segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Coisas de pensar: Tratar da Saúde.



Desculpem lá a ausência dos últimos dias. Entre afazeres e convalescença, o tempo e a energia, acima de tudo, têm escasseado.

Hoje apetece-me partilhar um raciocínio convosco.

A minha curta memória leva-me a crer que estamos a vivenciar um ponto historicamente baixo na qualidade da saúde em Portugal. Confesso que nem sequer tenho andado a seguir atentamente os noticiários, e que até desde que me lembro de ser gente sempre existiram motivos de queixa sobre o sistema nacional de saúde.
No entanto, apanhar, mesmo que de viés, notícias sobre pessoas que morreram nas urgências enquanto esperavam, (longas horas), para serem atendidas, é algo demasiado "terceiro-mundista", algo que nunca imaginei que fosse possível acontecer no nosso país, mesmo nas piores alturas.
Portugal, Europa, no século XXI! Como é possível?!


Um dia, já nem me lembro exactamente há quanto tempo, reflectia sobre o associativismo. Concretamente sobre o que poderia um grupo de comuns cidadãos atingir se se organizassem. Poderia ser o associativismo uma possível resposta, (não a única, mas uma das possíveis), aos vários problemas sociais?

Aconteceu essa deambulação muda e solitária em mesa de esplanada levar-me ao tema "cuidados de saúde".
Decerto muita gente julga que associativismo e saúde não combinam, visto que existe o serviço nacional de saúde e é da competência do Estado esta gestão, da sua responsabilidade resolver os problemas, fazer acontecer. Se enquanto cidadãos pagamos impostos também para este fim, porque haverá o cidadão comum de fazer algo para além de reclamar e reinvidicar um melhor serviço?!

Esta linha de pensamento, que alguém já partilhou comigo, não a considero errada. Decidi foi, na minha reflexão, partir da hipotética premissa em que os cidadãos são proactivos, organizados, investem na resolução de problemas de forma independente e paralela ao Estado, pois o objectivo não é substituir este, (nem neste caso substituir os provedores de cuidados de saúde sob tutela estatal ou até privada), mas atacar um problema em duas frentes, testar possíveis soluções.
Basicamente pessoas que se mexem quando vêem que a coisa está a entrar no lodo ao invés de se deixarem enterrar no mesmo sem nada fazer.


Acompanhem, por favor, o meu raciocínio:

Diz que a localidade onde habito tem cerca de 2400 habitantes.
Diz que, no nosso país, cada médico de família tem a seu cargo uma lista de 1900 utentes.
Diz que, o salário bruto de clínicos gerais no SNS é no máximo de 2974 euros, o mínimo ronda os 1390 euros.
Diz que, o salário de um enfermeiro (após os cortes) vai dos 1100 aos 2500 euros.


Se os 2400 cidadãos habitantes da minha localidade pertencessem a uma associação, sei lá, de moradores ou com qualquer outra denominação, em que cada um pagaria, sem falhas, 5 euros mensalmente, existiria um plafond mensal de 12000 euros. A meu ver, quantia mais que suficiente para contratar dois médicos de família, dois enfermeiros, um espaço, serviços de limpeza, um responsável ou dois pelo acolhimento e agendamento dos utentes, água, luz e afins.

Uma equipa de profissionais que sobretudo entenda que ali está a trabalhar directamente para aqueles cidadãos/ utentes, que são eles que lhes pagam o salário, que ali não se vivem os maus vícios do estatal nem do privado, que não é "o da Joana". Que há regime de exclusividade, para não dar azo a despachar o utente às pressas, nem andar a encaminhá-los para o consultório privado. Que se lembrem da sua vocação, do motivo porque decidiram que tinham perfil para a área da saúde.

O facto de ser fruto de uma associação de cidadãos, uma coisa em pequena escala, resultaria num contexto de microgestão, a meu ver positivo, onde os relatórios de contas e de desempenho seriam do conhecimento dos 2400 utentes/ cidadãos/ associados. Relatórios onde seriam discriminados até à última gaze, caneta ou embalagem de detergente.

