sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

cromices #145: As pessoas são como o caviar, ou todas as moedas têm duas faces.



A minha Mãe tem vários apelidos carinhosos com que me trata. O meu favorito foi sempre, de longe, o de "bruxinha". Sem saber deste pormenor, o meu marido também me trata por um cognome muito semelhante, e a ambos respondo "bruxinha não, bruxa má da floresta, faz favor!", antes de me desmanchar a rir.

Agora lembrei-me que também gosto de "ursa na gruta" de tal forma que estamos perante um empate.
De qualquer modo, são ambos petit noms que me assentam que nem uma luva, e que uso ao peito como um crachá com um desmedido, e talvez exagerado, prazer.
Para além de lhes achar piada acho que revelam parte da minha natureza, especialmente a parte relacionada com introversão e o meu afincado gosto por passar tempo comigo própria, em casa de preferência, perdida em leituras, projectos e pensamentos ou até num estado de graça de dolce far niente.

"Credo! Mas és assim, tão... tão anti-social?!" - perguntarão. Ao que eu responderia, "tem dias". Ou melhor ainda, "tem momentos".

Nada define melhor o meu lado lunar de que a memória de quando li pela primeira vez o "Assim falou Zaratustra". Estava a meio da minha adolescência e a primeira coisa que me ocorreu foi uma inveja do personagem: "Cabrão do velho! Sortudo do caraças! Desce à aldeia só quando lhe apetece mandar uns bitaites e depois volta para a gruta, onde ninguém o chateia!"
Também quero viver numa gruta, pensava eu. É claro que esta teria que ter todos os confortos, do wc ao wi-fi.

Ou ainda uma memória de quando teria uns 3 ou 4 anos, e ia com a minha mãe às compras pela mão, e volta e meia encontrávamos uma senhora na rua, e esta insistia no "dá cá um beijinho", o que era uma autêntica maçada para mim, e eu escondia-me atrás das pernas da minha mãe. E mesmo assim o raio da mulher não se calava com a trampa do beijinho, o que resultou numa espécie de reacção pavloviana, comigo a queixar-me que não queria beijinhos e que ela era chata mal a topava no fundo da rua.
Na verdade comecei a enfadar-me tanto, mas tanto, com a insistência geral em relação a isso dos beijinhos a toda a hora e a todo o momento, que um dia passei-me dos carretos e mordi a bochecha de uma menina, depois de minutos com a minha ama, a mãe da menina e até esta a instar na coisa. E eu, truncas, toma lá! Uma espécie de grito do Ipiranga, de "deslarguem-me a braguilha!"

Não é que não gostasse ou goste de beijinhos, apenas nasci a dar valor à liberdade de os dar quando e a quem quero. Aqueles que eu poupava na rua, levava-os para casa e para sofrimento do meu pai, dava-lhos todos de uma virada. Sentava-me no seu colo, prendia os meus bracitos à volta do seu pescoço, e dizia-lhe "Papá, vou-te dar cinquenta beijos", e o desgraçado do meu pai não se livrava de mim nem um beijo antes.

Quanto aos tipos sociais eu quedo-me exactamente no meio, qual equilibrista na linha que separa a introversão da extroversão que ora pende para um lado ou para o outro.
Há quem só conheça o meu lado mais cordial, simpático, empático, sorridente, conversador, paciente e atenta ao próximo q.b.. Há momentos em que consigo ser tão faladora e maçadora como qualquer outra pessoa, e até demonstro uma comum tendência para a repetição e uma particular incidência nas piadas secas.
São os momentos em que consigo e quero canalizar a minha energia para o mundo exterior, tão genuínos e parte de mim quanto os instantes em que a minha atenção se vira para dentro, para o mundo interior, para mim mesma, e se fecha ao que vem de fora.

São faces da mesma moeda, um não existe sem o outro. Em mim, com tudo o que isso implica, não existe lado solar sem lado lunar. Quando não respeitam o meu lado lunar, a face solar eclipsa-se.

Quando tenho que interagir gosto especialmente de o fazer com a minha faceta solar. Gosto genuinamente de pessoas e é igualmente verdadeiro o sorriso que ponho na cara para todos. Existe um esforço da minha parte para dar o meu melhor nessas ligações, para prestar mesmo atenção às conversas, e demonstrar real interesse mesmo que o tópico não seja dos meus favoritos, ou que já esteja a ouvir pela segunda ou terceira vez o mesmo discurso. Obrigo-me a estar disponível, presente, a ser tão positiva quanto consiga, porque acho que é assim que tem que ser, que tanto eu como as outras pessoas merecem essa qualidade, essa intenção, aquando os nossos contactos. Não se trata de fingimento, mas de canalizar o melhor que temos para oferecer naquele determinado momento.

