sexta-feira, 15 de abril de 2016
Vida de cão: dias sem "acidentes" = zero.
Por acidentes entenda-se amoks.
Faz-me lembrar uma qualquer cena dos Simpsons, em que o Homer faz uma das suas na central nuclear, e alguém com um ar resignado apaga o registo de "dias sem acidentes" no quadro de ardósia para dar início a uma nova contagem.
Há manhãs em que acordar com as galinhas custa horrores. Hoje parecia que as pálpebras estavam coladas com super cola 3.
Para pessoa para quem o ritmo madrugador é contranatura, verdade seja dita, nunca esperei vivenciar tantas vezes o extraordinário milagre que é acordar cedo com energia q.b. e uma disposição menos tenebrosa.
Mas, tal não seria considerado milagre se não existissem manhãs ruins, não é?!
Hoje foi uma espécie de tempestade perfeita: má disposição, coordenação motora e verbal abaixo do mínimo, muito sono e cansaço, o ter que andar a correr atrás do cão pela casa para lhe enfiar o casaco e o peitoral e para lhe prender a trela, o ser um pouco mais tarde que o costume, e o S. Pedro e o Murphy a ajudarem à festa.
Se o passeio tivesse corrido como esperado, 15/ 20 minutos teriam sido mais que suficientes para cheirar todos os canteiros do percurso, fazer muito chichis, largar o #2 e ainda dar uma corridinha, com a calma habitual das manhãs, para chegar a casa, lavar-lhe as patas e tomarmos o pequeno-almoço em família.
Durante o resto do dia há mais tempo e oportunidades para caminhadas mais longas.
Só que não.
Como costumo sair mais cedo de casa já não me lembrava que, quanto mais o ponteiro se aproxima das 8 da matina, maior o movimento nas ruas, inclusive mais donos e cães.
E se até se pode considerar salutar a interacção com a primeira meia dúzia, tudo e todos que aparecem em diante são um estorvo, especialmente quando a janela temporal é limitada, e o meu puto fica demasiado excitado e muito mais interessado em farejar o rasto de todos os canídeos ao invés de fazer as necessidades.
Respiro fundo e penso que só mais cinco minutinhos para o puto acalmar, e retomar a concentração no passeio e no que tem que fazer. E pimbas, mais um cão, e outro, e outro ainda.
Muita excitação, nada de cócós.
E eu a entrar em modo Hulk, a vociferar asneiras em catadupa, a sentir a paciência a abandonar-me como se tivesse uma artéria aberta. A maldizer o facto de ter saído de casa mais tarde. A mandar vir com o Kiko para ver se ele atina.
Aqueles minutos extra na cama não valem o preço.
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quinta-feira, 14 de abril de 2016
cromices #124: Vou conhecer o Mundo inteiro...
... conhecer todas as nações, pisar todos os meridianos, alinhar em (quase) todas as experiências gastronómicas e tudo e tudo. Basta que ponham portais a funcionar tipo stargate, que eu cá enjoo até de ferry, fiquei mais de um mês surda de um ouvido após um vôo, e não tenho paciência para esperar, (mesmo!).
terça-feira, 12 de abril de 2016
coisas de pensar: A estranha no espelho
São raros os momentos em que me olho ao espelho com olhos de ver. O habitual é fazê-lo de uma forma automática. Exercer todos aqueles gestos quotidianos com um nível de observação que quase roça a cegueira.
Sabendo obviamente que a superfície espelhada me devolve o meu reflexo, questionei-me se aquela que ali se apresenta, vendo-se sem vendas pela primeira vez há nem sei quanto tempo, seria realmente eu. Ou melhor dizendo, quão diferente seria qualquer um de nós despidos das marcas de influências externas.
Que rosto, que corpo, que psique, que alma observaríamos se nos conseguíssemos despir de todas as marcas não inatas, de todos os vestígios de maleitas passadas e presentes incluindo dogmas, demagogias, todos os trejeitos, manias e modos que se colaram a nós mas que não são realmente nossos.
