terça-feira, 29 de novembro de 2016

coisas de pensar: Público vs Privado, ou fosse isto um campo de batalha...


Os anos passam, os ciclos repetem-se, e eu continuo absolutamente incrédula e chocada como, da parte de quem nos governa, independentemente da sua cor política ou nome, a preferência continua a incidir em decisões que dividem a população activa, e que já se sabe, pela experiência da repetição que não resultam em nada de novo nem melhor.

Não. Minto. Incredulidade e choque não são os termos correctos. Adjectivar enquanto desilusão parece-me mais acurado.

A repetição quando deriva na ausência de evolução, quando resulta em prejuízo, desilude porque é sinal de máxima estupidez insistir numa solução que não o é. A não ser quando o objectivo não é solucionar. Quanto a isso, Maquiavel e os clássicos deveriam ser de leitura obrigatória.

O mundo não precisa ser um campo de batalha para que se apliquem as mesmas estratégias. Impera o "dividir para reinar". Termo e técnica que deriva do grego, e continua a dar frutos nos campos militar, sociológico e político.

"Esse conceito foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filipe II da Macedónia e imperador francês Napoleão (divide ut regnes). Também há o exemplo de Aulo Gabínio, que repartiu a nação judaica em cinco convenções, conforme relatado no livro I de A Guerra dos Judeus (De bello Judaico), do historiador Flávio Josefo. Em Geografia, Estrabão relata que a Liga Aqueia foi gradativamente dissolvida sob a posse romana da Macedónia, porque eles não lidavam com todos os estados da mesma maneira.
Na era moderna, Traiano Boccalini, em La bilancia politica, cita "divide et impera" como um princípio comum na política. O uso desta técnica refere-se ao controle que o soberano possui sobre populações ou facções de diferentes interesses, que juntas poderiam ser capazes de se opor ao seu governo. Sendo assim, o governante precisa evitar que os diferentes grupos e populações se entendam, pois uma união poderia causar uma oposição forte demais. Maquiavel cita uma estratégia militar parecida no livro IV de A Arte da Guerra (Dell'arte della guerra), dizendo que um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as."


 Talvez um dia seja finalmente parte do comum entendimento que o problema não reside no facto da função pública ter um horário de 35 horas semanais, mas sim no facto deste não ser alargado a toda a população activa.
O mesmo se aplica a todos os direitos e deveres.

A população activa portuguesa conta com mais de cinco milhões de indivíduos. Houvesse o poder de concertação, o entendimento que há muito tarda que numa casa justa ou há para todos os filhos (e filhas) ou não há para nenhum, expressada quiçá através de uma greve geral, e o uso bem sucedido da estratégia batida seria finalmente coisa do passado.



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

coisas de comer: O amigo forno e a alquimia das sobras


Regra geral, todas as semanas faço um prato de forno. Aliás, neste preciso momento, tenho um empadão de carne ainda lá dentro, acabadinho de fazer.

Nos pratos de forno aplico a mesma filosofia que às sopas: nunca faço quantidade somente para aquela refeição. Sobeja sempre e é de propósito.

Franzo o sobrolho a quem torce o nariz às sobras. Penso logo que não é pessoa que passe muito tempo na cozinha, senão saberia dar mais valor ao trabalho e tempo que poupam; que não é propriamente muito poupada, senão também saberia que vale mesmo a pena render a hora ou hora e meia de electricidade que gastamos por ter o forno ligado por duas ou mais refeições. E por fim, que não é muito imaginativa, senão saberia que as sobras são o alicerce de pratos muito saborosos.

Querem um exemplo:

Domingo passado assei um belo de naco de carne porco, generosamente temperado com ervas, sumo de laranja, pimentão, pimentas, alho, sal e azeite. Fi-lo com batatinhas novas.

Para além de sandes rápidas com queijo, verdes e mostarda, acompanhadas de sopa, para um dos meus almoços, ainda deu para um arroz de carne malandrinho à portuguesa. Basicamente faz-se o refogado com uma cebola picada, alho, ervas a gosto, e uma cenoura grande aos cubos. Junta-se vinho branco, duas ou três colheres de polpa de tomate, sal, e a carne cortada em pedaços. Adiciona-se o arroz e a quantidade necessária de água a ferver. Delicioso.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Coisas do armário: As minhas camisolas de Inverno favoritas



Se costumam passar por aqui, não será novidade dizer-vos que quando escolho roupa para mim não são as tendências ou modas que me guiam, mas somente o meu gosto pessoal.

