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terça-feira, 26 de abril de 2016
Quando falo de Amor: Einstein tinha razão
A nossa sobrinha nasceu.
Pegar num recém-nascido é, sem dúvida, uma das ocasiões que serve para comprovar que o tempo é relativo.
Como este corre, sem darmos conta, quando estamos entretidos a conhecer as feições, a decorar os traços, a rir de prazer com os trejeitos e maravilhados com o quão pequena e perfeita é aquela nova vida.
terça-feira, 8 de março de 2016
coisas de opinar: Dia da Mulher
Hoje é um bom dia para confessar que, mais que uma vez ao longo da minha vida, desejei ter nascido homem. Pelo simples facto das coisas parecerem mais fáceis para o outro género.
Nem sempre esse desejo surgiu de acontecimentos em nome próprio. Desde criança, o que me faltava em energia e aptidões físicas, sobejava em pensamento e poder de observação. Não mudei muito, para não dizer que não mudei nada.
Muitas vezes preferia ficar em casa a ler ou a ver televisão do que ir para a rua brincar, e está ligada à televisão uma das minhas primeiras memórias sobre ter achado uma "grande seca" isto de ter nascido sob o signo feminino.
Não me lembro da minha idade exactamente, mas lembro-me de estar a assistir a um documentário sobre uma qualquer tribo africana, tão distante geograficamente como em costumes. Havia um grande festival, com danças, música e outros rituais. Jovens casadoiros faziam trinta por uma linha para caírem nas boas graças de jovens raparigas e das suas famílias. Após tudo concertado, o dote pago à família da moça, esta deveria acompanhar o esposo até à sua aldeia, onde viveria com este e com os sogros. A partir do momento em que se tornasse uma mulher casada a sua função seria tratar do marido, dos sogros e futuramente dos filhos, por toda a vida, sem objeções e com uma total obediência. Uma escrava, portanto. Pelo menos até ela se tornar também uma sogra, caso dê à luz filhos e não filhas.
É incrível o que a nossa memória decide armazenar em lugar de relevo. Lembro-me tão bem da minha reacção. De ter achado aquilo muito mal, de ter ficado indignada, de ter pensado que realmente é um grande castigo nascer mulher, e porque me haveria de ter calhado a mesma sorte. Logo a mim, ser quase indomável, com este mau feitio, esta obstinação, e esta desobediência e rebeldia inatas.
É que mesmo a minha mioleira sendo tenrinha de tão nova não demorou mais que um par de minutos a somar dois mais dois, a concluir que, embora com outras roupagens, a realidade daquelas moças africanas não era muito diferente da realidade de qualquer mulher europeia.
Assim sendo, posso afirmar que me tornei feminista ainda antes de conhecer o termo.
Recordo-me de estar a passar férias em casa de familiares, (mais uma memória de infância), e após um jantar, em que era hábito serem as mulheres a levantarem a mesa e tratarem da louça, ter-me saído num tom muito fervoroso e altivo que "não, não! Cada um leva o seu prato para a cozinha e lava-o, que não há cá criadas!"
Ou quantas vezes copiei o adágio que ouvi muitas vezes a minha própria mãe usar, enfrentando qualquer homem que me parecesse ultrapassar os limites. Fosse quem fosse, superiores hierárquicos inclusive, olhos nos olhos, nariz empinado e num tom desafiador: "Eu, com as calças do meu pai, sou duas vezes mais homem que você!"
Como quem diz, respeitinho, baixa a bolinha, que independentemente do género, vais aprender que aqui a alfa sou eu, comigo não cantas de galo ou corto-te a crista!
Rio-me ao recordar que, até conhecer o meu marido, todos os namoricos eram para mim, (embora não o confessasse claramente porque soava mal), coisas passageiras, experiências divertidas juvenis, enamoramentos sem perspectivas futuras. Se me vinham com planos sobre o futuro, na minha mente ecoava um trocista "deve ser deve, isso e sopas."
Um dia, após muita insistência aceitei conhecer uma mãe, deixando explícito que para mim não era indicador de "compromisso". O moço teve a infeliz ideia de lançar um bitaite sobre o que deveria escolher em termos de outfit para a ocasião. Rapei frio mas fiz questão de levar o meu vestido mais curto. Quão curto? Muito curto!
Diverti-me tanto, (e a senhora também, que era muito mais prá frentex que o energúmeno do descendente), que baptizei o trapo de "traje oficial para conhecer sogras".