Quando presto a mesma rara atenção sobre quem sou, surgem as mesmas dúvidas. No universo de pormenores que supostamente me definem, desde a forma como me movo, como reajo, à forma como falo, penso, escrevo, ajo, do que gosto, do que não gosto, do que temo... Em quantos destes momentos sobressaiu o meu eu real ao invés do produto de um condicionamento?
Tão antiga e tão válida a questão "Quem sou? De onde vim? Para onde vou?".
Talvez o mais significativo legado dos sábios da História seja a própria interrogação. Não há conhecimento sem curiosidade, respostas sem perguntas, nem há demanda como a busca por si próprio.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
coisas de opinar: Construa-se uma estátua
Se há quem mereça uma homenagem em forma de estátua, colossal, ímpar, não é nenhum atleta, nem artista, nem político, muito menos um qualquer empresário que adoça a boca da plebe com promoções em hipermercados mas que depois vai pagar os impostos à Holanda do dinheiro auferido em Portugal. Não.
Quem merece um monumento gigantesco e excepcional é o conjunto de cidadãos, que nem sabendo os sociólogos como os definir, diria que são parte classe trabalhadora, parte classe média. São aqueles que trabalhando por conta de outrem ou por conta própria, conseguem com mais ou menos ginástica remediar-se com o que auferem. Com mais ou menos educação, com mais ou menos acesso a cultura e alguns prazeres.
Sobretudo são aqueles que não fogem à esperada contribuição financeira para a máquina fiscal. Talvez o únicos. São uma classe "ensanduichada" entre pobres e ricos. Entre os que não podem contribuir e até precisam de todo o tipo de apoios para se manterem à tona, e os que podendo optam por não o fazer, alinhado em esquemas elaborados de evasão fiscal.
Porque rico que é rico até manda o dinheiro passar férias em destinos como o Luxemburgo, Suíça, Ilhas Virgens, Panamá e tantos outros.
São estes a verdadeira e única espinha dorsal das nações, inclusive da nossa. Os heróis que mantêm isto a flutuar com tanto peso morto a dificultar a coisa.
Que seja enorme essa estátua, um figurão de costas bem largas. Porque são necessárias costas largas para carregar com todos os chicos espertos que andam por aqui a lixar quem é honesto.
Que sirva a enorme estátua para nos pôr a pensar sobre o rácio cidadão honesto, trabalhador e bom pagador vs chico esperto que foge ao fisco, quer seja uma sardinha ou um tubarão.
Que sirva sobretudo para inspirar vergonha. Será que ainda há disso?!
Que o maior dignatário venha ao palanque avisar petingas e baleias do chico-espertismo que existe tempo para redenção. Para corrigir os maus feitos. Para fazer voltar a casa os dinheiros que foram em férias para offshores. Para que as empresas que auferem em Portugal não tenham outro domicílio fiscal. Que se acabaram os biscates sem factura, os pagamentos por baixo da mesa. Que passado esse prazo da boa-vontade e da redenção as empresas em situação irregular deixarão de poder funcionar, que se verão destituídos dos seus bens, especialmente dos fundos espalhados pelo mundo. Tudo será pertença do Estado que ousaram defraudar.
O dia da inauguração da estátua será de festa para a classe que nenhum sociólogo sabe definir: deixarão de, em nome do funcionamento de uma nação, ter que pagar por todos os outros que se escusam a fazê-lo.
O dia da derrota do chico-espertismo será o dia da implementação da verdadeira Democracia.
sábado, 9 de abril de 2016
sabedoria dos intas em 10 segundos #41
Hoje, houve o feliz acaso de darmos com um breve documentário sobre KOI. Os KOI são os Kepler Object of Interest, sendo o Kepler um telescópio que enviámos para o espaço.
Sendo um dos maiores objectivos da sonda espacial a busca de planetas semelhantes ao nosso, a apoteose do breve documentário foi a apresentação do KOI705.02.
Achei esta uma das notícias mais importantes para a Humanidade nos últimos tempos.
Obviamente também pelo facto de haver motivos para suspeitar da existência de outros planetas que possam, pelas similaridades com a nossa Terra, albergar vida. Mas, para mim, o aspecto mais fulcral desta notícia é o facto de KOI705.02 ficar a milhões de anos de distância.
