domingo, 23 de outubro de 2016

coisas da casa: Mais uma moedinha, mais uma voltinha ou, há que respirar fundo.



Uma destas sextas à noite, após a reunião da praxe, voltei para casa carregada com toda a tralha da administração de condomínio.

Segunda de manhã, sentei-me e comecei por organizar uma lista de tudo o que terei que fazer este ano. Sou uma pessoa "de listas", e é sempre por aí que começo.

Entre tarefas ordinárias e projectos extraordinários enchi uma folha, com pontos e subpontos para não perder o fio à meada.

Tendo passado alguns anos da última vez que me coube a mim esta função, dei uma vista de olhos nos sacos de livros, recibos e documentos que havia trazido da reunião para me relembrar das coisas.

Escrevi a acta e assim risquei o primeiro ponto da minha lista.

Voltei a ler a mesma, e estava  confiante que se continuasse organizada e num bom ritmo, em duas semanas tratava de tudo, podendo passar o resto do ano no relativo sossego das tarefas ordinárias que são pagar as contas, verificar que a senhora que limpa as escadas tem sempre água ao seu dispor, e outras minudências dessas.
As memórias que me ficaram da última vez foram os extraordinários aborrecimentos, e estou decidida a fugir desse registo.

Estava embalada, e pensei que nessa mesma manhã conseguia avançar com mais dois ou três tópicos da minha lista.
Precisamos de uma nova empresa que venha tratar da manutenção do extintor, já que a antiga desapareceu do mapa.
Decidi que essa seria a minha segunda tarefa. No papel parece canja, e a minha estratégia era despachar primeiro as coisas mais fáceis para manter alta a motivação.

Ligo o computador e faço uma pesquisa sobre empresas do ramo. Escolho uma da zona, cujo site tem bom aspecto, com referências de clientes e mil e quinhentos certificados. Parece-me bem e ligo-lhes.
Confirmo com quem me atende que efectuam o serviço que procuro. Pergunto o preço e parece-me bem. Digo que é para avançar. Do outro lado informam-me que terá que ser agendado com o comercial, que de momento não está. Pedem-me o contacto e prometem-me que o comercial será rápido a ligar de volta. No máximo dois ou três dias.

De imediato passo para outro ponto da lista: há que ligar ao senhor que já veio cá um par de vezes dar manutenção ao telhado.
O número que me deram durante a reunião é demasiado longo, coisa fácil de acontecer quando um número é constituído por um algarismo que se repete uma data de vezes. Tento uma primeira variação e entro em contacto com uma senhora de pronúncia espanhola. Tento uma segunda, e quando penso que acertei, a voz do outro lado nega ser o sr. Nãoseiquantos.
Respiro fundo, penso que mais vale confirmar o número com a vizinha, e passar para outro ponto.

O primeiro subponto de uma outra tarefa consistia em retirar algumas dúvidas com uma entidade. Olho para as horas e decido arriscar por telefone. A conversa foi agradável, a senhora simpática. Infelizmente fiquei na mesma.

Passaram já duas semanas: até agora não fui contactada por comercial algum.
Também já confirmei com a vizinha que aquele era realmente o número correcto. Contei-lhe o sucedido, e embora nenhuma de nós entenda o porquê da reacção do outro, aconselhou-me a experimentar iniciar o diálogo com algo como " é o senhor do telhado?" ao invés de o tratar pelo nome.
Morri um bocadinho por dentro ao imaginar ter-me que endereçar a alguém por "senhor do telhado",  senti os meus lábios a mirrarem até não passarem de um linha muito fina, agradeci e voltei para casa.

Arrumei a lista que havia feito e todas as traquitanas do condomínio. Achei que, com um ano inteirinho pela frente, era demasiado cedo para me começar a chatear. Que a prioridade é não perder o bom humor e a motivação, porque acho que vou precisar de ambos em doses generosas.
Lembrei-me que por mais extensa que seja a tal lista, não são os afazeres per se que me maçam, são as pessoas. Especialmente aquelas que teimam em tornar a tarefa mais simples num suplício.