Quando chega o Inverno chega também a vontade de vestir uma camisola quente e aconchegante. E o que não falta é oferta e variedade em milhentas lojas, mas nesta estação do ano, não há modelo que eu prefira às camisolas de padrões tipicamente nórdicos, que associamos geralmente ao Natal, ornamentados com as figuras estilizadas de renas, árvores, flocos de neve, folhas, corações...

Todos os anos compro mais algumas e não há maneira de me fartar!









cromices #140: Refém da C.P.



Longe vão os dias em que me deslocava de comboio diariamente. Agora é uma ocasião pontual.

Há um par de dias tive de fazê-lo.
Como não gosto de perder tempo, nem de fazer perder tempo a quem vai com mais ou igual pressa, opto por adquirir o cartão já carregado com viagem de ida e volta na bilheteira, ao invés de andar a engonhar na máquina de venda.

Ainda bem que tenho o hábito de sair de casa com alguma antecedência, para o caso de haver algum imprevisto, porque não houve estação em que as maquinetas não decidissem embirrar comigo.

Logo na ida, para conseguir aceder à plataforma, o senhor leitor de cartões obrigou-me a uma dança, que consistia em agitar o cartão da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, ora mais encostado ou afastado do sensor, ao som das indicações de uma amável senhora - "experimente assim, ora agora experimente assado", até se dignar a abrir a portinhola envidraçada.

No regresso, já na plataforma, a aventura consistia numa caça ao tesouro, ou melhor dizendo, a percorrer a dita de uma ponta à outra na demanda de um leitor que funcionasse, de preferência antes de ver mais um comboio a passar por mim.

Mas, a cereja no topo do bolo foi o fim da viagem, aquele momento em que se quer sair da estação e a maquineta diabólica decide que não, que me quer refém. Um senhor simpático, já do outro lado, livre da mecânica armadilha, questiona-me sobre o que diz a maquineta. Esta reclama "saldo insuficiente".
"A malandra aprisiona-me e agora pede-me resgate!" - pensei eu. "Agora é assim, Comboios de Portugal?! Apanha-se o utente num momento vulnerável, onde não há escapatória, e para além do preço da viagem ainda quer que se pague para sair da estação?!"

Salvou-me um simpático jovem que perguntou se queria sair com ele. E lá fomos os dois em passo de corrida no momento em que as portinholas se abriram.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

coisas que gosto: Bons ventos sopram de Espanha, ou "dar vida à idade"



Gostava tanto que encarássemos a terceira idade como se fossem umas férias por tempo indeterminado, em que todos os dias fossem vividos ao máximo, numa personificação do carpe diem, enquanto a saúde e a vida o permitir.

O conceito é de uma tremenda simplicidade: porque não aproveitar da melhor forma a liberdade que representa o fim das obrigações familiares e compromissos profissionais?

Felizmente começam a proliferar notícias sobre pessoas que decidem tomar as rédeas da própria vida, e tomam decisões sobre como querem viver na velhice. Decisões que têm por base o desejo de independência e felicidade e desembocam em projectos inspiradores, como o relatado nesta notícia que nos chega de Cuenca, Espanha.

Motivados em grande parte pelo desejo de não querer passar a última fase da vida rodeados de estranhos ou "ser uma carga para os filhos", dois casais de amigos que se conheceram anos atrás numa excursão, decidiram viver juntos numa república autogerida em Cuenca - Convivir. A sua decisão entusiasmou e incentivou muitos mais a juntarem-se ao projecto.

Convivir é um condomínio, uma residência com todos os atributos específicos das residências para idosos, desde os serviços a pormenores arquitectónicos específicos para a terceira idade como as casas de banho, botões de emergência, etc.
No entanto, Convivir não é um lar de idosos mas um projecto de coshousing: projectado por arquitectos com a ajuda e intervenção directa dos sócios da cooperativa.

Elogia-se o ambiente juvenil, a forma como se mantém activos através da partilha de tarefas, de workshops diversos organizados pelos próprios como forma de partilhar o conhecimento de cada um, que no caso de Convivir pode significar tanto uma aula de risoterapia como de macramé. Sentem-se bem, felizes, e independentes. Guiam-se pelo lema "dar vida à idade". E isso é o mais importante.

