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terça-feira, 13 de março de 2018
coisas da casa: Mais verde, por favor, ou dá Deus nozes...
Agora com o Iqos, a maquineta fumante milagrosa sem cinza, fumos e cheiros quase inexistentes, escolho quase sempre fumar à janela do escritório de paredes "laranja budista". São momentos de contemplação.
Não me canso daquela vista, composta por vários planos e camadas, que começam em telhados e beirais de várias alturas, recreio de todo o tipo de aves; aqui e ali espalham-se buxos, canteiros floridos, árvores de folhagem caduca e perene. Um quadro que termina com uma vista desafogada da verde serra, do seu palácio e castelo, que ora se apresentam nítidos, ora desaparecem totalmente sob um manto de neblina.
Faço-o quer seja dia ou noite. À noite os monumentos iluminam-se e é realmente bonito de ver. Para além que me habituei a elevar o olhar e a certificar-me que as constelações que habitam por cima de nós não foram a lado nenhum, ao contrário da lua, que tem bichos carpinteiros e vai pululando pelo manto celeste, senhora da sua vontade.
Esta vista, este enquadramento digno de postal, é uma das coisas que mais gosto na nossa casa. Gosto tanto, que passados todos estes anos ainda não me fartei, nem acredito que tal aconteça tão cedo.
É este cenário que me alimenta pelos olhos, que eu sou pessoa para morrer de inanição se só me entrar betão e alcatrão pelas vistas adentro.
Embora pareça que nos tenhamos esquecido, o ser humano precisa de contacto frequente com a natureza, por mil motivos mas também em nome da sua saúde, tanto física quanto mental. Não há nada tão eficaz para reduzir a pressão arterial, melhorar a circulação, regular o relógio biológico, diminuir o stress, a ansiedade, a depressão, reduzir o risco de doenças cardíacas, avc e diabetes, reforçar o sistema imunológico e garantir uma sensação quase imediata de felicidade e tranquilidade que estar em contacto com a natureza, apanhar sol, mexer na terra.
Dizem que 30 minutos de jardinagem, longe de aparelhos tecnológicos, fazem autênticos milagres. Mais até que qualquer outra actividade de lazer.
Eu bem sei e sinto o bem que nos faz a presença de plantas cá por casa, a meia dúzia de vasos floridos na nossa pequena varanda, e esta vista que vos descrevi. Melhor mesmo só um jardim.
Por falar em jardins...
Sabem quando vão de carro, numa qualquer estrada, param devido a um semáforo e ao vosso lado está, sei lá, um ferrari ou um qualquer bólide do género, e quando o sinal abre, ao invés de um ronronar possante chega-vos aos ouvidos a estridência de uma caixa de mudanças a ser brutalmente massacrada, e a imediata reacção é aspirar o ar pela boca, que ao passar pelos dentes cerrados provoca um particular sibilo, uma expressão de quase dor?
Esta é a minha reacção para com muitas das casas que vejo à venda.
Alguns prédios centenários testemunham que outrora, mesmo no centro das grandes urbes, não se abdicava de se manter algum contacto com a terra. Cada proprietário tinha um talhão: muitos seriam utilizados como hortas urbanas, outros como jardins ornamentais.
Infelizmente trata-se de um traço arquitectónico que se foi perdendo e, com este a noção do quanto é especialmente importante a existência destes oásis nos desertos de betão, muito para além de se ir podendo colher uns limões ou umas alfaces, o que por si só valeria a pena. O seu impacto é profundo na qualidade de vida das pessoas, dos animais e até do ar que todos respiramos.
Uma árvore adulta e saudável consegue absorver, no espaço de um ano, 22kg de dióxido de carbono, entre 55 e 109 kg de gases nocivos como o óxido nitroso oriundo dos escapes - zonas urbanas arborizadas possuem menos 60% de partículas poluentes; produz oxigénio suficiente para dois adultos e ainda ajudam a refrescar o ambiente: a sua sombra ajuda a diminuir a temperatura do asfalto em 2ºC e do interior dos carros até 8ºC, e o efeito de uma árvore é comparável a 10 aparelhos de ar condicionado ligados 20 horas por dia. Isto só para citar alguns dos seus benefícios.
Uma casa com área exterior suficiente para um jardim tornou-se um privilégio. Tal tornou-se atributo somente das moradias, e mesmo assim a grande maioria são geminadas e para maximizar o lucro, o tamanho dos lotes onde se inserem são mínimos, logo há logradouro para o estacionamento de uma viatura ou duas, espaço para um estendal, uma churrasqueira e olaré. Jardins nem vê-los. O verde foi remetido para um mísero canteiro ou totalmente retirado da equação.
Portanto, o meu momento "maçarico ao volante de um ferrari", a minha "dor por situação alheia", dá-se quando encontro casas que tendo espaço para um jardim, ainda que pequeno, a opção das pessoas recai em usá-lo para colecionar anexos, acrescentos, barracões e barraquinhas.
Onde poderia haver um solário (sundeck) com mobiliário de jardim confortável, um espaço para refeições "al fresco", e a puta da loucura, quem sabe até um jacuzzi, com vista para um verde e privado refúgio de inspiração mediterrânea, romântica, tropical ou até oriental, dependendo das espécies de plantas escolhidas, alguém optou - e é o que me mete muita confusão, o ser uma escolha - por ter marquises que são utilizadas para armazenar coisas, com vista para um pátio onde existem cubículos que servem presumivelmente para armazenar mais coisas, numa ode ao betão, ao alumínio e ao zinco.
Não há um relvado onde andar descalço, onde brincar ou fazer exercício, onde estender uma manta para fazer um piquenique, uma sesta, ler um livro ou observar as estrelas em noites de céu limpo; uma árvore sequer onde pendurar uma casa de pássaros, onde aproveitar a sua sombra, onde esticar uma cama de rede; uma sebe viva que encha as vistas ao mesmo tempo que protege dos olhares curiosos da vizinhança. Saberão as pessoas que as sebes vivas também nos protegem do vento, do frio e do ruído e ajudam a evitar a erosão do solo?
Não há meia dúzia de metros quadrados pensados para uma pequena horta urbana. Soubessem as pessoas o quanto se pode plantar em meia dúzia de metros, e sem pesticidas!
Não há arcos nem pérgolas enfeitados por plantas trepadeiras, fragantes roseiras inglesas ou jasmins, que recebessem quem lá entrasse com o seu perfume, e debaixo das quais se poderia sentar à mesa.
Mas há betão, mais que o suficiente para engordar pelos olhos quem o prefere, e que pelos vistos, são mais que as mães.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
coisas de opinar: Os meus dois tostões sobre isto da Supernanny
Quem defende o programa fá-lo utilizando o argumento de "conteúdo pedagógico".
A questão é que a pedagogia não pode existir de mãos dadas com a psicopatologia que é o voyeurismo, que é definido como a curiosidade mórbida sobre aspectos privados ou íntimos da vida de alguém.
É de valor que se abordem os temas da pedagogia, até porque todas as famílias são disfuncionais à sua maneira, não há tarefa mais complicada que a educação e não há pais que não precisem de ajuda, tanto aqueles que pensam que sabem tudo como os que se demonstram já desesperados, prontos a atirar a toalha ao chão.
É de valor que um canal de televisão demonstre vontade de colocar à disposição do grande público um programa que tenha a intenção de ser uma ferramenta positiva para aqueles que participam do programa, como para aqueles que o assistem. Mas a intenção em si não chega: os meios, os métodos, os resultados têm de honrar a mesma.
E este formato não o faz.
Poderia se se limpasse o formato das componentes invasivas e desrespeitosas que alimentam o voyeurismo de quem assiste. Como? Utilizando o método de encenação que já conhecemos de outros programas, ao invés de apresentar ao mundo e expor na primeira pessoa a família real.
A presença da família real não é, de forma alguma, imprescindível. Nem sequer necessária. A não ser, claro, que a intenção não seja tão pedagógica, bonita e fofinha como nos querem fazer crer, e não passe da conquista de audiências através da exploração da curiosidade mórbida que temos sobre a vida alheia.
No dia em que se quiser fazer um programa para realmente auxiliar as famílias, (lá está, as que participam e as que assistem), enviam uma equipa de técnicos bem formados e competentes para trabalhar com estas em privado, e contratam actores para encenar e mostrar ao público as situações enquanto os tais profissionais vão esmiuçando a situação, explicando o contexto com que se depararam, o seu diagnóstico, a metodologia que escolheram para solucionar o problema e porquê, e os resultados que obtiveram ou não.
Lembro que no programa "E se fosse consigo?" do mesmo canal, onde são abordadas todo o tipo de temas como o racismo, o bullying, a violência doméstica, os maus tratos a idosos, o consumo excessivo de álcool, entre outros, todas as situações são encenadas. Em nenhum episódio houve, felizmente, a peregrina ideia de ir buscar intervenientes que não fossem actores.
E se as pessoas ficariam chocadas se neste contexto se utilizassem verdadeiras vítimas de violência doméstica, de assédio, etc, que isso seria uma imensa violação da sua privacidade, do seu direito de imagem, e um transtorno para a vida toda passar a ser conhecida por milhares e milhares de estranhos, para além dos colegas de trabalho, os vizinhos, os familiares, os amigos, os inimigos, e todo o cão, gato e periquito como a pessoa que passou ou passa por X, porque há quem insista que não há problema algum em fazer exactamente o mesmo a uma criança?
terça-feira, 18 de julho de 2017
Sabedoria dos intas em 10 segundos #43
Por cá não mora gente ciumenta. Por cá mora quem não tem pachorra para com gente ciumenta.
Não me canso de dizer que ciúme não é uma qualidade afectiva, mas um nariz ranhoso, uma dor de cabeça, uma obstipação. Ou seja, um sintoma que demonstra que se sofre de um, dois ou dos três seguintes males:
1) Imaturidade emocional;
2) Doença psicológica;
3) Presença de pessoas tóxicas;
Não vale a pena aprofundar as duas primeiras alíneas.