E há quem só me conheça assim: basicamente são as pessoas que me permitem apreciá-las como caviar, ou qualquer outra iguaria especial que preste à metáfora por se dever degustar com parcimónia, uma colherzinha de cada vez.

São as que entendem que não devem insistir em mais chamadas quando desligo a primeira, porque depois da segunda tentativa, especialmente se for de seguida, sou bem capaz de desligar o telemóvel durante uma semana. Que quando digo não ter disponibilidade para vídeo chamadas naquele momento, e voltam a insistir, fazem com que me desligue de qualquer chat por tempo indeterminado. Que quando se cruzam comigo saberão que há dias em que não dá para mais que a troca de um cumprimento, e não insistem em despejar-me um monólogo em cima, para o qual não terei naquele momento nem tempo nem paciência. Especialmente se for às 7h da manhã, por Deus! Que querendo obrigar-me a sujeitar-me à sua vontade ignorando a minha, obrigam-me a ser descortês, o que me desagrada igualmente.
São as que entendem que para pessoas como eu a existência de afectos não depende de se falar todos os dias, ou todas as semanas, ou até todos os meses. Que não querer estar sempre a conversar não é, de todo, o mesmo que estar zangado, ou doente, ou mal. É simplesmente ter uma personalidade e necessidades diferentes. O que a uns energiza e dá prazer a outros cansa.
Uma colherzinha de caviar pode ser uma iguaria, para alguns, mas se vos fizerem comer toda uma tigela de enfiada, não será mais que algo gelatinoso e salgado.







segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

coisas de jogar #7



Stardew Valley

Falar de Stardew Valley é começar por falar de Eric Barone, ou melhor ConcernedApe, que desenvolveu o título completamente sozinho, durante 4 anos, o que implicou frequentes jornadas de 10 horas. ConcernedApe dedicou-se à elaboração de todos os componentes do jogo, em todas as suas fases, desde a programação, à pixel art, ao som.
Não só é fantástico ser uma só pessoa a abraçar a colossal tarefa que é o desenvolvimento de um jogo, como não estamos a falar de um profissional com carradas de experiência e um currículo extenso, mas de alguém que não tendo encontrado emprego na sua área quando terminou o curso, dedicou-se a este projecto também como forma de afinar as suas capacidades. Igualmente incrível é que em 2016, aquando o seu lançamento, foi um sucesso imediato, (ultrapassando em meses um milhão de vendas), como foi nomeado para vários prémios, inclusive o do melhor jogo indie do ano.

História à parte, é um bom jogo, e recomendo-o!








quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

caixa de ressonância






coisas que gosto: Billions in change e a bicicleta que produz energia



Manoj Bhargava é um bilionário indo-americano que fez fortuna com uma bebida energética.
Em 2015 juntou-se à campanha The Giving Pledge, iniciada por Bill Gates e a sua mulher em 2010, que consiste numa lista crescente de pessoas que se comprometem a doar a maior parte da sua fortuna, ainda em vida ou após a morte, a causas filantrópicas.

Com o apoio financeiro de Manoj surgiu a Billions in Change - um movimento que visa desenvolver soluções simples nas áreas da energia, água e cuidados de saúde, com o objectivo de tirar biliões de pessoas em redor do mundo da extrema pobreza, e assim melhorar de toda a população global - pobres e ricos.
A crença desta organização é que facultando soluções tecnológicas simples que satisfaçam necessidades básicas como água potável para consumo e agricultura, energia limpa e gratuita para as habitações, escolas e negócios, e o acesso a cuidados de saúde cuja filosofia é a prevenção, é o caminho correcto para retirar cerca de metade da população mundial de uma situação de extrema pobreza e desigualdade para com a outra metade.

Uma das maiores apostas da BiC é a Hans Free Electric, uma bicicleta estacionária que segundo afirmam, basta pedalar durante uma hora para produzir electricidade para um dia inteiro para uma habitação.
Existem muitos engenhocas pelo mundo que apresentam variações desta tecnologia, as opiniões diferem sobre as possibilidades, o melhor caminho, etc. Mas, embora todo o produto possa ser afinado para ser melhor, gosto do conceito, da mudança que este modelo representa já para a paupérrima população da Índia rural.

