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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

coisas de pensar: Óbidos e a Eurodisney




Ontem, quando fazíamos um zapping entre os programas noticiosos na esperança de encontrar mais notícias sobre o incêndio na serra de Sintra, ao invés de alguém a falar de "bola", (que é coisa que cá por casa não suscita interesse, e honestamente, a meu ver, houvesse bom senso e não teria lugar nos programas noticiosos, mas sim naqueles dedicados ao desporto), demos de caras com a simpática figura de uma habitante da vila de Óbidos, maravilhosa pérola do nosso Portugal, que desabafava que hoje em dia não se encontra na vila quem satisfaça as necessidades básicas de quem lá habita, visto que é tudo virado para o Turismo.

Ora bem, o Turismo quando vivido com sustentabilidade, com "conta, peso e medida", é uma prática maravilhosa que resulta numa série de benefícios, tanto para quem visita como para quem é visitado.

Aliás, é uma prática que só tem cabimento se se converter numa melhoria da qualidade de vida de quem já habitava aquele lugar. Porque quando os nativos de um qualquer lugar passam para segundo plano em detrimento dos turistas, quando as decisões tomadas tornam a vida do quotidiano mais complicada, se não impossível, estamos a transformar aldeias, vilas e cidades em parques temáticos, em atrações turísticas como a Eurodisney e outros tantos, lugares feitos para se visitar mas nunca para serem habitados, onde quem lá resiste não é mais que um figurante.





segunda-feira, 20 de agosto de 2018

coisas de pensar: Da Lógica #3



Se a missão prioritária das escolas é transmitir aos alunos competências para a vida, pergunto-me porque é que quando se desenvolveu um currículo para a disciplina de Educação Física, a escolha não recaiu sobre a natação.

Não é retirar primor a qualquer outro desporto, mas a verdade é que nunca passei por um único momento na minha vida em que tenha pensado "Ufa, ainda bem que tive umas quantas aulas a atirar bolas de basquetebol ao cesto. Nem sei o que teria sido de mim agora se não soubesse driblar! Salvou-me mesmo o dia!".

Embora todos os desportos nos tragam benefícios, nem que seja o combate óbvio do sedentarismo, a natação como "competência para a vida" bate-os a todos, porque para além de ser um dos exercícios mais completos e benéficos para o organismo, dá-nos uma ferramenta de sobrevivência que é inquestionavelmente útil em todos os estágios da vida.

A prática de exercício físico é fundamental desde a mais tenra idade porque todas as crianças precisam que lhes sejam providenciadas as ferramentas para entenderem o seu próprio corpo, e desenvolverem as suas capacidades motoras. A prática de exercício é ainda uma excelente aliada do processo cognitivo, ajudando a assimilação e compreensão das disciplinas teóricas.
A natação, especificamente, é um desporto que por não envolver grande desgaste ósseo pode ser praticado em todas as idades; fortalece o sistema cardiovascular e as articulações, melhora o sistema respiratório.

A outra miríade de desportos teriam lugar naquilo que chamam Desporto Escolar, e aí sim, poderia haver todo o tipo de experiências só pelo benefício e gozo da própria experiência em si.

Se o ano lectivo tem a duração de 180 dias (?), o que dá cerca de 26 semanas por ano, com duas aulas de por semana desde o primeiro ano do ensino básico, todos os alunos chegariam ao final do 9º ano com 468 aulas de natação. Mais que suficiente para que, mesmo quem opte por abandonar os estudos somente com o ensino obrigatório, saia da escola como um nadador bastante razoável, e porque não até o certificado de curso de primeiros socorros, e o curso de nadador-salvador?

sábado, 18 de agosto de 2018

coisas de pensar: Da Lógica #2



Faz-me muita confusão que em 2018 ainda não seja obrigatório, especialmente para as novas construções, a colocação de um sistema de microgeração de energia, através da colocação de painéis solares fotovoltaicos, com vista ao autoconsumo e à venda da energia excedente.

Outra coisa que deveria ser obrigatória: as casas terem "de origem" uma solução de aquecimento o mais ecológica, económica e eficiente possível, tipo salamandra a pellets ou algo análogo. Isso e janelas eficientes.

Ganhava o ambiente, o bem estar das famílias e a economia tanto destas como do país.

O mercado imobiliário não pode girar somente em redor da especulação e do dinheiro, não é? Digo eu.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

coisas de pensar: Da Lógica #1, ou coisas que com certeza fazem o pobre Aristóteles rebolar na tumba


Na minha aldeia não faltam passadeiras. No entanto a presença de passadeiras nunca foi por aqui sinónimo de segurança para os peões. Tanto que até já contamos com histórias infelizes de atropelamentos mortais.

Talvez com a melhor das intenções, rotundas e semáforos foram sendo acrescentados à paisagem, já que estes obrigam os condutores a circular de forma mais lenta.

Arrisco dizer que teria resultado numa maior segurança dos peões, não fosse o facto, (coisa pequenina!), de quem organizou a geringonça achar por bem que o sinal ficasse verde simultaneamente para carros e peões.


sexta-feira, 6 de julho de 2018

coisas de pensar: Do bater com a cabeça, ou como às vezes penso em Henrique VIII


Henrique VIII é uma figura que fez por merecer o seu lugar na História por todos os epítetos menos simpáticos que se possam lembrar. Afinal Henrique sempre foi, entre muitas outras coisas, o grande decapitador de esposas.
Desconfio até que, Lewis Carroll, o autor de "Alice no País das Maravilhas", se tenha inspirado no mesmo aquando do desenvolvimento da Rainha de Copas. Quem mais serviria de inspiração para uma personagem que, por tudo e por nada, era "off with their heads"?!

Embora sem provas que o comprovem de forma indubitável, existe a crença que uma das melodias mais perfeitas de sempre - "Greensleeves" - é da autoria de Henrique, deste mesmo Henrique - o decapitador de esposas. Tal não me deveria surpreender, afinal a história do mundo está repleto de beleza que nasceu da mente e das mãos de humanos verdadeiramente escroques e repugnantes. O verdadeiro enigma residirá, com certeza, na nossa dualidade. Mas isso fica para outras núpcias.
Mesmo assim, ficou sempre instalada a "minhoquinha".

Há semanas vi um documentário sobre Hampton Court - uma das muitas residências reais inglesas, e uma das favoritas deste monarca a da sua extensa corte.
Se é a qualidade da arquitectura e localização que dá a qualquer lugar a sua beleza, são as histórias das gentes que por lá passaram que lhe conferem acrescido interesse.