Quanto à terceira, a cura passa por uma dieta. Tão simples quanto isto:
- Se sentem que têm motivos para ter ciúmes porque a pessoa com quem estão não é efectivamente de confiança, então porque estão com alguém em quem não podem confiar?
- Se no vosso círculo social existe aquele/a cromo/a que se esquece do mandamento fulcral que dita que pessoa comprometida passa a ser assexuada, e gosta de mandar charme a torto e a direito, qual barro contra a parede, não acham que já têm idade para saber escolher melhor os/as amigos/as?
O mundo divide-se também na perspectiva que se tem sobre os ciúmes. Há quem diga que é especiaria que apimenta a relação, eu digo que não é mais nem melhor que pimenta no cu.
quarta-feira, 21 de junho de 2017
Pessoas de quem gosto: "A terra a quem a trabalha"
O sr. P. é um septuagenário aqui da aldeia.
Pertence ao cada vez maior grupo de pessoas que conheci, ou fui conhecendo melhor, graças ao Kiko e aos nossos passeios diários pelas ruas da localidade.
Cruzámo-nos num dia de Inverno, e lá fomos conversando rua acima, ao ritmo do Kiko e das suas deambulações pela relva.
O sr. P. tem um semblante amável, e uma postura escorreita que não deixa revelar a sua idade ao primeiro olhar.
Fala-me sempre da sua horta, com as nuances próprias de cada estação, e eu gosto de o ouvir, sobretudo pelo entusiasmo que coloca em cada frase, esteja a falar de couves tronchudas ou dos tomates que em meados de Junho já estão "deste" tamanho - e usa as mãos abertas para demonstrar o quão grandes são. De como uma boa meia dúzia deles já repousam no parapeito, a amadurecer ao sol.
Mal o conheci pensei cá para mim estar diante da prova viva de como o constante contacto com a terra, desde que seja genuinamente por paixão, gosto e prazer, é uma espécie de elixir da juventude. Que a Natureza retribui, com juros, a quem dela cuida.
O sr. P. mora numa das ruas limítrofes da aldeia, num aglomerado de casas abraçadas a montante por um vale. Algures nessa extensa linha de mato, fica a sua horta, num terreno - apressa-se a esclarecer - que não é seu, mas que não fosse este seu "passatempo", como lhe chama, estaria destinado ao silvado, embora tenha dono.
A última vez que me cruzei com este amigo, ainda não se adivinhava a enorme e dantesca tragédia de Pedrógão Grande, confessava-me a sua preocupação, partilhada por alguns vizinhos octogenários, perante a negligência dos legítimos donos dos terrenos que lhes circundam as habitações. Terrenos por limpar, com mato denso e silvas do tamanho de gente. De como uma sua vizinha, senhora idosa, lhe dizia que não fosse o sr. P. a passar com o trator e a limpar algum desses espaços, por sua iniciativa, usando do seu tempo e meios, o cenário seria pior.
Sublinhava que num desses espaços havia passado o trator fazia dois anos, e esse tempo bastou para que surgisse um verdadeiro matagal. Que era necessário voltar a limpar, e que não se vendo qualquer interesse por parte dos proprietários se sentia tentado a fazê-lo novamente, pensamento que leva ao justo desabafo da sua mulher: "Sempre os mesmos! Calha sempre aos mesmos!"
Contrapus que esse era o eterno dilema das pessoas íntegras e cumpridoras: ou se faz no lugar daqueles que teriam o dever de o fazer mas que nada fazem, ou se permite que o descalabro e o caos imperem com consequências para todos.
Nunca me fez tanto sentido o adágio propagandista que diz "a terra a quem a trabalha".
terça-feira, 11 de abril de 2017
coisas que imagino: O plano 25
Se têm por hábito visitar este humilde estaminé saberão já, de certeza, o quão acérrima defensora sou da poupança.
Imagino que só esta primeira frase é capaz de fazer revirar uns quantos olhos, afinal é um tema que tem sido estereotipado como uma seca, que soa a obrigação logo é automaticamente catalogado como chato. E isso acorda o nosso mecanismo de defesa que nos ajuda a ignorar o mais possível as coisas que nos parecem chatas, especialmente se temos essa opção, certo?!
Se vos dissesse que o desenvolvimento de hábitos de poupança não tem que ser nem chato, nem doloroso, que a construção de um pé de meia pode ser uma das melhores coisas que podem fazer por vocês e por quem mais gostam, acreditariam em mim?
Poupar é como jogar. Se algumas vez tiveram pachorra para jogar um dos muitos jogos do género do Farmville, em que era necessária paciência e persistência para ir ver das colheitas de x em x horas, e lidar com aquela mecânica de jogo, então estão mais que capacitados.
Hoje venho falar da poupança, especificamente de pés de meia, como um dos maiores gestos de amor, um dos maiores presentes.
Chamo-lhe "plano 25", (até parece mais uma daquelas dietas desenhadas por nutricionistas!), porque consiste em colocar 25€ de parte todos os meses.
Tal como dizem os nutricionistas, não é uma dieta, é um estilo de vida. E daqueles que nos permitem continuar a comer de tudo, que o pessoal não gosta de grandes sacrifícios.
Porquê 25? Para que seja acessível à grande maioria das pessoas, independentemente do seu rendimento. Aliás, a poupança é benéfica para qualquer agregado, mais ainda mais para os de baixos rendimentos.
Porque é mais fácil incutir e desenvolver hábitos de poupança que perdurem se estes não forem demasiado exigentes.
Antes de mais, vamos lá esmiuçar o que são 25 euros: uma peça de roupa ou um par de sapatos, um ingresso para um jogo de futebol ou 2 cafés por dia, uma semana de pequenos almoços de galão e torrada, ou uma refeição para dois a preço médio numa Pizza Hut, cerca de 15 imperiais, 3 ou 4 bons cocktails, 4 bilhetes para o cinema, ou depilação a cera num centro de estética, 1 ou 2 livros, etc, etc, etc...
Dá para perceber a ideia.
Vamos lá então chegar ao meu ponto favorito desta exposição: que frutos dão esses 25 euros se semeados, e onde entra a ideia do amor nisto tudo.
Imaginem que no dia em que um(a) filho(a) vosso(a) nasce, assumem de forma inabalável que seguirão o "Plano 25" à risca. Que não deixarão de cumprir o compromisso de colocar de parte os tais 25 euros por mês, que não haverão desculpas para o incumprimento, nem cederão a tentações, mesmo que surjam imprevistos.
Ao fim de 18 anos terão amealhado 5400 euros. Não é nenhuma grande fortuna, mas se usados com cabeça poderão significar uma grande ajuda numa tão significativa etapa da vida.
Por exemplo, ( e é isto que acho especialmente maravilhoso!), este pé de meia especialmente para as famílias que vivem com um orçamento apertado, e para quem seria muito complicado e até impossível pagar as propinas de uma faculdade, significa que o factor económico já não será um obstáculo.
Fosse segundo as tabelas deste ano da Universidade de Lisboa, as propinas referentes a uma licenciatura (3 anos) ficariam por 3190,41 euros.
E ainda sobram cerca de 2200 euros. Que dariam para algumas despesas de curso, ou para tirar a carta de condução e comprar um carro em segunda mão.
Não é fixe haver uma forma em que todos os pais, independentemente do seu salário, possam oferecer tudo isto a um filho?!
Há um bom tempo atrás, numa conversa com uma amiga, esta defendia que se não fosse o pequeno crédito, e os pagamentos a prestações, muitas pessoas não conseguiriam comprar uma montanha de coisas, tipo famosos robots de cozinha, aspiradores "mágicos" caríssimos e afins. Eu hei-de sempre defender a poupança à mesma. A poupança é como o pagamento a prestações dos jogadores de xadrez: como estes, a pessoa prevê e adianta-se, com a vantagem de se poder pagar a pronto e sem juros.
Se os avós tiverem vontade e possibilidade de participar neste "Plano 25", estamos a falar de mais 10800 euros. E se houver tios que se juntem estaremos a falar de 16200, 21600...
Para os jovens que planeiam com antecedência pode significar ter já de parte o valor para dar como entrada na aquisição de habitação própria. Para os mais empreendedores, o valor necessário para dar origem a um negócio. Para os mais independentes, a possibilidade de ir explorar a vida noutras paragens, ou de serem trabalhadores estudantes, numa casa alugada, com a segurança de terem uma almofada que os ajude nas despesas, especialmente nos momentos maus.
Tantas, tantas possibilidades, e tão significativas para qualquer jovem adulto, possíveis quando, por amor, pessoas da sua rede familiar decidem abdicar de 1 café por dia durante 18 anos.
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quinta-feira, 16 de março de 2017
coisas de opinar: A gentil arte de fazer inimigos.
A caminho dos 38 anos, a pessoa que sou hoje é uma versão muito distante da miúda que deixava as questões por resolver, que optava, (pelo menos na maioria das situações, até porque há limites), por fugir de possíveis confrontos, e ficava calada.
O que se passou esta manhã foi um óptimo exemplo:
Ao pé da minha casa há um café, e muitos dos seus clientes cumprem a secular tradição nacional de querer estacionar o mais próximo possível da porta do estabelecimento, mesmo que isso implique ocupar o passeio, dificultando a vida aos peões, e até correndo o risco de os atropelar, pois decidem subir com os veículos numa zona onde o passeio é mais baixinho, mas que não tem qualquer visibilidade, e toca de avançar por cima do passeio, por vezes a toda a brida, surpreendendo quem vai a pé que só não é passado a ferro se tiver bons reflexos.
A desculpa de não haver estacionamento disponível simplesmente não é desculpa, pois a 10 metros de distância há toda uma rua com imensos lugares à espera de serem usados. Trata-se simplesmente de uma questão de preguiça e egoísmo, uma daquelas situações em que se pensa só na própria comodidade e que se lixem os outros. Às vezes nem é por maldade, é porque vamos pela vida em piloto automático, em que a variável "outro" nem sequer chega a entrar na equação das nossas vidas, nem é um factor considerado.
