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terça-feira, 14 de agosto de 2018

coisas de pensar: Da Lógica #1, ou coisas que com certeza fazem o pobre Aristóteles rebolar na tumba


Na minha aldeia não faltam passadeiras. No entanto a presença de passadeiras nunca foi por aqui sinónimo de segurança para os peões. Tanto que até já contamos com histórias infelizes de atropelamentos mortais.

Talvez com a melhor das intenções, rotundas e semáforos foram sendo acrescentados à paisagem, já que estes obrigam os condutores a circular de forma mais lenta.

Arrisco dizer que teria resultado numa maior segurança dos peões, não fosse o facto, (coisa pequenina!), de quem organizou a geringonça achar por bem que o sinal ficasse verde simultaneamente para carros e peões.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

coisas que me irritam: Um par de manias que dão comigo em doida


Ninguém é inocente no que toca a hábitos e manias. Todos fazemos coisas que conseguem irritar alguém, dependendo de qual seja o seu ponto sensível.

Quais são as manias alheias que mais vos irritam?

Assim por alto ocorre-me imediatamente um par.

Uma delas tem a ver com o meu marido, e o seu hábito de pousar as coisas à beirinha das bancadas, mesas, prateleiras ou qualquer que seja a superfície, qualquer que seja o objecto, desde copos, a telemóveis, etc. É algo que me dá cabo dos nervos porque dá-me aquela sensação de desconforto, de acidente prestes a acontecer.

Mesmo assim esse está longe de ser o que mais me irrita. A medalha de ouro vai indubitavelmente para aquelas pessoas que não sabem respeitar o espaço pessoal, que quando estão a conversar com alguém se vão aproximando do interlocutor até ficarem quase colados, tipo siamês. Então se também forem daquelas com a mania de tocar, agarrar e mexer em nós enquanto falam... ui, credo!


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Coisas que me irritam: Da irresponsabilidade...



Temos por ritual, mal o marido chega a casa, de nos sentarmos na varanda a tomar um café e a falar sobre o nosso dia, aproveitando o bom tempo e aquele recanto que se tornou agradável graças às plantas, que cheiram bem, e que tanto cresceram, providenciando-nos assim alguma privacidade.

Não fosse esse hábito não teríamos dado conta que houve, durante o dia, um qualquer condutor incauto que embateu no candeeiro de iluminação pública.
Não seria nada de mais, nem motivo para alarme, não estivesse, graças ao embate, aquele grande globo de vidro e metal inclinado e prestes a cair no chão, somente apoiado numa extremidade da lâmpada.
Isto numa praceta bastante movimentada, onde passam constantemente veículos, pessoas, (muitas crianças), e animais. Agora imaginem aquele enorme apêndice cair em cima de alguém, que pelo estado da coisa seria algo para não tardar muito a acontecer.
Contactei imediatamente com a linha de avarias da EDP e comecei a exposição com "houve um otário...", e nunca senti que alguma vez o adjectivo me tivesse servido tão bem na comunicação.

Porque, meus amigos, bater toda a gente bate. Pode acontecer a qualquer um, e a isso chama-se aselhice, inexperiência, distracção, azar até. Mas ser irresponsável ao ponto de se causar o dano e não requisitar a intervenção da EDP, estando-se nas tintas para os outros, e para a desgraça que a queda daquele globo poderia causar... A alguém assim é até elogioso e caridoso ficar-me pelo otário.

O atendimento foi impecável, e por sorte o piquete estava nas proximidades, o que ajudou a que viessem resolver a situação em tempo recorde.

Agora só queria identificar a pessoa para lhe soletrar a palavra "O" na cara.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

coisas do condomínio: coisas que me custam horrores...



Acabei de colar no átrio mais um "recadinho". Desta vez sobre o não pagamento de quotas.
Se há coisa que me custa horrores é esta, por dois grandes motivos.

Primeiro, exaspera-me a sensação de ter que andar atrás de pessoas adultas, como se de crianças se tratassem, para que cumpram o mais básico dos deveres para quem habita em condomínio - o pagamento das quotas a tempo e horas. Com a agravante de todos terem passado pelo papel de administrador, logo terem sentido na própria pele o stress de ter que lidar com esta mesma situação.
Repetirem os comportamentos de que se queixavam é o cúmulo do non-sense, para não dizer outra coisa, e é algo que me faz muita confusão.

Em segundo, não tenho feitio nem à-vontade, não aprecio e causa-me um enorme desconforto ter que falar de dinheiro com as pessoas. Soa mal, fica mal, é horrível e grosseiro, ponto.
Desconforto elevado ao expoente máximo quando tenho que abordar pessoas que vejo todos os dias por serem devedoras. Catástrofe total quando uma dica subtil não repercute qualquer efeito, e não existe alternativa senão ser frontal, sem papas na língua.

Até me dá um nó no estômago só de imaginar que o texto exposto no átrio possa não ser ainda assim suficiente. Se assim for terei que recorrer a cartas registadas com aviso de recepção para informar da dívida, para que sirva de prova num tribunal, e/ou bater às portas tipo cobrador de fraque.

Ai vida!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

cromices #131: O cromo toca sempre duas vezes ou o elogio à besta



Ontem, passado um dia que começou ainda antes das 4h da manhã, depois de jantar estávamos mais mortos que vivos, prontinhos para um serão descansado e uma noite de sono reparadora.

O relógio marca 22h quando tocam à campainha.

Na verdade nem era necessário estar a pé desde madrugada para isso ser visto como um inconveniente. Quem me conhece, inclusive que visita aqui o estaminé, já sabe que se há coisa que acho maçadora é ser abordada em casa, especialmente quando se tratam de vendedores porta à porta, ou pessoas que devem pensar que o prédio tem porteiro.

Se noutros contextos sou amável e cordial, neste sou totalmente o oposto. Simplesmente por falta de paciência. De vez em quando ainda surge um ou outro momento em que penso, cá para os meus botões, que me devia esforçar um bocadinho por ser menos besta. Mas depois aparecem-me umas criaturas particulares que me fazem pensar que ser besta não é assim tão mau. Quando muito é um mal necessário.

Onde íamos? Ah sim. Pois bem, tocaram à campainha, e o cão desata a ladrar desenfreadamente como acontece sempre que tocam à porta.
Abro a janela e chamo a atenção da figura à frente da porta do prédio a quem só vejo os sapatos:

- "Sim? Faça o favor de dizer!"

O homem olha perdido para a fila de janelas.

- "Estou aqui, senhor! Boa noite. Faça o favor de dizer."

- "O senhor Fulano?"

Demorei uns segundos a reconhecer quem procurava.
- "Enganou-se na campainha. Não é aqui que mora o sr. Fulano."

Ficou a olhar para mim com cara de tacho. Suspiro.
- "Qual é a do sr. Fulano?"

- "O sr. Fulano mora no X." - Despeço-me rapidamente e ia voltar para dentro quando...

- "E qual é a campainha?"

Suspiro novamente: " Oh senhor, é a que diz X."

- "Ah, não sei qual é!"