Amanhã recomeço. Haja coragem. Há que respirar fundo.



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Lições dos intas #1



Demorei mais de 30 anos a aprender (e a apreender) que quando um conhecido nos aborda, mesmo que amavelmente, para uma qualquer conversa que começa com "a única coisa má no tempo do Salazar...", a coisa mais inteligente a fazer é engolir o café, ao balcão, mesmo que me escalde as beiças, e despedir-me o quanto antes.



terça-feira, 18 de outubro de 2016

coisas de opinar: O pequeno e o grande comércio.



Há um enorme motivo para que o título desta mensagem não seja o talvez esperado "pequeno versus grande comércio", e este prende-se sobretudo com o facto de esta ser escrita segundo a minha perspectiva de consumidora. É que para os consumidores não há nada tão benéfico quanto a concorrência.

Sou responsável pela grande maioria das compras cá para casa. Esta forma de "caça moderna" faz-me saltitar entre pequeno comércio, supermercados e ocasionalmente, hipers.

Na minha demanda procuro os produtos que, segundo a minha análise, melhor satisfaçam o rácio custo/ benefício.

Como é natural, alguns pequenos comerciantes diabolizam o grande comércio. Pelo menos os que ainda não se aperceberam que haverá, no mercado, lugar para todos, embora a captação e a fidelização de clientes seja mais trabalhosa, exigindo especialmente por parte do comércio tradicional uma conduta, um cuidado e um nível de conhecimento que antes do aparecimento dos estabelecimentos de grande retalho eram desnecessários.

Verdade seja dita, e sem paninhos quentes, existem maus hábitos que proliferam na ausência de concorrência. Quando um qualquer estabelecimento detém o monopólio é fácil cair na tentação de se ser menos exigente com a qualidade e variedade do que se coloca no linear, e cobrar excessivamente. Mesmo que sejam tácticas que não agradem aos consumidores, quando não existem opções o insucesso é impossível. Também é mais que natural que os comerciantes que adoptaram esta postura sejam os que mais sofrem nos resultados aquando o aparecimento de concorrência.

Uma reflexão que gostaria de passar é que o mercado torna-se mais rico e positivo quando o consumidor não tem que optar pelo pequeno ou grande comércio, mas pode sim vivenciar ambas as experiências de consumo. Pequeno e grande comércio, mesmo nos casos em que vendem os mesmos produtos, possuem características que os distinguem entre si, e aí residem os seus pontos fortes.
Daí que eu considere que a tal diabolização do grande comércio é uma presunção arcaica e acima de tudo prova de desconhecimento sobre como formular um negócio bem sucedido.

Dois dos maiores trunfos do comércio local, a meu ver, é a proximidade, e acreditem ou não, a sua pequena dimensão.
São estes trunfos que permitem uma localização tão próxima dos consumidores, (e como é conveniente e apetecível ter algo tão perto de casa), assim como a construção de uma relação pessoal entre comerciantes e clientes quase familiar, e por fim a possibilidade de oferecer produtos de qualidade oriundos de pequenos e médios produtores locais, (e não só), que pela sua dimensão nunca ou raramente terão entrada no linear de uma grande superfície.

Alguns dos principais motivos para o consumidor não esquecer o comércio local é que sem a presença das pequenas lojas de rua, sem o movimento de pessoas e bens que estas estimulam, os lugares que habitamos não passariam de tristes dormitórios. Apoiar o comércio local é contribuir também para o sucesso de pequenos empreendedores, desde produtores a comerciantes, é permitir que mais pessoas apostem na criação do próprio emprego ou que famílias possam dar continuidade a um negócio que perdura já por gerações. Outro motivo é que a localização destas lojas, geralmente tão próxima dos centros dos lugares,  permite às pessoas um fácil acesso a um número de serviços e bens, sem a necessidade de recorrer a transporte, o que é uma tremenda mais-valia num ou outro momento para qualquer pessoa, mas tem uma especial importância para alguns membros da sociedade, especialmente os mais idosos.