Sobretudo aprecio o potencial: quantas bicicletas estacionárias existem por este mundo fora, não seria fantástico se aproveitássemos todo esse movimento para produzir energia, gratuita e não poluente?

Pois eu cá adoraria ter uma em casa: imagino-me a pedalar enquanto estou aqui convosco, por exemplo, aproveitando para poupar na conta da electricidade.









segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

cromices #144: Do marketing...



Demorei anos para perceber que gosto imenso de Marketing, e não só de Publicidade.
Demorei ainda mais tempo para concluir que talvez tenha sempre gostado de Marketing, e que a minha crença anterior não teria passado de um equívoco.

Sabem, é que é muito fácil acreditar que não se gosta, neste caso, de Marketing, quando muitas empresas que supostamente procuram alguém para esta área, na realidade procuram é um pau para toda a obra, que acaba por fazer de tudo... menos Marketing.

Quando vivemos livres dessas empresas, o amor regressa.

Aqui há dias, de uma forma totalmente casual e inesperada, no meio das minhas rotineiras deambulações, regresso a casa com um contacto de uma empresa, dada em mãos pelo próprio.
"Preciso de alguém nessa área" - diz-me, em inglês.
Pergunto-lhe a área de actuação. Responde-me com o site da empresa, e pede-me que lhe envie depois o meu mail.

Chego a casa, e pesquiso a empresa. Uma simples pesquisa revelou alguns elementos. Para mim, mais revelador e determinante que qualquer informação institucional, foi a descoberta de um par de anúncios de emprego já com alguns anos.
No primeiro anúncio esta mesma empresa procurava alguém a tempo inteiro, um(a) funcionário(a) de limpeza. Até aqui tudo bem.
O problema reside na secção onde se descreve os requisitos e perfil que se procuram no candidato: tinha que ter viatura própria, conhecimentos de inglês, de informática... Ou seja, que seja pau para toda a obra, capaz de imensas coisas que excedem os conhecimentos necessários para a execução de limpezas, mas pago somente como tal, como é de prever.

Os outros anúncios não diferem muito deste.

Para mim, este tipo de anúncios dizem-me mais sobre uma empresa que qualquer outra coisa. E mal.
São o tipo de empresas, com as quais aprendi por experiência própria, que o único lugar que têm na minha vida, é na minha lista negra.
Mesmo assim, enviei o meu mail, embora não tenha obtido até ao momento qualquer resposta.

Começaria por lhe pedir uma descrição exaustiva e transparente das funções que esta pessoa imagina incutir neste alguém que procura "para o marketing". Receberia depois da minha parte uma lista de serviços a que o Marketing se presta e um preçário, uma estimativa de orçamento, e o contacto de algumas agências especializadas.
Até tenho pena de não ter recebido o tal contacto. Teria todo o gosto em lhe dar, absolutamente grátis, a lição que o trabalho paga-se condignamente, e que há que respeitar todo o especialista, seja médico, advogado, arquitecto, ou marketeer.




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

coisas de opinar: Um aumento de imposto com o qual concordo.



Trata-se do recém criado Imposto sobre açúcares.

Este determina que às "bebidas adicionadas de açúcar ou edulcorantes" como é o caso dos refrigerantes será cobrado um imposto adicional.
Este divide-se em dois escalões, dividindo os produtos quanto à quantidade de açúcar adicionado: às bebidas com até 80 gramas de açúcar por litro, o imposto cobrado será de 8,22 euros por hectolitro (100 litros). Se a quantidade de açúcar for superior, o imposto passa a ser 16,46 euros. Ou seja, por cada litro de refrigerante o valor do imposto será 8,22 ou 16,46 cêntimos.
Para além dos refrigerantes, esta medida englobará também bebidas de baixo teor alcoólico (de 0,5% a 1,2%) como as sidras e o hidromel.
As bebidas doces à base de leite, assim como os néctares e sumos de fruta não estão incluídos neste imposto.

Os comerciantes devem contabilizar o seu stock destas bebidas e comunicar os dados ao fisco, pois terão até 31 de Março para vender os produtos adquiridos antes da promulgação desta nova taxa, sem a pagar. A partir de 31 de Março, pagarão imposto mesmo sobre o stock antigo.