O nosso 3º calhau a contar do Sol é um milagre, coisa rara, e sabê-lo deveria incentivar-nos enquanto espécie a respeitar aquele que nos acolhe, e nos permite existir.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
quarta-feira, 6 de abril de 2016
coisas de opinar: Um par de ideias para Marcelo...
... ou a primeira pequena lista de coisas que gostaria que o nosso Presidente pudesse concretizar:
1 - Iguais condições de trabalho nos sectores público e privado. As diferenças existentes, para além de serem injustas servem unicamente para alimentar desarmonias e cisões entre a população.
2 - Maior justiça salarial. Aproximação dos salários mínimos e máximos, através do aumento substancial do primeiro e criação de um tecto máximo salarial, especialmente para os casos em que o erário público é utilizado para o pagamento dos mesmos.
3 - Corte de salários e benefícios de ministros, deputados e gestores públicos.
4 - Expulsão da carreira pública e vida política todo aquele que seja ou tenha sido alvo de suspeita de falta de idoneidade, ou alvo de uma qualquer investigação ou acusação.
Vida de cão: o dia em que o Kiko engoliu uma meia
Anteontem o Kiko engoliu uma meia.
A maior sorte é que demos conta quase imediatamente, portanto teriam passado cerca de 10/15 minutos quando liguei para a Clínica Veterinária a perguntar o que deveria fazer.
Na verdade não existia a certeza absoluta que ele a tivesse engolido, mas pelo sim, pelo não...
Mea culpa, mas pronto, uma pessoa não é infalível.
Já me tinham informado numa das nossas primeiras consultas que caso ele engolisse algo deveria dar-lhe água oxigenada para forçar o vómito. Mas naquele momento só me vinham dúvidas à cabeça: "Era uma colher de chá ou de sopa?", "Diluída ou pura?", "Quanto tempo após a ingestão se pode fazer isso?", "Se não resultar, dou-lhe mais?", "Se sim, quanto mais?"...
Em menos de nada decidi ligar-lhes. Porque como diz o velho adágio "quem não sabe, pergunta".
Mesmo estando a um par de minutos da hora de encerramento, a querida A. diz-me que, visto que ele tinha engolido a meia havia minutos, que o levasse lá que elas lhe administrariam a água oxigenada.
Esta disponibilidade e atenção são um dos muitos motivos porque considero a equipa da Clínica Veterinária uma espécie de família alargada. Relação que dura há 13 anos, desde o momento em que trouxemos o Ulisses cá para casa.
E lá fui, metade do caminho a correr com o Kiko ao colo, metade a correr puxada pelo meu pequeno pónei.
A sala de espera cheia. Mesmo assim, em menos de nada levaram-no para tomar a primeira dose de água oxigenada.
Nesta altura já o "paizinho" também esperava pela criatura. A A. trouxe o Kiko e disse-nos para darmos uma voltinha de dez minutos. Supostamente seria o tempo que demoraria a ficar indisposto e vomitar.
Mas é nestas coisas que um Jack Russell se revela como tal, e o Kiko é simplesmente o Kiko.
Qual indisposição, qual quê! Andava feliz da vida a passear, excitado por ver outros cães, por sentir os cheiros na rua, na relva, a marcar território. Enfim, a ser o Kiko em modo normal.
Segunda dose. Agora é que é! Mas também não foi. Um frio de rachar e nós para trás e para a frente, sem qualquer indício de indisposição.
Por fim, uma terceira e última dose. Resultado: um arroto. Excitação ainda no pique.
Ficámos lá uma hora e meia até que decidimos todos que o melhor a fazer seria trazê-lo para casa, afastá-lo de tudo o que o excita. Levei a recomendação da Dra. I. que, se passado um bom bocado ele não vomitasse lhe deveria dar uma cápsula para proteger o estômago, por causa da água oxigenada.
Que depois dissesse qualquer coisa sobre o estado do Kiko.