Quando penso nas grandes superfícies considero que as características que mais me atraem são precisamente aquelas que considero mais difíceis de encontrar no pequeno comércio: uma imensa variedade, a rotação frequente de stocks, capacidade de oferecer promoções e preços mais baixos e os horários.

Gosto de não ter que escolher entre pequeno e grande comércio. Escolho sim, dentro de cada categoria, as lojas que mais me atraem, dispensando aquelas que não me agradam, e faço, como todos aqueles que vão às compras, um mapa mental de onde posso encontrar os melhores itens, a nível de preço e qualidade.

No entanto devo confessar que, se fosse obrigada a escolher, teria que optar pelas grandes superfícies.
Embora existam na minha zona algumas lojas de rua bastante razoáveis, de quem sou uma cliente habitual, por mais que simpatize não conseguiria abdicar da tal variedade, rotação frequente de stocks, maior elasticidade dos preços, o conforto de se pagar qualquer quantia com o cartão que preferir, (sei que há uma cadeia de hipermercados que não permite pagamentos por cartão em compras inferiores a 20€, e por isso a marca foi riscada da minha lista), e  embora goste do ambiente familiar do pequeno comércio, há dias que nada bate o quão refrescante é os empregados dos supermercados e hipers estarem-se nas tintas para a quantidade que o cliente compra naquela visita, poupando-nos dos trejeitos e gracinhas que fazem parte do dna de alguns pequenos comerciantes.





segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Vida de cão: O "mimómetro"


Embora não exista propriamente uma maquineta que nos indica o quanto estragámos o Kiko com tanto mimo, o tal "mimómetro", existem alguns claros indicadores. Uns quantos pormenores no seu comportamento que acho hilariantes.

Partilho convosco um par deles.

O primeiro é quando "Sua Alteza Real" vai em passeio, e depois há uma qualquer coisinha que se aloja na pata e o incomoda. Pois bem, basta uma pequena folha, uma pétala agarrada ao pêlo, um ínfimo pauzinho, uma coisinha mínima para que o menino Kiko dê dois ou três passos a mancar, para depois parar e esperar que a mãezinha ou o paizinho lhe examinem a pata. O que normalmente acontece em menos de nada. Já está tão habituado que chega a esticar a patinha para a vermos melhor mal nos aproximamos dele. Quando se sente liberto do corpo estranho segue de cauda alçada, trotando com plena satisfação.

O segundo exemplo tem a ver com cocó. Às vezes a coisa não é tão simples quanto se deseja, e parte do dejecto fica preso. Pois bem, o Kiko não é menino para esfregar o rabiosque na relva ou ir lá com o nariz. Simplesmente fica imóvel, à espera que o libertemos daquela maçada. Coisa muito fácil de se fazer usando um saquinho como luva. A reacção é sempre a mesma: segue sorridente e altaneiro.


Coisas de jogar #6: Divinity Original sin



Recomendo!

Divinity Original sin







terça-feira, 13 de setembro de 2016

cromices #137: Ui, que ela agora julga-se uma atleta...



Graças ao Kiko, à trotinete e às caminhadas nunca estive em tão boa forma. Ganhei especialmente resistência e tonificação.

O meu erro foi ter visto uns quantos episódios de American Ninja Warrior. Para quem não conhece, é um programa americano inspirado no análogo japonês, em que concorrentes tentam superar uma prova com diversos obstáculos, que exigem diversas capacidades físicas bem afinadas.

Ou melhor, aqui está um exemplo:





Os atletas que competem fazem tudo parecer tão fácil, que foi fácil ficar empolgada com a ideia de tentar umas coisinhas novas. Então quando me deparei com equipamento de treino ao ar livre, larguei tudo e tive que ir tentar umas elevações em barra fixa.