Mais do que uma piada ou expressão de imaturidade, havia até bastante discernimento e inteligência por detrás destas minhas "saídas". Serviam-me para avaliar a pessoa, tentar captar-lhe a essência, imaginá-la noutros tempos e contextos, e pensar se teria o perfil adequado para mim. Pronto, simplificando, um "test drive".
Façam-me o grande favor de ensinar a todas as meninas das vossas vidas que, um namorado que opine sobre a sua forma de trajar é um merdas, com o potencial para se tornar um grande filho da puta, e que a única coisa que merece é ir com os porcos. Sem hesitações ou penas de qualquer espécie.
Se sempre o soube devo-o em certa parte à tal capacidade inata, mas sobretudo aos meus pais.
Entre muitas e muitas outras coisas, a minha mãe sempre se debateu com a ferocidade de uma leoa pela minha liberdade de vestir o que me desse na real gana. De tal forma, que o meu pai desistiu em pouco tempo de fazer interjeições sobre o tamanho das minhas saias.
É que o meu avô sempre foi muito severo e controlador. Nunca permitiu à minha mãe vestir uma minissaia nem prosseguir os estudos. A minha mãe fez questão que eu tivesse a liberdade e a oportunidade para ambas as coisas.
O meu pai também era severo e disciplinador, mas demonstrou, em algumas ocasiões, maior abertura do que muitos pais da sua geração. Das centenas de discursos sobre educação sexual que tive que gramar, (e que honestamente agradeço), lembro-me de um em especial. O meu favorito.
Disse-me que só eu decidiria o rumo da minha vida. Que só o meu bem estar lhe interessava. Tudo o resto são detalhes indiferentes. Casar ou nunca casar, viver junto, ou outra qualquer opção, era-lhe completamente indiferente. O importante era ter a inteligência suficiente para saber usufruir destes novos tempos, não abdicando da minha liberdade, do meu poder, das minhas escolhas por ninguém. Que hoje as mulheres não têm que ficar presas ao primeiro homem com quem dormem. Que tivesse juízo, e que me divertisse. Que tivesse bom senso, e não confiasse demasiado em homem algum, que tomasse as rédeas de todas as situações, (ênfase na prevenção), porque ainda hoje, "quem se fode é sempre a mulher".
Agradeço-lhes. Um dos resultados foi, feliz mistura de sapiência e destino, ter encontrado um parceiro para a vida que me adora precisamente pelo meu mau feitio, que se está pouco cagando para o que visto, que mais depressa lhe nasce um mamilo na testa a desenvolver algum traço de machismo ou misoginia.
Feliz dia da Mulher a todas. Celebrai hoje, que amanhã é dia de voltar a arregaçar as mangas, para que as crianças que nascem hoje, sejam no futuro, adultos melhores que nós.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
cromices #113: Família é...
... também as minhas pessoas, que se apressam em vir ao meu encontro e de sorriso nos lábios, para me salvarem do meu esquecimento, das chaves que ficaram em casa, e do frio.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Coisas de comer: Qual é a ementa da vossa vida?
Imaginem que vos pediriam para esboçar uma ementa com aqueles pratos que, por um qualquer motivo, sentem uma ligação emocional, vos trazem memórias. Quais seriam?
A minha ementa seria esta:
1 - Sopas de tomate com cação, porque era algo que a minha Avó Felizarda fazia sempre que íamos visitar os meus Avós ao Alentejo. Que saudades! Nunca voltei a comer sopas tão boas como as feitas pela minha Avó.
2 - Chouriças de mel de Trás-os-Montes. Esta memória gastronómica remete-me para os meus Avós maternos, especialmente para a minha Avó Teresa. Desde pequenina que me perdia por estas chouriças doces que, embora há quem coma como sobremesa, sempre as comi acompanhadas de batata cozida. Divinal! São tão raras, que a última vez que a minha mãe as conseguiu encontrar, (embora não fossem tão boas como as da minha Avó), até me vieram as lágrimas aos olhos.
3 - Aletria à moda antiga. Para a minha Mãe não existe Natal se não houver Aletria à mesa. Faz parte das suas memórias de infância e tornou-se uma das nossas poucas tradições familiares. Uma que partilho com gosto.
4 - Arroz doce. Adoro arroz doce e ninguém o faz tão bem como o meu Pai.
5 - Sopa de feijão verde. Temo repetir-me, mas realmente a melhor é a da minha Mãe! Nunca fiz birra para comer a sopa, pelo contrário, e esta sempre foi uma das minhas favoritas.