Esta situação não é de agora, arrasta-se há anos. Mas em cada manhã que vou passear o Kiko e me confronto com o passeio ocupado, ou que quase somos atropelados, é mais uma gota no copo, e inevitavelmente chega o dia em que o copo transborda.
Hoje foi o dia.
Há umas semanas que o passeio tem sido ocupado por três ou quatro carrinhas, do transporte de pessoal da construção civil que vão ao café antes do trabalho.
Já no regresso para casa, tivemos mais uma vez que optar por contornar uma das carrinhas pelo lado da estrada e corrermos o risco de sermos atropelados, (que os condutores que por aqui passam demonstram cada vez mais uma conduta perigosa, desatenta e até criminosa), ou passar pelo lado de dentro, num corredorzinho com cerca de 30 cm de largura entre a carrinha e muros, em que implicaria eu levar com folhagem e ramos de sebes na cara. Optei pela segunda.
Após libertar-me daquele emaranhado de verde que tive que furar com a cabeça, dei de caras com um aglomerado de pessoas que presumi e bem serem os ocupantes das carrinhas. E pensei que de hoje não passaria, e lá fui dar-lhes uma palavrinha.
Perguntei a um senhor se era o condutor da carrinha que acabara de contornar, disse que não. Mas logo apareceu um senhor solícito, que embora também não fosse o condutor, se mostrou disponível para me ouvir.
Com educação e gentileza, usando até um por favor pelo meio, pedi-lhes se lhes seria possível passarem a estacionar 10 metros mais atrás. Que ali havia toda uma rua com "quilos" de estacionamento, e assim não bloqueavam o passeio. Que é perigoso ter que passar pela estrada, e havendo estacionamento não há necessidade de tal.
Um dos senhores concordou de forma enfática comigo. Os outros não sei, pois mal expus o meu pedido agradeci e segui caminho.
Quando chegámos a casa e contei ao marido, meneou a cabeça e soltou um "lá estás tu a fazer inimigos".
É nestes momentos que me sinto como o Sheldon do Big Bang em termos de aptidões sociais. Disse-lhe veementemente que achava que não. Se tinha sido educada e gentil, se usei um tom amigável e até um "por favor", se expus de forma breve um bom argumento, e apresentei uma melhor solução que respeita as necessidades de ambos, não há motivo para encarar esta abordagem como uma entrada em guerra.
Eu sei, eu sei... As pessoas, na grande maioria, não gostam nem um pouco de ser contrariadas e aceitam pessimamente as críticas, venham elas com pregos ou paninhos de pelica.
Neste momento sobressai a minha esperança no poder da argumentação, da diplomacia, e simplesmente da boa vontade entre as pessoas. Amanhã de manhã, em mais um passeio matinal com o Kiko, logo tirarei uma conclusão sobre se o diálogo vence, ou neste mundo estamo-nos mesmo a cagar para os outros.
Depois conto-vos.
terça-feira, 28 de junho de 2016
coisas de opinar: Houve um dia em que acreditava em paladinos
Chega a todos o dia em que olhamos com maravilhamento para a inocência das crianças, sobretudo da criança que fomos.
Quando era criança acreditava, numa manifestação de pura inocência e idealismo, que ser jornalista era uma das ocupações mais nobres. Porque a partir do momento que as imagens de um qualquer horror fossem capturadas e difundidas ninguém poderia ficar indiferente, e seria certo que "alguém" faria algo, o quanto antes, para o resolver.
A meio do percurso do liceu, enquanto tentava visualizar que raio de carreira profissional deveria abraçar, houve uma altura em que estava determinada em me tornar repórter de guerra. Mesmo antes, assistia com uma desmesurada atenção ao noticiário da noite quando aparecia o Carlos Fino ou o Albarran. Apontava para o aparelho e dizia "é ali que quero estar", de olhos presos naquele cenário nocturno iluminado pela passagem de cometas balísticos esverdeados.
Costumava dizer que aprenderia russo e árabe. Quem diria que acabaria por ser uma espécie de profecia em relação à geografia dos conflitos!
A minha mãe perguntava-me se eu não tinha medo. E eu, com um ar muito sapiente e douto, respondia-lhe que toda a gente sabe que não se deve disparar contra os jornalistas, que é por isso que se usa um colete com "press" escrito nas costas.
O meu pai olhava-me com um ar incrédulo e divertido. Uma miúda que tem medo de aranhas e outros bicharocos, de picas, dentistas e mil outras coisas, quer ir para a guerra!
Ser jovem é também viver ébrio de idealismo. Mal seria se assim não fosse. E eu acreditava com uma força maior que os repórteres seriam aqueles a conquistar o fim das guerras e outras injustiças no mundo. Que as imagens não editadas da dor, sofrimento, perda e morte estampadas no rosto de pessoas reais seriam essenciais para que guerra deixasse de ser um conceito distante e abstracto. Que se víssemos pessoas como nós em cenários que não desejamos para ninguém, a empatia seria inevitável. Logo a mudança também.
Tenho saudades de ser assim idealista, inocente até.
O jornalismo hoje em dia desilude-me. O jornalista já não é, aos meus olhos, aquele paladino da verdade, mas simplesmente alguém como todos os outros, que tem contas para pagar e por isso é permeável a más influências. Indigna-me e causa-me asco todos os casos, grandes e pequenos, de manipulação de informação e da opinião pública. Posso não me ter tornado jornalista, mas levo a deontologia muito a sério. Acima de tudo é um enorme desrespeito pela profissão, pelas pessoas a quem deviam servir, e pelos colegas que correm grandes riscos mundo fora.
O colete com "press" escrito nas costas já não é uma armadura invencível como antes acreditei, e os jornalistas tornaram-se alvos apetecíveis. Diria que é uma profissão mais perigosa que nunca: 67 jornalistas morreram em 2015, 54 sequestrados e 153 presos. Choca-me tremendamente casos como os de Lara Logan, agredida sexualmente por uma turba de 200 homens no Cairo, e de James Foley, fotojornalista decapitado pela Isis, já para nem falar do ataque terrorista ao Charlie Hebdo.
O sonho que vos descrevi no outro dia relembrou-me de que um dia, também eu quis ser repórter. E até por motivos que acredito serem memoráveis, que me fariam abraçar a miúda que fui. Acho que esse sonho e os seus pormenores foram a expressão do meu inconsciente sobre os medos relacionados com tal profissão: hoje não me atreveria, especialmente enquanto mulher. Demasiado perigoso.
Louvo quem o faz, especialmente numa era em que não se respeitam os mínimos códigos de honra, em que a violência e a bestialidade proliferam. Uma réstia de idealismo em mim alimenta a esperança que o sacrifício de todos estes profissionais não seja em vão, e que realmente contribua para a resolução de muitos problemas no mundo.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
coisas da casa: As casas inclusivas
No Museu das Comunicações, que fica na Rua do Instituto Industrial, nº 16, em Lisboa, foi inaugurada, em 2003, a "Casa do Futuro Interactiva".
É uma exposição permanente onde o cenário de uma casa serve para apresentar o conceito de domótica através de um conjunto de várias tecnologias com funções várias, desde a segurança, entretenimento, inteacção à distância, entre outras.
Esta foi a primeira fase do projecto. Na sua segunda fase, este humanizou-se e evoluiu para o que é a "Casa do Futuro Inclusiva", que a página da Fundação descreve da seguinte forma:
"Apelar à consciência social, em especial à das gerações vindouras, para a problemática da deficiência e da velhice, desdramatizando-a e aceitando-a, foi o que levou a Fundação Portuguesa das Comunicações a renovar esta exposição.
A «Casa do Futuro» tornou-se Inclusiva, isto é, humanizou-se. Pessoas com necessidades especiais ligadas à mobilidade, à cognição, à visão, à audição e à fala, têm hoje, à sua disposição, tecnologias preparadas para as ajudar a integrar-se mais facilmente no seu universo de vida.
Para tal, foi necessário criar novos espaços e alterar alguns dos existentes, introduzindo-se novos equipamentos e funcionalidades e foi acrescentada a «Suite da Avó». O objetivo deste quarto é demonstrar que, com as novas tecnologias, os idosos podem usufruir de melhores condições de conforto, de vigilância e de comunicação junto das suas famílias."
Todas as pessoas, inclusive as idosas e as portadoras de deficiência, merecem viver numa casa e num mundo que esteja adaptado ás suas necessidades, de forma a possibilitar o máximo de conforto, qualidade de vida e autonomia.
Da mesma forma que as nossas casas não estão preparadas à priori para a chegada de um bebé, também estas precisam de sofrer alterações para se adaptarem às necessidades impostas quer pela idade, quer pela saúde.
Enquanto a grande maioria dos edifícios, de habitação e outros, não forem criados de raiz de forma a serem considerados inclusivos e capazes de servirem da melhor forma a pessoa em todos os estágios da sua vida, é importante falar sobre este tema.
Mais importante ainda é inspirar o mercado a satisfazer esta enorme necessidade e lacuna, seja através de gabinetes de arquitectura e profissionais de obras que alarguem a sua actividade, tornando-se também especialistas em preparar habitações para pessoas de idade ou portadoras de deficiência, seja também através da disponibilização dos produtos que permitem esta mesma adaptação no máximo possível de lojas, de forma a que sejam totalmente acessíveis.
Quando falamos em pessoas idosas, (e faço questão de incidir uma especial atenção neste nicho, visto termos uma população envelhecida), uma casa adaptada às suas necessidades faz a diferença do mundo. Algumas mudanças permite-lhes prolongar uma vida autónoma. Nunca devemos desvalorizar a importância que tem nas nossas vidas, na nossa psique, na nossa felicidade, esta capacidade. Na mesma medida, quanto mais autonomia tiver a pessoa idosa, menor a carga para os seus cuidadores.
Algumas das alterações aconselhadas numa casa pensada para pessoas idosas:
- Camas, sofás, cadeiras e cadeirões devem ter uma altura que permita a pessoa ter os pés bem assentes no chão quando sentada.