- "Não tem que saber, fica  ... da minha. Onde tocou por engano. É só procurar."

- "Mas eu já não sei onde toquei." - lamuria-se, e eu a revirar os olhinhos, a pensar que só me faltava esta agora.

- "Oh senhor, é a campainha do lado ... na fila ....." - E ele a olhar para mim ao vez de olhar para o intercomunicador, o que me estava a dar cabo dos nervos" - "Siga as minhas indicações, campainha X na fila Y!"
Lá se dirigiu finalmente à geringonça. Volta a tocar na minha campainha, o cão desata outra vez a ladrar e eu já com vontade de largar umas caralhadas, - "Ao lado, senhor, ao lado!"

Depois cheio de lata sai-se com "Se me abrir a porta é mais fácil."

- "E o senhor por acaso sabe qual é a porta da casa do sr. Fulano?"

- "Não. Mas depois eu bato às portas."

- Olhe, sabe que mais? Continue a experimentar as campainhas". E voltei para dentro. Definitivamente. Ignorando as duas ou três vezes que aquele "senhor" ainda voltou a tocar à minha campainha.


Juro-vos que já estive mais longe de desligar a minha campainha. Silêncio absoluto. Não fosse o carteiro e a chegada de algumas encomendas...








terça-feira, 17 de maio de 2016

coisas que me irritam: Uma mensagem às Senhoras Fisioterapeutas e Massagistas em geral



No tempo da Maria Cachucha, quando era uma miúda, e servia às mesas durante as férias num hotel de quatro estrelas, havia algo que não sei se as novas gerações de empresários e colaboradores já ouviram falar, que se chama "código de vestuário".
Ora bem, no código que me regia haviam regras de senso comum de forma a sublinhar o quão é importante a apresentação e a higiene pessoal quando se lida com pessoas e bens alimentares. Por exemplo, era requerido que as unhas estivessem impecavelmente arranjadas, curtas, e se pintadas, que fosse com verniz transparente ou uma cor subtil e de bom gosto, e sem estar "descascado". O mesmo princípio era aplicado à maquilhagem e adornos pessoais, para quem usasse, que afinal ali não era o cabaret da coxa.
O uso de perfumes de aroma intenso também era desaconselhado, e os cabelos deveriam ser usados curtos ou apanhados. Afinal quem é que gosta de apanhar um cabelo na comida, não é?

Este tipo de regras são comuns a todas as áreas profissionais, com variações dependentes de cada situação. Mas o princípio está lá: as escolhas pessoais que fazemos em relação à nossa imagem não devem interferir com a capacidade de prestar um bom serviço.

E o que é isto tem a ver com fisioterapia, massagens e afins? Tudo.

Os meus pais andam a fazer sessões de fisioterapia. Para quem está doente, é essencial que cada sessão corra bem e conte para a sua reabilitação.
No local onde lhes prestam estes cuidados entrou há pouco tempo uma novata. Dá umas massagens de merda, desculpem-me a frontalidade e o linguajar. O maior problema não é, de todo, a sua falta de experiência, mas as compridas unhas de gel. Tem tanto jeito para a coisa como o Eduardo Mãos de Tesoura. Por causa do raio das unhas não consegue fazer mais do que tocar nos pacientes com a ponta dos dedos.

Faltam dois dedos de testa à novata por ir para o trabalho com unhas de gel. Faltam dois dedos a quem ensina estes profissionais por não lhes ensinarem estas coisas básicas. Faltam dois dedos de testa a quem trabalha com ela, sobretudo aos superiores, que no primeiro contacto lhe deveriam ter dito, de forma bem inequívoca, que se quiser trabalhar as unhas vão fora.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

coisas que me irritam: Poluição sonora


Os miúdos Fukushima são de tal forma barulhentos que conseguem, em meia hora, dar-me algo que nunca a discografia dos Sepultura conseguiu: uma dor de cabeça.

Ontem ao final da tarde, um deles arma uma birra no meio da rua. São miúdos que não se expressam de forma comum, têm o volume sempre no máximo e quando choram, não choram: inspiram uma lufada de ar e berram, gritam, esperneiam. Senhores, como berram! E como dura a berraria, naquele volume e estridência que não há parede, nem janela fechada que sirva de barreira, nem som de fundo em casa que abafe!

Que desatino, que violência, que desconforto! Que dor de cabeça!

Adoraria retirar prazer destes ruídos, ou pelo menos ser indiferente, mas não consigo. Porque se há coisa que mexe comigo são barulhos, alguns capazes de me deixar desnorteada como um veado encadeado por faróis.

Por exemplo, fico a ranger os dentes com o toc toc toc dos saltos altos, arrastar de móveis, berros, televisões com o volume demasiado alto, ruído branco dos aparelhos eléctricos, espaços cheios de gente a fazer muito barulho, alguns dos sons produzidos por motas, as vozes de algumas pessoas, aspiradores, pessoas que insistem em ouvir todos os toques do telemóvel em público, ruído de qualquer ferramenta ou maquinaria, aqueles que falam de forma gritada ao telefone e basicamente tudo o que interfira com o sono e o descanso na hora sagrada reservada para tal.

A grande excepção é a música. Gosto de ouvir música e não me incomoda notar que outros o fazem, desde que em horários apropriados.

Esta minha sensibilidade auditiva faz com que tenha cuidado com o meu próprio ruído, para não incomodar terceiros. Uma atitude especialmente importante quando se vive num apartamento.
Embora goste de ouvir música, só a ouço alta em determinados horários e só pontualmente durante longos períodos. Salvo nos momentos em que já ripostei a barulho da vizinhança com alguns temas da minha eleição.
Tenho atenção aos horários em que ligo máquinas e utensílios como o aspirador, máquina de lavar ou secar, ou até a varinha mágica. O meu bom senso dita-me que não vou aspirar às 9h da manhã nem passar uma sopa às 23h.
Inclusive para os banhos tento seguir uma regra de "bons horários": banhos demasiado tardios são a excepção, não a regra.
Tento não fazer muito barulho nas áreas comuns do prédio, pois faz eco, o som propaga-se e é bastante audível dentro das habitações.
A regra de serem proibidas obras ao Domingo é sagrada, e só é quebrada em caso de emergência.
"Trata os outros como queres que te tratem" - é o lema de ordem.

Assim sendo, embora até seja uma pessoa tolerante, não me coíbo de agir quando acho que atingi o meu limite.
Ao longo de 13 anos nesta casa ainda só tive que intervir uma meia dúzia de vezes, e só metade das vezes se tratava de ruído de vizinhança. Acho que é uma média bestial e demonstra que estou rodeada de bons vizinhos.
Quando acho que devo intervir é da minha natureza ser uma pessoa bastante pragmática e directa. Não sou daquelas pessoas que não enfrenta nem age, mas vai guardando rancor. Antes que me dê um amok, prefiro abordar as pessoas, informá-las, dialogar e esperar que isso seja o suficiente para garantir a resolução da situação. Em todas as situações este modelo tem-me servido bem, até porque na maioria das vezes acredito que as pessoas não têm mesmo noção da intensidade do barulho que produzem e de como este pode ser audível e incomodativo para terceiros.

