quinta-feira, 31 de março de 2016

coisas que recomendo: Em defesa dos arneses para crianças.



Há muitos anos atrás, era eu uma miúda de 17 /18 anos, e tinha o primeiro part-time no shopping que conciliava com as aulas de Alemão. O mundo naquela época parecia de certa forma um lugar mais seguro, mais cor-de-rosa que hoje. Em parte certamente porque não havia, como hoje, serviços noticiosos 24 horas por dia a bombardearem-nos constantemente com um léxico de horrores. Não é que as coisas não ocorressem, mas como diz o ditado "a ignorância é uma bênção." Ou simplesmente parece ser.
Por exemplo, acho que o termo "pedofilia" nunca me tinha passado pelo pensamento até ao boom mediático do caso Casa Pia, assim como o caso "Rui Pedro" se tornou um triste ícone da matéria sobre o desaparecimento de crianças. Isto, anos depois do evento que vos relato.

Uma calma manhã saio da loja para ir ao wc. Apressada, como de costume, porque convinha não demorar e queria aproveitar para também fumar um cigarro. Naquele layout particular o wc das mulheres estava mais recuado, e tínhamos sempre que passar ao lado do lavabo masculino. Enquanto ia perdida nos meus pensamentos, ocorreu, por um simples acaso, olhar para o lado durante uns segundos no momento em que passava pela porta do wc masculino. A minha vista trespassou a vidraça da vigia que enfeitava a porta e pareceu-me vislumbrar algo muito estranho.
Pareceu-me ver um adulto a cortar o cabelo a um miúdo junto dos lavatórios. A cena pareceu-me tão bizarra, tão fora do comum, que o meu cérebro teve sérias dificuldades em assimilar a coisa.

Pelo sim, pelo não, dirigi-me a um dos seguranças e descrevi-lhe o que me pareceu ter visto. Que por ser tão estranho e ter sido tão rápido, não tinha certezas absolutas mas, que preferia pecar por excesso de zelo. O segurança disse-me ter tomado a melhor opção e que voltasse à minha rotina, que eles tratariam de tudo a partir daquele momento.
Nunca soube o desfecho da história, mas é coisa que nunca mais esqueci. E que voltei a recordar de cada vez que uma criança figurava uma qualquer triste notícia.

Serve este prêambulo para nada mais que ilustrar que o perigo existe, independentemente da nossa consciência sobre tal. Não é para andarmos paranóicos, apenas conscientes do que existe um pouco por todo o lado.

Mas, hoje estou aqui para falar sobre as chamadas "trelas" para crianças. Ou melhor, para partilhar a minha perspectiva, que vem em defesa deste artefacto ainda tão criticado e incompreendido.
Para estruturar melhor o meu argumento, googlei "trelas para crianças". Fui dar a alguns blogues, (aqui e aqui), e fóruns, (como aqui e aqui).
Como em tudo as opiniões dividem-se.

A amostra constituída pelas opiniões nos links citados é um bom exemplo disto mesmo. Há quem defenda os arneses porque em criança usaram um e acharam a experiência tão positiva que agora os procuram para os filhos, ou porque já apanharam cagaços valentes e passaram a olhar para este acessório como um adjuvante para evitar situações futuras, ou ainda porque estão ou estiveram num qualquer país onde o uso deste é comum e isso bastou-lhes para não olharem para o dito com estranheza e preconceito, chegando mesmo a ver o lado prático da coisa.

Se este post tivesse um objectivo seria esse mesmo: adoraria que as pessoas olhassem para estes acessórios como sendo isso mesmo - um acessório - com a mesma naturalidade com que olham para qualquer outro, sejam as fraldas descartáveis, os ovos, tudo o resto. E sem preconceitos possam deliberar se, no seu caso, lhes é ou não útil. Tão simples quanto isso. Também houve um tempo em que se achou que as papas já preparadas e os boiões eram coisas para mães preguiçosas. Ainda há pouco tempo se olhavam para os marsupiais e slings com alguma estranheza.  Felizmente o mundo evolui: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se".