O preço de cada consulta ou serviço prestado seria o menor possível, quase simbólico, variando conforme os materiais utilizados. A ideia é cada utente pagar o que gasta. Uma consulta para quem vai mudar um penso, em que se gastam gazes, desinfectantes e outros itens, tem de ser mais cara do que aquela em que o utente é somente auscultado.

Quanto ao espaço, não precisa de ser uma clínica numas instalações topo de gama. Basta que tenha espaço para sala de espera, wc, divisões possíveis de serem usadas como salas de enfermagem e consultórios. Que seja higiénico, prático e adequado às funções.

Dois médicos de clínica geral neste caso, significaria uma lista de 1200 utentes para cada um, bem abaixo dos 1900 da média nacional.

O objectivo não seria substituir os centros de saúde tradicionais, pertença do sns, mas providenciar um serviço complementar, alternativo, gerido pelo mesmo grupo de cidadãos que usufruem do serviço. A existência de uma associação desta traria enormes vantagens para a população e até para o centro de saúde da zona.

Para os primeiros, e os mais importantes, a ideia seria ressuscitar o antigo conceito de médico da aldeia: ter serviços primários de saúde à porta de casa, qualquer que seja a cidade, vila ou aldeia.

Se acham que é por preguiça, pensem por momentos na nossa população envelhecida, de como tal coisa os iria beneficiar. Poder ir medir a tensão, ir a uma consulta, receber algum tratamento ou cuidado sem a dor de cabeça da deslocação, que para estas pessoas tantas vezes implica gastar dinheiro num táxi ou ter que chamar os bombeiros.
Pensem nas crianças, e de como facilitaria a vida aos pais estarem a dois passos do médico. Poder levar os miúdos a uma consulta durante a hora de almoço sem ter que faltar ao trabalho, por exemplo.

Imaginem como funcionariam melhor os centros de saúde e hospitais com menos gente para atender. Se realmente as situações menos exigentes, de menor importância soa mal mas que seja, ou parte destas fossem resolvidas sem o seu envolvimento, poderiam direccionar a atenção e os recursos para casos de maior gravidade, e o tempo de espera nestes locais não seria tão longo e desesperante.

E como algum comodismo até é bom e sabe ainda melhor, imaginem-se constipados, só que ao invés de estarem numa sala de espera de um hospital ou centro de saúde, sendo apenas um de muitos e sem perspectiva de se despacharem tão cedo, estão mesmo ao lado de casa, parte de uma fila bem menor. Ou se fosse desenvolvida uma app, poderiam até estar em casa a observar a rotação dos números de senha em tempo real, e só sair quando fosse quase a vossa vez.

É apenas uma ideia, mas gosto dela.
Poderia ser adaptada de tantas formas, servindo as muitas necessidades que existem por aí e que me inspiram. Penso nas pequenas aldeias do nosso universo rural, interior, muitas povoadas por apenas umas dezenas ou centenas de idosos, e imagino um consultório numa carrinha - uma unidade móvel de saúde - e uma dupla médico / enfermeiro a percorrê-las, a levar os cuidados de saúde a todo o lado, a todas as pessoas que deles necessitam. E aqui mesmo em Portugal, sem necessidade de ir a destinos exóticos de terceiro mundo, porque aqui também faz falta e cada vez mais de uma forma gritante. Bravo a quem faz, a sério, seja lá onde for. Não esqueçam é que por aqui também existem necessidades.

Faz sentido para mim imaginar os prestadores de saúde afastados do comodismo dos seus gabinetes, do mundinho dos senhores doutores e rebéubéu pardais aos ninho. Seria bom para eles e para todos nós ter motivos para nos lembrarmos porque raios se diz que a saúde é uma vocação, mais que uma carreira.