois, e o mesmo se aplica às idas ao veterinário, ao grooming, aos banhos, etc. Que a felicidade do Kiko quando brinca com uma amiga é também nossa.

Mas, depois penso nos passeios. Que não me imagino, medricas e ansiosa como sou, com motivos para tal também por causa dos outros donos e animais da zona, a sentir-me à vontade para passear dois cães em simultâneo. Os quatro passeios diários passariam a oito, o que significaria entre cinco a seis horas por dia. Confesso que não estou disposta a abdicar de tanto tempo e sentir que vivo unicamente em função dos passeios dos patudos.

Ainda ontem uma senhora abordou-me para comentar que nunca viu um cão sair tanto à rua como o Kiko. Expliquei-lhe que vivendo nós num apartamento sentimos essa obrigação, e mesmo assim por vezes gostaríamos de ter disponibilidade para mais. Para além das questões óbvias de higiene, é importante que ele faça exercício, que apanhe ar, que gaste energia e se sinta feliz.

Durante um café expus esta mesma perspectiva ao marido. "Como faríamos com os passeios?" - perguntei-lhe.
Ele concluiu que já não seria possível a divisão de tarefas que temos feito até agora. Por exemplo, temos dividido irmãmente a responsabilidade de o levar a rua de manhã cedo. E, podem crer que bem que sabe a qualquer um de nós, ter uma folga e poder ficar mais um bocadinho na cama. Com mais um cão, teríamos que sair sempre os dois de manhã e à noite, e durante o dia eu teria que dobrar os meus passeios.

Imaginar este cenário serviu, também a ele, para lhe esfriar o entusiasmo.

Agora sou eu que considero essencial o tal jardim!
Tivéssemos nós uma casinha com jardim e até me imagino com mais do que dois cães. Porque é bem diferente ir-lhes abrir a porta de manhã e à noitinha para usarem o espaço exterior da casa para fazer as necessidades do que as obrigações existentes para quem vive em apartamento, ter um espaço onde podem brincar e gastar as pilhas o dia todo se lhes apetecer, e sentir a obrigação de os levar a passear somente uma ou duas vezes por dia.







quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A minha maior regra de vida é...



... nunca, mas nunca duvidar do meu instinto.

Aprendi, a meu próprio custo, que duvidar deste ou ignorá-lo só resulta em asneira.


Hoje, na volta da hora de almoço com o Kiko, passou por nós um indivíduo que me deixou qualquer coisa cá dentro a remoer.

Embora não tivesse um aspecto muito cuidado, não foi isso que agitou as minhas borboletinhas. Aliás, quem sou eu para julgar pela aparência se saio à rua para passear o cão nuns preparos em estilo indigente chic, com uns toques de hipster e lumberjane?!

Também não foi da barba crescida e por aparar.

Mas havia qualquer coisa ali...

Quando regressávamos pelo mesmo caminho, o que passa em frente da casa da D. M., uma das minhas octogenárias favoritas de todos os tempos, vi-o sair do pátio da senhora.

Voltei a olhá-lo nos olhos, que é assim que olho para as pessoas, e voltei a dar-lhe os bons dias. Desta vez respondeu, com uma voz meio sumida.
Prosseguiu caminho e eu fiquei à frente do portão da casa a tentar perceber qual a pecinha ali que não se enquadrava bem. Qual o pormenor que tinha mexido com o meu instinto?

Aí, fez-se luz. Tinha sido o capuz. Da primeira vez que nos cruzámos, em que o olhei nos olhos e o cumprimentei, como faço com toda a gente, ele não me respondeu, colocou o capuz e baixou os olhos.

Vim pôr o Kiko em casa e saí directamente até à casa da D. M.

Quando me abriu a porta, contei-lhe o sucedido, disse que só queria ver se estava tudo bem, que preferia correr o risco de julgar alguém erradamente pela aparência do que ignorar o meu instinto.

Ela agradeceu-me a preocupação e o gesto. Realmente tratava-se de um rapaz da localidade, toxicodependente, com um historial um bocadinho complicado, que volta e meia tem por hábito lá passar para pedir para o vício, embora já tenha sido avisado por familiares da D. M. que não o deveria fazer.