6 - Pargo no Forno com Bacon e Batatas, cozinhado em dueto pelos meus pais. Daquelas receitas que me fazem lembrar os almoços de Domingo ao longo da minha vida, assim como as reuniões familiares em nossa casa.
7 - Peach Melba. Esta sobremesa clássica tornou-se também um clássico familiar nosso. A sobremesa predilecta dos meus pais para apresentar nas muitas ocasiões em que partilhávamos a mesa com convidados.
8 - Cozido à Portuguesa. Para mim, o expoente nacional máximo de "Comfort food". Por ser daquelas receitas tão típicas, toda a gente o sabe fazer, mas toda a gente o faz da sua maneira. Concordo a 100% com a minha Mãe quando diz que o melhor cozido tem que ter várias qualidades de couve, que em especial não pode faltar a couve portuguesa, que deve ter abundância de vegetais, carnes e enchidos de boa qualidade.
Lembro-me de chegar a casa, vinda da faculdade, por volta da 1h da manhã, esganada de fome, e a minha mãe levantar-se para me servir um bom prato de cozido, com beijinhos.
9 - Ovos mexidos com batatinhas aos cubos. Esta memória vem mesmo lá de trás, da minha infância. Quando era pequena a minha mãe servia-me este prato que consistia em batatas fritas aos cubinhos, que depois colocava na frigideira e despejava os ovos por cima. E não havia nada que eu gostasse mais!
Aliás, até levava a minha mãe a revirar os olhos de exaustão porque estava sempre a pedir-lhe ovos com batatinhas. Aliás, acho que vou voltar a pedir-lhe para me fazer uns ovinhos!
10 - Sopas de pão e leite. Antes de ter idade de ir para a escola primária, quem cuidava de mim enquanto os meus pais trabalhavam era a minha ama Gertrudes. A Gertrudes foi para mim muito mais que uma ama, e considero-a a minha terceira Avó. Como tinha que acordar muito cedo, e andava ensonada, dar-me o pequeno-almoço não era fácil. (O truque do meu pai, por exemplo, era dizer que havia uma surpresa no prato que só conseguiria ver se comesse o Nestum todo.)
Até que um dia me deu a provar sopas de pão e leite. E caramba, como eram boas!
Existem muitas mais memórias gastronómicas, mais comidas do coração. E é uma ementa que não é só composta por iguarias de um passado mais ou menos distante, mas que também inclui as memórias que vamos criando hoje, também na nossa casa, com o meu marido.
Mas isso fica para a próxima, que já vamos em duas mãos cheias.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Vida de cão #34: Trabalho de equipa é...
... usar as nossas qualidades para colmatar os defeitos do outro, num regime de solidariedade, parceria e reciprocidade.
Saber disso é reconhecer, dar valor. É sentir gratidão e uma vontade de retribuir.
E eu que continuo incapaz de deixar o Kiko socializar com outros cães quando saímos só os dois, ou de lhe tirar a trela, mesmo que a minha vida dependesse disso, de tão nervosa que fico, sou imensamente grata ao meu marido por providenciar ao petiz tudo aquilo que eu não sou capaz. E por isso nada lhe falta, nem o êxtase das sessões de brincadeira e correria com outros cães, que é tão importante também pelo prazer que lhe dá.
Quando regressam, descontraio e ouço com satisfação o relato das diabruras, quem conheceram, com quem brincou. Rimo-nos os três. Digo os três, porque o cão olha para nós com um daqueles sorrisos caninos bem abertos que não se desmancha e lhe dá um ar ainda mais tonto. Tonto de felicidade.
Se confesso, meio cabisbaixa, que não sou capaz de fazer o que ele faz, que gostaria mas não sou, a única coisa que me aponta é aquilo que faço bem.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
cromices #91: Numa de confissões...
Não gosto de mentir. Nunca gostei de mentir. Mas lá por não gostar não quer dizer que não o faça. Nem sequer quer dizer que não seja boa a fazê-lo.
Já disse muita mentira ao longo da vida. O que vale é que a grande maioria foram males menores, petas sem grandes consequências que pregamos aos pais, por exemplo, para nos safarmos de uma reprimenda ou castigo.
Uma das grandes vantagens dos intas é poder confessar aos meus pais, num tom totalmente casual, que durante o liceu baldava-me tanto às aulas que já estava uma autêntica profissional em falsificar a assinatura da minha mãe naqueles papelinhos próprios para justificações de faltas, que eu comprava às resmas na papelaria da escola.