Já pedi no café próximo da minha casa que falassem com o padeiro, e em meu nome lhe pedissem que baixasse o volume do rádio quando viesse entregar o pão às 5h da manhã, pois este acordava-me e estragava-me o sono.
Um dia cheguei a abordar os vizinhos de cima pelo barulho constante do arrastar de móveis, do aspirador a trabalhar o dia todo, todos os dias, desde manhã cedo, do poc poc poc infernal que é o barulho de bolas a bater no chão, de gavetas e portas de armário a bater no quarto a horas tardias, que a qualidade do nosso tempo passado em casa estava a ser seriamente comprometida.  Assim como já falei com outro vizinho sobre se seria possível, logo de manhãzinha cedo, terem mais atenção ao retirar o carro da garagem, se podiam evitar fechar a porta com tanta brutalidade e dispensar a música techno aos berros, pelo menos até se afastarem da janela do meu quarto. Com bons modos, foi o que bastou. E estou-lhes grata por isso.

Para quem não tem a mesma sorte o meu conselho é:
Conheçam a legislação sobre ruído. Sejam um bom exemplo: é demasiado hipócrita exigir de outros o que nós não cumprimos. Com bons modos e uma boa atitude, abordem as pessoas e informem-nas da situação. Se não resultar, repitam. Da terceira vez em diante, chamem a Polícia para que sejam as autoridades a chamar-lhes a atenção, e para que as ocorrências fiquem registadas, servindo de prova caso a solução resida na via judicial.






domingo, 14 de fevereiro de 2016

Desejo de ano novo #6: A liberdade de deambular


Adoro dormir. De tal forma, que continua a ser das minhas coisas favoritas de todos os tempos e não acredito que haja, num tempo próximo ou longínquo, qualquer indício de mudança.

Um dos principais motivos porque adoro o sono, talvez até o principal, são os sonhos. O mundo no plano de Orfeu parece-me tão real quanto o deste lado: sonho a cores, com som, e juro que até já houve umas quantas vezes que também tive a impressão de sentir cheiros e impressões tácteis. Sonhar é vivenciar uma aventura, em que o argumento costuma bater aos pontos os da grande tela. O meu ponto de vista move-se como a câmara num filme, ora em grandes planos, ora em close-ups, ora do ponto de vista de uma qualquer personagem.
A experiência é tão real e inequivocamente tangível que, por vezes se torna difícil discernir qual o mundo onírico e o real, não fosse no primeiro possível levantar vôo sem esforço algum e fazer pouco de todas as leis da Física que regem o nosso lado da existência.

Não é por falta de amor à vida deste lado, mas o mundo de lá bate este aos pontos. Sobretudo porque nele a liberdade reina suprema e não existe medo nem consequências de maior. Em comparação, este mundo é uma prisão.

Enquanto sonho posso, embora de forma virtual, vivenciar o meu lado intrépido, explorador e aventureiro. Posso ser uma espécie de Indiana Jones ou Lara Croft e embrenhar-me selva adentro, descobrir zonas ainda inexploradas, dar com o caminho para o El Dorado, viajar ao centro da Terra, sondar o fundo dos oceanos a bordo do Nautilus, chegar à Atlântida, viajar no tempo e espaço...

Acordada sou a perfeita antítese de tudo isto. É o meu lado cauteloso e medricas o regente. Certamente também por uma questão de feitio, mas sobretudo pelo lugar que fizemos do mundo.

Adoraria que vivêssemos num mundo onde as fronteiras estivessem abertas e existisse segurança para sermos livres de deambular por aí, ao sabor da vontade, ao ritmo do improviso. Que pudéssemos pôr uma mochila às costas, e sozinhos ou acompanhados, fossemos viver aventuras, conhecer gentes, hábitos e culturas, explorar cenários, encher os olhos com outras vistas, sem os perigos e os danos que infligimos aos nossos semelhantes.

Acho triste, frustrante e mais uma prova que a estupidez é um dos nossos traços dominantes, que enquanto espécie tenhamos sobrevivido a vários períodos de quase-extinção, a eras glaciares, ao apetite de animais selvagens, à doença e sabe-se lá mais o quê, apenas para nos tornarmos a nossa maior ameaça.




segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Desejo de ano novo #3: Direccionar a minha raiva a quem a merece.



Ontem à noite chateei-me com o Kiko. Hoje de manhãzinha cedo voltei a chatear-me com o Kiko.

E se há coisa que eu não gosto mesmo nada é de me chatear com ele. É um bom cão, adoro-o e odeio que hajam momentos em que demonstre algo menos nobre que esse amor que lhe tenho.

Mas é inevitável passar-me dos carretos. Assim como é inevitável ficar triste e de consciência pesada por tê-lo feito. Porque embora me expresse emocionalmente com a mesma subtileza que o Hulk, até sou bastante racional e sei que feitas as contas, se não fossem as pessoas não teria que me chatear com o meu cão nem um décimo das vezes.

Ele não tem a culpa que as pessoas sejam porcas. Que as ruas estejam minadas de dejectos caninos, lixo de toda a espécie e restos de comida. Que são tudo coisas que o atraem pelo olfacto e que ele quer explorar. A ele, não lhe passa pela cabeça, que não deve meter tal objecto na boca porque é cortante, que deve resistir a ir aos restos de comida que alguém deixa supostamente para os animais abandonados, mas que não se quer dar ao trabalho de os deitar no lixo após algum tempo e lá ficam meses.
Não entendo esta gente que se acha muito solidária e generosa por deixar restos na rua para os animais, mas que, por deixar a coisa a meio e nunca mais se ralarem com os saquinhos que deixam esquecidos pelas ruas, podem muito bem ser os grandes causadores do envenenamento de um qualquer animal. Porque senhores, caso não saibam, a comida estraga-se e torna-se imprópria para consumo! Imaginem que bem deve fazer a um qualquer ser vivo, um esparguete à bolonhesa há meses na rua!
Sim, há que matar a sede e a fome dos animais errantes. É um dever moral, e um acto de generosidade e amor com o próximo, mas há formas correctas de o fazer.

Não fossem as pessoas com os seus hábitos, o seu lixo, os seus animais à solta, os nossos passeios seriam um deleite. Bastaria um puxão ocasional pela trela para lembrar o Kiko que não deve ir para a estrada ao invés dos mil e quinhentos a que sou obrigada para que não abocanhe uma qualquer porcaria. Que inevitavelmente ele acabará por ser bem sucedido, e acabarei, como esta manhã, com os dedos na sua boca, a berrar-lhe que largue, com um nó na garganta e lágrimas nos olhos porque o que é demais também cansa, e há dias que estamos assim e pronto.

Acho que após um ano disto, 2016 será o ano em que perderei totalmente as estribeiras e a vergonha e começarei a interpelar as pessoas quando apanhar alguém em flagrante numa destas situações.