Sendo a mesma pessoa, é justo dizer que existiram dois Henriques a habitar Hampton Court, que não poderiam ser mais distintos entre si.
O jovem rei, embora tivesse um real feitio de merda, e por tal todos sabiam que a primeira regra de conduta era não despertar a ira real, causava verdadeiro espanto a todos os que rodeavam, independentemente da sua classe: era anormalmente alto e bem constituído, formoso e bonito, (e pelos vistos à séria, por incrível que pareça nada daqueles traços que denunciam que as criaturas são fruto de procriação num círculo demasiado fechado há gerações, como costumavam fazer com os humanos de raça para manter o pedigree),  atlético, artístico, bon vivant, e incrivelmente afável e sério na preocupação em desempenhar um bom papel.
Era tão bom quanto os melhores em muitos dos seus interesses: houve quem dissesse que não havia nada mais belo no mundo do que ver o rei jogar ténis. Vivia uma história de amor digna de um conto de fadas com a sua primeira mulher, Catarina.

O jovem, como muitos dos jovens de hoje e de qualquer época, gostava de praticar desportos radicais. Naquela época creio que não haveria nada mais radical que as justas. E embora Henrique tivesse bastante jeito e experiência, um dia a coisa correu verdadeiramente mal: uma lança perfurou-lhe a perna e caiu do cavalo, batendo violentamente com a cabeça. Catarina, que assistia, passou mal e teve um aborto espontâneo.
O rei ficou acamado, entre a vida e a morte. O Henrique que sobreviveu a este acidente não mais seria o jovem e galante rei, mas o déspota, obeso mórbido, sem cuidados de higiene pessoal, cruel e boçal figura que adorna os livros de História. Há quem diga hoje em dia que a pancada na cabeça foi tão brutal que seria mais que suficiente para levar a uma alteração de personalidade, na hipótese de ter sido na zona do lobo frontal, região que também gere a nossa personalidade. Junte-se o ferimento na perna, causado pela lança: uma ferida infectada, purulenta, de cheiro nauseabundo, que lhe toldaria os movimentos e lhe causaria dores alucinantes para o resto da vida.

A história de Henrique lembra-me que embora seja um verdadeiro cliché aproveitarmos todas as ocasiões possíveis para desejarmos "muita saúde" a tudo e todos, a nós e a quem queremos bem, ao colocarmos o "haja saúde" como o primeiro estandarte de todas as listas de prioridades e desejos, não o faz menos importante, meritório, verdadeiro e até profundo.
É que não há nada tão transformador na vida de alguém quanto os episódios relacionados com saúde, seja sobre a sua perda ou recuperação. Seja lá quem formos, acredito que qualquer um de nós quando acometido por algo suficientemente invasivo, está a um passo de se tornar uma personificação do mal que o atormenta. Tal como Henrique. Tal como as histórias de leões comedores de homens que afinal padeciam de uma dor de dentes.

Portanto, haja saúde, pelo bem de todas as cabeças.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Coisas de pensar: Existe alguma fórmula para um salário justo?


A justiça salarial é uma causa que vale a pena, por todo um mundo de motivos.
A necessidade de reflectir e agir sobre este subsistirá enquanto o salário mais baixo praticado no nosso país tiver um valor que não permite ao assalariado uma vida independente e digna.
O que se quer, para começar, é que quem aufere o salário mínimo tenha a capacidade de se sustentar plenamente através do fruto do seu trabalho, sem a necessidade de receber ajuda de terceiros, seja a cara metade, família ou Estado.
Sem desigualdades salariais motivadas por diferença de género ou quaisquer outras que não fazem sentido, já agora. Diminuir o fosso entre os salários mínimo e máximo praticados também seria de valor.

No entanto, a justiça salarial não se conquista pagando o mesmo valor a todas as pessoas, mas usando uma fórmula composta por vários factores, aplicando-a caso a caso, para encontrar o valor mais adequado a cada um.

- O primeiro factor é demasiado óbvio, mas mesmo assim deve ser referido: o horário. Quem trabalha 40 horas há-de receber mais do que alguém que trabalha 20.

- O segundo factor é a experiência, o tempo já investido no desempenho daquela função. Há palpáveis e importantes diferenças entre quem só agora começou num qualquer emprego e alguém com anos de experiência no mesmo posto, e isso tem que ser expresso numericamente.

- O terceiro factor recai sobre a diferença entre horário diurno e nocturno. A ciência defende que trabalhar durante a noite causa o caos no metabolismo, e caso seja uma situação prolongada, pode derivar em problemas de saúde, como aumento da probabilidade em se sofrer de diabetes tipo 2, obesidade e ataques cardíacos. Nada mais justo que compensar adequadamente quem labora à noite.

- O quarto factor tem a ver com risco e desgaste. A forma mais simples e sucinta de explicar este ponto é através de exemplos. Um locutor de rádio não corre profissionalmente os mesmos riscos que um bombeiro, um polícia, um repórter de guerra, um profissional de saúde que lide com doenças infecto-contagiosas, etc.
Da mesma forma, um nutricionista não terá um profissão considerada de desgaste, por não implicar uma exposição a um grande nível de stress, como acontecerá a um militar em cenário de acção ou um corretor de bolsa;  não está sujeito às condições ambientais de um mineiro ou pescador; não tem que esforçar a vista como uma bordadeira; não tem que forçosamente passar o dia em pé, ou sentado, ou numa constante repetição de gestos e manipulação de pesos que acabam por dar origem a problemas de saúde como acontece com uma imensa massa de profissionais desde operários fabris, funcionários de comércio, escritórios, hotelaria, restauração, desportistas, bailarinos, entre outros.

Cabe também nesta alínea o sentido de responsabilidade acrescido inerente a várias profissões, devido à exigência destas, e aos riscos podem existir para o profissional e terceiros caso este não esteja capaz de uma boa performance. Para clarificar, os cirurgiões são um exemplo, assim como os pilotos de aviação, motoristas de transporte de pessoas, etc.


- O quinto ponto relaciona-se com a preparação do indivíduo para exercer determinada função, com o conhecimento que teve que adquirir, com quanto da sua vida e da sua energia investiu para tal.
Bastará dizer que um barista, mesmo que prepare o melhor café do mundo, saiba tudo e mais um par de botas sobre o tema e seja a pessoa mais simpática no atendimento ao cliente, nunca poderá auferir tanto quanto um neurocirurgião, simplesmente porque este estudou 12/14 anos para alcançar o estatuto de médico especialista, e continua a ter a necessidade de se manter ao corrente.