- As camas articuladas são uma opção mais confortável, por também facilitarem os movimentos, para todos os idosos, mesmo aqueles que não se encontram acamados.
- O quarto da pessoa idosa deve estar o mais próximo possível da casa de banho, e preferencialmente situar-se no piso térreo.
- Não devem existir tapetes pois é muito fácil para um idoso tropeçar. Caso existam devem ser de pêlo curto e estarem colados ao chão com fita adesiva de face dupla.
- Na casa de banho a banheira deve ser substituída por duche, preferencialmente um em que a base seja plana e antiderrapante. Neste deve existir um banco e corrimões.
- Idealmente a sanita deverá ser elevada em cerca de 10 centímetros e possuir barras de apoio laterais. Existem assentos especiais caso não seja possível ou não se queira trocar a sanita.
- O pavimento da habitação deverá ser antiderrapante especialmente em zonas como a casa de banho, e de circulação.
- As maçanetas e puxadores deverão ser de modelo alavanca e nunca esféricas.
- As paredes deverão ser de cores claras. Cores vivas e contrastantes deverão ser utilizadas em pormenores como maçanetas, puxadores, tomadas, interruptores, degraus e outros obstáculos.
- O aquecimento deverá ser providenciado através de ar condicionado e nunca através de equipamentos que podem dar origem a acidentes como braseiras eléctricas, aquecedores a gás, etc.
- É importante que toda a habitação seja bem iluminada, mas que a escolha de luzes não encandeie. Nas zonas de circulação, em particular no percurso entre o quarto e a casa de banho são aconselhadas luzes com sensores de movimento.
- As portas deverão ser largas e o espaço de circulação preservado.
- É importante que tudo esteja à mão, todos os armários, especialmente os de cozinha devem ser repensados. Tomadas e interruptores também devem estar ao mesmo nível.
- Os electrodomésticos que funcionem a gás devem ter sistema de segurança como válvula corta-gás.
- As torneiras monocomando são as mais aconselhadas.
- Alguns móveis, como a mesinha de cabeceira, devem ter os cantos arredondados e estarem fixos à parede.
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segunda-feira, 18 de abril de 2016
coisas de pensar: Começo a ter medo das boas intenções...
Tanta, mas tanta coisa que nasce do que parece ser uma boa intenção e acaba sendo uma cagada magistral.
cromices #126: Nós em modo wedding-planners...
Quando nos casámos optámos pela forma mais simples e prática de o fazer. Fomos os dois assinar papéis ao Registo Civil, e pimbas, feito. Passados alguns dias estávamos a embarcar com destino à lua da mel. Só quando voltámos é que fizemos um almoço, bem disposto, com a família mais próxima. Organizámos dois pequenos álbuns de fotografias que oferecemos aos nossos pais e assunto arrumado.
Foi nossa opção abdicar de tudo: alianças, flores, vestido, igreja, copo de água, lista de convidados...
Fizemo-lo não por falta de respeito a outras pessoas, mas como profundo sinal de respeito por nós mesmos. Une-nos também uma fervorosa crença que a vida é demasiado curta, e por vezes exageradamente complicada, para que se abdique da nossa vontade, da liberdade já tão rara de se fazer o que se quer, só para agradar a terceiros.
Chatices? Nenhumas. Zero. Foi, sem qualquer dúvida, um dia feliz, não só pela ocasião, mas também por termos abdicado de um casamento mais convencional, cuja organização está repleta de afazeres, pormenores e formalidades que nos stressam e enfadam até ao tutano, e que na realidade não condizem propriamente com as nossas personalidades.
Pena, pena só tivemos de não ter calhado em ano bissexto. Que tinha sido mesmo giro escolher o 29 de Fevereiro.
Quem gostou, gostou. Quem não gostou faça à sua vontade com a sua própria vida. E sejam felizes, caramba!
No entanto, tal não impede que já tenhamos, em conversa, imaginado como teríamos organizado uma festa de casamento ao nosso gosto. Isto se quiséssemos ter tido o trabalho.
Daria uma coisa assim:
Em resumo, seria uma espécie de luau havaiano numa praia.
A ementa: churrasco, muita fruta esculpida, opções vegetarianas. Cocktails coloridos, com muitas opções não alcoólicas.
Muita animação. Tendas de chill out com bean bags a pensar nas pausas. Espreguiçadeiras, zonas de sombra.
Totalmente casual, com zero formalidades, a começar pelo traje. Traje formal seria completamente proibido.
O marido acha que é um desperdício estúpido de dinheiro e tempo o quanto os convidados de um casamento gastam em roupa, sapatos, cabelo e todos os pormenores, e eu concordo. Que trouxessem fato de banho, roupa de praia, chinelos, o que acharem melhor.
Outra regra seria não dar prendas aos noivos. Quanto muito escolheríamos uma causa, uma qualquer associação, e seriam pedidos aos convidados donativos para esta.
Quanto ao vestido de noiva, nem pensar! Para mim, teria optado por um dos milhentos vestidos da secção beachwear. Para ele, no máximo, uma camisa havaiana. E de pézinho descalço na areia.
A gracinha, o toquezinho, o recuerdo para os convidados, seria alguém recebê-los com a oferta de um lei, (colar de flores havaiano) para usarem ao pescoço que depois levariam consigo.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
coisas de opinar: Construa-se uma estátua
Se há quem mereça uma homenagem em forma de estátua, colossal, ímpar, não é nenhum atleta, nem artista, nem político, muito menos um qualquer empresário que adoça a boca da plebe com promoções em hipermercados mas que depois vai pagar os impostos à Holanda do dinheiro auferido em Portugal. Não.
Quem merece um monumento gigantesco e excepcional é o conjunto de cidadãos, que nem sabendo os sociólogos como os definir, diria que são parte classe trabalhadora, parte classe média. São aqueles que trabalhando por conta de outrem ou por conta própria, conseguem com mais ou menos ginástica remediar-se com o que auferem. Com mais ou menos educação, com mais ou menos acesso a cultura e alguns prazeres.
Sobretudo são aqueles que não fogem à esperada contribuição financeira para a máquina fiscal. Talvez o únicos. São uma classe "ensanduichada" entre pobres e ricos. Entre os que não podem contribuir e até precisam de todo o tipo de apoios para se manterem à tona, e os que podendo optam por não o fazer, alinhado em esquemas elaborados de evasão fiscal.
Porque rico que é rico até manda o dinheiro passar férias em destinos como o Luxemburgo, Suíça, Ilhas Virgens, Panamá e tantos outros.
São estes a verdadeira e única espinha dorsal das nações, inclusive da nossa. Os heróis que mantêm isto a flutuar com tanto peso morto a dificultar a coisa.
Que seja enorme essa estátua, um figurão de costas bem largas. Porque são necessárias costas largas para carregar com todos os chicos espertos que andam por aqui a lixar quem é honesto.
Que sirva a enorme estátua para nos pôr a pensar sobre o rácio cidadão honesto, trabalhador e bom pagador vs chico esperto que foge ao fisco, quer seja uma sardinha ou um tubarão.
Que sirva sobretudo para inspirar vergonha. Será que ainda há disso?!
Que o maior dignatário venha ao palanque avisar petingas e baleias do chico-espertismo que existe tempo para redenção. Para corrigir os maus feitos. Para fazer voltar a casa os dinheiros que foram em férias para offshores. Para que as empresas que auferem em Portugal não tenham outro domicílio fiscal. Que se acabaram os biscates sem factura, os pagamentos por baixo da mesa. Que passado esse prazo da boa-vontade e da redenção as empresas em situação irregular deixarão de poder funcionar, que se verão destituídos dos seus bens, especialmente dos fundos espalhados pelo mundo. Tudo será pertença do Estado que ousaram defraudar.
O dia da inauguração da estátua será de festa para a classe que nenhum sociólogo sabe definir: deixarão de, em nome do funcionamento de uma nação, ter que pagar por todos os outros que se escusam a fazê-lo.
O dia da derrota do chico-espertismo será o dia da implementação da verdadeira Democracia.
quinta-feira, 31 de março de 2016
coisas que recomendo: Em defesa dos arneses para crianças.
Há muitos anos atrás, era eu uma miúda de 17 /18 anos, e tinha o primeiro part-time no shopping que conciliava com as aulas de Alemão. O mundo naquela época parecia de certa forma um lugar mais seguro, mais cor-de-rosa que hoje. Em parte certamente porque não havia, como hoje, serviços noticiosos 24 horas por dia a bombardearem-nos constantemente com um léxico de horrores. Não é que as coisas não ocorressem, mas como diz o ditado "a ignorância é uma bênção." Ou simplesmente parece ser.
Por exemplo, acho que o termo "pedofilia" nunca me tinha passado pelo pensamento até ao boom mediático do caso Casa Pia, assim como o caso "Rui Pedro" se tornou um triste ícone da matéria sobre o desaparecimento de crianças. Isto, anos depois do evento que vos relato.
Uma calma manhã saio da loja para ir ao wc. Apressada, como de costume, porque convinha não demorar e queria aproveitar para também fumar um cigarro. Naquele layout particular o wc das mulheres estava mais recuado, e tínhamos sempre que passar ao lado do lavabo masculino. Enquanto ia perdida nos meus pensamentos, ocorreu, por um simples acaso, olhar para o lado durante uns segundos no momento em que passava pela porta do wc masculino. A minha vista trespassou a vidraça da vigia que enfeitava a porta e pareceu-me vislumbrar algo muito estranho.
Pareceu-me ver um adulto a cortar o cabelo a um miúdo junto dos lavatórios. A cena pareceu-me tão bizarra, tão fora do comum, que o meu cérebro teve sérias dificuldades em assimilar a coisa.
Pelo sim, pelo não, dirigi-me a um dos seguranças e descrevi-lhe o que me pareceu ter visto. Que por ser tão estranho e ter sido tão rápido, não tinha certezas absolutas mas, que preferia pecar por excesso de zelo. O segurança disse-me ter tomado a melhor opção e que voltasse à minha rotina, que eles tratariam de tudo a partir daquele momento.