Na amostra supra citada há quem não adira às chamadas "trelas" por isso mesmo, por acharem que no seu caso não lhes serviria de muito. E depois há aquelas opiniões que perdoem-me mas tenho que confessar que me tiram do sério pois demonstram uma ignorância, umas vistas curtas, umas palas nos olhos de todo o tamanho. São as pessoas que optam por "argumentar" afirmando que quem recorre a um acessório destes trata as crianças como cães, (infelizmente, quem dera a muitas crianças por este mundo fora terem a sorte de serem tão bem tratadas como alguns cães!), é preguiçoso, é mau progenitor e não devia ter filhos.
Infelizmente, este tipo de vozes com as suas opiniões carregadas de preconceito, julgamento e ignorância são capazes de influenciar um terceiro grupo de pais, que gostariam de experimentar o produto mas não o fazem por vergonha, porque não querem ser olhados de lado, nem serem alvos de comentários maldosos. O mais triste é que assim, pelos piores motivos, abdicam de fazer algo que aumentaria a segurança dos filhos, a sua tranquilidade e até lhes facilitaria um pouco a vida.

Confesso que os comentários onde se apelidou de preguiçosos e incapazes os pais que usam os arneses me ficaram na memória. A passearem tranquilos com a criança pela trela, como se atrevem, não é?! Como se tranquilidade e parentalidade não combinassem, como se fosse um pecado unir esses dois conceitos. Se não vos causa dor e sofrimento então é porque não estão a fazê-lo bem. Será isso?
Honestamente apetecia-me dizer-lhes "Ai é assim? Então toca a passar para cá tudo o que foi inventado para facilitar a vida aos pais! Fraldas descartáveis, toalhitas, biberões, carrinhos de bébé, tudo!"
Aliás, ao que estas pessoas chamam preguiça eu chamo inteligência. Sem esta não teríamos inúmeros confortos na nossa vida quotidiana, aos quais já nem damos o devido valor, como água potável a sair da torneira, luz ao clicar num interruptor, frigoríficos para preservar os alimentos entre tantos e tantos outros.


Porque defendo os arneses?

1º - Pela saúde das crianças:
Já ouviram falar em luxação do cotovelo ou cotovelo de ama?

2º - Pela saúde dos adultos:
Claro que é agradável andar de mão dada com as crianças, ou ampará-las enquanto dão os seus primeiros passos. No entanto acho que ninguém achará confortável fazê-lo durante longos períodos, porque nos obriga a andar tortos e curvados, com implicações óbvias para a coluna. Acho que este acessório aumenta o conforto físico de pais e avós.

3º - Explorar com segurança:
Há quem ache que as crianças fiquem demasiado restringidas quando estão com o peitoral. Eu defendo precisamente o contrário. Acho que tê-las pela mão ou no carrinho lhes diminui muito mais a liberdade. Com o peitoral, podem andar por si, explorar, ter uma certa sensação de autonomia, mas sem perigos porque estão sempre ligados ao adulto.

4º - Mais tranquilidade, menos zangas, mais diálogo:
Utilizar o arnês não implica que não se ensine à criança todas as regras de segurança, inclusive aquelas sobre como se deve circular em todos os tipos de espaços, desde como deve ter cuidado com os carros, etc.
O que acontece, na minha opinião, é que estando sempre a criança em segurança quando está a usar este acessório, os pais não andam naquele estado de frustração porque o sacana do miúdo lhes pregou 20 sustos na última hora, nem têm que andar aos berros porque este teima em afastar-se, nem recorrer à palmada.
São totalmente livres de discordar, mas eu cá acho fantástico não se ter que andar a berrar advertências de 2 em 2 minutos, nem andar sempre em stress ou a correr atrás deles, e com isso poder aproveitar as saídas para explicar tudo o que se queira que eles aprendam com calma e tranquilidade.

5º - Ninguém é infalível:
Porque as crianças são como são, até os pais ou os avós mais atentos apanharão, pelo menos uma vez na vida, um daqueles sustos. Não por falta de zelo, mas porque realmente bastam dois segundos. Sabem aqueles dois segundos que demora a abrir a carteira para sacar do cartão para pagar as compras no supermercado? Os mesmos dois segundos em que olhamos para os produtos expostos nos lineares, ou que gastamos num breve cumprimento a quem se cruza connosco, ou que sacamos do telemóvel para ver quem nos está a ligar...
Nós não somos máquinas.

6º - Porque, para além de seguro, é prático:
Não defendo que o arnês seja usado em todos os momentos. Há ocasiões específicas em que este é desnecessário. Que não se deve abusar pois é um acessório de segurança, um elo de ligação, e não um castigo.
Há ocasiões em que o acho indispensável como idas a shoppings, aeroportos, visitas a sítios a transbordar de gente (imaginem a Eurodisney, por exemplo), saídas em que só está presente um dos adultos, momentos em que terão que desviar as atenções para outra coisa que não a criança, etc.