- O sexto e último ponto tem que a ver com mérito, com recompensar o indivíduo que destaca pela excelência, o brio, a qualidade, a paixão, aquele que consegue fazer muito bem dentro do seu horário. Incentivar às boas práticas, motivar a existência de bons desempenhos e boas qualidades humanas, motivar, não deixar passar despercebido o que é bem feito.
As empresas não se podem ficar pelos habituais discursos em que exigem melhorias, aumentos de produtividade, mais empenho e melhores resultados. É obrigatório, por 1000 motivos, dar um feedback positivo a quem o merece.


Acredito que esta meia dúzia de pontos quando combinados perfazem de forma pertinente a tal fórmula para esmiuçar um salário justo.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

coisas de pensar: Da bipolaridade lusitana



Um destes dias andávamos nós, humana e cão, perdoem-me a redundância, nas andanças do costume.
O canito decide finalmente aliviar-se. Para tal escolhe um pedaço de terra paralelo ao passeio que não sei adjectivar de melhor forma. Tem uma árvore e algum verde, mas não é canteiro porque não está tratado. Está pejado de trampa de outros cães e lixo humano.
Mas não se pode ser esquisito quando queremos que sua Excelência finalmente ganhe o ímpeto de se aliviar, para podermos ir descansados para casa. Então lá vou, pé ante pé, de saquinho na mão para apanhar a trampa do meu cão, quando pelo nesga do olho vejo uma das senhoras com que por vezes nos cruzamos.

Esta pára para nos cumprimentar, enquanto eu continuo no meu movimento contínuo e faço o que tenho a fazer.

Parece surpreendida pela minha acção, (como se não fosse algo que repetisse todo o santo dia), e diz-me que deixe estar, que não apanhe, que ali não faz mal e que até faz bem às plantinhas (onde andam estas?!). E eu uso da maior síntese para responder que faço questão de apanhar, que não gosto, e que não , não faz bem às plantinhas, e quem me dera que todos cumprissem com o seu dever.

Senhora apressa-se a concordar, com um enfático sim, que somos muito porcos, que na Suiça é que é!

Assim passámos, em 10 segundos, de apelar ao não cumprimento da lei, ao deixar andar, para o discurso do lá fora é que é, eles são perfeitos enquanto por aqui somos uma turba que não cumpre.

Vim para casa segura que me tinha cruzado com a personificação da nossa sociedade.



quarta-feira, 22 de março de 2017

coisas de pensar: O feng shui, a religião e o bicho papão.



Feng Shui surgiu há cerca de 4000 anos. De forma muito sucinta, o objectivo desta corrente de pensamento é ser uma ferramenta para dotar os espaços físicos de equilíbrio, harmonizar as energias, potenciar a influência positiva destas e minimizar a influência negativa sobre estes.
Dizem os chineses que actua nos espaços físicos da mesma forma que a acupuntura age no organismo. Segundo esta filosofia oriental, a busca da harmonia com as forças benéficas da Natureza aumentarão a prosperidade, a saúde e a boa sorte.

Há anos senti-me especialmente curiosa acerca do Feng Shui e comprei um livrinho sobre o tema.
Muitas das dicas mais básicas desta filosofia estão relacionadas com o manter a casa limpa, organizada e sem tralha.
Diz que uma casa de banho suja, com a tampa da sanita levantada e porta aberta gera más energias, assim como ter os armários da cozinha desorganizados, com louça escavacada e produtos presentes que estejam estragados, fora da validade, é mau para a prosperidade. Que a presença de tralha no quarto, de aparelhos eletrónicos próximos na cama, de objectos relacionados com o trabalho, são inimigos do descanso.
São apenas alguns dos exemplos. Coloquemos só por uns momentos os óculos de cepticismo e veremos coisas que qualquer pessoa considerará tão banais que não precisa que exista um livro ou uma corrente filosófica que ensine: que se andamos a deixar comida estragar-se, passar de validade, então é óbvio que acaba por ser mau para a prosperidade, que é o mesmo que deitar dinheiro ao lixo; que uma casa limpa será um espaço propício à saúde, que num espaço cheio de tralha onde de dois em dois passos se dá uma canelada algures a pessoa não se sentirá cheia da tal boa sorte, não é?
A intenção não é de forma alguma desprimorar esta antiga corrente, mas utilizá-la como adjuvante a um raciocínio.
Diz o filósofo que há primeiro que aprender a gatinhar para depois aprender a andar. Isto aplica-se tanto ao indivíduo como em relação à evolução da espécie.
Acho que até a mais céptica das pessoas achará imenso valor numa filosofia que incita a hábitos de organização e higiene, mesmo que seja necessária a utilização de chamarizes como prosperidade e sorte para tal. Duplica, triplica, quadriplica o seu valor se tentarmos imaginar o que seria corrente em hábitos de limpeza e higiene há 4000 anos atrás. Olhem que a minha imaginação não pinta um quadro nada auspicioso!

Voltando às palavras do filósofo, quando somos crianças e os adultos sentem que estamos ainda numa idade em que não nos vão conseguir fazer compreender através do diálogo a importância de comer a sopa, a fruta, o peixe, de dormir cedo, de lavar os dentes, de estudar, de arrumar o quarto, usam-se outros métodos, nem que a de ameaçar chamar o bicho papão caso não se sigam as regras impostas.
Tudo com uma relativa paz de espírito, porque os adultos sabem que é temporário, que passados uns anos todos iremos compreender os benefícios de todas as regras que nos incutiam, e que nos vamos rir do bicho papão. Que certamente utilizaremos as mesmas artimanhas para educar os nossos filhos.

Proverbialmente, onde há duas, há três. Serviram o Feng Shui e o bicho papão para me trazer à religião.
Quero olhá-la com os mesmos óculos de cepticismo que coloquei há pouco.

Imagino-me na era e no papel de quem escreveu textos religiosos, que se tornaram regras para tantos.
Imagino o contexto histórico, geopolítico, social. A espécie humana com os ímpetos que conhecemos mas com menos uns milhares de anos de evolução, progresso, educação e literacia. Não me é difícil imaginar a necessidade global de inventar sistemas de crenças com o objectivo de incutir princípios morais e regras de comportamento mais elevados, mesmo que o preço fosse edificá-los sobre um modelo arcaico e dualista de castigo/ recompensa. Mas lá está, falamos de outros tempos, ou gosto de pensar que foram outros tempos.