Cabe às empresas do sector a decisão sobre se o imposto será pago por estas ou pelo consumidor.

Obviamente que as empresas do sector não estão satisfeitas porque esperam uma descida no consumo. Mas, o objectivo desta medida por parte do Governo é exactamente essa: diminuir o consumo de bebidas açucaradas pelo simples facto que estas prejudicam a saúde.
Por esse motivo sou totalmente a favor deste imposto, e também me agrada sobremaneira que as receitas geradas por este sejam direccionadas para o orçamento do ministério da Saúde. Estamos a falar de uma previsão de cerca de 80 milhões de euros.

Espero que a maioria das pessoas já esteja ciente dos malefícios para a saúde do consumo de açúcar em excesso, e que todas as bebidas contempladas pelo imposto usam na sua composição quantidade completamente abusivas e aberrantes e que devem ser, se não riscadas dos hábitos pelo menos consumidas com moderação. Aliás, já tínhamos abordado este tema por aqui, em 2013.

Este é um passo evolutivo, é um imposto com raíz numa boa causa.  As empresas do sector que se adaptem aos novos tempos, que invistam no desenvolvimento de produtos amigos da saúde. Da mesma forma que não se usa amianto na construção de casas modernas porque se chegou à conclusão que este é cancerígeno, isto não é diferente.

Só lamento que tenha faltado a coragem para estender este imposto às bebidas alcoólicas. O lobby é forte, afinal somos um país de bêbados, mas um dia chega-se lá.
Frustra-me, choca-me e indigna-me que em qualquer café, uma cerveja, por exemplo, seja vendida quase ao preço de um café, seja mais barata que uma garrafinha de água, (que deveria ser a bebida mais barata do mundo), e bastante mais barata que um sumo de fruta ou néctar, ou até chá. E quando falamos de um sumo de laranja natural a comparação é tremenda: pelo preço que alguns estabelecimentos cobram por este dá para comprar 3, 4 , 5, 6 cervejas...



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

coisas de opinar: As hienas de Harar e as raposas de Portugal.



Ontem assistimos, deliciados e estupefactos, a um documentário da vida animal passado na vila etíope de Harar, sobre a relação incomum entre os seus habitantes e as hienas.
No passado, por falta de alimento no seu habitat natural, as hienas sentiram-se forçadas a migrar das montanhas para as redondezas desta vila. Naturalmente, começaram os ataques a rebanhos e talvez a humanos.

Como acontece ainda hoje em dia, uma vez por semana, o conselho de sábios reuniu-se para meditar sobre uma solução para este problema. O fantástico é que em tanto lugar do mundo, na maioria acredito, a solução encontrada passaria por exterminar as hienas. Mas não em Harar!
Isto passou-se há uma centena de anos: a solução definida pelos sábios de Harar foi que se passasse a alimentar as hienas.

Em vários pontos da vila são deixados recipientes com uma espécie de pudim de cereais bem regado com manteiga, mas o verdadeiro fenómeno reside na existência de homens que alimentam as hienas à mão, dando-lhes pedaços de carne, com a ajuda um pauzinho. Que as chamam assobiando, que as conhecem e lhes deram um nome, e cujo chamado elas reconhecem.



Criou-se uma inesperada harmonia entre animal selvagem e humanos, que atrai curiosos de todo o mundo. O que começou por ser um gesto nascido da necessidade para preservar vidas humanas e rebanhos, sem abdicar do respeito pela vida e compaixão, cresceu para uma relação que se pode até chamar de afectuosa.
As hienas andam à vontade pelas ruas da vila, as pessoas passam por elas como se nada fosse. Têm-lhes carinho: confessam que olham para estas como amigas, cães. Que tal como os cães estas parecem entender o que lhes dizem.
No documentário há vários momentos destes, desde uma senhora que já não consegue dormir descansada sem os sons das hienas, uma mãe que leva uma criança para as ver mais de perto, o jovem alimentador de hienas de somente 19 anos que depois da primeira noite em funções diz nunca se ter sentido mais entusiasmado e feliz, de como fala da vitória que é a lenta conquista de confiança em que o animal vem buscar o seu pedaço de carne e permite um afago.