O bom de terem passado quase duas décadas sobre o acontecimento é que nos rimos os três.
Confessar estas coisas não deixa de me provocar uma sensação de libertação.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
vida de cão #31: Qualquer dia o homem morre do coração!
Por norma sou a última a adormecer. Os membros masculinos cá do clã são mais susceptíveis aos poderes do João Pestana, especialmente após o jantar.
Não é preciso dizer que ambos adoramos o Kiko e de que maneira! Existe reciprocidade e é algo tremendamente bom de se sentir. Mas há uma pequena diferença: o Kiko gosta muito de mim, mas adora o meu marido. Não há humano no mundo como o paizinho! É uma adoração, um amor, um êxtase que só visto!
Um dos efeitos secundários de sermos objecto de tamanha adoração é que é coisa para nos dificultar o sono. Isto porque o Kiko sobe para o sofá e depois de o impedir, em surdina, que suba para cima da cara do seu "adorado paizinho", agora adormecido, lá acede deitar-se mas num estado híper alerta. Não desvia os olhos uma única vez do meu marido e eu sei que mal este mova, o que eventualmente acontecerá, será atacado pela fera à lambidela.
Mal este se moveu a resposta foi imediata, o que resultou numa mistura de cão totalmente eléctrico e uma pessoa a acordar sobressaltada, atacada em pleno sono.
Se eu podia ter evitado? Claro! Mas não era a mesma coisa.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2015
vida de cão #30: O chamamento da matilha
Marido liga-me, como de costume, quando sai do emprego. Desde que temos o Kiko estas são mais do que chamadas telefónicas. São autênticas teleconferências vividas a três.
Pergunto-lhe se posso ir tirando o café da praxe, com que o recebo em casa num ritual de descompressão que serve também para partilharmos algo sobre o nosso dia.
Hoje o café teria que esperar mais um pouco. Culpa do trânsito, essa grande maleita da nossa era!
O puto, sempre atento à conversa, desata a uivar, no seu modo ainda meio desajeitado de quem ainda não domina totalmente a coisa.
Dizem que o uivo serve para chamar membros da matilha que estejam longe, o que tendo em conta o contexto não poderia ter sido mais bem metido! E só prova que o Kiko percebe muito melhor o "humanês" do que nós o "canês".
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Hoje o Kiko faz 1 ano!
Bastou, naquela manhã de Novembro, olhar para o Kiko durante um par de minutos para ambos o reconhecermos como nosso.
É que uma família é uma espécie de Alma Maior, uma junção de várias Almas, um sol com muitos raios. E é como este puto de quatro patas tivesse nascido com o propósito de fazer parte da nossa, como se estivesse predestinado.
Esperavam-nos, numa pequena cerca, três pequenos Jack's - dois meninos e uma menina. Eléctricos, felizes, a transbordar de vida e a quererem interagir connosco.
O Kiko era o único de pêlo cerdoso, o mais rechonchudo, o com a mancha à pirata no olho, o mais calado e o único que não tinha a cauda cortada, simplesmente porque o elástico tinha caído. Para nós era importante não ter um cão com cauda cortada porque somos contra este e outro qualquer tipo de mutilação. E salvo situações específicas em que o veterinário aconselhe o procedimento, se se fizer algo do género com fins estéticos, há-de ser sempre visto, por nós, como uma mutilação, e não alinhamos nisso.
Tomámos esse sinal como a certeza que aquele era o nosso Kiko. Como não entender assim se durante a viagem havíamos falado desse pormenor, e ali estava, cão de cauda e alma inteiras por uma casualidade?! É que coincidências não existem.
A partir dessa manhã de Novembro, todos os dias nos reconhecemos, raios do mesmo sol, fragmentos da mesma Alma Maior, Família.
Hoje é o teu 1º Aniversário, meu filho de quatro patas e um coração do tamanho do Mundo. Amo-te!
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Bucket list #6: os irmãos dos filhos únicos
Há um momento na vida de (quase) todas as crianças, em que quando os pais perguntam o que se quer como prenda de aniversário ou de natal, a resposta é um mano ou uma mana.
Também passei por isso. Mas, rapidamente mudei de ideias, e acabei por dizer à minha mãe "Olha, sabes aquilo do mano? Esquece lá isso. Fica sem efeito, está bem?! Afinal já não quero."