Imagino-me como um desses escritores religiosos, (é o termo que prefiro), com uma relativa paz de espírito, a pensar que é temporário, que passados uns anos a Humanidade compreenderá por si mesma o porquê de não matar, de não roubar, de não cobiçar, de amar, perdoar, servir, e rir-se-á das estórias com bichos papões.

Mas e quando o bicho papão habita na religião? Quando esta defende a pedofilia através do casamento de homens velhos com meninas, quando se defende a existência de escravas sexuais como solução para o adultério, entre outras pérolas do mesmo calibre?
Quem é que desata agora este nó?




sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

coisas de pensar: Os verdadeiros heróis...



... são os pacifistas, os portadores de Luz que avançam indefesos, porém determinados, destemidos, para dentro da barriga do monstro.

Os verdadeiros heróis não se assemelham a personagens de filmes de acção, com perícia militar, armados até aos dentes e capazes de derrotar um exército sem grande esforço.
Já contava Tolkien, que os grandes feitos são atingidos, para a surpresa de quase todos, pelos mais pequenos e inocentes: os hobbits deste mundo. São os Frodos e os Sam que chegam a Mordor, que saem vitoriosos contra Sauron quando outros aparentemente bem mais fortes e capazes falharam.

São pessoas como estas que me inspiram e, sem as conhecer, lhes sou grata pelo enorme exemplo de como se é Luz numa era de trevas.











terça-feira, 29 de novembro de 2016

coisas de pensar: Público vs Privado, ou fosse isto um campo de batalha...


Os anos passam, os ciclos repetem-se, e eu continuo absolutamente incrédula e chocada como, da parte de quem nos governa, independentemente da sua cor política ou nome, a preferência continua a incidir em decisões que dividem a população activa, e que já se sabe, pela experiência da repetição que não resultam em nada de novo nem melhor.

Não. Minto. Incredulidade e choque não são os termos correctos. Adjectivar enquanto desilusão parece-me mais acurado.

A repetição quando deriva na ausência de evolução, quando resulta em prejuízo, desilude porque é sinal de máxima estupidez insistir numa solução que não o é. A não ser quando o objectivo não é solucionar. Quanto a isso, Maquiavel e os clássicos deveriam ser de leitura obrigatória.

O mundo não precisa ser um campo de batalha para que se apliquem as mesmas estratégias. Impera o "dividir para reinar". Termo e técnica que deriva do grego, e continua a dar frutos nos campos militar, sociológico e político.

"Esse conceito foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filipe II da Macedónia e imperador francês Napoleão (divide ut regnes). Também há o exemplo de Aulo Gabínio, que repartiu a nação judaica em cinco convenções, conforme relatado no livro I de A Guerra dos Judeus (De bello Judaico), do historiador Flávio Josefo. Em Geografia, Estrabão relata que a Liga Aqueia foi gradativamente dissolvida sob a posse romana da Macedónia, porque eles não lidavam com todos os estados da mesma maneira.
Na era moderna, Traiano Boccalini, em La bilancia politica, cita "divide et impera" como um princípio comum na política. O uso desta técnica refere-se ao controle que o soberano possui sobre populações ou facções de diferentes interesses, que juntas poderiam ser capazes de se opor ao seu governo. Sendo assim, o governante precisa evitar que os diferentes grupos e populações se entendam, pois uma união poderia causar uma oposição forte demais. Maquiavel cita uma estratégia militar parecida no livro IV de A Arte da Guerra (Dell'arte della guerra), dizendo que um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as."


 Talvez um dia seja finalmente parte do comum entendimento que o problema não reside no facto da função pública ter um horário de 35 horas semanais, mas sim no facto deste não ser alargado a toda a população activa.
O mesmo se aplica a todos os direitos e deveres.

A população activa portuguesa conta com mais de cinco milhões de indivíduos. Houvesse o poder de concertação, o entendimento que há muito tarda que numa casa justa ou há para todos os filhos (e filhas) ou não há para nenhum, expressada quiçá através de uma greve geral, e o uso bem sucedido da estratégia batida seria finalmente coisa do passado.



terça-feira, 19 de abril de 2016

coisas de pensar: Crise de fé ou momento de claridade?


Cresci a celebrar o 25 de Abril.
Fui uma miúda idealista, sonhadora, com uma noção romântica das revoluções.
Cresci uma mulher pragmática, ciente das suas fraquezas e defeitos, mas com um sentido de justiça e princípios éticos e morais que considero acima da média.
Uns dias mais que outros, tentei agarrar o romantismo de outrora. Talvez mais pela nostalgia e apego a quem fui do que propriamente por fé na humanidade. Quando mo permito pensar e sentir, sinto uma saudade tremenda daquela miúda!

Olho para as consequências da Primavera Árabe, para o Brasil hoje, e quedo-me resignada.
Talvez a evolução não esteja ainda ao nosso alcance. A minha fé murcha perante o facto que o mundo em que vivemos não é mais que o reflexo do que somos. O mundo é um inferno. Faltou-nos alma para mais.
É pena. Momentos houve em que achei, com todo o coração, que merecíamos e seríamos capazes de mais e melhor do que andar com merda e iniquidade pelos joelhos.
Para espécie que se julga tão avançada seria de esperar que soubéssemos ser mais que uns macaquinhos que atiram fezes uns aos outros.

E agora, com a vossa licença, vou só ali limpar a réstia de romantismo que me escorre pelos dedos.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

coisas de pensar: Começo a ter medo das boas intenções...



Tanta, mas tanta coisa que nasce do que parece ser uma boa intenção e acaba sendo uma cagada magistral.


terça-feira, 12 de abril de 2016

coisas de pensar: A estranha no espelho



São raros os momentos em que me olho ao espelho com olhos de ver. O habitual é fazê-lo de uma forma automática. Exercer todos aqueles gestos quotidianos com um nível de observação que quase roça a cegueira.