Nunca soube o desfecho da história, mas é coisa que nunca mais esqueci. E que voltei a recordar de cada vez que uma criança figurava uma qualquer triste notícia.
Serve este prêambulo para nada mais que ilustrar que o perigo existe, independentemente da nossa consciência sobre tal. Não é para andarmos paranóicos, apenas conscientes do que existe um pouco por todo o lado.
Mas, hoje estou aqui para falar sobre as chamadas "trelas" para crianças. Ou melhor, para partilhar a minha perspectiva, que vem em defesa deste artefacto ainda tão criticado e incompreendido.
Para estruturar melhor o meu argumento, googlei "trelas para crianças". Fui dar a alguns blogues, (aqui e aqui), e fóruns, (como aqui e aqui).
Como em tudo as opiniões dividem-se.
A amostra constituída pelas opiniões nos links citados é um bom exemplo disto mesmo. Há quem defenda os arneses porque em criança usaram um e acharam a experiência tão positiva que agora os procuram para os filhos, ou porque já apanharam cagaços valentes e passaram a olhar para este acessório como um adjuvante para evitar situações futuras, ou ainda porque estão ou estiveram num qualquer país onde o uso deste é comum e isso bastou-lhes para não olharem para o dito com estranheza e preconceito, chegando mesmo a ver o lado prático da coisa.
Se este post tivesse um objectivo seria esse mesmo: adoraria que as pessoas olhassem para estes acessórios como sendo isso mesmo - um acessório - com a mesma naturalidade com que olham para qualquer outro, sejam as fraldas descartáveis, os ovos, tudo o resto. E sem preconceitos possam deliberar se, no seu caso, lhes é ou não útil. Tão simples quanto isso. Também houve um tempo em que se achou que as papas já preparadas e os boiões eram coisas para mães preguiçosas. Ainda há pouco tempo se olhavam para os marsupiais e slings com alguma estranheza. Felizmente o mundo evolui: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se".
Na amostra supra citada há quem não adira às chamadas "trelas" por isso mesmo, por acharem que no seu caso não lhes serviria de muito. E depois há aquelas opiniões que perdoem-me mas tenho que confessar que me tiram do sério pois demonstram uma ignorância, umas vistas curtas, umas palas nos olhos de todo o tamanho. São as pessoas que optam por "argumentar" afirmando que quem recorre a um acessório destes trata as crianças como cães, (infelizmente, quem dera a muitas crianças por este mundo fora terem a sorte de serem tão bem tratadas como alguns cães!), é preguiçoso, é mau progenitor e não devia ter filhos.
Infelizmente, este tipo de vozes com as suas opiniões carregadas de preconceito, julgamento e ignorância são capazes de influenciar um terceiro grupo de pais, que gostariam de experimentar o produto mas não o fazem por vergonha, porque não querem ser olhados de lado, nem serem alvos de comentários maldosos. O mais triste é que assim, pelos piores motivos, abdicam de fazer algo que aumentaria a segurança dos filhos, a sua tranquilidade e até lhes facilitaria um pouco a vida.
Confesso que os comentários onde se apelidou de preguiçosos e incapazes os pais que usam os arneses me ficaram na memória. A passearem tranquilos com a criança pela trela, como se atrevem, não é?! Como se tranquilidade e parentalidade não combinassem, como se fosse um pecado unir esses dois conceitos. Se não vos causa dor e sofrimento então é porque não estão a fazê-lo bem. Será isso?
Honestamente apetecia-me dizer-lhes "Ai é assim? Então toca a passar para cá tudo o que foi inventado para facilitar a vida aos pais! Fraldas descartáveis, toalhitas, biberões, carrinhos de bébé, tudo!"
Aliás, ao que estas pessoas chamam preguiça eu chamo inteligência. Sem esta não teríamos inúmeros confortos na nossa vida quotidiana, aos quais já nem damos o devido valor, como água potável a sair da torneira, luz ao clicar num interruptor, frigoríficos para preservar os alimentos entre tantos e tantos outros.
Porque defendo os arneses?
1º - Pela saúde das crianças:
Já ouviram falar em luxação do cotovelo ou cotovelo de ama?
2º - Pela saúde dos adultos:
Claro que é agradável andar de mão dada com as crianças, ou ampará-las enquanto dão os seus primeiros passos. No entanto acho que ninguém achará confortável fazê-lo durante longos períodos, porque nos obriga a andar tortos e curvados, com implicações óbvias para a coluna. Acho que este acessório aumenta o conforto físico de pais e avós.
3º - Explorar com segurança:
Há quem ache que as crianças fiquem demasiado restringidas quando estão com o peitoral. Eu defendo precisamente o contrário. Acho que tê-las pela mão ou no carrinho lhes diminui muito mais a liberdade. Com o peitoral, podem andar por si, explorar, ter uma certa sensação de autonomia, mas sem perigos porque estão sempre ligados ao adulto.
4º - Mais tranquilidade, menos zangas, mais diálogo:
Utilizar o arnês não implica que não se ensine à criança todas as regras de segurança, inclusive aquelas sobre como se deve circular em todos os tipos de espaços, desde como deve ter cuidado com os carros, etc.
O que acontece, na minha opinião, é que estando sempre a criança em segurança quando está a usar este acessório, os pais não andam naquele estado de frustração porque o sacana do miúdo lhes pregou 20 sustos na última hora, nem têm que andar aos berros porque este teima em afastar-se, nem recorrer à palmada.
São totalmente livres de discordar, mas eu cá acho fantástico não se ter que andar a berrar advertências de 2 em 2 minutos, nem andar sempre em stress ou a correr atrás deles, e com isso poder aproveitar as saídas para explicar tudo o que se queira que eles aprendam com calma e tranquilidade.
5º - Ninguém é infalível:
Porque as crianças são como são, até os pais ou os avós mais atentos apanharão, pelo menos uma vez na vida, um daqueles sustos. Não por falta de zelo, mas porque realmente bastam dois segundos. Sabem aqueles dois segundos que demora a abrir a carteira para sacar do cartão para pagar as compras no supermercado? Os mesmos dois segundos em que olhamos para os produtos expostos nos lineares, ou que gastamos num breve cumprimento a quem se cruza connosco, ou que sacamos do telemóvel para ver quem nos está a ligar...
Nós não somos máquinas.
6º - Porque, para além de seguro, é prático:
Não defendo que o arnês seja usado em todos os momentos. Há ocasiões específicas em que este é desnecessário. Que não se deve abusar pois é um acessório de segurança, um elo de ligação, e não um castigo.
Há ocasiões em que o acho indispensável como idas a shoppings, aeroportos, visitas a sítios a transbordar de gente (imaginem a Eurodisney, por exemplo), saídas em que só está presente um dos adultos, momentos em que terão que desviar as atenções para outra coisa que não a criança, etc.
Todos os dias vejo inúmeras mães a saírem com as suas crianças pela mão. Há muito para fazer e tratar. São poucas as pausas. Se se sentam para tomar um café, é certinho que se levantarão dezenas de vezes para agarrar os petizes irrequietos. Voltam a casa de mãos carregadas. Não há braços para tudo. Tentam controlar a marcha dos miúdos com advertências. Não é assim tão raro o dia em que a criança chegue a casa já num pranto. Houve algures no caminho uma pausa para uma palmada. Muito provavelmente porque o petiz decidiu correr na direcção da estrada. Olho para as inúmeras mães e parecem exaustas ainda nem é hora de almoço. Chegam curvadas e tortas. Tiveram que arranjar maneira de libertar uma mão para virem de mão dada, por segurança, e por isso carregam um incontável número de sacos numa só mão. E eu penso: "Mas se podia ser tão mais fácil e seguro..."
7º - Porque não são trelas, nem se parecem com estas:
Existem vários modelos. Desde os arneses, às mochilas com peluches de onde sai a tal correia que os liga aos adultos, até a duas pulseiras ligadas entre si, até modelos que servem para apoiar nos primeiros passos e mais... Basta googlar e encontrarão imensos exemplos. Escolhi apenas alguns para ilustrar.
segunda-feira, 7 de março de 2016
coisas de opinar: O imposto sobre o tabaco
Há muitos anos atrás, no tempo da Maria Cachucha, quando era uma miúda e fumava às escondidas, se me dissessem que um dia pagaria quase mil escudos por um maço de tabaco nunca teria acreditado em tal profecia.
Mil escudos equivaliam a duas semanadas naquela época. Sim, que eu recebia 500 escudos por semana. Não era muito, mas dava para ir tomar café todos os dias com as amigas.
Lembrei-me disto quando se começou a falar do Orçamento de Estado e de como se esperava mais um agravamento no imposto sobre o tabaco.
Sim, o fumo é um vício nojento, como todos os vícios. Faz mal à saúde, tanto à própria como à alheia, e à carteira. Obviamente que concordo que, na obrigatoriedade de aumentar os impostos que estes incidam sobre aquilo que é supérfluo, não tocando na lista de bens que são realmente essenciais.
Contudo, como fumadora, estou fartinha que sempre que haja uma revisão dos impostos, se opte por mais uma violação à minha carteira, deixando incólumes muitos outros produtos que são igualmente supérfluos e que fazem tanto ou mais mal que o tabaco.
Esta coisa do IVA e do Imposto sobre o Tabaco sempre teve contornos que me deixam cismada.
Há coisas que para mim são incompreensíveis, como o facto das publicações periódicas pertencerem ao escalão mínimo de imposto, (6% no continente), e um caderno não. Segundo este prisma um jornal sobre futebol ou uma revista cor-de-rosa cheia de mexericos é um bem mais essencial do que um caderno para levar para as aulas.
Os refrigerantes, que todos sabem que são só gás e açúcar, estão na lista do bens essenciais, enquanto por exemplo, uma massa recheada ou um peixe fumado são considerados, em comparação, bens de luxo.
Volto a dizer, impostos sobre vícios, sim senhor, moralmente é muito correcto. Desde que se incluam todos os vícios. Quero ver o álcool e o jogo a levarem o mesmo tratamento que o tabaco. Não dizem que umas das intenções destes elevados impostos é incentivar os fumadores a largarem o vício?