Todos os dias vejo inúmeras mães a saírem com as suas crianças pela mão. Há muito para fazer e tratar. São poucas as pausas. Se se sentam para tomar um café, é certinho que se levantarão dezenas de vezes para agarrar os petizes irrequietos. Voltam a casa de mãos carregadas. Não há braços para tudo. Tentam controlar a marcha dos miúdos com advertências. Não é assim tão raro o dia em que a criança chegue a casa já num pranto. Houve algures no caminho uma pausa para uma palmada. Muito provavelmente porque o petiz decidiu correr na direcção da estrada. Olho para as inúmeras mães e parecem exaustas ainda nem é hora de almoço. Chegam curvadas e tortas. Tiveram que arranjar maneira de libertar uma mão para virem de mão dada, por segurança, e por isso carregam um incontável número de sacos numa só mão. E eu penso: "Mas se podia ser tão mais fácil e seguro..."

7º - Porque não são trelas, nem se parecem com estas:
Existem vários modelos. Desde os arneses, às mochilas com peluches de onde sai a tal correia que os liga aos adultos, até a duas pulseiras ligadas entre si, até modelos que servem para apoiar nos primeiros passos e mais... Basta googlar e encontrarão imensos exemplos. Escolhi apenas alguns para ilustrar.













segunda-feira, 28 de março de 2016

100 motivos para não ter filhos #4: A mãe que eu seria, segundo o meu marido.



Após mais uma caminhada em família, em que eu tenho 50 micro avc's de cada vez que o marido solta o Kiko, podemos gozar, finalmente de uma pausa para café.

Momento que ele aproveita para o centésimo discurso sobre eu ter que aprender a descontrair, que há vários locais até bastante seguros onde posso soltar o cão e etc. O blá blá blá do costume, a que eu respondo, de forma costumeira, com um redondo e exclamativo não. Acrescento uns quantos "jamais!", "nem pensar nisso!", "comigo, é sempre com trela!", para ver se a mensagem segue suficientemente explícita e directa.

Suspira uns quantos "ah, coitadinho" e derivados, aos quais eu retribuo com "não sei qual é problema. É pela segurança dele. Aliás, se tivéssemos crianças, também andariam com trela".

(Sim, que eu sou apologista das trelas para crianças.)

"Eu sei." - diz ele. "Até aos 25."
Rimo-nos.

"És uma mãe galinha. Super protectora. Fazes-me lembrar a mãe dos Goldbergs. Tal e qual!"

"Opá! Faltam-me os chumaços e os jeans de cintura subida!"

(O pior, admito, é que ele é capaz de ter razão. Tenho "algumas" parecenças com a Beverly. Para quem não conhece esta série cómica, foi totalmente baseada na infância do autor. As personagens não são exactamente fictícias, mas retratos da sua família. Logo, a Mrs Goldberg é bem real.)














sábado, 26 de março de 2016

cromices #123: My poker face



Podemos gostar de quase todas as pessoas. Mas nunca de todas. Podem ser poucas as excepções, mas para todos, haverá sempre alguém a quem se torce o nariz.

Se dizem que o mundo é pequeno, então Portugal é um grão de areia. Mais dia menos dia estarão fadados a cruzarem-se com tal indivíduo.
Uma pessoa despacha a coisa com um olá e um daqueles clichés ridículos que não querem dizer realmente nada, mas é o que sai. Tudo muito bem se tiverem jeito para bluff e uma boa "poker face".
A restante humanidade, os desgraçados sem a tal "poker face", da qual pelos vistos faço parte, nota depois que enquanto tudo ocorreu a cara tinha congelado numa infeliz expressão, similar à que se faz quando se cheira um peido.

Antropoformização involuntária #8


Um dos inúmeros pontos em comum entre ter um bébé e um animal é, que a partir desse momento, muitas das conversas que terão com a vossa cara metade serão de teor escatológico.

Passareis a falar de cocó. Pior, passareis a ser entendidos na matéria. Falarão não só da frequência da coisa, como do aspecto e dimensão. Conhecerão os hábitos da criatura, e arranjarão nomes de código para os vários estados. O que vale é que o nojo é um estado passageiro. O ser humano adapta-se a tudo.

"Então, foi boa a voltinha?"
" Foi."
"E o menino fez cocó?"
"Dois. Primeiro saiu a rolha. Depois mais à frente fez um mais molinho. Está tratado por agora."


quinta-feira, 24 de março de 2016

cromices #122: Pelo sim, pelo não.