Sabendo obviamente que a superfície espelhada me devolve o meu reflexo, questionei-me se aquela que ali se apresenta, vendo-se sem vendas pela primeira vez há nem sei quanto tempo, seria realmente eu. Ou melhor dizendo, quão diferente seria qualquer um de nós despidos das marcas de influências externas.
Que rosto, que corpo, que psique, que alma observaríamos se nos conseguíssemos despir de todas as marcas não inatas, de todos os vestígios de maleitas passadas e presentes incluindo dogmas, demagogias, todos os trejeitos, manias e modos que se colaram a nós mas que não são realmente nossos.

Quando presto a mesma rara atenção sobre quem sou, surgem as mesmas dúvidas. No universo de pormenores que supostamente me definem, desde a forma como me movo, como reajo, à forma como falo, penso, escrevo, ajo, do que gosto, do que não gosto, do que temo... Em quantos destes momentos sobressaiu o meu eu real ao invés do produto de um condicionamento?

Tão antiga e tão válida a questão "Quem sou? De onde vim? Para onde vou?".
Talvez o mais significativo legado dos sábios da História seja a própria interrogação. Não há conhecimento sem curiosidade, respostas sem perguntas, nem há demanda como a busca por si próprio.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

coisas de pensar: Haverá solução para a pobreza?



Ainda sobre a erradicação da pobreza. Antes de encerrar este tema, apetece-me deambular um pouco mais por esta matéria, apresentando-vos uma reflexão.

Quando imagino o melhor dos mundos possíveis ocorre-me a construção de uma sociedade humana regida por princípios como a igualdade, paz, sustentabilidade, respeito pelo próximo e pelo meio ambiente.

Há muitos entraves na realização desta visão e a pobreza é um deles.

A pobreza material força muitas vezes o sacrifício de valores éticos e morais que gostaríamos de ver como bússola das condutas em todos os momentos.
A alguém que falte o essencial e, como tal, não consiga ter olhos nem consciência para algo que não seja a sua própria condição, é muito difícil esperar, pedir ou exigir, que viva sob regras pacifistas, que se recuse ao crime, que se eleve, que defenda o meio ambiente...

A pobreza material é um tremendo entrave à realização do próprio ser humano, na sua elevação, na conquista do seu melhor. Sem pessoas melhores não haverá um mundo melhor. O mundo e a mudança que queremos ver neste nasce, invariavelmente, dentro de nós. Não é que o Mundo seja somente a nossa espécie, mas a sobrevivência de todas as outras depende intimamente da nossa capacidade de crescer para além da nossa condição sub-humana de destruidores de vistas curtas.

Acredito que a erradicação da pobreza é possível.  Sem dúvida difícil, como tudo o que vale a pena, mas possível.

O primeiro passo é transformar o próprio conceito de riqueza. Todos os dias, e cada vez mais, somos bombardeados, através dos media, por campanhas engenhosas de marketing e publicidade e a aclamação de figuras públicas que o são pelo seu exemplo de futilidade, excesso e desperdício.

Como não estarmos cada vez mais próximos da insurreição social, com cada vez mais pessoas insatisfeitas, frustradas e zangadas, se ao longo dos anos temos sido, através de muitos meios e canais, formatados para acreditar piamente que a felicidade e valor de cada um estão intimamente ligados à quantidade de recursos que se possui? E o que se possui há-de ser igual aos exemplos de futilidade que habitam em ecrãs e monitores: as casas, os carros, a tecnologia, a roupa, os hábitos...

Este conceito de riqueza é a nossa sentença de morte, de extinção. Não é sustentável, nem sequer possível que vivamos num planeta com mais de 8 mil milhões de pessoas e que todas queiram uma casa, e um carro, pc's, tablets, telemóveis, roupas, sapatos e acessórios da última moda e toda a parafernália que nos habituámos a possuir.

Há que redefinir o conceito de riqueza como algo mais frugal, que cubra todas as nossas necessidades essenciais, que nos faça sentir seguros, com um nível simpático de conforto, mas acima de tudo sustentável e sem excessos.

O segundo passo tem a ver com Igualdade. Para erradicar a pobreza há que extinguir os casos de grande riqueza. A extinção de uns está dependente da extinção dos outros.
É essencial que deixe de existir o tremendo fosso que hoje os separa, o melhor sendo a não existência de fosso algum.
Após milénios e milénios de existência de sociedades humanas organizadas em pirâmide, tem havido uma incessante recusa em implementar o óbvio: que se a integridade de toda a estrutura depende da sua base, então há que fortificar esta.

Acho mil vezes preferível uma sociedade onde só exista classe média, em que a diferença entre os que auferem menos e mais existe mas não é gritante.

Por fim, enquanto houver sobrepopulação existirá pobreza. Em 2011 quando foi noticiado o marco dos 7 mil milhões de humanos, não vi qualquer motivo para celebrar mas um motivo de preocupação.
Com excesso de população a pobreza será sempre inevitável, e com esta as guerras pelos recursos, as calamidades naturais e ecológicas, o desrespeito pelos Direitos Humanos, o desemprego, a criminalidade, o abuso dos mais frágeis, a estupidificação das massas, a escassez de recursos, o retrocesso da civilização...


Em suma, defendo que é possível a erradicação da pobreza através da redefinição da percepção do conceito de riqueza, da Igualdade, e do controlo de natalidade.





segunda-feira, 17 de agosto de 2015

coisas de pensar: Comissão para a Protecção de Idosos



Pensar sobre o envelhecimento causa-me uma sensação agridoce.
Se, por um lado tento manter bem presente a noção que envelhecer é um privilégio. Que verdadeiramente é uma bonança ter nascido em Portugal, país onde a esperança média de vida alcança os 80 anos, ao contrário por exemplo da Serra Leoa onde o mesmo indicador aponta para os 38 anos. Que triste mesmo é quando a vida é curta.
O reverso da situação faz-me pensar que mesmo não havendo comparação possível com as abomináveis realidades de outros pontos do globo, não deixa de ser algo assustador envelhecer por aqui. Parafraseando: "este país não é para velhos".
O que não deixa de ser irónico, pois com a baixa taxa de natalidade e uma população cada vez mais envelhecida, no espaço de um par de gerações este será, nada mais nada menos que, um país de velhos.

Devido à petição, subscrita por mais de 5000 cidadãos, debateu-se no Parlamento a criação de uma Comissão para a Protecção de Idosos. Infelizmente é algo que ficará, por enquanto, em banho-maria.

Grassam pelos media as notícias sobre o tema. Já deu para levantar levemente o véu sobre a triste condição de muitos dos nossos idosos. Da solidão, das carências, dos familiares mal formados e miseráveis que lhes faltam com o necessário, capazes no entanto de lhes ficar com as reformas.