Em casa, passados uns minutos lá vomitou um bocadinho do jantar. Sempre bem disposto.
Ontem às 6h da manhã vomitou e afinal tinha mesmo engolido uma meia. Saiu inteirinha, felizmente.
Podia ter sido tão pior. Podia ter acabado em cirurgia.
O momento pós-vómito foi hilariante: um cão feliz por estar a ser muito elogiado, e cada um de nós com o seu telemóvel a fotografar a meia regurgitada.
Já me flagelei mentalmente uma mão cheia de vezes. A partir de agora atenção e cuidados redobrados.
Ontem não resisti a entregar a notícia pessoalmente lá na Clínica sobre como o "caso da meia" estava resolvido, com sucesso.
terça-feira, 5 de abril de 2016
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Gostaria de tomar um café com... #7
Henry Rollins
Para mim, um grande pensador da nossa era. Aprecio a sua criatividade, ética, humildade, claridade de raciocínio e poder de argumentação. Revejo-me nos seus pontos de vista e considero-o um dos modelos de valor neste mundo.
domingo, 3 de abril de 2016
Vida de cão: Mantra canino
O Kiko ainda se assusta quando alguns veículos passam por nós. Não simpatiza muito com autocarros, nem camiões, nem com o ocasional cromo do tunning ou com o motard que não resistem a uma recta para se exibirem.
É aí que o saquinho que levo sempre à cintura com pedacinhos de ração entra em acção.
O instinto dele é fugir, coitadinho, mas aos poucos conseguimos contrariar essa tendência.
Saco de um croquete, olho-o nos olhos e começo a debitar a minha lengalenga, num tom suave:
"Tu és lindo. Tu és bravo. Tu és destemido. Tu és corajoso." E toma lá croquete.
Foge cada vez menos. Começa a preferir sentar-se ao meu lado, olhando-me nos olhos enquanto entoo o nosso mantra. Depois prosseguimos caminho, ele com a cauda bem erecta, sinal que o medo também passou.
quinta-feira, 31 de março de 2016
coisas que recomendo: Em defesa dos arneses para crianças.
Há muitos anos atrás, era eu uma miúda de 17 /18 anos, e tinha o primeiro part-time no shopping que conciliava com as aulas de Alemão. O mundo naquela época parecia de certa forma um lugar mais seguro, mais cor-de-rosa que hoje. Em parte certamente porque não havia, como hoje, serviços noticiosos 24 horas por dia a bombardearem-nos constantemente com um léxico de horrores. Não é que as coisas não ocorressem, mas como diz o ditado "a ignorância é uma bênção." Ou simplesmente parece ser.
Por exemplo, acho que o termo "pedofilia" nunca me tinha passado pelo pensamento até ao boom mediático do caso Casa Pia, assim como o caso "Rui Pedro" se tornou um triste ícone da matéria sobre o desaparecimento de crianças. Isto, anos depois do evento que vos relato.
Uma calma manhã saio da loja para ir ao wc. Apressada, como de costume, porque convinha não demorar e queria aproveitar para também fumar um cigarro. Naquele layout particular o wc das mulheres estava mais recuado, e tínhamos sempre que passar ao lado do lavabo masculino. Enquanto ia perdida nos meus pensamentos, ocorreu, por um simples acaso, olhar para o lado durante uns segundos no momento em que passava pela porta do wc masculino. A minha vista trespassou a vidraça da vigia que enfeitava a porta e pareceu-me vislumbrar algo muito estranho.
Pareceu-me ver um adulto a cortar o cabelo a um miúdo junto dos lavatórios. A cena pareceu-me tão bizarra, tão fora do comum, que o meu cérebro teve sérias dificuldades em assimilar a coisa.
Pelo sim, pelo não, dirigi-me a um dos seguranças e descrevi-lhe o que me pareceu ter visto. Que por ser tão estranho e ter sido tão rápido, não tinha certezas absolutas mas, que preferia pecar por excesso de zelo. O segurança disse-me ter tomado a melhor opção e que voltasse à minha rotina, que eles tratariam de tudo a partir daquele momento.