Existem alguns projectos similares por todo o mundo. Também em Portugal existem residências onde o objectivo é uma maior qualidade de vida. Os preços que podem rondar, para além do investimento na residência, uma mensalidade de mais de 2000 euros por casal, faz com que seja impossível todos terem acesso a este estilo de vida.
O importante é que cada vez mais pessoas se mostram interessadas neste tipo de soluções, querem decidir de forma activa como viverão as suas vidas até ao último momento. Será esse interesse que vai alimentar mais e melhores conceitos, novas ideias, e por isso, acredito que quando for a nossa altura de tomar as rédeas da nossa velhice, não faltarão opções, até mais económicas, que permitam a todos os cidadãos viver a terceira idade com um espírito de férias, focando na felicidade e no que nos faz bem.






quinta-feira, 10 de novembro de 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

crónicas do condomínio: Declaração de amor a um orçamentista



Um dos projectos a serem executados este ano sob a minha alçada será a instalação de caixas de correio exteriores.

O meu sistema é simples: googlo por empresas que forneçam os serviços que procuro por proximidade geográfica, e contacto primeiramente aquelas cujo site me agrada mais. Como devem imaginar não me refiro a um "concurso de beleza", mas à qualidade e quantidade da informação.

No meu contacto telefónico pergunto se realizam tal serviço, informo sobre a minha localização e pergunto sobre a disponibilidade e interesse. Enfim, o básico.

Pois bem, para esta empreitada das caixas de correio contactei uma empresa. Como prometido, passaram mesmo a informação para o orçamentista, e este não levou muitos dias a ligar-me para agendarmos um encontro.

No dia marcado, passavam dez minutos, se tanto, da hora marcada quando o senhor me ligou a pedir indicações, pois a rua que lhe indiquei não aparecia referenciada no seu gps.
Chegou pouco depois.
Em menos de nada saca da fita métrica, faz as medições, avança com as especificações do produto, faz-me perguntas, responde às minhas, abre uma pasta onde lá estava uma ficha com os meus dados onde desenha um croqui, acrescenta o meu mail. Diz-me que me envia o orçamento no dia seguinte. Fala da importância da pontualidade, dos mais de 20 anos de experiência. Exala brio e profissionalismo, e eu aceno que sim, senhor é assim mesmo, que gosto de gente assim.

No dia seguinte, lá estava o orçamento. E um como deve ser.

Para contrabalançar a grande sorte de ter acertado à primeira numa empresa séria, onde não me dizem que o preço "com factura" é X e "sem factura" é W, onde cumprem horários e compromissos, o comercial da empresa da extintores tinha que falhar, não é?

Contactou-me no mesmo dia que o orçamentista da empresa de caixilharia. Finalmente. Para isso acontecer, e após ter ficado à espera que me contactassem durante duas semanas, foi preciso um segundo telefonema da minha parte.
Então lá telefonou e agendámos. Nunca apareceu nem se dignou a telefonar, a justificar-se. Que é o mínimo que as pessoas decentes fazem. Se as pessoas quiserem ser profissionais para além de decentes, telefonam mal sabem que se vão atrasar, para pedir desculpa pelo incómodo e dar hipótese ao cliente de optar pelo reagendamento do compromisso.

Não liguei uma terceira vez.

Mas contactei hoje uma outra empresa, que aquela foi para a lista negra.

A aventura continua.

Uma das minhas vozinhas interiores anda aos berros com esta situação. E o que diz ela?
"Fod*-se! É só a merda de um extintor! Quanto mais trabalho vai dar a merda de um extintor, porra?!"

terça-feira, 1 de novembro de 2016

cromices #139: Visitas de estudo e pão com manteiga



Quando era criança o ponto alto de cada ano lectivo eram as visitas de estudo.

As minhas recordações favoritas neste capítulo remotam à escola primária: visitámos tantos museus e ex libris patrimoniais desde o Museu do Coche, do Traje, da Marinha, da Marioneta, o Aquário Vasco da Gama, o Jardim Zoológico, o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Palácio Nacional de Mafra, o Portugal dos Pequenitos, (tanto o de Coimbra como o de Mafra), a fábrica da Longa Vida, e isto só para citar alguns.

Seria injusto não me recordar das realizadas anos depois, como a ida à Universidade de Coimbra e à Quinta das Lágrimas, que foi talvez a minha preferida de todo o liceu. A Biblioteca Joanina é um assombro e tem o condão de maravilhar os visitantes, especialmente aquando a sua primeira vez.