E penso: que pena perdermos com o passar dos anos as capacidades do corpo e da mente, ver a saúde minada e ficarmos à mercê de quem não sabemos ser ou não fiável. Seria tão melhor se fosse possível manter as mesmas capacidades de um corpo de 30 ou 40 anos até ao último dia da nossa vida. Chegar lá com autonomia e saúde.

No futuro voltarei a este tema. Hoje, gosto de pensar que se deu um pequeno primeiro passo para a construção de uma realidade mais compassiva, digna, justa para os nossos idosos. Uma realidade que, se tivermos sorte, pois envelhecer é um privilégio, será também a nossa.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

coisas de pensar: Anita, a Eurocéptica



12 de Junho deste ano ficou marcado pelo 30º aniversário da adesão de Portugal à CEE.

Na época eu estaria com cinco anos de idade. Todo este processo, tirando um ou outro pormenor, uma outra expressão captada das conversas entre adultos, me passou ao lado. Lembro-me de simpatizar com o Mário Soares. Achava-lhe piada às bochechas e para uma miúda de cinco anos esse é um motivo tão bom como qualquer outro.

Passados trinta anos as coisas mudam um bocadinho.

Ao contrário do que diz o título deste post, não sou exactamente uma eurocéptica, na teoria. Na teoria o conceito de Comunidade Europeia agrada-me. Afinal, carrega em si um potencial tremendo para o Bem Comum. Na teoria.

Na prática, o que observo e deduzo, apesar da possível falibilidade da minha percepção já que a esta estará sempre inerente a subjectividade, é que a entrada de Portugal na então CEE era inevitável.

Hoje olho para o resultado da crise que vivemos, das suas graves implicações, e que na realidade ninguém consegue explicar de forma simples e coerente que crise é, a que se deve. A questão é que um dos atributos da Verdade é que esta é possível de ser concisa e directa, fácil de explanar. Quando se fala da "crise" todos enrolam a língua num interminável novelo, e fica-se na mesma, sem claridade sobre a matéria.

Hoje com quase 36 anos e correndo o risco de ser adjectivada de maluquinha das teorias das conspirações, olho para o passado e não acho coincidência que o pedido de adesão à CEE por parte de Portugal em 1977, e que a assinatura do Tratado de Adesão em 1985 tenham coincidido com visitas do FMI ao nosso país.

O FMI sempre foi uma ave de mau augúrio. A sua presença sempre serviu para enfraquecer francamente as nossas estruturas, as condições laborais, a qualidade de vida dos cidadãos. Em 1977 reduziu-se a produção nacional, aumentou-se as importações, surgiram os contratos a prazo, aumentaram os impostos, por aí fora.

Olho para os resultados obtidos em 30 anos de Comunidade Europeia e para além de me ocorrer o termo teoria da conspiração, vem-me sempre à mente os estrategas militares. Aqueles tal como Sun Tzu que são encarados como grandes inspirações e modelos a seguir no estudo do mercantilismo, que é também a minha área de estudo.

Nós, Portugal entenda-se, temos a mania que somos pequeninos. É uma mania que nos tem servido extremamente mal, mas sido de grande valor e serventia para com todas as soberanias estrangeiras com quem temos lidado desde sempre.

Então em 1985 a nossa entrada na CEE era inevitável. Para além de pequeninos estávamos entalados graças a Carlucci e ao FMI.
A livre circulação de bens e pessoas em espaço comum europeu era uma das características mais antecipadas deste novo modelo.

Mas o que é uma vantagem, tem também outra face:
Imagino-me mosca durante as negociações dos acordos de adesão e pinto uma qualquer figura à mesa de negociações a soltar algo como "Olhe que a vidinha vai ficar muito mais difícil para os não-membros. Os membros da Comunidade podem, a qualquer altura, decidir não aprovar qualquer troca comercial ou dificultar a entrada de pessoas dos países não-membros em território da Comunidade." Imagino então o negociador português a pensar nos PEC's impostos pelo FMI, nos cinco milhões de portugueses pertencentes à Diáspora, a pensar "agora é que me fodeste!" enquanto saca da caneta e assina diligentemente o que lhe metem à frente. Se terá levado consigo alguma compensação pessoal para ajudar a sarar o dói dói, isso é uma interrogação para outro dia.

Durante parte deste 30 anos houve sempre em mim uma vozinha que se questionava se "aquilo era o chouriço, o que seria o porco?"
Remeto-me é claro para o adagio popular que afirma que ninguém dá um chouriço se não receber em troca um porco.

Quando era miúda, o país andava num frenesim com a histórias dos fundos a fundo perdido que chegavam de Bruxelas. As inaugurações de estradas e pontes passaram a ser mais que muitas. Não havia batata com dois olhos, um qualquer candidato à freguesia de santa coina do agrião que não tivesse uma fitinha para cortar e aparecer no noticiária da noite em época de eleições.
Não é que seja padecimento ou coisa má para os habitantes de santa coina do agrião estarem ligados ao mundo por meio de uma via rápida.
Mas, enquanto isso, o nosso sector primário ficou k.o.. Só se falavam de quotas, do quanto se tinha ultrapassado as ditas quotas na pecuária, na agricultura, na produção de leite, na pesca... Que ultrapassar as tais quotas significariam pesadas multas para os produtores e sanções aplicadas a Portugal por Bruxelas. Que o espaço marítimo português era cobiçado e dos muitos que nos exigiam uma fatia do mesmo. Que no que toca à negociação das tais quotas, se éramos "pequeninos" então assim deveria ser a nossa fatia. Que o grosso da coisa pertence aos "grandes".
De saber, pelos noticiários, das toneladas de alimentos que eram deixados a apodrecer, que eram deitados fora, enquanto nos pontos de venda começavam a proliferar os mesmos alimentos mas de origem não portuguesa, o que sempre me pareceu das coisas mais estúpidas e contraproducentes.

De como parte dos fundos a fundo perdido eram utilizados para não se produzir, para se deixar quieto, ao abandono, tornar estéril o que havia sido fértil.
De como deixámos de ter agricultores para ver explodir em número e grau uma nova raça de engenheiros agrónomos. Pois agora que as pessoas eram pagas para não produzir, a Agricultura deixava de ser trabalhosa e plebeia para ser "bem", para estar na berra.