Nunca soube o desfecho da história, mas é coisa que nunca mais esqueci. E que voltei a recordar de cada vez que uma criança figurava uma qualquer triste notícia.
Serve este prêambulo para nada mais que ilustrar que o perigo existe, independentemente da nossa consciência sobre tal. Não é para andarmos paranóicos, apenas conscientes do que existe um pouco por todo o lado.
Mas, hoje estou aqui para falar sobre as chamadas "trelas" para crianças. Ou melhor, para partilhar a minha perspectiva, que vem em defesa deste artefacto ainda tão criticado e incompreendido.
Para estruturar melhor o meu argumento, googlei "trelas para crianças". Fui dar a alguns blogues, (aqui e aqui), e fóruns, (como aqui e aqui).
Como em tudo as opiniões dividem-se.
A amostra constituída pelas opiniões nos links citados é um bom exemplo disto mesmo. Há quem defenda os arneses porque em criança usaram um e acharam a experiência tão positiva que agora os procuram para os filhos, ou porque já apanharam cagaços valentes e passaram a olhar para este acessório como um adjuvante para evitar situações futuras, ou ainda porque estão ou estiveram num qualquer país onde o uso deste é comum e isso bastou-lhes para não olharem para o dito com estranheza e preconceito, chegando mesmo a ver o lado prático da coisa.
Se este post tivesse um objectivo seria esse mesmo: adoraria que as pessoas olhassem para estes acessórios como sendo isso mesmo - um acessório - com a mesma naturalidade com que olham para qualquer outro, sejam as fraldas descartáveis, os ovos, tudo o resto. E sem preconceitos possam deliberar se, no seu caso, lhes é ou não útil. Tão simples quanto isso. Também houve um tempo em que se achou que as papas já preparadas e os boiões eram coisas para mães preguiçosas. Ainda há pouco tempo se olhavam para os marsupiais e slings com alguma estranheza. Felizmente o mundo evolui: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se".
Na amostra supra citada há quem não adira às chamadas "trelas" por isso mesmo, por acharem que no seu caso não lhes serviria de muito. E depois há aquelas opiniões que perdoem-me mas tenho que confessar que me tiram do sério pois demonstram uma ignorância, umas vistas curtas, umas palas nos olhos de todo o tamanho. São as pessoas que optam por "argumentar" afirmando que quem recorre a um acessório destes trata as crianças como cães, (infelizmente, quem dera a muitas crianças por este mundo fora terem a sorte de serem tão bem tratadas como alguns cães!), é preguiçoso, é mau progenitor e não devia ter filhos.
Infelizmente, este tipo de vozes com as suas opiniões carregadas de preconceito, julgamento e ignorância são capazes de influenciar um terceiro grupo de pais, que gostariam de experimentar o produto mas não o fazem por vergonha, porque não querem ser olhados de lado, nem serem alvos de comentários maldosos. O mais triste é que assim, pelos piores motivos, abdicam de fazer algo que aumentaria a segurança dos filhos, a sua tranquilidade e até lhes facilitaria um pouco a vida.
Confesso que os comentários onde se apelidou de preguiçosos e incapazes os pais que usam os arneses me ficaram na memória. A passearem tranquilos com a criança pela trela, como se atrevem, não é?! Como se tranquilidade e parentalidade não combinassem, como se fosse um pecado unir esses dois conceitos. Se não vos causa dor e sofrimento então é porque não estão a fazê-lo bem. Será isso?
Honestamente apetecia-me dizer-lhes "Ai é assim? Então toca a passar para cá tudo o que foi inventado para facilitar a vida aos pais! Fraldas descartáveis, toalhitas, biberões, carrinhos de bébé, tudo!"
Aliás, ao que estas pessoas chamam preguiça eu chamo inteligência. Sem esta não teríamos inúmeros confortos na nossa vida quotidiana, aos quais já nem damos o devido valor, como água potável a sair da torneira, luz ao clicar num interruptor, frigoríficos para preservar os alimentos entre tantos e tantos outros.
Porque defendo os arneses?
1º - Pela saúde das crianças:
Já ouviram falar em luxação do cotovelo ou cotovelo de ama?