Criaram superstições e crenças animalísticas em que a hiena é um espírito protector, que os salva de demónios e djinn. Há sempre uma base de verdade nos mitos e a mim pareceu-me que a protecção atribuída à hiena é o seu papel na ecologia: por exemplo, os restos provenientes dos matadouros são deixados numa colina, e os cães e hienas comem todos os restos. E por incrível que pareça, em companhia uns dos outros, sem ataques.
Há cães, gatos, e crianças, e todos andam livremente pelo espaço. À noite as pessoas recolhem às suas casas, e a presença das hienas intensifica-se nas ruas da vila. A tv mostra a imagem de uma hiena que acelera para se desviar de uma matilha de cães mais atrevidos. Quisesse ela e comia um deles só com uma dentada. Simplesmente não esteve para isso.

Acho que já deu para pintar o cenário das hienas. Posso passar agora às raposas.
Porquê as raposas, e em Portugal, como escolha de tema?

As redes sociais inflamaram-se quando se espalhou nas mesmas o anúncio de uma "batida" organizada pelo clube de caça e pesca de Santa Tecla, Famalicão, com data marcada para 26 de Fevereiro.
Como em tudo, as opiniões dividiram-se e ambos os lados fizeram-se ouvir.
Na defesa do evento, o presidente do tal clube afirmou que a grande motivação do evento é "desportivo", que é um desporto como outro qualquer, que é algo que já se faz desde a época dos reis.

Mais aqui.

Eu cá sou absolutamente contra a caça desportiva. Aliás, a abolição desta é uma das minhas causas.
Não acho plausível nenhum dos argumentos utilizados como tentativa de justificação de práticas que residem na busca de prazer através da crueldade. Isso, nos dias de hoje, para qualquer cabeça sã não é mais que sinal de psicopatia.

Usar a tradição como argumento é vão: a antiguidade de uma prática não justifica a sua perpetuidade. Unicamente o carácter desta define a sua continuidade.
Felizmente existe algo chamado evolução, e o que foi um dia aceitável, no futuro deixará de o ser. Caso não o fosse não se lutaria pelo fim da prática da mutilação genital, das touradas, dos circos com animais. Caso não o fosse nunca teria sido abolida a escravatura, nem se teriam redigido declarações como a dos Direitos Humanos ou da Criança, continuariam a haver tribos canibais, sacrifícios humanos, serviríamos um senhor feudal que teria total domínio sobre a nossa pessoa e vida, e por aí fora. Afinal tudo isto e muito mais pertence a uma lista de antigas práticas, logo tradicionais, certo?!

Sim, tristemente por vezes a caça parece a última solução em determinadas situações. Por exemplo, nos casos extremos em que uma espécie invasora chega a um território, geralmente sempre por mão humana, e por não pertencer aquele habitat, não ter predadores, todo o ecossistema, todas as outras espécies correm um enorme e bem real perigo de desaparecerem. Um desses exemplos é a presença do peixe-gato em várias zonas onde este não é nativo. Mas não deixa de ser uma triste intervenção na tentativa de corrigir um enorme erro humano. Aliás, quando decidimos interferir o resultado não costuma ser bom.

Outra situação é o recurso à caça como meio de sobrevivência. Nem todas as pessoas do mundo vivem numa sociedade onde há mercearias e hipermercados à esquina. Existem ainda lugares em que se não caças, não comes, e se não comes, morres.
Mas essas pessoas, como não faltam documentários que as apresentam aos nossos olhos, são muito diferentes dos caçadores desportivos. Estas fazem-no por verdadeira necessidade, muito provavelmente ficariam horrorizadas perante alguém que o faz somente por prazer, porque melhor que muita gente, sabem que se tirarem da Natureza mais do que aquilo que necessitam, na conta da frugalidade, gera-se um desequilíbrio do ecossistema. Que o respeito pelas outras espécies é indispensável à sua, que não são mais importantes que qualquer uma das outras espécies com quem partilham aquele espaço. Que o ego é sinal de tolice.

Para terminar, deixo-vos com um par de vídeos protagonizados por raposas, esses seres maravilhosos, e pensem lá se concordam ou não com a caça desportiva, se se imaginam em sua perseguição.












terça-feira, 24 de janeiro de 2017

coisas da casa: Não é seguramente a mais bonita, mas gostamos tanto dela!



Aqui há tempos, quando decidimos remodelar o escritório, decidimos aproveitar um dos sofás que nos havia servido na sala como solução temporária.
O pequeno sofá de dois lugares em rattan com almofadas brancas tinha o tamanho perfeito para aquela parede. Ao lado das estantes, e no recanto em que o sol da tarde bate com toda a sua força, providenciaria um perfeito recanto de leitura.