E desde quando e com que bases é que o tabagismo é ou pode ser considerado um vício mais maléfico que o alcoolismo?!
Que eu saiba nunca ninguém, por fumar um cigarro a mais, começou uma cena de pancadaria num bar, ou deixou de estar em condições para conduzir, ou foi para casa bater na mulher e nos filhos.
Não são situações destas, tão comuns que já são consideradas património sociológico e cultural, muito mais dignas de um discurso de incentivo à moderação e até à erradicação do vício?!
Ide-vos mas é foder, pá!
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
coisas da casa: Arrendamento vs Aquisição
Em qualquer tema existem opiniões, gostos e perspectivas diferentes.
No que toca ao tema que vos trago hoje - arrendamento vs aquisição, confesso que sempre fui uma ferrenha apologista da aquisição de casa própria.
O principal motivo da minha preferência é financeiro.
Há quem defenda que pagar uma mensalidade ao banco ou uma renda a um senhorio vá dar ao mesmo, afinal são ambas obrigações pecuniárias que se repetem todos os meses. Que em ambos os casos, para o mau pagador o resultado será o mesmo: o senhorio ou a entidade bancária retomam a casa e ponto final.
Para mim, toda e qualquer semelhança finda aí, porque há um mundo de diferenças, com claras vantagens, na minha opinião, para a aquisição.
É bem verdade que, para nós, pessoas comuns que não têm outra hipótese se não recorrer a um crédito habitação, veremos acrescentados ao valor de venda do imóvel juros. O que é normal e esperado, pois as instituições bancárias não se dedicam à caridade e, como qualquer outra empresa, os seus serviços têm de ser pagos. Ninguém dá nada a ninguém, e mesmo quando vamos comprar pão, o padeiro não nos cobra somente o que gastou em matérias-primas.
Mesmo assim, eu prefiro olhar para o compromisso que se tem para com o banco como um investimento. É que ao fim de 15, 20, 30, 40 anos aquele imóvel será nosso. Depois de liquidado o empréstimo, as únicas despesas desse género serão o seguro e o IMI, enquanto que um arrendatário pagará renda por toda a vida, nunca a vendo diminuir, por algo que nunca será seu.
Inclusive, num cenário como o actual em que as taxas de juro se encontram incrivelmente baixas, os valores cobrados no mercado de arrendamento chegam a ser muito superiores às mensalidades pagas por quem comprou casa. Devido aos contornos da crise financeira, os bancos já não cedem empréstimos com tanta facilidade, forçando muitas pessoas a enveredar pelo mercado de arrendamento. Aproveitando a situação, muitos senhorios não resistem a entrar no jogo da especulação imobiliária, elevando as rendas significativamente.
Uma das claras vantagens de se possuir um imóvel é também do foro financeiro. Uma das benesses de ser proprietário é poder vender o imóvel e obter assim, pelo menos, o retorno de parte do investimento. Há casos em que os proprietários são tão bem sucedidos no mercado imobiliário que conseguem o retorno total do investimento, ou ainda facturar uma margem de lucro, o que significa que usufruíram de um imóvel por X anos a custo reduzido, a custo zero, ou é como se lhes pagassem pelo usufruto passado. (Aqui também entramos na esfera da especulação, da ganância e do exagero, mas isso agora são outros quinhentos, e um tema para outro dia.)
Podem ainda entrar no mercado de arrendamento.
A posse de um imóvel pode ser também importante para quem tiver descendentes. No futuro terão uma herança que lhes providenciará habitação própria garantida, ou uma fonte de rendimento.
Num contexto de arrendamento nada disto é possível, e por isso, para mim, dinheiro em rendas, é quase dinheiro deitado à rua.
Outro benefício que me ocorre em relação à posse, é que a cor das paredes ou ter animais de estimação são duas das muitas decisões que podemos tomar sem a necessidade do aval de terceiros, como acontece quando existem senhorios ao barulho.
A maior vantagem do arrendamento reside na liberdade, e até certa medida, na ausência de determinadas responsabilidades e trabalhos.
Se alguém tiver um espírito nómada, ou uma carreira profissional que o obrigue a andar por aí feito saltimbanco, o aluguer será sempre a melhor opção. Uma casa própria não deixa de ser uma âncora, e sem esta alguém pode dar-se ao luxo, se existir vontade, de mudar de cidade ou país quantas vezes lhe apetecer.
Habitação própria também vem com "responsabilidades e trabalhos", sendo estes os cuidados de manutenção, obras, renovações várias e tudo o que for necessário fazer para manter a saúde de algo que, tal como nós, também envelhece e descai. Um proprietário sabe que todo este peso tem lugar às suas costas, um arrendatário sabe que na maioria das situações a responsabilidade pertence ao senhorio.
Um arrendatário pode mudar-se, aos primeiros sinais de "trabalhos", para uma casa nova e continuar a fazê-lo para que nunca na vida tenha que passar pelo suplicio de obras, por exemplo. Ou ir, através de tentativa e erro, experimentando vários modelos de casas até encontrar aquele que mais lhe agrada, com relativa facilidade e desapego.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
coisas que me irritam: Poluição sonora
Os miúdos Fukushima são de tal forma barulhentos que conseguem, em meia hora, dar-me algo que nunca a discografia dos Sepultura conseguiu: uma dor de cabeça.
Ontem ao final da tarde, um deles arma uma birra no meio da rua. São miúdos que não se expressam de forma comum, têm o volume sempre no máximo e quando choram, não choram: inspiram uma lufada de ar e berram, gritam, esperneiam. Senhores, como berram! E como dura a berraria, naquele volume e estridência que não há parede, nem janela fechada que sirva de barreira, nem som de fundo em casa que abafe!
Que desatino, que violência, que desconforto! Que dor de cabeça!
Adoraria retirar prazer destes ruídos, ou pelo menos ser indiferente, mas não consigo. Porque se há coisa que mexe comigo são barulhos, alguns capazes de me deixar desnorteada como um veado encadeado por faróis.
Por exemplo, fico a ranger os dentes com o toc toc toc dos saltos altos, arrastar de móveis, berros, televisões com o volume demasiado alto, ruído branco dos aparelhos eléctricos, espaços cheios de gente a fazer muito barulho, alguns dos sons produzidos por motas, as vozes de algumas pessoas, aspiradores, pessoas que insistem em ouvir todos os toques do telemóvel em público, ruído de qualquer ferramenta ou maquinaria, aqueles que falam de forma gritada ao telefone e basicamente tudo o que interfira com o sono e o descanso na hora sagrada reservada para tal.
A grande excepção é a música. Gosto de ouvir música e não me incomoda notar que outros o fazem, desde que em horários apropriados.
Esta minha sensibilidade auditiva faz com que tenha cuidado com o meu próprio ruído, para não incomodar terceiros. Uma atitude especialmente importante quando se vive num apartamento.
Embora goste de ouvir música, só a ouço alta em determinados horários e só pontualmente durante longos períodos. Salvo nos momentos em que já ripostei a barulho da vizinhança com alguns temas da minha eleição.
Tenho atenção aos horários em que ligo máquinas e utensílios como o aspirador, máquina de lavar ou secar, ou até a varinha mágica. O meu bom senso dita-me que não vou aspirar às 9h da manhã nem passar uma sopa às 23h.
Inclusive para os banhos tento seguir uma regra de "bons horários": banhos demasiado tardios são a excepção, não a regra.
Tento não fazer muito barulho nas áreas comuns do prédio, pois faz eco, o som propaga-se e é bastante audível dentro das habitações.
A regra de serem proibidas obras ao Domingo é sagrada, e só é quebrada em caso de emergência.
"Trata os outros como queres que te tratem" - é o lema de ordem.
Assim sendo, embora até seja uma pessoa tolerante, não me coíbo de agir quando acho que atingi o meu limite.
Ao longo de 13 anos nesta casa ainda só tive que intervir uma meia dúzia de vezes, e só metade das vezes se tratava de ruído de vizinhança. Acho que é uma média bestial e demonstra que estou rodeada de bons vizinhos.
Quando acho que devo intervir é da minha natureza ser uma pessoa bastante pragmática e directa. Não sou daquelas pessoas que não enfrenta nem age, mas vai guardando rancor. Antes que me dê um amok, prefiro abordar as pessoas, informá-las, dialogar e esperar que isso seja o suficiente para garantir a resolução da situação. Em todas as situações este modelo tem-me servido bem, até porque na maioria das vezes acredito que as pessoas não têm mesmo noção da intensidade do barulho que produzem e de como este pode ser audível e incomodativo para terceiros.
Já pedi no café próximo da minha casa que falassem com o padeiro, e em meu nome lhe pedissem que baixasse o volume do rádio quando viesse entregar o pão às 5h da manhã, pois este acordava-me e estragava-me o sono.
Um dia cheguei a abordar os vizinhos de cima pelo barulho constante do arrastar de móveis, do aspirador a trabalhar o dia todo, todos os dias, desde manhã cedo, do poc poc poc infernal que é o barulho de bolas a bater no chão, de gavetas e portas de armário a bater no quarto a horas tardias, que a qualidade do nosso tempo passado em casa estava a ser seriamente comprometida. Assim como já falei com outro vizinho sobre se seria possível, logo de manhãzinha cedo, terem mais atenção ao retirar o carro da garagem, se podiam evitar fechar a porta com tanta brutalidade e dispensar a música techno aos berros, pelo menos até se afastarem da janela do meu quarto. Com bons modos, foi o que bastou. E estou-lhes grata por isso.
Para quem não tem a mesma sorte o meu conselho é:
Conheçam a legislação sobre ruído. Sejam um bom exemplo: é demasiado hipócrita exigir de outros o que nós não cumprimos. Com bons modos e uma boa atitude, abordem as pessoas e informem-nas da situação. Se não resultar, repitam. Da terceira vez em diante, chamem a Polícia para que sejam as autoridades a chamar-lhes a atenção, e para que as ocorrências fiquem registadas, servindo de prova caso a solução resida na via judicial.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
coisas de pensar: Será a redenção possível?