Os tais fundos pagavam jipes topo de gama, à socapa, naquela boa maneira do chico espertismo. Jipes e mais umas quantas coisas, que de repente o Alentejo e uma boa parte da geografia provinciana portuguesa passou a estar na moda. Nunca houve tanto lisboeta a possuir herdades, a vestir oleados e a calçar botas de equitação, mesmo que continuassem a não praticar nem a entender um caralho de Agricultura.

Este tipo de situações eram conhecidas por todos, pois por todo o lado haviam uns quantos borra botas que se enfiavam nos cafés a gabarem-se, para quem quisesse ouvir, da nova prosperidade que havia sido subsidiada por Bruxelas, através dos tais métodos menos convencionais.

E eu, que já desde miúda nunca gostei muito de chicos-espertos, achava que se os "outros europeus" eram assim tão mais avançados e sofisticados que nós "os pequeninos do sul", que afinal o grande objectivo de entrarmos na tal CEE era conseguirmos atingir o mesmo patamar de brilhantismo, não tardaria que os pelintras fossem apanhados e obrigados a devolver tudo o que foi arrecadado ilicitamente.
Nunca ouvi que tal acontecesse e também por isso multiplicou-se a população de pulguinhas que já faziam ninho atrás da orelha.
A tendência da subsidio-dependência proliferou como um fogo selvagem em mato seco. Como exemplo lembro-me também das micro e pequenas empresas de formação e consultoria, entre outras, que chegaram a ser mais que as mães, não tendo a maioria qualquer serventia nem estrutura fiável nem viável, pois muitas não foram fundadas com qualquer outro propósito que não mamar nas tetas de Bruxelas. Mal estas secassem desapareceriam as mesmas na neblina da falência e insolvência.

Proibidos e incapacitados de produzir em quantidade, obrigados a importar exactamente os mesmos tipos de bens que agora não podiam ser gerados em território nacional senão dentro de um intervalo estipulado pelas benditas quotas, (alimentos criados por países membros que recebiam subsídios nesse sentido conseguindo assim preços mais competitivos que os do mercado interno), estava também a ser alimentada, através dos tais "fundos", a semente da incapacidade, indolência e corrupção que, sejamos honestos, existe em todos os países do mundo, e que assim encontrou condições ideais para se frutificar.

Jipes, estradas e subsídios fazem-me lembrar as bugigangas, missangas e armamento em desuso que todos os colonizadores (não só os portugueses atenção!) trocavam pelas valiosas especiarias, ouro, prata e afins. Digo isto porque acredito que retirar a capacidade para a auto-suficiência a uma qualquer nação, entidade ou pessoa é dar-lhe uma das mais limitativas deficiências. Que não interessa o que se dê em troca, nada vai suplantar a ausência dessa capacidade. Que é um pilar absoluto e imprescindível na construção da sustentabilidade e da liberdade.

O segundo acto desenrola-se com a implementação da moeda única: O Ecu que virou Euro.

Acreditei, ou tinha esperança, na inocência do meu positivismo, que a troca das divisas de cada país por uma moeda única europeia faria desaparecer qualquer desigualdade monetária, que um euro em Portugal valeria exactamente o mesmo que um euro em qualquer outro país membro. Esperava igualmente, e quero acreditar que não era a única, que isto da moeda única significaria a implementação de um salário minímo único vigente em toda a Comunidade Europeia.
Que no meu léxico "única" e "comum" derivam do conceito Igualdade. Então nada poderia ser mais contrário à ode europeia de comunidade do que separar os vários estados membros dotando o Escudo, o Dracma, a Peseta, o Marco, a Libra de valores diferentes.
Onde existe a Igualdade e a União se os salários, os preços, a inflação se fazem distinguir?!

Na realidade, como bem sabem não aconteceu nada disto. A minha memória em relação à introdução do Euro, é que na véspera pagávamos 50 escudos por um café, e no dia seguinte passámos a pagar 50 cêntimos.
Foi necessária uma tremenda campanha e tempo para que a população entendesse o valor do euro e aprendesse a fazer a conversão do Escudo para a nova moeda, em especial a população envelhecida.
Uma chavena de café foi um pequeno exemplo entre muitos outros. Basicamente o poder de compra foi cortado ao meio, pois um quilo de qualquer coisa que custasse 100 escudos passou a custar 1 euro, um papo seco que custasse 5 escudos passou a custar 5 cêntimos e por aí fora.
Basicamente os responsáveis pela estipulação de preços só não se faziam de estúpidos quando era para converter o valor dos salários. Esses mantiveram-se iguais, a anos-luz da média europeia. Estávamos então em 2002 e ainda "pequeninos" e entalados.

O terceiro acto inicia-se com a terceira visita do FMI a Portugal. Com a crise cujos preâmbulos poucos entenderão, porque deriva da abolição do padrão ouro, da economia especulativa, de uma realidade imaginada por poucos, imposta sobre muitos.

São as cantigas de intervenção de outrora a tornarem-se intemporais, pelo desemprego, a pobreza, o fosso entre ricos e pobres que nunca foi tão profundo a não ser em épocas de feudalismo e fascismo. A perda de direitos, de segurança, de esperança, ambições. A crise que justifica o pagamento de uma qualquer dívida que nos assenta como grilhões, que havemos de andar a pagar durante toda a vida sem que ninguém explique, com clareza e verdade, o que se deve, a quem e porquê.
Este novo chicote que nos faz andar cabisbaixos, sem mandar prá puta que os pariu aqueles que mais lucram com a existência de estágios não remunerados, de recibos verdes, de voluntários à força oriundos do IEFP, de eternos contratos a prazo, de assalariados que recebem o salário minímo, dos que acham tremendamente natural que não exista segurança no trabalho, que o normal é sermos saltimbancos, e ainda os escroques vis que oferecem salários abaixos do minímo justicando-se com o "há mais quem queira".

A Saúde e a Educação atingem minímos históricos na sua qualidade. O capital estrangeiro invade-nos para comprar ao desbarato as empresas ligadas aos transportes, às telecomunicações, à energia, querem privatizar a água e dar-lhe o mesmo destino...
Li há poucos dias uma notícia sobre um aeroporto em Espanha que havendo custado 450 milhões foi agora vendido por 10 mil euros. E de repente fez-se luz e pareceu-me haver descoberto finalmente o "porco"!

Não existe uma Comunidade Europeia. Existe é uma Europa liderada por um Cérbero, o cão demónio de três cabeças. No centro, a Germânica, ladeada pela Inglesa e Francesa.