Uma das grandes vantagens de ter um animal, estando em casa, é que passei a ter alguém com quem conversar a qualquer hora. A vantagem de se conversar com um animal não humano é que nunca seremos brindados com uma qualquer tirada que nos ponha os cabelos em pé, ou nos faça revirar os olhos. Uma cauda a abanar, um olhar atento, um menear de orelhas, valem muito mais.

Converso com o Kiko sobre tudo.

No outro dia dialogávamos sobre evolução das espécies e reencarnação.

A coisa saltitava entre dizer-lhe o quanto os polegares são o máximo, enquanto lhe mexia nas patas. "A sério, no futuro, vocês vão adorar ter polegares. Garanto-te que nunca mais quererás agarrar nada com a boca."

Que nesse futuro longínquo serão certamente os cães e os gatos as próximas espécies a substituírem os humanos no domínio do planeta. E que farão melhor trabalho que nós. Bastará manterem o coração puro como hoje, deixarem de olhar para o cócó como um grupo alimentar, aprender a usar o wc e arranjar um cumprimento um pouco mais educado que cheirar rabos.

Eu que procuro sempre fugir da melancolia, não consegui evitar um pensamento sobre o quanto a vida dos cães é curta. Lembrei-me da história de Chico Xavier e da sua cadela Boneca e pensei que não será má ideia ensinar-lhe uma qualquer palavra, qualquer coisa, que nos permita reconhecermo-nos no futuro, noutro espaço, tempo e lugar. Noutra vida. Noutro plano, até. Pelo sim, pelo não...

coisas do mau feitio: A porteira não está.



Trabalhar em casa tem os seus prós e contras como qualquer outra ocupação.

Um dos maiores contras é que, a partir do momento que as pessoas notam que estamos sempre por casa, confundem esse facto com total disponibilidade e ocorre-lhes tomar certas liberdades. Pelo menos até ao momento em que lhes metemos o travão, de uma forma bastante indelicada. Há ocasiões em que muita gente só percebe "indelicadês".

Para ilustrar o facto ocorrem-me duas situações. Ambas passadas anos atrás.

Quando estava responsável pela administração de condomínio uma vizinha ganhou o hábito de me vir bater à porta bem cedo pela manhã. E insistia na campainha até eu não ter outra opção senão ir à porta, estremunhada e em pijama.
Basicamente para relatar que a senhora que trata da limpeza das áreas comuns tinha faltado em determinado dia, ou que não passava o pano aqui e ali, ou que demorava menos tempo que o suposto. Ou seja, nada que não pudesse esperar por uma hora mais condigna, ou como mais tarde lhe referi, (a esta senhora e a outra), são temas que deveriam expor nas reuniões. Caso porventura se dignassem a comparecer nas mesmas.

Como a paciência não é eterna, passados alguns dias deste ritual passei-me. Abri a porta com má cara, e perguntei-lhe secamente qual era o assunto. Quando começou a enunciar outra vez a questão da mulher a dias passei-me. Soltei um "Foda-se! E vem acordar-me por esta merda? Brincamos ou quê?!"

Remédio santo.

Para evitar episódios futuros abordei a questão na reunião seguinte, lembrando a todos que ali é a minha casa, não é um escritório. E mesmo que fosse, teriam que respeitar horários. Que estava disponível, como sempre, mas que usassem de bom senso.

A segunda situação tem a ver com a campainha.
Todos os dias era uma roda viva: desde o rapaz que vem colocar publicidade nas caixas de correio, ao carteiro, às senhoras dos panfletos religiosos, aos vendedores porta a porta, aos funcionários que vêm fazer a leitura dos contadores... Uma romaria. E todos tocavam à minha campainha.
Começou a juntar-se à festa os miúdos que não têm paciência e tocam numa resma de campainhas, e outras pessoas.

A minha paciência atingiu o limite quando ia à janela ver quem era, (ainda por cima o intercomunicador estava avariado), e eram pessoas que querendo falar com outro qualquer vizinho, se este tardava a responder ou não dava sinal, tocavam para outras pessoas. Leia-se, para mim.

Certo dia, de mau humor por me terem estragado a sesta e pela repetição da cena, assomo à janela e recuso-me a abrir-lhes a porta. Digo-lhes que se é com o sr. X que querem tratar, é só na campainha da sua casa que devem tocar. Que não gosto de ser incomodada, que me acordaram, e que o prédio não tem porteira. E mesmo que tivesse não é aqui que mora.


cromices #121: A paciente perversa



Desde há dias que ando constipada. Não me impede de fazer a maior parte das coisas, mas é tudo em câmara lenta e com muitos queixumes à mistura. Sou uma florzinha de estufa e uma péssima paciente.