Mas, tenho que confessar que a época de ouro das visitas de estudo no meu percurso escolar vivi-a mesmo na escola primária. As visitas eram frequentes e os destinos sempre interessantes, o que decididamente contribuiu para que viesse a gostar de museus e monumentos por toda a vida. O lado negativo é que saímos daquela escola mal habituados, habituados a uma rotina a que mais nenhuma outra conseguiu corresponder, quanto mais exceder.

Verdade seja, nos anos seguintes se houvesse uma visita de estudo, decente ou não, por ano já era bem bom. 

O que é uma má visita de estudo? Dois exemplos:

10º ano, as professoras da disciplina de Alemão decidem que, dentro da temática ecologia e afins, uma ida a um centro de reciclagem se enquadraria na perfeição. Na teoria, fantástico. Na prática, das piores secas possíveis, e mal cheirosa.

5º ou 6º ano, visita a um dos Palácios de Sintra, não me recordo com exactidão qual. A expectativa era alta, assim como o entusiasmo. Para além da visita iriam haver actividades especiais, o que justificava o preço pago por cada aluno.
Como estragar algo assim?
Excluindo parte dos alunos. Enquanto alguns foram eleitos para se vestirem à época e enquadrarem vários cenários, onde por exemplo lhes seriam ensinadas danças de época e até curiosidades como a língua secreta dos leques, outros foram para a cozinha do palácio preparar fatias de pão com manteiga para o lanche de todos.

Ainda passados quase trinta anos fico zangada quando penso nesta visita de estudo. Sempre fui apologista do "ou há para todos, ou não há para nenhum".

Arrependo-me de ter sido sempre bem comportada e boa aluna, porque a redacção merecida nesta ocasião teria sido "Não aprendi nada de novo. Passei a visita a cortar pão. Quero o meu dinheiro de volta, e ser paga pelo meu trabalho."





segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Vida de cão: Uma opinião sobre trelas.



As básicas de nylon são terrivelmente abrasivas para as mãos.

É importante que o mosquetão seja sempre em metal, e de boa qualidade. Ninguém precisa que a coisa se avarie ou se parte a meio de um passeio.
Igualmente importante é que as pecinhas estejam cosidas à trela e não somente coladas, pelos mesmos motivos.

As forradas a algodão ou outro material fofinho são óptimas, e giras. O único senão é que sendo lavadas à mão para não estragar o mosquetão, passado algum tempo ficam irremediavelmente feias e encardidas.

Sou alérgica a trelas retrácteis, e nunca irei optar por uma. Um dos aspectos mais chatos da socialização entre cães à trela é que, em 99% das ocasiões, as trelas vão-se emaranhar uma na outra, obrigando pelo menos um dos tutores a enfiar a mão na massa e desembaraçar aquele nó de trelas e cães irrequietos. Certinho garantido que trará, para além do bicho, um par de dedos cortados pela merda do fio da trela extensível.

A minha trela favorita até ao momento foi concebida como um acessório para a prática de desporto com o cão.
Esta acopla-se ao pulso, logo as mãos andam livres, o que me dá imenso jeito nem que seja para manusear mais livre e despreocupadamente o saquinho de apanhar dejectos. É um pormenor que também dá imenso jeito quando se está a esplanar, etc.

Outras duas características que fazem desta trela a merecedora da medalha de ouro entre todas as que já experimentámos, é o seu comprimento regulável, o facto de ser bastante macia e confortável, e ter um segmento junto à zona da coleira que funciona como amortecedor, evitando a brusquidão dos puxões.

Estou mesmo muito satisfeita com este modelo, e até me parece difícil que surja um melhor.






sexta-feira, 28 de outubro de 2016

cromices #138: Para aqueles que começam já a fazer listas de Natal, uma reflexão...


Se Dante fosse nosso contemporâneo haveria todo um círculo do inferno dedicado aqueles que acham boa ideia presentear os petizes com traquitanas barulhentas.

Sabem todos aqueles apitos, gaitas, pifarinhos e afins que por vossa causa tivemos que gramar pelo que pareceu ser uma eternidade, porque vos apeteceu munir uma criancinha de energia inesgotável com tais artefactos, para que esta pudesse partilhar a sua falta de talento com todo o quarteirão?!

Lá, no inferno dantesco, as traquitanas musicais nascem como cogumelos onde o sol não brilha. Para todo o sempre. E não, não é na loja do mestre André. Just saying.