Diz que a redenção é o acto de libertação de todos os sacrifícios, males e grilhões. Dizem também os crentes na reencarnação que é exactamente este o seu propósito. Que cada lição aprendida é mais um degrau conquistado na "stairway to heaven".
Falando em degraus, há uma escala imensa de gradientes e meios tons entre o Bem e o Mal. Acho que o comportamento da maioria das pessoas, o meu incluído, insere-se mais ou menos a meio da tal escala, com cada pé metido num tom, oscilando entre luz e sombra conforme a qualidade das acções e pensamentos.
Salva-nos a capacidade latente que todos trazemos de, pelo menos uma vez na vida, fazermos algo que nos dá direito a avançar umas quantas casas neste jogo.
Talvez seja por isso que as acções produzidas com maior impacto, grandiosas, distantes da bondadezinha ou da maldadezinha quotidianas, encontrem tamanha repercussão em nós, seja porque nos inspiram ou nos horrorizam.
O meu reduto é a lógica, a racionalidade. Tento sempre encontrar uma qualquer espécie de justificação, de teoria para tudo. Dei por mim a pensar nos actos de verdadeira maldade que se passam pelo mundo. Não estou a falar dos frutos da maldadezinha, mas daqueles que parecem ter saído de algo imensamente mais grotesco e abominável, que nos chocam por parecer impossível até para o ser humano mais merdoso parir algo de tamanha malevolência.
Se por um lado avanço com a teoria do equilíbrio em todas as coisas: que ao haver no mundo pessoas com uma capacidade extrema para a bondade, haverão obrigatoriamente outras que serão a sua antítese, por outro, nem através da lógica me conformo.
Causa-me um desconforto extremo lembrar-me que todas as acções, independentemente da sua qualidade, possuem a capacidade de inspirar terceiros. Que é assim que a luz e a sombra se multiplicam. Assusta-me que haja quem seja permeável aos maus exemplos, que se reveja nestes, que lhes dê continuidade, que sirva de inspiração para mais uns quantos. Isto num mundo com demasiada gente.
Embora acredite na redenção, também acredito que existem casos perdidos, impossíveis de redimir.
Apanho no facebook o vislumbre de um vídeo que não tive coragem de visualizar, desejando já não ter visto aquele preview, de quem retirou prazer e riso em crucificar e apedrejar um cão. Dizia o texto que do focinho do bicho corriam lágrimas.
Um site noticioso fala do fotógrafo português galardoado pela imortalização da triste realidade dos meninos talibés, forçados a mendigar e a entregar aos professores tudo o que recolhem, sendo inclusive vítimas de agressões e violação.
Estes são somente dois grãos de areia do deserto de maldade que existe hoje, agora, neste mundo.
E eu, que vibrava, e ainda vibro, de orgulho por Portugal ter sido a segunda nação europeia a abolir a pena de morte, não me ocorre outra solução para este mundo doente que não seja a purga destes demónios, da forma mais extrema e definitiva.
Porque para estes não acredito que a redenção seja possível. Pelo menos nesta vida. Então que passem logo para a próxima.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Desejo de ano novo #6: A liberdade de deambular
Adoro dormir. De tal forma, que continua a ser das minhas coisas favoritas de todos os tempos e não acredito que haja, num tempo próximo ou longínquo, qualquer indício de mudança.
Um dos principais motivos porque adoro o sono, talvez até o principal, são os sonhos. O mundo no plano de Orfeu parece-me tão real quanto o deste lado: sonho a cores, com som, e juro que até já houve umas quantas vezes que também tive a impressão de sentir cheiros e impressões tácteis. Sonhar é vivenciar uma aventura, em que o argumento costuma bater aos pontos os da grande tela. O meu ponto de vista move-se como a câmara num filme, ora em grandes planos, ora em close-ups, ora do ponto de vista de uma qualquer personagem.
A experiência é tão real e inequivocamente tangível que, por vezes se torna difícil discernir qual o mundo onírico e o real, não fosse no primeiro possível levantar vôo sem esforço algum e fazer pouco de todas as leis da Física que regem o nosso lado da existência.
Não é por falta de amor à vida deste lado, mas o mundo de lá bate este aos pontos. Sobretudo porque nele a liberdade reina suprema e não existe medo nem consequências de maior. Em comparação, este mundo é uma prisão.
Enquanto sonho posso, embora de forma virtual, vivenciar o meu lado intrépido, explorador e aventureiro. Posso ser uma espécie de Indiana Jones ou Lara Croft e embrenhar-me selva adentro, descobrir zonas ainda inexploradas, dar com o caminho para o El Dorado, viajar ao centro da Terra, sondar o fundo dos oceanos a bordo do Nautilus, chegar à Atlântida, viajar no tempo e espaço...
Acordada sou a perfeita antítese de tudo isto. É o meu lado cauteloso e medricas o regente. Certamente também por uma questão de feitio, mas sobretudo pelo lugar que fizemos do mundo.
Adoraria que vivêssemos num mundo onde as fronteiras estivessem abertas e existisse segurança para sermos livres de deambular por aí, ao sabor da vontade, ao ritmo do improviso. Que pudéssemos pôr uma mochila às costas, e sozinhos ou acompanhados, fossemos viver aventuras, conhecer gentes, hábitos e culturas, explorar cenários, encher os olhos com outras vistas, sem os perigos e os danos que infligimos aos nossos semelhantes.
Acho triste, frustrante e mais uma prova que a estupidez é um dos nossos traços dominantes, que enquanto espécie tenhamos sobrevivido a vários períodos de quase-extinção, a eras glaciares, ao apetite de animais selvagens, à doença e sabe-se lá mais o quê, apenas para nos tornarmos a nossa maior ameaça.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Desejo de ano novo #5: Ode ao Ócio ou a necessidade de ressuscitar as noções de Scholé e Licere.
A história da Humanidade está repleta de conquistas, coisas grandes e pequenas, todas elas mais ou menos fundamentais, mais ou menos notadas, que vieram contribuir para a sobrevivência e evolução da nossa espécie.
Se de todos esses milhões de peças que vieram contribuir para o bem estar e desenvolvimento do Homem tivesse que eleger uma lista de dez favoritas, encontraria, sem pestanejar, um lugar de honra para o Ócio.
Há muito para dizer sobre o Ócio, mas começo por afirmar que a sua existência é a derradeira prova da vitória da nossa espécie sobre um manancial de sérias adversidades.
De vez em quando gosto de assistir a um dos muitos programas que existem sobre sobrevivência. Lembro-me de um em particular que me fez pensar como deveria ter sido difícil a vida para os humanos nos primórdios, e do milagre que é a sobrevivência, prosperidade e evolução da nossa espécie. O anfitrião do programa encontrava-se sozinho num qualquer local onde se sabe que existiram tribos há muito tempo atrás. Era um daqueles locais ermos onde a passagem do tempo não implica obrigatoriamente grandes mudanças ao cenário.
Todos os dias ele tinha que fazer uma escolha sobre o que era mais prioritário naquele momento: abrigo, calor, água ou alimento. A maior dificuldade consistia no facto da fonte de água potável se encontrar distante da fonte de alimento, assim como do local mais seguro para a construção de um abrigo, e por fim do local onde se encontrava material combustível para fazer fogo. Qualquer uma das viagens era essencial à sobrevivência, mas difícil tanto pela distância, como pelo dispêndio de energia e a influência do calor, frio e vento castigadores e inclementes.
Portanto, chegar a um estágio da nossa existência em que se vê ser possível dedicar tempo ao Ócio tanto na sua vertente contemplativa como de lazer é o mais claro indício de prosperidade. O momento em que se deixou simplesmente de sobreviver para passar a viver. Para mim, uma das maiores vitórias de todos os tempos.
Sobre o Ócio, diz Schopenhauer:
"O Verdadeiro Ócio
A verdadeira riqueza é apenas a riqueza interior da alma, tudo o resto traz mais problemas do que vantagens (Luciano). Alguém assim rico interiormente de nada precisa do mundo exterior a não ser um presente negativo, a saber, o ócio, para poder cultivar e desenvolver as suas capacidades espirituais e fruir a sua riqueza interior. Portanto, requer propriamente apenas a permissão para ser ele mesmo durante toda a sua vida, a cada dia e a cada hora. Se alguém estiver destinado a imprimir, em toda a raça humana, o traço do seu espírito, haverá para ele apenas uma felicidade e infelicidade, ou seja, a de poder aperfeiçoar as suas disposições e completar as suas obras - ou disso ser impedido. O resto é-lhe insignificante. Sendo assim, vemos os grandes espíritos de todos os tempos atribuírem o valor supremo ao ócio. Pois este vale tanto quanto o homem. A felicidade parece residir no ócio, diz Aristóteles, e Diógenes Laércio relata que Sócrates louva o ócio como a mais bela posse.
Também corresponde a isso o facto de Aristóteles declarar a vida filosófica como a mais feliz. De modo semelhante, diz na Política: "Poder exercer livremente as próprias aptidões, sejam elas quais forem, é a verdadeira felicidade", o que coincide com a sentença de Goethe em Wilhelm Meister Quem nasceu com um talento, para um talento, encontra no mesmo a sua mais bela existência. Todavia, possuir ócio é estranho não só à sorte comum, mas também à natureza comum do homem, pois o seu destino natural é o de empregar o seu tempo com a aquisição do necessário para a sua existência e a da sua família. Ele é um filho da necessidade, não uma inteligência livre. Em conformidade com isso, o ócio logo se torna um fardo para o homem comum, por fim um tormento, se ele não conseguir preenchê-lo com os fins artificiais e fictícios de toda a espécie, mediante o jogo, a distração e passatempos de todo o tipo. Pelos mesmos motivos, o ócio também lhe traz perigo, pois com acerto se diz difícil é a quietude no ócio. Por outro lado, um intelecto que exceda em muito a medida normal também é uma anomalia, portanto, inatural. No entanto, uma vez que existe, o homem que dele dispõe, para poder encontrar a sua felicidade, precisa justamente daquele ócio que, para os outros, ou é inoportuno, ou é pernicioso. Quanto a ele, sem o ócio, será um Pégasus sob o jugo e, portanto, infeliz. Mas se as duas anomalias se encontram, a exterior e a interior, então é um caso de grande felicidade. Pois aquele assim favorecido levará uma vida de tipo superior, a saber, a de quem está eximido das duas fontes opostas do sofrimento humano, a necessidade e o tédio, ou do laborar preocupado pela existência e a incapacidade de suportar o ócio (isto é, a própria existência livre), que são males dos quais o homem escapará apenas quando eles se neutralizarem e se suprimirem reciprocamente."