É que após o meu pedido, a minha mãe perguntou-me se eu tinha a certeza, e fez a questão de enumerar as responsabilidades de uma irmã mais velha.
Para mim, foi o quanto bastou para me fazer mudar de opinião. Nada daquela lista de afazeres e ufas-lufas casavam com o cenário fantasioso que havia construído mentalmente.
Sim, continuava a querer um irmão ou uma irmã, mas mais velhos que eu ou um gémeo, (sempre pensei que ter um gémeo haveria de ser do mais divertido que há!), o que era obviamente impossível.
Basicamente, acho que o queria era ter alguém, durante todo o ano, com quem pudesse viver o mesmo tipo de momentos que passava com os meus primos, quando a família se reunia.
Depois, a vida tratou de me dar tudo: irmãos e irmãs mais velhos, e até irmãs gémeas. Tudo na forma de amigos.
Um dia destes, não posso deixar de passar a oportunidade de dizer ao grupo imenso de amigos com quem cresci, cara a cara e olhos nos olhos, que fizeram sentir aquela miúda de 12 anos, tímida, insegura e cheia daquele angst próprio da idade do armário, a irmã mais nova de uma família enorme.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015
cromices #83: Não há como fugir à genética
Quando vivia com os meus pais, não havia amiga, amigo ou colega que entrasse lá em casa que não fosse bombardeado com ofertas de comida e bebida:
- Não tenha vergonha! Faça de conta que está em sua casa! - gracejava o meu pai, enquanto insistia pela vigésima vez que a pessoa comesse qualquer coisinha - Tem a certeza que não quer nada?!
E a pessoa, normalmente encolhida e algo ruborizada, largava pela vigésima terceira vez algo como: "Estou bem, sr. A., não quero nada. Obrigada, a sério que não quero nada."
E eu revirava os olhos:
- Oh pai, Fulana já disse que não quer nada. Não insistas mais que já estás a ser chato!
Mas o karma é tramado. Mais tarde ou mais cedo acabamos por pagar por todas as vezes que cuspimos para o ar.
Numa das últimas vezes que tivemos por cá companhia para o jantar, exagerei tanto na comida que andei a almoçar sobras durante quase uma semana.
E lá estava eu, durante a refeição, a ser filha do meu pai, sua cópia fiel, chata como tudo a insistir que Fulanos e Sicranas comessem mais, que não tivessem vergonha, que fizessem de conta que estavam em sua casa.
E ri-me sozinha. Ninguém percebeu, mas não faz mal. Eram cá coisas entre mim e a minha genética.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Como um homem...
Hoje veio à tona uma das memórias de infância, de quando os meus avôs nos vinham visitar.
Vinha um de cada vez, por uma quinzena. Pelo simples motivo que alguém tinha que ficar a deitar um olho pela quinta. Senão quem trataria da Bonita e da Mimosa, (as vacas), ou do Rantanplan (o cão), das culturas e de todas as outras coisas?
A minha avó aproveitava sempre a viagem para visitar amigas, algumas cuja ligação datava de há décadas atrás. Eu acompanhava-a.
Eram tardes de conversas acompanhadas de chá e biscoitos, onde o meu papel era mais de observadora. Nunca me incomodou. Pelo contrário, sempre tive curiosidade e gosto em ouvir sobre o "antigamente". Silenciosamente observava-lhes tudo: os rostos, os jeitos, as expressões, e usava a minha imaginação para limpar do rosto da minha avó todas as rugas e marcas da idade. Deixar-lhe só os cabelos negros, compridos, lisos e brilhantes, e aqueles olhos verdes. Imaginá-la gaiata e ver, no cinema da minha mente, o filme das histórias que a minha avó e as amigas narravam quando falavam sobre o "antigamente", acompanhadas de chá e biscoitos.
Um dia, uma dessas senhoras dirigiu-me algumas palavras sobre a minha avó. Disse-me, com admiração espelhada no rosto, que a estimasse, que como ela não havia outra. Que a senhora minha avó, (em tempos idos num contexto difícil de entender por uma miúda dos dias de hoje), comia como um homem, mas trabalhava como um, e melhor que muitos.