2º - Pela saúde dos adultos:
Claro que é agradável andar de mão dada com as crianças, ou ampará-las enquanto dão os seus primeiros passos. No entanto acho que ninguém achará confortável fazê-lo durante longos períodos, porque nos obriga a andar tortos e curvados, com implicações óbvias para a coluna. Acho que este acessório aumenta o conforto físico de pais e avós.
3º - Explorar com segurança:
Há quem ache que as crianças fiquem demasiado restringidas quando estão com o peitoral. Eu defendo precisamente o contrário. Acho que tê-las pela mão ou no carrinho lhes diminui muito mais a liberdade. Com o peitoral, podem andar por si, explorar, ter uma certa sensação de autonomia, mas sem perigos porque estão sempre ligados ao adulto.
4º - Mais tranquilidade, menos zangas, mais diálogo:
Utilizar o arnês não implica que não se ensine à criança todas as regras de segurança, inclusive aquelas sobre como se deve circular em todos os tipos de espaços, desde como deve ter cuidado com os carros, etc.
O que acontece, na minha opinião, é que estando sempre a criança em segurança quando está a usar este acessório, os pais não andam naquele estado de frustração porque o sacana do miúdo lhes pregou 20 sustos na última hora, nem têm que andar aos berros porque este teima em afastar-se, nem recorrer à palmada.
São totalmente livres de discordar, mas eu cá acho fantástico não se ter que andar a berrar advertências de 2 em 2 minutos, nem andar sempre em stress ou a correr atrás deles, e com isso poder aproveitar as saídas para explicar tudo o que se queira que eles aprendam com calma e tranquilidade.
5º - Ninguém é infalível:
Porque as crianças são como são, até os pais ou os avós mais atentos apanharão, pelo menos uma vez na vida, um daqueles sustos. Não por falta de zelo, mas porque realmente bastam dois segundos. Sabem aqueles dois segundos que demora a abrir a carteira para sacar do cartão para pagar as compras no supermercado? Os mesmos dois segundos em que olhamos para os produtos expostos nos lineares, ou que gastamos num breve cumprimento a quem se cruza connosco, ou que sacamos do telemóvel para ver quem nos está a ligar...
Nós não somos máquinas.
6º - Porque, para além de seguro, é prático:
Não defendo que o arnês seja usado em todos os momentos. Há ocasiões específicas em que este é desnecessário. Que não se deve abusar pois é um acessório de segurança, um elo de ligação, e não um castigo.
Há ocasiões em que o acho indispensável como idas a shoppings, aeroportos, visitas a sítios a transbordar de gente (imaginem a Eurodisney, por exemplo), saídas em que só está presente um dos adultos, momentos em que terão que desviar as atenções para outra coisa que não a criança, etc.
Todos os dias vejo inúmeras mães a saírem com as suas crianças pela mão. Há muito para fazer e tratar. São poucas as pausas. Se se sentam para tomar um café, é certinho que se levantarão dezenas de vezes para agarrar os petizes irrequietos. Voltam a casa de mãos carregadas. Não há braços para tudo. Tentam controlar a marcha dos miúdos com advertências. Não é assim tão raro o dia em que a criança chegue a casa já num pranto. Houve algures no caminho uma pausa para uma palmada. Muito provavelmente porque o petiz decidiu correr na direcção da estrada. Olho para as inúmeras mães e parecem exaustas ainda nem é hora de almoço. Chegam curvadas e tortas. Tiveram que arranjar maneira de libertar uma mão para virem de mão dada, por segurança, e por isso carregam um incontável número de sacos numa só mão. E eu penso: "Mas se podia ser tão mais fácil e seguro..."
7º - Porque não são trelas, nem se parecem com estas:
Existem vários modelos. Desde os arneses, às mochilas com peluches de onde sai a tal correia que os liga aos adultos, até a duas pulseiras ligadas entre si, até modelos que servem para apoiar nos primeiros passos e mais... Basta googlar e encontrarão imensos exemplos. Escolhi apenas alguns para ilustrar.
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