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

coisas que me irritam #18: "Tire só fotografias, deixe apenas pegadas"



Não sei dizer há quantos anos ouvi pela primeira vez este slogan ou uma qualquer variante do mesmo, criado com o intuito de desenvolver na público uma maior consciência ambiental, um maior civismo no usufruto dos espaços públicos, especialmente dos cenários naturais.
Acima de tudo sei dizer que é uma mensagem que ressoou em mim e tornou-se parte intrínseca da minha conduta.

Acho que só se vestissem a minha pele por momentos é que perceberiam com exactidão o quanto me deixa desagradada encontrar lixo por todo o lado.

Por querermos providenciar a melhor vida que nos for possível ao Kiko, levamo-lo com frequência a passear fora da nossa localidade. Porque os passeios à trela pelas ruas não são suficientes para que este gaste as suas energias, porque o seu ar de felicidade é tremendo quando lhe damos a oportunidade de correr solto, porque o lixo que as pessoas deixam pelas ruas tornam-nos prisioneiros, forçados a uma rotina nada prazenteira em que temos que ir híper alertas a tudo o que se encontra no pavimento, a dizer "não" quinhentas vezes, a desviarmo-nos, a considerar que certas ruas são intransitáveis de tão porcas. É insatisfatório tanto para nós como para o cão.

Antes de começar a época balnear corríamos algumas praias. A favorita do marido era a de Magoito, também pelo facto de não ser imediato o acesso ao estacionamento e à estrada o que se tornava mais seguro. Cheguei a deitar alguns anzóis no lixo que encontrei na areia. Pelo menos aqueles foram apanhados por mim e não por um animal ou uma criança. Não seria preciso muito mais para se magoarem.
No dia em que vimos uma seringa no areal agarrámos no Kiko e viemos embora. Eu danada.

Começámos a passar mais tempo no pinhal de Janas, perfeitamente satisfeitos com o cenário. Pelo menos, durante uns tempos. Havia algum lixo, especialmente junto de algumas rampas improvisadas para a prática de motocross, mas habituámo-nos a evitar esses pontos. O puto podia correr a seu bel-prazer, roer todos os paus que lhe desse na gana, e como raramente víamos lá vivalma, até eu começava a conseguir descontrair um pouco mais em cada visita.
Ainda por cima, numas das casas que existem por lá, vive uma pequena matilha de cães que se tornaram amigos do Kiko, o que fazia daquele passeio também uma oportunidade para a socialização e a brincadeira com outros da sua espécie.

Com a chegada do Verão este espaço começou a ser procurado para picnics e afins. Começaram a proliferar os restos de comida, as latas vazias, vidros de garrafas. Se os primeiros podem originar uma intoxicação a qualquer animal, inclusive à fauna local, os segundos podem dar origem a ferimentos e até incêndios.

Um dia, o Kiko que tem um olfacto super apurado, deu com um cheiro qualquer e enfiou-se para dentro do mato. Quase uma centena de metros à frente demos com ele a cheirar um saco de plástico transparente cheio de coisas sangrentas que não consegui identificar. Pelo facto de estar escondido no chão junto a uma árvore, debaixo da vegetação rasteira, não nos pareceu que fosse coisa boa. No momento ocorreu-me que pudesse ser parte de uma macumba, ou algo assim.
Enojados sentimo-nos gratos pelo facto do miúdo não ter furado o saco e entrado em contacto com o sangue. Garanto-vos que teria corrido para uma consulta veterinária de urgência se assim fosse, tal o nojo que aquilo que nos meteu.
Foi a última vez que lá metemos os pés.

Neste momento o local dos nossos passeios são as falésias que ligam duas praias, cuja localização não vou identificar enquanto este destino nos servir.
Só vos digo que até numa falésia se encontram cacos de garrafas de cerveja! Pardon my french mas, puta que os pariu a todos!

É tão difícil perceber que se têm mãozinhas para as levar para lá, o mais decente a fazer seria levá-las de lá?! Não deixar vestígio algum que não as pegadas!

Aos que ainda não perceberam esta noção, que é tão básica ao nível do senso comum, do civismo, da decência, e ao mesmo tempo tão essencial, desejo-vos que de cada vez que poluírem andem uma semana a cagar vidrinhos!


quarta-feira, 27 de maio de 2015

coisas que me irritam #16: O verdadeiro significado de andar aos papéis ou, se preferirem, a função pública no seu melhor



Por coisas cá minhas e dos meus projectos preciso (muito!) de um determinado papel.

Tomar posse desse papel exige toda uma demanda pelos meandros da burocracia.

Coisa pouca:
Basicamente Pessoa #1 fez-me chegar através de Pessoa #2 uma resma de papéis, com os quais me dirigi ao Organismo Público #1, para conseguir mais um papel. Onde fui informada que, munida de todos os papéis, me deveria dirigir ao Organismo Público #2, pedir mais um papel, que deveria depois levar ao Organismo Público #3, onde finalmente me dariam um papel com poder hierárquico sobre todos os papéis, uma espécie de super-papel, de Graal dos papéis, com o qual poderia voltar ao Organismo Público #2, e quem sabe, aí, conseguir o "tal" primeiro papel que me faz uma tremenda falta.

No Organismo Público #1 as coisas correram tremendamente bem: tomaram-me muito menos tempo, energia e dinheiro do que estava à espera. Para além de sair de lá com o devido papel, quem me atendeu foi amável o suficiente para me informar dos passos que deveria seguir.

O passo seguinte seria ir ao Organismo Público #2 pedir um de dois papéis, o que fosse mais barato porque em ambos está contida exactamente a mesma informação.

Fui confiante.
Tiro a senha. Espero. Chega a minha vez. Exponho a situação. Peço aconselhamento sobre qual dos meus papéis me convém. Parece ser à escolha do freguês, a diferença é que um leva o selo branco, que dá um ar mais oficial à coisa. Pelo sim, pelo não, escolho esse. "Ah, então vai ter que tirar outra senha, que isso já não é comigo". Tiro a senha. Espero. Chega a minha vez. Exponho a situação. Dizem-me que afinal não posso pedir o papel com o tal selo branco, que afinal só posso pedir o outro. Ainda me perguntam qual prefiro, o que quero fazer. Abro muito os olhos. Respondo que a decisão é óbvia. Que, se entre duas hipóteses, uma é eliminada, só restando outra, não há muito por onde decidir. A estagiária olha para mim como quem olha para um palácio. Eu simplifico: "quero o papel A, por favor". Fica confusa, chama a superior, e dizem-me que então já não é com elas, mas com a primeira técnica que me havia atendido anteriormente. Entretanto já passou tanto tempo que está quase quase no horário de encerramento, o que faz que ande tudo em alvoroço. A superior decide atender-me. Diz-me que corra até à maquineta tirar outra senha. Imprime um formulário para eu preencher e sai de cena. Preencho 90% da coisa até me surgirem dúvidas: não domino a linguagem técnica da coisa. Prefiro pedir ajuda a ter que refazer tudo. Olho em redor. Não tenho outra hipótese senão levantar a voz e perguntar de forma bem audível se não há ninguém que me ajude no procedimento. Passados mais alguns minutos de espera, quem acaba por me atender é a primeira técnica. Dá-me um papel que serve para provar que fui ali pedir um papel. Papel esse que me deveria chegar a casa passadas 3 semanas.