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Também corresponde a isso o facto de Aristóteles declarar a vida filosófica como a mais feliz. De modo semelhante, diz na Política: "Poder exercer livremente as próprias aptidões, sejam elas quais forem, é a verdadeira felicidade", o que coincide com a sentença de Goethe em Wilhelm Meister Quem nasceu com um talento, para um talento, encontra no mesmo a sua mais bela existência. Todavia, possuir ócio é estranho não só à sorte comum, mas também à natureza comum do homem, pois o seu destino natural é o de empregar o seu tempo com a aquisição do necessário para a sua existência e a da sua família. Ele é um filho da necessidade, não uma inteligência livre. Em conformidade com isso, o ócio logo se torna um fardo para o homem comum, por fim um tormento, se ele não conseguir preenchê-lo com os fins artificiais e fictícios de toda a espécie, mediante o jogo, a distração e passatempos de todo o tipo. Pelos mesmos motivos, o ócio também lhe traz perigo, pois com acerto se diz difícil é a quietude no ócio. Por outro lado, um intelecto que exceda em muito a medida normal também é uma anomalia, portanto, inatural. No entanto, uma vez que existe, o homem que dele dispõe, para poder encontrar a sua felicidade, precisa justamente daquele ócio que, para os outros, ou é inoportuno, ou é pernicioso. Quanto a ele, sem o ócio, será um Pégasus sob o jugo e, portanto, infeliz. Mas se as duas anomalias se encontram, a exterior e a interior, então é um caso de grande felicidade. Pois aquele assim favorecido levará uma vida de tipo superior, a saber, a de quem está eximido das duas fontes opostas do sofrimento humano, a necessidade e o tédio, ou do laborar preocupado pela existência e a incapacidade de suportar o ócio (isto é, a própria existência livre), que são males dos quais o homem escapará apenas quando eles se neutralizarem e se suprimirem reciprocamente."
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
O Ócio divide-se em duas categorias: o Scholé e o Licere. O primeiro remete-nos aos grandes filósofos atenienses como Aristóteles, ao tempo passado na Ágora em contemplação e debate, exercícios que deram frutos ainda tão significativos na edificação das sociedades e do Homem de hoje. Por isso, Scholé, palavra grega para "lugar de ócio" deu origem ao termo escola.
A noção de Licere, do latim, tal como o nome indica remete-nos ao lazer, à folga e descanso.
Foi no liceu, numa aula de História, a primeira vez que ouvi falar dos filósofos da Antiga Grécia e dos seus lugares de ócio, do quanto este conceito era considerado sublime e essencial. Marcou-me. Quis que existissem máquinas de viajar no tempo para regressar a essa época e lugar. Achei que seria vida para mim. Que o passar do tempo não significa forçosamente evolução e ali estava a prova. A nossa sociedade não vive o Ócio, despreza-o, não o entende, confunde-o com preguiça mesmo quando ainda hoje saboreamos os seus frutos, e isso é um claro sinal de estupidificação e regressão.
Este mundo não é para muitos, inclusive para Pensadores. Ou nos curamos ou este mundo não será para ninguém.
Para mim também não é. Sempre me senti uma tartaruga num mundo lebre. Este ritmo não é o meu. O tempo foge e não há forma de o apanhar.
Voltámos a ser, embora com outras roupagens, o homem primitivo que não tem tempo de viver, pois anda no lufa-lufa da sobrevivência. Mas agora que somos animais com consciência, sabê-lo torna-lo mais difícil.
Urge abrandar o passo do mundo, apostar no slow-living, na calma, dar tempo ao tempo. Há que viver o Ócio, e ao contrário do que se passava na Grécia Antiga, democratizar este conceito, não haver apenas uma elite a poder disfrutar deste à custa de trabalho escravo.
Tal é possível: ao contrário do que nos querem fazer crer não há qualquer necessidade de qualquer um de nós trabalhar 40 horas semanais. Muitos dos empregos existentes são absolutamente insignificantes para a sobrevivência da espécie. Também não há falta de recursos. Estes apenas estão mal distribuídos.
Diminua-se a carga laboral para três dias semanais. Dois dias para a folga, em parte vulgarmente usada para o labor doméstico e familiar. E sobram dois dias em que o mundo se dividiria: um dia para viver o Ócio sem qualquer preocupação material, e o outro para servir as necessidades materiais daqueles que estariam a vivenciar o seu dia de Ócio.
E comecemos todos por vivenciar o Licere, exercício precioso de "dolce far niente" para limpar a mente, copo que transborda de tão cheio com tantos afazeres, compromissos, preocupações e mil pensamentos que nos poluem e tolhem a mente. Com o copo vazio poderemos semear a semente da Scholé, e ver que frutos surgirão.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
cromices #111: Panfletos vs pulseiras electrónicas
Se costumam seguir o que por aqui partilho já estão carecas de saber que não consigo ficar indiferente à questão das ruas sujas e de cães à solta.
Decidi tornar-me proactiva em relação a essas mesmas questões, de abraçar essas causas com o intuito de aumentar o nível de consciência sobre a importância de todos seguirem um par de princípios e regras na sua vida quotidiana, como "deitar o lixo no lixo", "apanhar os dejectos caninos" e "andar com o cão à trela" ou "andar com o cão solto só sob supervisão do dono e nem em todas as circunstâncias".
Digamos que me sinto, de certa forma, em campanha eleitoral: já perdi a conta ao número de pessoas a quem mostrei o rolinho de sacos que levo sempre no bolso para apanhar as "prendas" do Kiko, numa demonstração de "não custa nada, está a ver?!". Ou ainda dos desgraçados que já tiveram que gramar com as minhas queixas sobre cães à solta e os meus ataques de pânico. Faço-o não porque goste especialmente de partilhar coisas cá da minha vida, mas porque tenho sempre esperança que tal leve ao entendimento que o abuso de uma liberdade pode e é incómoda para terceiros. Que as consequências existem e não são assim tão invisíveis ou abstractas.
Mas ainda está muito longe de chegar. É preciso fazer muito mais.
Ocorreu-me que talvez não fosse má ideia fazer um blogue dedicado a este tema, explicando tim-tim por tim-tim tanto os malefícios e as consequências da ausência de civismo, como o que é correcto fazer e porquê, e como a qualidade de vida pode aumentar exponencialmente para todos com ruas limpas e seguras.
Mas só um blogue não chega, ocorreu-me. Simultaneamente deveria fazer vários panfletos e espalhá-los por vários locais, ruas, lojas e caixas de correio.
Depois há dias, em que penso, que faça o que fizer nada será o suficiente para alcançar o tal objectivo de ruas limpas e seguras. Em que a existir uma verdadeira solução, eficaz, esta haveria de ser algo distópica, como andarmos todos com uma pulseira electrónica que nos desse um choque, tipo taser, de cada vez que se cospe no chão, quando deita lixo por aí, não se pára numa passadeira ou não se apanha os cócós dos patudos.
Acho que só assim.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Dúvidas que me atormentam #3
Um dos meus rituais matinais é dar uma voltinha pelos blogues da vizinhança. Dei com a opinião do caríssimo Gajo sobre as "nossas" tradições carnavalescas, e não pude deixar de sorrir por encontrar alguém com uma opinião semelhante.
Pelos vistos, o que conhecemos hoje como Carnaval teve origem na Grécia Antiga através de um festival onde se agradecia aos deuses pela abundância e fertilidade.
Quase mil anos depois este costume foi adoptado pela Igreja Católica e inserido no calendário cristão para que acontecesse antes da Quaresma, que é de certa forma uma antítese do Carnaval, visto ser um período de jejum e abstinência, enquanto este é dedicado aos prazeres da carne, uma despedida desta através da via do excesso.
Dizem que foi o Carnaval de Paris que inspirou todas as outras festas carnavalescas, incluindo a brasileira, que acabou por suplantar todas as outras e tornar-se a referência mundial desta celebração.
No entanto, o Carnaval de Paris havia morrido, e só recomeçou a ser celebrado há 13 anos.
Segundo o Guiness não há maior Carnaval no mundo que o brasileiro. Talvez seja esse o factor que leve outros países a importar este modelo, no quais se incluí Portugal.
A dúvida que me atormenta volta a remeter-me ao post do Gajo: se por cá, (sabe-se lá porquê, quando, como e quem), se decidiu adoptar o carnaval brasileiro, porque é que não se soube adaptar este à nossa realidade?
Diz um dos muitos apps de prognósticos meteorológicos que, por exemplo, na terça-feira dia 16, estarão 12º em Lisboa e 25º no Rio de Janeiro, sendo que por aqui é Inverno e no hemisfério sul é Verão.
No Rio até deve saber bem andar com pouca roupa especialmente com tanto exercício que o samba implica, por cá há que tirar o chapéu às sambistas que dão tudo por tudo, que não seria eu a sair à rua naqueles preparos com este frio, e que inevitavelmente passam o desfile a tiritar.
Pois em Veneza é que são espertos!
Diz que terça-feira estarão por lá 11º, num cenário climatérico semelhante ao nosso, e por lá não há maluquinhos de bikini e fio dental. Lá saem totalmente cobertos e agasalhados, e mesmo assim, vai-se lá ver, conseguiram criar um Carnaval que é considerado único e um dos mais belos do mundo.
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