Mesmo toda entupida estou aqui com um sorriso de orelha a orelha. Tudo porque se há coisa que me dá especial prazer quando estou doente é moer a paciência ao meu gajo. Adoro!
Sou daquelas doentes que gosta de receber atenção. Quero ser adorada feita menino nas palhinhas deitado. Deixa-me de especial bom humor andar feita assombração atrás do desgraçado ora a mandar vir, ora a pedir miminhos e torradinhas.

Não se preocupem. Ele depois vinga-se.

segunda-feira, 21 de março de 2016

coisas da casa: O corredor



Não sei se convosco se passa o mesmo, mas há uma arquitecta/ designer de interiores que habita em mim. O raio da entidade é tão opinativa que tem sempre uma palavra a dizer sobre todos os espaços que visito, conheço ou vislumbro. Seja habitação, espaço comercial ou qualquer outro, lá está ela a sussurrar-me ao ouvido sobre que paredes deitava abaixo, o que acrescentaria, o que modificaria aqui e ali.

Claro está, a nossa casa não é excepção.

Fosse fazer-lhe a vontade por aqui e em nome do design e da imaginação, a intervenção seria de tal forma geral, que de antigo só ficaria a carcaça.

Honestamente adoraria fazer-lhe a vontade, nem que fosse para ter aquela sensação de realização, de ver as ideias ganharem vida, passarem do abstracto para a realidade. Até porque algumas das ideias, perdoem-me a falta de humildade, são realmente boas.
O que me trava é que obras em casa, para além de significarem um enorme dispêndio de dinheiro e tempo, são sinónimo de grandes chatices e dores de cabeça. Elevadas ao cubo numa casa que se encontra habitada. Credo! Cruzes canhoto! Só de pensar é coisinha para fazer esmorecer a vontade.

Um dos espaços que mais gosto nesta casa é a zona de hall de entrada e corredor. Os primeiros proprietários, que apanharam a casa ainda na fase de construção, tiveram várias divergências com o construtor ao nível da estética e exigiram várias modificações, pelas quais estamos gratos. Não fossem as suas exigências e teríamos armários castanhos na cozinha ao invés de brancos, e o corredor seria revestido a azulejo ao invés de lambri de madeira, que é uma opção que, tendo em vista o padrão de azulejos escolhido, nos agrada muito mais.

Agora as tendências são outras, mas durante muito tempo não havia casa construída em Portugal que não levasse com os proverbiais azulejos nas áreas de circulação.
Nada tenho contra a azulejaria portuguesa, pelo contrário, apenas acho que muitos construtores conseguiram ser pródigos em escolhas infelizes, (com tanto padrão bonito, como é possível escolher tamanhos mamarrachos!).
É importante haver consonância entre a identidade, a alma da casa e as escolha destes pormenores.

Adiante.

O grande ponto forte do meu corredor é ter uma largura bastante simpática. Assim sendo, permite-nos não só ter uma zona de bengaleiro, mas também algum espaço para arrumação sem que a circulação fique comprometida.

Mesmo assim, acho que o espaço está mal aproveitado, que tem potencial para muito mais. E acho importante, especialmente em casas que não primem pelas grandes dimensões, dar o devido valor a cada centímetro. Preferencialmente de uma forma que não sacrifique a estética.

Nas zonas de passagem os revestimentos são importantes para proteger as paredes de danos e sujidade. É muito mais fácil a limpeza e manutenção de um qualquer revestimento, seja madeira, azulejo ou outro, do que uma parede simplesmente estucada ou pintada.

Imagino as paredes neste espaço, à excepção de uma, totalmente revestidas a ardósia. Gosto de materiais naturais, e os espaços onde predominam a pedra sempre me transmitiram uma agradável sensação de conforto e bem estar, para além de os achar visualmente apelativos.

Manteria o tecto falso em madeira porque sou fã destes tectos pela sua facilidade de manutenção, aspecto e porque permitem personalizar a iluminação, colocando-se tantos focos de luz quantos os desejados e onde se desejam.