Isto foi no dia 7 do mês passado.

Entretanto telefonei o número indicado no tal papel que me foi dado. Número de um Organismo Público #4, pelos vistos responsável pela gestão do meu processo.
Atendem-me. Exponho a minha situação. Informam-me que a "chefe", que é também a gestora do meu processo, não está. Foi almoçar, embora sejam 15h e o horário de atendimento ao público termine às 16h. A rapariga do outro lado da linha é simpática, espelho da minha própria atitude. Informa-me que a forma correcta de comunicar sobre o meu processo é através de e-mail. Mesmo assim, pede-me o número de telefone e as referências processuais. Vai deixar um recado à chefe, para que me ligue.
Ninguém ligou. Nem nesse dia, nem no dia seguinte. Envio um mail. Exponho a minha situação. Recebo uma resposta automática acusando a recepção do mail. Até hoje, mais nada.

Já ando cansada dos inúmeros contactos com a Pessoa #2 em que a conversa não passa da desconversa sobre a estagnação do processo.
Já coro, fruto da vergonha alheia, como se a ineficiência fosse minha.

Rio da situação. Parece uma anedota das más. Rio para não chorar, porque nesta demanda pelos papéis ainda a procissão vai no adro. Não me ocorre que mais possa fazer. Já começo a entender o que leva aquelas pessoas a passarem-se de tal forma da marmita que se barricam nos tais organismos públicos, com armas de fogo, reféns e trinta por uma linha.
Não chego a tanto, mas apetece-me passar por lá para pedir o livro de reclamações. Já o teria feito se não achasse que este pessoal da função pública é capaz de ter mau feitio e retaliar de forma a que nunca mais veja papel algum.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

coisas que me irritam #15: Como perder clientes



Somos clientes mais ou menos assíduos, (conforme os apetites!), da Pizza Hut há cerca de década e meia.
Gostamos das pizzas de lá, o que é bom sinal, tendo em conta que, nos meus tempos de estudante universitária cheguei a ter um part-time num dos restaurantes da marca. Vi com os meus olhinhos como era preparada a comida e fiquei bem impressionada. Não deixa é de ser mais uma daquelas empresas que pagam mal e porcamente, mas isso são outros quinhentos.

Adiante.

Ontem, aproveitando que nos tivemos que dirigir ao Retail Park, decidimos jantar na Pizza Hut.
Haviamos estado lá não há muito tempo, e a experiência tinha sido boa. Mesmo com a casa cheia, o serviço havia sido rápido e a comida bem confeccionada. O que se espera.

Pouco passava das sete da tarde, logo fomos os primeiros clientes a entrar, juntamente com outro senhor.
Fizemos o pedido: batatas country para entrada, e duas pizzas clássicas, (que eu adoro, e é uma pena que não façam parte da ementa take away ou de entrega ao domicílio).

As bebidas chegaram à mesa rapidamente, mas a partir desse momento esperámos e esperámos...
Olhámos em volta e o que observámos foi:

- A nossa empregada de mesa a fazer acolhimento de clientes, (durante aquele período de espera chegaram muitas mais pessoas), uma pessoa a fazer o serviço de bar, um empregado de cozinha ao balcão ocupado com o empratamento e embalamento dos pedidos, (aparentemente tudo normal até agora, certo? Mas não ficamos por aqui...), duas empregadas de mesa naquele momento paradas em frente ao balcão, (tanto que foram atender um cliente de take away em coro), mais um ou dois funcionários a não fazer aparentemente mais nada que não observar o tal funcionário em trajes de cozinha, e a nossa comida a esfriar em cima do balcão sem que ninguém a viesse entregar.
Para piorar a situação, não se tratavam somente das entradas. As pizzas também já estavam prontas.

Tive vontade de chamar um dos empregados e perguntar-lhe se aquele era o meu pedido, e se sim, porque é que ninguém o vinha entregar à mesa, em tempo útil, antes que esfriasse.
O marido insistiu que esperássemos para ver até onde é que a coisa ia. O seu ponto de vista é que não somos nós, clientes, que temos que os ensinar a trabalhar correctamente.

Nesta altura já estávamos ambos especados a olhar para o balcão e para toda aquela gente. Por cada minuto que passava a nossa expressão facial embrutecia, mais e mais. Instaurava-se aquela sensação de "bolas, que já nos estragaram o jantar! Que nervos!"

E a espera continuou...
A uma dada altura pareceu-nos ver o funcionário que tratava do empratamento a chamar a atenção do tal rapaz que não fazia nada mais que observá-lo, (devia ser gerente ou algo assim), para o nosso pedido, a dizer-lhe que o fosse servir. O rapaz ignorou-o completamente, virou-lhe costas.
Nós, que nos apercebemos da cena, mais furiosos ficámos.

Quando finalmente nos serviram, como é óbvio a entrada estava morna e as pizzas frias.
Por falta de tempo, mas sobretudo de paciência, optámos por chamar a empregada para pedir que as pizzas fossem reaquecidas.
Houvesse realmente mais tempo e paciência e o que deviamos ter feito, e o que era a minha vontade, era mandar tudo para trás, e exigir que fizessem tudo de novo. Que servissem em primeiro lugar as entradas, e só depois, as pizzas, quentes como se quer. Acho que não é pedir muito.

Enquanto esperávamos pelas pizzas requentadas (tem algum jeito?!) fomos mantendo o olho no balcão.
Incrivelmente, quando estas regressaram da cozinha voltaram a não nos serem servidas imediatamente.  Lá estavam elas, em cima do maldito balcão, com três ou quatro aves raras à volta, e nenhuma com o discernimento de cumprir o seu papel.

Já nos estavamos a passar!
Chegaram à mesa pouco tempo depois em estado aceitável. Se assim não fosse, teríamos pago as bebidas e as entradas e saído naquele momento.

Hoje, o sucedido continuou a moer-me a cabeça, e enviei uma reclamação através do site da Pizza Hut a relatar o sucedido e a afiançar que não voltaremos tão cedo aquele restaurante.

Confesso que é algo que é raro fazermos: reclamar. Mas com o passar dos anos, com o somar de situações, a vergonha, a timidez, a mansidão ou seja lá aquilo que faz de nós tão pacatos, vai-se desvanecendo.
Desta vez não consegui deixar de reclamar, embora vá tentar, no futuro, fazê-lo no imediato ao invés de andar a remoer no assunto. Fi-lo não só pelo facto de ter estado imenso tempo à espera, do erro que é servir as entradas em conjunto com o prato principal, da comida vir fria. Sobretudo fi-lo porque enquanto cliente me senti mal servida e desrespeitada.






sábado, 6 de dezembro de 2014

cromices #60: Ah, o cheiro a napalm logo pela manhã!



Um dia, quando for grande, quero ser uma pessoa zen. Daquelas que emanam serenidade por todos os poros e são impertubáveis, haja o que houver. Tipo Dalai Lama.