Durante anos aquilo ficou-me a remoer. Muito mais tarde é que soube digerir e apreciar tamanho elogio. É que ser-se "como um homem", capaz de substitui-los nos trabalhos mais duros e exigentes fisicamente, (coisa necessária em época de guerra mundial e fascismo), e ainda destacar-se dos demais fazia da minha avó, aos olhos dos seus pares, uma supermulher.
coisas da casa: Um dos santos desta casa
Um dos santos da nossa casa é sem dúvida o meu sogro e, como tal, para além dos agradecimentos que faço sempre questão em proferir, merece também reconhecimento pelo tanto que faz por nós.
Eu explico: por falta de gosto, de jeito, de paciência, de tempo, de tudo e de nada, eu e o marido somos ambos uma espécie de azelhas no que toca à bricolage, aos arranjos domésticos, a toda essa cena do DIY.
O meu sogro adora todas essas coisas. Tanto que é profissional do ramo, com mais anos de experiência do que nós de vida. Deixa-me sempre boquiaberta porque parece que não há nada nesse contexto que ele não entenda e saiba fazer, sempre com laivos de perfeccionismo. Traço que cultiva em nós uma grande admiração pelo meu sogro.
Ainda me lembro da primeira vez que veio em nosso "resgate". Foi mesmo no início de termos comprado casa. Estávamos decididos a meter mãos à obra e pintar nós mesmos a casa.
Calhou o sogro passar por cá, quis dar uma vista de olhos, ver como estavam a correr as coisas. Quando viu o nosso jeitinho para as pinturas, aquilo deve-lhe ter mexido com os nervos, soltou um "Não é assim que se faz! Assim não fica nada de jeito!" e em menos de nada passámos ao papel de observadores e ajudantes, tipo "passem-me aí esse pincel".
No início da nossa aventura doméstica a dois, o marido evitava pedir ajuda ao pai para estas coisas, por uma questão de constrangimento, de não lhe querer pesar. "Coitado do meu pai" - dizia ele - "Já trabalha tanto... Não lhe quero dar mais trabalho. E já sabes que ele nunca se recusa." (Para mim, mais uma evidência, entre mil outras, que tenho um homem à maneira. Mas adiante.)
Hoje em dia, não hesitamos em rezar ao santo sogro, e imediatamente lá vem este em nosso auxílio.
Nestes últimos dias foi o esquentador. A maquineta andava a pingar água e a chama piloto teimava em continuar acesa mesmo com as torneiras fechadas.
Trocar de esquentador, especialmente se for um modelo ventilado, significa ter que investir para cima de 300 euros. Se tiver que ser, que remédio, mas que valeria a pena ver primeiro se aquilo tinha arranjo.
Pois ao meu sogro, entendido na matéria, bastou-lhe apertar umas coisas, trocar um o-ring, e voilá, maquineta como nova.
Ora digam lá se não é um verdadeiro salva-vidas digno de reconhecimento?!
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Boa viagem.
Todos os dias morrem pessoas. Muitas. Faz parte do ciclo da vida.
No entanto, tenho sempre a sensação que a morte só deixa de ser algo mais ou menos abstracto quando toca a um dos nossos.
Infelizmente, já tive vários casos na família de pessoas que partiram precocemente, por um qualquer problema de saúde.
Neste caso, a repetição nunca serve de preparação.
Habituei-me facilmente ao privilégio de, neste nosso mundo moderno, termos uma esperança média de vida de oitenta ou mais anos. Cada ano subtraido a essa conta eleva o expoente da sensação de defraudamento.
Há dias partiu mais uma das minhas pessoas, de forma precoce e inesperada.
A vida é maravilhosa, mas tem um preço: nunca é isenta de preocupações, agruras, maleitas. É a condição de sermos humanos.
Quando um dos meus parte, de forma reflexa dou por mim a perguntar-lhe se apesar de tudo, a vida lhe valeu a pena, se as alegrias e os momentos bons suplantaram tudo o resto. Embora seja retórica, simultaneamente desejo, com intensidade, sentir que me responde que sim. Que as pétalas foram mais que os espinhos. Que a vida vale e valerá sempre, mas sempre, a pena.
Deixa-me cabisbaixa a partida, mas há sempre uma serenidade que me invade.
Sempre foi a minha forma de lidar com a morte de um dos meus. Recolho-me, tranquila e silenciosa. Mentalmente ouço a minha voz a entoar uma espécie de oração, uma despedida, um exercício de imaginação onde me despeço e lhe desejo uma transição suave e luminosa para aquele outro plano de existência que, há muito tempo e em plena consciência, optei por acreditar.
Lá, onde correm rios de leite e mel, onde não existe entrave algum à felicidade e à plenitude, apenas Amor e Alegria infinitos, é para onde o meu coração envia aqueles que partem.