Mesmo assim, o grande pormenor da mudança residiria em ocupar toda uma parede com um móvel feito à medida.
Há anos, vi num qualquer artigo de decoração sobre a casa de um arquitecto, uma estante que passou, para mim, a ser "a" estante. Estava construída de forma tão perfeita que, para os menos atentos, parecia somente uma parede revestida a madeira, completamente lisa, sem quaisquer rococós. A ausência de adereços salientava a beleza natural da madeira. Se a memória não me engana, (já que não consigo reencontrar o dito artigo nem por nada), um extra de criatividade e interesse visual residiam no facto da estante estar dividida em cubículos iguais, (não se notando tratarem-se de portas), onde se iam alternando a direcção dos veios da madeira, ora na horizontal ora na vertical.

Adoraria ver uma parede específica do corredor ocupada com uma estante do género, com compartimentos adequados às nossas necessidades. Porque uma estante é tudo o que quisermos e necessitarmos.
Imagino-a com um nicho onde possamos colocar largar as chaves, os telemóveis e o correio. Com arrumação para sapatos, malas, casacos. Com compartimentos especiais onde arrumar a bicicleta, as pranchas, os patins. Com espaço extra para livros e tantas outras coisas. Tudo organizado, escondido, detrás de uma peça de inequívoca beleza.

E para quem não aprecie o look natural da madeira porque não colar-lhe a impressão de um dos quadros favoritos? Já imaginaram ter em casa um Miró, um Kandinsky, um Almada Negreiros ou Vhils do tamanho de uma parede?








sexta-feira, 18 de março de 2016

cromices #120: A integibilidade é um pormenor de somenos importância



Desde há uns tempos para cá, adicionei mais uma rua ao nosso roteiro de passeatas.

Chamo-lhe "a rua da Dee-Dee" porque é nome da cadela com quem o Kiko mantém uma relação muito respeitosa de namoro à moda antiga, ao portão.

A Dee-Dee sente-nos o cheiro, ladra, e lá vamos nós rua acima, quase a correr, para sermos recebidos por uma cauda a abanar.

Até lá, cumprimentamos habitantes das outras casas, humanos, caninos e felinos, que já nos conhecem e sabem que vamos a caminho de mais um sessão de "namoro".

Num dos pátios, ocupada com as verduras do quintal, costuma estar uma senhora já de idade bem avançada. E eu, que não tenho feitio para me fingir cega e avançar muda depois de ver e ser vista, lanço-lhe um sorriso e um cumprimento. A senhora retribui no mesmo peso e medida. Acontece que não percebo uma única palavra do que a senhora diz. Aceno, meneio a cabeça em tom de concordância, lanço umas interjeições e despeço-me cordialmente.

Ontem a cena repetiu-se. No meio de um discurso sibilado que não consigo descortinar fui capaz de apanhar algo que me soou a "Kikinho". Aí fez-se luz. É que eu falo com o Kiko em voz alta, e estando o pátio da senhora num nível mais baixo que a rua, presumi que se sentisse curiosa sobre quem raios seria o tal de "Kikinho" que ali passa todos os dias. Agarrei no cão ao colo para que ela o visse.
Soltou uns "oooohhh" por entre o desenho de um sorriso. Sorrio de volta, "Até mais logo, minha senhora!"


Antropoformização involuntária #7



Antes de sair de casa, sintonizar a tv no Panda, só para o "miúdo" ter algo com que se entreter.


quarta-feira, 16 de março de 2016

Adenda ao post anterior ou, o mui importante 11º elemento.



Se todos os 10 elementos que vos falei no post anterior servem para tornar a vida mais prática, e incidem sobre a importância de se estar preparado para resolver aqueles pequenos imprevistos quotidianos que nos tiram do sério, o 11º não é menos importante.

Mesmo que tenhamos a grande bênção de nos ocuparmos profissionalmente de algo que realmente gostamos, nem todos os momentos são abençoados.
Especialmente nos piores dias é fundamental termos onde ir buscar uma gotinha de motivação, um raio de positivismo. Algo que nos lembre o quê e quem são dignos dos nossos sacrifícios, aquilo ou aqueles que nos inspiram, nos trazem de volta ao nosso melhor.

Não vos posso dizer qual o vosso "item". A vossa inspiração poderá ser um qualquer souvenir de umas férias passadas, num qualquer lugar onde tenham sido realmente felizes e a vontade de lá regressar.
Pode ser uma foto de família aquilo que vos lembre que há coisas maiores e melhores que qualquer maçada, que vos faça sorrir e dar-vos forças para ultrapassar qualquer dia não.
Como pode ser um simples postal com uma citação inspiradora, a alusão a um sonho por realizar, uma planta, ou outra coisa qualquer.

Portanto, o 11º elemento é um talismã. E o bem que estes podem fazer batem qualquer rónhónhó sobre necessaires e tira-nódoas.