Era uma solução temporária porque o pequeno sofá sofria do pecado capital de não ser lá muito confortável embora fosse giro, e após anos de uso, e de imenso abuso por parte dos nossos saudosos gatos, estava mesmo pronto para a reforma.

Então o que colocar em seu lugar? - era a questão.

Corremos lojas de mobiliário. Apercebemo-nos que o espaço que tínhamos disponível iria ser um imenso entrave se a opção fosse um outro sofá: os confortáveis eram invariavelmente grandes demais, e os pequenos demasiado desconfortáveis.

Percorremos o dicionário dos assentos à procura de inspiração: otomanas, chaises-longues, cadeirões, cadeiras de baloiço, ou qualquer outra coisa que pudesse servir com alguma imaginação aquele propósito, de camas a bancos, ou até arcas...
Mas do que as lojas nos ofereciam, ou não partilhávamos da mesma opinião, do mesmo gosto, ou era demasiado caro para um simples assento para o escritório, ou não era suficientemente confortável, ou...

Concordámos que o conforto seria o atributo basilar. E aí o marido lembrou-se que queria mesmo um daqueles cadeirões de massagem.
Resisti ao início, mas depois rendi-me.

Estas poltronas não são propriamente as mais bonitas, embora também não sejam uns monstrengos. Mas, o que lhes falta em design, compensam largamente em conforto. De tal forma que passado algum tempo achámos que a melhor opção seria coloca-la na sala, por ser a divisão em que passamos mais tempo e assim dar-lhe mais uso.

Estamos completamente rendidos. Como sabe bem esticar as perninhas na poltrona, tapada com uma manta fofinha, a levar uma massagem, com ou sem calor, enquanto leio um livro ou vejo um filme.
Recomendo.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

cromices #143: O que fizeste no primeiro mês do ano?



Na manhã de Natal acordei doente. Uma gripe com direito a todos os tradicionais sintomas, das dores no corpo à garganta irritada.
"Fruta da época" - chamei-lhe eu, na brincadeira. Afinal temos passado por dias excepcionalmente frios e não havia canal de televisão que não noticiasse o quanto o vírus andava por aí em força.
Muni-me de agasalhos extra, sopinhas e chás quentes, dose reforçada de alimentos fonte de vitamina C, aspirina para ajudar a amenizar os sintomas, e acima de tudo muita paciência e sentido de humor, essenciais para quem, como eu, tem um organismo que demora a curar-se destas coisas.
Andei com todos os cuidados a desinfectar com maior frequência a casa na tentativa de não a pegar ao marido. Mas o que ele não apanhou em casa, apanhou no trabalho.
Dois doentes em casa. Com a passagem dos dias ele ia melhorando, felizmente, e eu nada. Não estranhei porque, normal ou não, o meu organismo demora mesmo mais tempo a restabelecer-se. Nem estranharia, não acordasse numa manhã num estado perfeitamente lastimoso, em que qualquer leve menear de cabeça provocava-me mau estar e dava-me vómitos, em que tremia de frio mesmo debaixo de grossas camadas de edredons e mantas.
"Queres que te leve ao hospital?" - perguntava ele.
"Credo! Nem pensar!" - respondia eu, só de pensar em fazer uma viagem de carro com tanto enjôo e frio, para depois enfrentar uma espera de 3 ou 4 horas, na melhor das hipóteses. Vinha-me à mente a notícia que reportava há pouco tempo períodos de espera na ordem das 13 horas, e parecia-me o pior dos infernos dantescos.
"E ao centro de saúde?" - insistia o marido. Voltei a recusar pelos mesmos motivos.
No entanto precisava mesmo de ser vista por um médico, que isto não ia ao sítio só com chá e aspirina. A brilhante solução residiu em marcar uma consulta ao domicílio, e foi realmente o melhor: numa hora e meia, assim como prometido por telefone, tinha à porta a figura amável e zen do Dr. Arlindo.
Eu que nunca tinha utilizado esta coisa das consultas ao domicílio fiquei fã. Fui examinada com todos os cuidados e amabilidades, sem pressas. O doutor diagnosticou-me uma faringite, passou-me um receita com antibióticos, xarope e paracetamol. Ainda me deu o número de telemóvel para que lhe pudesse ligar em caso de surgir alguma dúvida ou qualquer outra questão.
O marido foi incansável: veio à hora de almoço, trouxe-me almoço, foi passear o Kiko e foi à farmácia aviar a receita. Durante dias foi ele a tratar do nosso jantar, das compras, da louça e de tudo o que houvesse para fazer, inclusive de todos os passeios matinais e nocturnos com o cão, estando ele próprio ainda em recuperação.
O Kiko foi excepcional: parecendo conhecer o meu estado, deixou de ser o espalha-brasas mexilhão do costume, e passou todos os dias deitado ao meu lado, a guardar-me.
Os meus pais, idem: a minha mãe ligava-me todos os dias a oferecer-se para tudo e mais alguma coisa, e eu, como sempre, ciosa das minhas bactérias, a reforçar a ideia que o pior que lhes poderia acontecer é apanharem o mesmo que eu. Que nem pensar em correr o risco de lhes pegar, que isto podia até ser fruta da época, mas não era pêra doce.
Passado quase um mês sinto-me de regresso ao mundo dos vivos, embora ainda não esteja a 100%. Imensamente grata por ter quem cuide de mim nestas alturas. Pela recuperação da saúde. Pela eficácia dos medicamentos.
Pelo sim, pelo não, continuarão a ver-me na rua com trajes que mais parecem de alguém que vai para a neve. Podia ser pior: confesso que só não ando de balaclava por vergonha, que vontade não me falta.
Espero não apanhar nada durante os próximos tempos. Honestamente, tendo em conta que já passei 1/12 do ano doente, acho que merecia estar imune a tudo e mais alguma coisa nos próximos dois anos, no mínimo!