Acho que só o facto de o desejar dá claramente a entender que sou o oposto. Há momentos em que penso que, se fosse cão, era um daqueles chihuahas, em modo irritadiço e irritante.
Ou se preferirem, alguém com a disposição esperada para um cenário de guerra tipo Vietname: tensa, hirta, alerta, a voz sai com o volume mais elevado do que desejaria, e pareço pronta a apertar o gatilho à mínima coisa.

Mesmo assim o jogo não acaba a zeros. Ponto de honra por me aperceber, e por tentar melhorar.

Hoje de manhã tinha dado um jeito tremendo ser como o Dalai Lama.

Ainda estamos em período de adaptação cá por casa. A habituar-nos ao Kiko, às nova rotinas, a corresponder ao que ele necessita de nós, à cena do reforço positivo em todas as situações.

Faz hoje uma semana. Estamos felizes mas exaustos. Parecemos uns zombies.
O Kiko é óptimo, tendo em conta que é um bébé, e com donos inexperientes, porta-se lindamente. Da nossa parte, acho que também merecemos, não 20 valores, porque a ignorância tem o seu peso, mas ainda assim uma nota positiva.

Hoje de manhã, bem cedinho, o marido acorda mal-disposto. É uma intoxicação alimentar. Como ambos comemos e bebemos exactamente a mesma coisa, ando à espera da minha vez, mas a rezar para que não aconteça. É que dá um tremendo jeito que um se mantenha apto para cuidar do outro, do Kiko e de tudo o que apareça.

Fomos tomar o pequeno-almoço numa esplanada bem perto de casa, não fosse o diabo tecê-las.


Pequeno-almoço servido e chega um dos nossos amigos caninos, o Ianni, (dúvidas sobre a grafia correcta).
O Ianni é um cão com alguma idade, preto e grande. É um bom cão, como todos os cães, gostamos dele. Mas é um cão muito chato, que mói a paciência a um santo.
Chega à esplanada e anda pelas mesas a pedinchar comida. Entra no "espaço pessoal" das pessoas, ladra, excita-se, não desiste, chateia.
É claro que a culpa não é dele, é dos donos. Não lhe deram a educação devida, deixam-no andar ao deus dará, não se importam nada que existam n pessoas pela localidade que o alimentem, até lhes dá jeito, comportam-se irresponsavelmente e até já ouvi vários relatos que me fazem acreditar que não o merecem, como não lhe abrir o portão num dia de chuva e tempestade.

E eu enfureço-me com estas pessoas e já não há-de faltar muito para lhes ir bater à porta a deitar faíscas dos olhos, porque naquele minuto tenho ao meu lado um marido cadavérico por causa do mal-estar, queremos paz e sossego enquanto tomamos a nossa refeição, e há ali um cão que lá por gostarmos dele não significa que não seja um melga de primeira, com um comportamento que nenhum cão deveria ter.
E é isso que estou quase quase a ir lá dizer-lhes: que um cão é para estar em casa, bem alimentado, protegido dos elementos. Não na rua a exibir comportamentos incorrectos, a incomodar, e sobretudo a correr o risco de ser atropelado porque anda sem trela.

Entretanto marido levanta-se de repente. Diz que já volta e corre até casa. Foi vomitar.
E eu ali fico à espera dele, a olhar para o relógio do telemóvel a pensar que mais 5 minutinhos e cago nisto tudo, o cão que devore as torradas todas que eu vou para casa.
Vão aparecendo amigos e perguntam-me sobre o Kiko. Passam alguns minutinhos.

Chega um casal com um miúdo e sentam-se na mesa ao lado. Estou rodeada por uma criança e um cão tremendamente excitados. Está tudo bem.
O miúdo interpela-me. Pergunta-me se o cão é meu. Trata-me por tu. Digo que não, que não é meu.
Pergunta-me se lhe pode dar festas, e antes de eu ter tempo para responder já está em cima do cão.
Os pais nem se mexem. Eu aviso que o cão não é meu, que acho que lhe pode dar uma festinha, com cuidado e meiguice,  sem exageros. Que tudo deve acontecer sob supervisão, que não me responsabilizo.
O miúdo abusa. Eu volto a avisá-lo que tem que ser meigo. Os pais não se mexem, mas desta vez dizem-lhe qualquer coisa a respeito.
O miúdo continua a tratar-me por tu. Nem todas as crianças são assim, mas este tem modos de pigmeu abrutalhado. Nota-se que está a passar por uma fase (?) qualquer em que gosta de ser um "bocado" malcriado com os adultos, demasiado enérgico no mau sentido, que anda a testar os limites e, não vi que lhe metessem o travão nisso.

Pergunta-me pela enésima vez se o cão é meu, se não é meu de quem é, e quem é que estava sentado comigo, porque estão dois copos na mesa e só lá estou eu, e novamente se o cão é meu...

Não lhe satisfaço todas as curiosidades, era só o que faltava!
Quando não lhe quero responder, sobretudo porque não tem nada a ver com isso ou quando já lhe respondi à mesma questão demasiadas vezes, ignoro-o.
Afinal não é só o cão que precisa de treino.

Respiro fundo, esboço um sorriso. Tento ir às profundezas buscar uma paciência que hoje me falta. Mas as reservas estão em baixo, e eu acabo por lhe dizer que quando for grande deveria ir trabalhar para a Polícia Judiciária, que tem jeito para interrogatórios.
Nada mau, diga-se! - mentalmente estava pensar mais num "porra que és mesmo chato!".

Aplausos para o Ianni que se portou bem com o mini melga. Lá está, é um bom cão, só precisa que os donos se comportem melhor.

Quando se foram embora, pouco depois, dei-lhe umas festas e mais um bocado de torrada para o recompensar pela paciência.
Há tantas opiniões quanto pessoas, mas eu gostaria de ter visto pais mais assertivos. Que, com calma e carinho, guiassem o puto para outro comportamento.
Que o lembrassem de várias coisas: que não se tratam adultos, especialmente desconhecidos, por tu; que enquanto não acalmasse não se poderia chegar perto do cão para lhe dar festas, que um deles o tivesse acompanhado nisso, que ao fim de repetir três vezes a mesma pergunta o chamassem à atenção.
Volta o marido. Consegue a custo mastigar mais um naco de torrada.

Neste momento só eu ando por aqui acordada, a fazer tudo o que é necessário para que os meus dois rapazes estejam bem.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Não me ando a sentir nada bem



Eu odeio irritar-me. Sobretudo chateia-me que me obriguem a ser chata.
Faz-me mal à saúde, embrulha-se-me o estômago, baralha-se-me a tripa, fico vai não vai a pensar se vomito, dão-me tremeliques, e dói-me tudo.

Já tive tanto stress na minha vidinha, que gastei de vez a resistência que tinha para com as chatices, tipo os calços dos travões.
Se outrora fui, ou pelo menos parecia um couraçado, hoje nem pensar nisso.

Ora, há uma pessoa que se anda a portal muito mal connosco.
Que ficou de nos enviar algo segunda-feira sem falta. Amanhã já é quarta-feira.