Nem uma, senhores! Nem uma! Ficar lá pendurada é fácil, mas e fazer subir o corpinho usando estes palitos que tenho por pulsos?!





terça-feira, 23 de agosto de 2016

cromices #136: Eu egoísta me confesso, acto segundo.



Está um mais um daqueles dias bonitos e solarengos de Agosto. As janelas de casa abertas deixam entrar o sol e a brisa. As cortinas dançam levemente. Seria este um cenário perfeito não entrasse também, infelizmente, casa adentro o chinfrim da família "Fukushima".
De sol a sol, e às vezes noite dentro, é uma berraria constante.

O bairro tem muitas crianças, de todas as idades. Todas com comportamentos esperados para a sua idade: brincalhonas, espontâneas, activas... Mas mais nenhuma se ouve. Não assim desta forma.

Por mais que eu repita tipo mantra que é perfeitamente natural, que são crianças, a coisa não pega porque fazer barulho é normal, mas não a este nível.

A meio da manhã ainda soltei uma gargalhada, porque alguém passou na rua, e pelo "chiu" e palavrão sonoros que largou deu para notar que não sou a única por aqui enfadada com tanto chinfrim.

Berram os miúdos, berra o pai, (e não é pouco), e às vezes a mãe. Uma sinfonia infernal.

Não há nenhum benemérito milionário que lhes ofereça uma nova morada?!

Para mim, como sou egoísta, escolho receber algo que dinheiro algum pode comprar: paz, sossego, tranquilidade, silêncio.







cromices #135: Eu egoísta me confesso.


Há o tripadvisor, o zomato, e outros mil que existem para partilhar informações, críticas e comentários sobre estabelecimentos vários, de restaurantes a hotéis.
A sua utilidade é inegável. Também me sirvo destas ferramentas quando preciso de alguma informação sobre um estabelecimento, quer o conheça ou não, desde a morada, ao horário, ao menu, ou para descobrir novas opções.

No entanto, são sites que embora visite com frequência, não tenho por hábito utilizar enquanto comentadora. Imagino-me capaz de o fazer com uma crítica construtiva, mas refreio-me de o fazer no que toca a deixar elogios aos sítios que realmente gosto.
Isto porque, em primeiro lugar, gosto de elogiar pessoalmente e na hora. O segundo e maior motivo é porque sou egoísta: quero que os lugares que gosto se mantenham inalterados, o suficiente para continuar a gostar deles.

É uma daquelas situações que me deixam dividida: se por um lado é claro que desejo prosperidade e sucesso nos negócios a quem me recebe bem, por outro já tive, como muito boa gente, experiências que demonstraram que o aumento repentino desse mesmo sucesso em conjunto com um enorme afluxo de clientes, transforma irremediavelmente os negócios, e raramente para melhor.

Ainda ontem li o comentário de um amigo numa rede social sobre como estes sites dão cabo dos restaurantes bons e baratos em Lisboa.

Passei por uma experiência semelhante com aquele que foi, durante algum tempo, o nosso pub favorito. Até ser descoberto pelas massas era para nós o sítio perfeito, aquele que encaixava sem mácula nas nossas preferências: decoração gira e temática, calmo, com um clientela sossegada e moderada com uma idade média na ordem dos intas, atendimento simpático, num local cheio de verde e história.
Depois ficou na moda. Os clientes outrora moderados, que beberricavam qualquer coisa enquanto tinham conversas interessantes, deram lugar a gente barulhenta e excessiva como em qualquer outro bar. E se tal é bom para a contabilidade do negócio, também significou uma enorme mudança na sua personalidade e no atendimento, o que fez com que perdesse a vontade de lá ir com a frequência de antes.

Para mim foi uma lição: nunca revelarei os meus locais favoritos.