cromices #142: Como te compreendo, miúdo!



Calhou observar, da janela, a tentativa de um dos meus vizinhos de sentar o filhote no carro.
A criança ia visivelmente descontente. Chorava. O pai tenta acalmá-lo em vão. Solta um lamento: "Casa! Caaaaaaaaasa!"

Como te compreendo, miúdo! Especialmente nas manhãs de Inverno.



sábado, 7 de janeiro de 2017

coisas sobre mim: Das resoluções de ano novo



Não guardo a tomada de resoluções para o ano novo. Sou mais de improvisos.

Não há quem me conheça tão bem quanto eu, portanto sei melhor que ninguém que não é por ditar uma lista de pontos, apelidá-los de algo tão sério quanto resolução, que me fará concretizá-los. Pelo contrário: sei tão bem o que a casa gasta, que fazê-lo seria convidar o meu lado rebelde a sabotar aqueles propósitos, só porque sim. Afinal quem sou eu para me dizer o que fazer?! Ou seja lá o motivo que leva os rebeldes a serem-no.

Também faço resoluções, não têm é hora marcada para acontecer. Aparecem. Entenda-se por estas alterações, grandes ou pequenas, que começam no pensamento e derivam na acção, motivadas por um qualquer desejo. É comum e bastante popular o desejo de se querer ser simplesmente melhor.

Há mais ou menos década e meia, adoptei como resolução que iria sorrir mais, sorrir muito, sorrir sempre, independentemente de receber esses sorrisos de volta. Hoje, essa resolução é-me intrínseca, faz parte mim, e nem me imagino a conseguir ser de outra maneira.

Mais ou menos na mesma altura decidi igualmente que iria tomar atenção nos pequenos detalhes do mundo, procurar beleza nas pequenas coisas, reparar em flores, pequenos pormenores que nos passam geralmente despercebidos. Isso deu-me combustível para ultrapassar uma das épocas mentalmente mais desafiantes e complicadas que já tive. E hoje é uma das minhas filosofias de vida.

Também passei a dizer mais vezes "amo-te". Não precisa ser literalmente um "amo-te", pode ser outra qualquer expressão, mesmo que meio tonta mas que o expresse. Faço-o todas as manhãs quando o marido sai para trabalhar, por exemplo.

Este ano, após ter abordado uns vizinhos sobre algo que me incomodava grandemente, surgiu mais uma. Na minha mente tinha imaginado um diálogo racional e sereno. Saiu uma discussão emocional. Não gostei.
Como nunca mais quero perder a serenidade, independentemente do que se passa do lado do receptor, então decidi, que quando estou "naquela semana" em que por questões sobretudo biológicas e hormonais sou toda emoção e temperamento, então basicamente vou fugir de diálogos, debates, negócios, reuniões e etc durante essa altura.
Estou resoluta.