Só não a identifico publicamente, porque ainda lhe dou hipótese de redenção e preciso mesmo daquilo. É meu de direito. Já cá devia estar na minha mãozinha, sem atrasos nem desculpas, com um sorriso e um agradecimento.

A pessoa já admitiu ser assim... despassarada, desatenta. As informações que me chegam é que, sim senhor, é boa pessoa, mas lá está, uma pessoa muito cabeça no ar, desorganizada, que nunca trata das coisas a tempo e horas.

Dou por mim a ter que lhe ligar todos os dias. E eu odeio visceralmente fazê-lo e odeio que mo façam. Acima de tudo odeio este tipo de pessoas que falham com os outros, que nos forçam à condição de chatos.
Somos todos adultos, deveriamos agir como tal. De forma responsável. A irresponsabilidade de uns pesa sempre nas costas de outros, e gera úlceras e mal-estar.

Redima-se e não haverá parte segunda deste post. E eu torço para que isso aconteça. Mesmo!

Continue a dar-me cabo da pouca sanidade que me resta, e passo do modo gentil assertivo para o modo besta destravada.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Coisas que me irritam #13: Morra o telemarketing e o d2d! Morra! Pim!





Hoje quedo-me em remorsos e embaraçada pela minha conduta de ontem.


Acontece-me sempre que perco as estribeiras, que me salta a tampa. Mas, bolas, por vezes parece que não descansam enquanto isso não acontece!
O que só contribui para me deixar ainda mais irritada, porque sinto que de alguma forma me forçaram a passar da marmita.




Eu explico.


Tenho uma tolerância incrivelmente baixa para com acções de telemarketing e porta à porta, porque considero estas práticas tão invasivas quanto um exame à próstata.


Um dos motivos é que um dos traços mais marcantes da minha personalidade é não gostar de me repetir, e sobretudo não achar piada nenhuma a que não façam caso daquilo que digo, aquela sensação de estar a falar para uma parede. Neste caso é ainda mais grave porque parece que sou obrigada a aceitar que me invadam o domícilio e o telefone pessoal, o que não admito.


Em minha defesa garanto que no contacto com entidades comerciais estou sempre a frisar que não autorizo que os nossos números sejam usados para esse fim. O que equivale a não dizer coisa alguma e isso enfurece-me.
Também já tentei, ínúmeras vezes e usando o melhor comportamento, atender o telefone e a porta, e pedir ao comercial que ouça o meu pedido com muita atenção, e que tome as medidas necessárias para retirar o meu número ou morada da lista de contactos. Igualmente, o meu pedido é ignorado vezes sem conta. Literalmente como falar com uma porta!


Ao longo de uma meia dúzia de anos, a quantidade de comerciais que já vieram bater à porta aproxima-se, sem qualquer exagero, da meia centena.


É um ciclo que, para mal dos meus pecados, se repete. Quando me passo da marmita ficam um par de meses sem dar à costa. Depois reaparecem.
E no início de cada ciclo eu recito uma espécie de mantra antes de abrir a porta: que são pessoas como eu, que estão a fazer pela vida, que é um trabalho de merda, que trabalhar à comissão é contra a ética e a moral, e eu vou despachá-los de uma forma cordial, com um sorriso genuíno e um aperto de mão.


E no primeiro par de visitas consigo fazê-lo, e sinto-me bem por isso. Afinal que me custa perder meia-dúzia de minutos, mesmo que tenha o jantar ao lume e não me apeteça nada estar a ouvir as mesmas tretas, sobre o mesmo produto, pela centésima vez?


O trato com base na empatia e na cordialidade é fácil quando a postura da pessoa que se nos apresenta é "normal". Quando tem o bom senso de não insistir quando percebe que o interlocutor não está interessado.
Mas esses, pelo que pude apurar das minhas experiências, são a excepção.


A maioria insiste e persiste, fala por cima, atropela, faz ouvidos moucos e continua a debitar o discurso. Percebe-se claramente que ali há a convicção que hão-de conseguir vencer pelo cansaço. E acabam por levar o troco na exacta medida.


Alguns, mesmo depois de avisados que não existe qualquer interesse, que pelo amor da santa retirem a nossa morada do circuito, que escrevem uma nota no bloco que carregam sobre isso, chegam a voltar no dia seguinte. Esses levam o "quase-pior" de mim.
Há uns tempos, espreitei pela janela quem tocava à campainha do prédio, e quando vi que se tratavam dos mesmos comerciais do dia anterior, passei-me do tipo:
- "Podia abrir a porta?"
- "Não! Só podem estar a gozar! Dois dias de seguida?! Mas que merda é esta? Tenho que gramar convosco todos os dias? Eu já disse ontem o que tinha a dizer, que é não, agora ponham-se a andar!"




Fui dura? Rude? Exagerada? Temos pena! Mas pelos vistos não o suficiente porque continuam a voltar.


Viessem somente uma ou duas vezes por ano, para verificar se o meu interesse em relação ao produto se havia alterado, e nem levaria a mal.




Após uma semana de chamadas por parte de um número "disfarçado como número de telemóvel", que andava a melgar o marido, para o qual era impossível ligar de volta porque dava um aviso qualquer, que me desligou uma vez na cara.
Após baterem à porta o par de pessoas mais despreparadas que já vi na vida, que diziam vir da parte da EDP, que nem se sabiam explicar mas que sabiam ser insistentes, enquanto fazia o jantar, a meio da refeição toca o telefone.
Óbvio que já ia inflamada quando agarrei no aparelho. "Estou? Tou? TOU?" - Nada. Começa-me então a sair uma catadupa de impropérios, quando ouço uma vozinha masculina do outro lado, que se identifica.
Mas já é tarde demais, eu sou um foguete com o rastilho já aceso, e só consigo repetir, num tom quase histérico que já tinha pedido que não contactassem aquele número para telemarketing. A vozinha desculpa-se e despede-se. E eu livro-me do homem mas não dos remorsos.
Furiosa. Por que me irritam a este extremo?!










quarta-feira, 3 de setembro de 2014

coisas que me irritam #12: O caso da "velha maluca"



O mote foi lançado no FB, num meme onde se lê "Odeio quando me ligam e perguntam com quem estão a falar antes de se identificarem".


E eu revi-me na cena. Eu e mais uns quantos milhares de pessoas.


Odiar é uma palavra demasiado forte. Irritar ou tirar do sério serão expressões mais adequadas, até porque os maus sentimentos passam rápido e dão origem à risota, pelo sentido inusitado e até hilário destes episódios.


Tenho uma tia-avó, uma senhora de idade já bastante avançada e que sempre teve uma certa aura de excentricidade.
Sempre que ela ligava lá para casa, (isto nos tempos pré-históricos antes do telemóvel), era um fartote.
A senhora tem a mania, (que pelos vistos ainda dura), de ficar caladinha do outro lado da linha se não é a minha mãe a atender. Como não reconhece a voz deve ficar baralhada, (sei lá como justificar isto!), ou algo que o valha.


A primeira vez, há muitos anos, que me calhou atender uma chamada da tia foi inesquecível.