Boa viagem Tia C. Até um dia.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
cromices #61: O Santinho Padroeiro dos Descuidos ou a evolução natural das coisas
Há dois tipos de filhos: os planeados e os frutos do descuido.
Entre as pessoas que conheço, gentes das minhas relações, mais ou menos próximas, há tanto de uns como de outros, igualmente amados e bem cuidados.
Durante a nossa vida em comum já fomos questionados sobre isto de ter filhos milhares de vezes. Como em tudo, a prática leva à perfeição e já tenho uma resposta pronta que debito de forma automática, que é mais ou menos assim:
"Não temos filhos, nem estamos a considerar ter. Nunca se diz nunca. Talvez um dia mudemos de ideias. Para já, só se fosse por acidente. Mas se isso acontecesse, claro que lhe íamos dar o melhor de nós. Mas, por enquanto, está completamente fora de questão."
E dou por encerrada a questão. Ponto final parágrafo. Muda de assunto.
Os nossos pais estão mortinhos por ser avós.
Havia uma época em que todas as vezes que nos víamos era "vira o disco, e toca o mesmo" com o discurso de quando é que vem um netinho, ai que queríamos tanto um netinho, ou uma netinha. Chegava o Natal, e com este, o discurso festivo de que só faltava o menino Jesus.
A coisa chegou a ser massacrante, e quando a paciência se esgotou meti um travão na coisa. Finquei pé e disse que já chegava daquilo, que davam cabo da paciência a um morto. Que quanto mais cedo aprendessem a lidar com o facto melhor e que mudassem de assunto, que aquele já enjoava. Que "desculpem lá", mas já não podia ouvir falar da mesma coisa, e que o único resultado possível da estratégia de tentar vencer pelo cansaço seria exatamente o oposto do que pretendiam.
Que só um casal tremendamente irresponsável é que iria pôr criancinhas no mundo para satisfazer a "fome de netinhos". Que temos a consciência da imensa responsabilidade subjacente à coisa, se um dia quisermos ser pais é porque aceitámos o compromisso com tudo o que isto implica. Que a decisão é nossa, e qualquer que esta seja tem que ser respeitada. Ponto.
A coisa resultou com os meus sogros. Há bastante tempo que nem tocam no tema. Muito de vez em quando um deslize pontual por parte da minha sogra, mas morre rápido.
Se continuam a pensar nisso, não sei, talvez, é provável. Pelo menos já não puxam conversa sobre isso e eu agradeço.
Com os meus pais, pelos vistos nem tanto. Acalmaram, mas ainda continuam obcecados.
Quando a minha melhor amiga foi mãe notou-se que ficaram com esperança que, de alguma forma e por um qualquer motivo, isso me fizesse mudar de ideias.
Fizeram uma última investida, voltaram à carga. Certo dia, quando se cruzaram casualmente, chegaram a pedir-lhe se ela faria "uma forcinha" para ver se me influenciava.
Quando soube rebolei a rir. Tenho que lhes tirar o chapéu: lá persistentes são!
Tivemos uma nova conversa: que sobrinho lindo é um doce, sim senhor, mas não me fez mudar de ideias.
E dei a coisa por resolvida. De vez. Ou assim pensei eu.
Notei que ainda não, no dia que trouxemos o Kiko para casa. Estava tão entusiasmada e feliz que lhes enviei uma foto do bicharoco, com a legenda: "Parabéns. São avós. Este é o Kiko".
Pronto, falha minha, eu sei!
Na altura pensei que teria piada, e que esta questão dos netos já estava finalmente mais que resolvida. Afinal ando há mais de uma década a dizer que não. Será que só me livrarei da tormenta quando chegar a menopausa?! Chiça penico!
Tive o troco por telefone. Antes de gabarem a beleza do bicho e de quererem saber pormenores, tive que levar a reprimenda, (vá lá, merecida), que quase lhes parava o coração, que por segundos ficaram tão felizes a pensar que tinha finalmente havido um descuido, já que planeado não vamos lá! E logo de seguida, dão com a foto de um cão! Giro, fofo e tal, mas um cão!
(Eu sei, o ponto a que isto chegou!)
Só vos digo, se um dia entrar em casa dos nossos pais, e descobrir que ambos montaram um altar dedicado a um qualquer santo, que se saiba ser padroeiro dos descuidos, destruidor de contraceptivos, não fico admirada. Nada!