Que o que aconteceu ao longo destes 30 anos começando pela diminuição da capacidade produtiva que resulta que a auto-suficiência seja impossível, à dívida que aumentou exponencialmente com os empréstimos e com o aumento (tantas vezes redundante) de importações, às crises cíclicas e aos sacrifícios impostos à população que serviu para a enfraquecer, talvez não seja mais da implementação metódica e paciente de uma estratégia que, quem sabe, não culminará agora com o grupo dos "pequeninos" no qual nos enquadramos, a pagarem ad eternum tributos feudais ao triunvirato que se auto-proclamou cabeça da Europa, e a ficarmos despojados de todo e qualquer património por uma simbólica fracção do preço de custo?







sexta-feira, 24 de abril de 2015

coisas de pensar: Os benefícios salariais de uma dona de casa.



Tornar-me dona de casa foi, acima de tudo, uma espécie de viagem espiritual.

Eu explico:

Um dos principais motivos que me levou a enveredar por determinado curso superior foi a perspectiva de um bom salário. A arrogância, a imaturidade e sobretudo a santa ingenuidade dos meus 19 anos fizeram, que ainda caloira, já tivesse uma ideia fixa de como seria a minha vida, quase até ao final dos meus dias.

Iria trabalhar muito, imenso, que nem uma desalmada. Cumprir prazos extraordinariamente curtos. Fazer quantas directas fossem necessárias. Teria café a correr-me nas veias. Seria um burro de carga, um cavalo de batalha. Iria correr mundo em trabalho, do Japão aos Estados Unidos, e a dezenas de outros destinos. Voltaria mais ou menos fluente em não sei quantas línguas, com disciplina de samurai, samba no pé e um chapéu de cowboy.
Construiria uma reputação imaculada, daquelas que fazem com que os melhores empregadores enviem headhunters para nos acossar com mais e melhores propostas.
Seria apaixonada pelo meu trabalho, mesmo que me tivesse que forçar a tal, que tivesse que me contentar com orgasmos laborais fingidos - se serviu a Fernando Pessoa, seria mais que suficiente para mim, era o mantra de ordem.
Ter a noção que talvez não sobrasse nem tempo nem energia para nada mais que não trabalho. Alegrar-me com o facto de se trabalhar em dupla. Com sorte, uma das melhores amigas seria a outra metade do binómio, ou alguém capaz de o ser, e a energia emocional positiva da relação bastar-nos-ia, pelo menos por uns tempos.
Sempre com a esperança que todo o esforço seria compensado, como numa das leis de Newton. Para começar, um leão de Cannes seria capaz de tocar, certeiro, no "ponto g" profissional.
Em troca queria também e, não esperava nada menos que reconhecimento e uma pipa de massa.

Ênfase na pipa de massa. Sempre me horrorizaram os salários de três dígitos. Acho desumano e uma imensa falta de respeito que uma pessoa, uma qualquer pessoa em qualquer área, viva para trabalhar por um salário que somente dá para sobreviver, e quantas vezes à justa. Que o grosso da colheita que todos semearam vá toda para um "fat cat".

Queria prosperar o suficiente para não só ter construído uma vida com um alicerce confortável para mim mesma, como para poder mimar os meus pais. Imaginava-me a oferecer-lhes férias em cruzeiros de luxo, por exemplo. Acima de tudo, a cumprir com distinção a visão que tenho do papel de filha, garantindo-lhes uma velhice com assistência e cuidados de primeira categoria, do melhor que o dinheiro pode comprar. Porque eles merecem. Os nossos merecem sempre o melhor.

Haver acumulado o suficiente para bater nos entas e sair disparada de cena, feita Cinderela. Reinvidicar tempo para a auto-descoberta, para o ócio e toda uma bucket list.
Seguiria o exemplo de muitos dos meus professores, e também eu daria uma meia dúzia de aulas por semana num par de universidades, um ou outro seminário, três ou quatro workshops e colóquios. Pontualmente, uma ou outra participação como consultora - paga pelas empresas, em regime pro bono para as causas do coração.

Aos 19 anos, por arrogância, imaturidade e sobretudo ingenuidade, queremos tudo. O mundo e mais além. O mundo é uma maçã e parece estar ali à mão, pronta para colher. É natural e salutar. Que mal estaria o Mundo e a Humanidade se os jovens não tivessem uma energia desmedida, revelada também nos seus sonhos e vontades. Mesmo que essas visões nos pareçam, a nós adultos, estapafúrdias e nos façam revirar os olhos como se fosse código para "Pois sim! Deve ser deve!".

E eu que dava ênfase à pipa de massa e ao reconhecimento, lidei com a minha dose de "fat cats", auferi descontentes salários de três dígitos, até que me o meu corpo e a minha psique se rebelaram e se recusaram a mais do mesmo. Então, fui de certa forma Cinderela, salva das empresas madrastas, para reinar em castelo próprio. Metade de um binómio.

"Estranha-se, depois entranha-se."
Há uma primeira fase em que se estranha. Que se sente a falta de algumas rotinas laborais, do cheque ao final do mês, como se se tratasse de um membro amputado. Afinal, somos programados desde o início das nossas vidas para acreditar que não há vida que não seja dedicada ao trabalho, que somos o que fazemos, que valemos o que ganhamos.
Talvez por isso sejamos algo misóginos, injustos e usemos até de um tom paternalista quando nos referimos a donas de casa, corriqueiramente conhecidas como domésticas, como as aves de capoeira, que erradamente, por serem das mais humildes das aves, são consideradas estúpidas.

Ser dona de casa é uma carreira como qualquer outra, com rotinas, prazos, tarefas. Também há dias menos bons, "segundas-feiras", como em qualquer escritório. E dias verdadeiramente bons, acompanhados da sensação de cumprimento, de superação, de sucesso.
De todas as milhentas hipóteses de carreira em que me tentei imaginar, aquando miúda, creio que de todas, esta pode bem ser a que possibilita vivenciar-se algo mais próximo ao verdadeiro conceito de liberdade. É uma excelente sensação de poder pessoal decidir o que fazer, como e quando.

Parte do meu salário recebo-o em raios de sol nas esplanadas, horas de sono, uma vida livre de despertadores, trânsito e greves dos transportes públicos, de tempo, que longe de chegar para tudo - por incrível que possa parecer! - dá para muito, inclusive para ser e aprender mais.