Como não reconheceu a minha voz, nem eu a dela para ser franca, começa tipo disco riscado a perguntar quem é. Eu fazia o meu papel:
 "Não. Não funciona assim. Quem liga é que tem que se identificar. Quem é pergunto eu. E com quem quer falar?"


E caímos num impasse, num "nem ata nem desata", em que a velhota intercalava períodos de silêncio com o fatídico "quem é?".


Até que desisti:

"Oh mãeeeeeee, está uma velha maluca ao telefone. Deve ser para ti."











quarta-feira, 4 de junho de 2014

Estás na minha lista negra!





"O Código do Trabalho refere no seu artigo 22.º que "nenhum trabalhador ou candidato a emprego pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão, nomeadamente, de ascendência, idade, sexo, orientação sexual, estado civil, situação familiar, património genético, capacidade de trabalho reduzida, deficiência, doença crónica, nacionalidade, origem étnica, religião, convicções políticas ou ideológicas e filiação sindical"."


retirado daqui.




Pessoa X passa à porta da Pastelaria G. em Sintra, e repara no papel afixado à porta que informa estarem à procura de colaborador.
X, que trabalhou sempre, até ao momento em que a empresa a que dedicou toda a sua vida profissional, encerrou portas.
A pessoa X tem a seu favor a experiência profissional, o know how, a reputação imaculada, construída ao longo da vida, de boa profissional, competente, de confiança.
X mantém uma imagem cuidada.


X entra no estabelecimento, e pede à empregada de balcão mais informações.
A empregada avisa que a patroa não está, mas adianta que só estão a aceitar "raparigas novas".




A Pastelaria G. nunca mais na vida irá ver um cêntimo meu.





quarta-feira, 28 de maio de 2014

A importância de saber justificar





Lembram-se de quando éramos miúdos, na escola, e os professores insistiam para "justificarmos as nossas respostas"? Já pensaram na razão de ser dessa insistência?


Acompanhem-me, por favor, neste exercício:


Imaginem que vos pedem para elaborar qualquer coisa: uma refeição, um projecto, um objecto, uma ideia. A sério, isto aplica-se mesmo a qualquer coisa.
E vocês reflectem sobre como elaborar o que vos foi pedido e fazem-no.
Quando apresentam a vossa "coisa" dizem-vos que não gostam, que não concordam. Mas não se justificam. Não vos apresentam nem as razões que sustentam a sua discordância, e muito menos de como responderiam ao desafio proposto no vosso lugar, que alternativas sugeriam, quais os objectivos e como pensam lá chegar.




Digam lá que não sentiriam que é como estar a falar para uma parede!


Não confundir com a situação que é um debate entre pessoas que têm opiniões formadas, embora totalmente distintas sobre um tema. Como adultos sabemos que existe uma imensa validade em concordar em discordar. Além disso, um diálogo entre pessoas com perspectivas diferentes cria uma oportunidade para todos alargarem os seus horizontes.




Falo da frustração que é ir para uma troca de ideias munida dos amigos "O quê", "Quando", "Como", "Porquê", "Quem" e calhar com quem acha que uma mão cheia de "Nãos" é um Royal Flush.


Recentemente cometi o erro (oh para mim a bater com a cabeça na parede!) de tentar trocar impressões com quem defendia a abstenção nestas últimas eleições.
O discurso era de festa: viva a democracia, fora a partidocracia, está na hora de apresentar novas soluções, os que não foram votar é são os bons e espertos, e por aí fora...


Epá, sim senhor, desejo por um novo paradigma de sociedade, mais evoluído em todo o seu semblante? Também partilho. Afinal, quantos mais cidadãos activos no seu papel, com o intuito de melhorar a nossa sociedade, melhor para todos.

Então quais são mesmo essas "novas soluções", o que têm em mente? - perguntam vários, num misto de curiosidade e esperança que houvesse por ali um projecto, ou no mínimo um esboço, fruto de reflexão e planeamento estratégico, uma visão coerente.

"Mudamos a Constituição. As alterações deverão ser discutidas por todos nós".  Não houve aprofundamento sobre a questão, mesmo a pedido de várias famílias.


Da minha parte, desejo-lhes sorte. Talvez consigam reunir 6 178 640 indivíduos, (nº de eleitores portugueses que se abstiveram), no próximo pic nic com o Tony Carreira, e possam aproveitar para redesenhar a Constituição da República.






Estas situações não são pontuais, e estão longe de ocorrer somente entre nós, "cidadãos comuns", treinadores de bancada da política.


Por volta de 2011, entrava-se numa qualquer livraria, e todos os destaques incidiam em milhentas publicações sobre a crise. Foram tantos os políticos, economistas, sociólogos, antropólogos, etc, que decidiram publicar a sua visão sobre o novo contexto macro-económico que viria assolar a Europa.


Cheguei a ler alguns. Tantas as capas que prometiam no seu interior, não só uma análise aprofundada sobre a crise, as razões do seu aparecimento, mas também uma visão pessoal de como a solucionar.


Ora, tratando-se de profissionais da coisa, uma pessoa pensa que há-de sair de ali uma coisa com cabeça, tronco e membros, tim-tim por tim-tim. Mas não.
A incapacidade para a justicação é transversal. Digamos que somos todos mestres em preliminares, mas muito poucos conseguem levar a coisa até ao fim. Digamos que as trocas de ideias são muito como coitos interrompidos.


Para esta gente apresentar possíveis soluções não é diferente de constatar o óbvio e enumerar exigências:


- Queremos uma sociedade justa; queremos o Serviço Nacional de Saúde a funcionar bem; and so on...


Sim, sim, já sabemos isso tudo e é tudo muito lindo, mas como?! Não dizem. Nunca dizem!






E eu depois de ler algumas destas publicações e ficar irritada, (que apenas sou o que sou, mas que não gosto de ser só garganta, e não estou à espera que façam tudo por mim), meti mãos à obra:


Por exemplo, em relação ao Sistema Nacional de Saúde e os seus imensos problemas financeiros, fui ler um Orçamento de Estado. A observação desses dados permite concluir que grande parte da despesa é para com fornecedores.


Quem são os fornecedores? Laboratórios farmacêuticos. O tipo de empresas que alcançam dividendos astronómicos, que praticam uma política de preços com umas margens de lucro brutais, e moralmente discutíveis, tratando-se da área da saúde.

Uma das medidas possíveis: Promover a existência de laboratórios do Estado que forneçam aos Hospitais o maior número possível de produtos e medicamentos, com uma margem de lucro mínima.

O investimento para tal é menor do que se espera, visto já existir o Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos, que poderiam ser uma das infraestruturas utilizadas para este fim.


Tal possibilitaria igualmente fazer chegar medicamentos a um preço muito mais baixo, ou at´gratuitamente, às camadas de utentes mais fragilizadas, como os idosos que auferem pequenas reformas, ou utentes que estejam dependentes de apoio financeiro do Estado para a aquisição de medicamentos.


Acredito que tal fomentaria uma melhor gestão de recursos, diminuiria o buraco financeiro dos hospitais, pouparia dinheiro ao Estado, e facilitaria o acesso ao medicamento e à saúde por parte de toda a população.