A lição a apreender é que mais vale declarar "bébés" um assunto tabu se quiser alguma paz e sossego. É jogar pelo seguro e evitar a todo o custo o uso de vocabulário desse universo.
Na minha cabeça continuo a pensar que hoje não, mas nunca digo nunca. Guardo-me o privilégio de mudar de opinião quantas vezes eu quiser. Mas se acontecer há-de ser por mim, por nós, porque queremos e nos sentimos aptos.
O Kiko, ou se preferirem o "cão", é para além de imensa alegria na nossa vida, o nosso bébé adorado, uma certa "evolução natural das coisas".
Um casal tem de passar com distinção isto de se ter um cão, com o imenso trabalho que dá, a paciência necessária e tudo. Tem de achar isto "peanuts", uma alegria, algo a ser repetido num esfregar de olhos, querer ainda mais do mesmo. E só depois se pode dar ao luxo de pensar sobre bébés humanos, que dão muito mais trabalho, dores de cabeça e aprisionam-nos muito mais.
Sabem o dito "primeiro uma planta, depois um peixe, depois um gato, depois um cão..."?!
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Vida de Cão #1: Programa de Domingo à noite
Nós os três, (eu, o marido e o Kiko), no sofá a ver o Cesar Millan.
sábado, 29 de novembro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
O meu conceito de família
Há pessoas para quem os laços de sangue são tudo. Para mim, sangue simples e unicamente pelo sangue é desprovido de valor.
A Família é basilar para mim. Mas, a minha família é aquela que fui construíndo ao longo da vida.
É composta tanto por pessoas que partilham comigo uma herança genética, como por quem foi chegando e ficando por afinidade.
O ponto em comum entre todos é que conquistaram o seu lugar.
Dito assim, até parece que sou alguém de trato particularmente difícil, e não creio que seja verdade. Peculiar, certamente. Difícil, nem tanto assim.
A minha Família é feita de pessoas que me honram pela sua presença, por se quererem na minha vida e me quererem na delas.
Sobretudo são pessoas que me cativaram.
Cativam-me as pessoas que sabem ser afáveis, gentis, carinhosas, generosas, empáticas, verdadeiras, que se querem dar de livre vontade, e não por se tratar de uma obrigação diplomática ou familiar, ou por acharem que vão ganhar algo com isso.
Nas relações não devem existir obrigações, fretes ou hipocrisias.
Não é difícil. Basta cativarem-me uma única vez, e mesmo que fiquemos 20 anos sem nos ver, saberão que a única distância que mata relações é a emocional. Porque para quem soube cativar, mesmo que uma única vez, terão sempre disponíveis um abraço e um sorriso que nunca se extingue.
Tenho sorte. Tenho família de sangue que se soube elevar ao papel de amigo. Tenho amigos que me são família. Marcaram-me pelo que são e pela forma como agem.
No meu conceito de família, embora o meu coração albergue muita gente, as pessoas estão divididas em vários níveis, um pouco como no Inferno de Dante.
O anel exterior é o mais populoso. Nele cabem praticamente todas as pessoas que conheço, com quem não existiu propriamente uma ligação emocional, inclusive alguns familiares que não considero da Família, tipo aqueles que vi para aí uma vez na vida, e que se os vir na rua nem reconheço.
Se têm direito a um lugar, é porque mesmo assim lhes desejo tudo de bom, embora não sinta vontade de aprofundar a relação.
No centro de tudo, cabem muito poucos. Menos de uma mão cheia: os meus pais, o meu marido, e a minha irmã de coração.
Acho que aprendi a ser assim, também por uma questão de geografia. Tirando um par de membros da família, todos os outros se encontravam a centenas de quilómetros de distância.
Ao longo dos anos os papéis tradicionais familiares foram sendo cumpridos por quem estava mais próximo.
Por exemplo, a querida e saudosa Gertrudes, a minha ama de infância, por não me tratar de forma diferente dos seus netos, tornou-se a minha terceira avó. O que não retira nenhum mérito às minhas avós, mas diz certamente muito, (e bem), sobre a pessoa que foi a minha ama.
Tantos amigos que ocuparam o lugar de irmãos mais velhos, de primos. Alguns pais destes que foram uns tios bestiais.
Não desgosto do meu conceito. Tem-me servido bem durante a vida. A sua grande vantagem reside numa espécie de meritocracia, porque não há lugar para quem não nos faz bem, haja ou não laço de sangue.
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