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sábado, 30 de agosto de 2014

Coisas de pensar: De como as estatísticas sobre a diminuição do desemprego em Portugal são falaciosas.





O nosso ritual de pequeno-almoço enquanto casal inclui debater as notícias do dia.


Hoje, grande parte da nossa atenção incidiu sobre as parangonas que anunciam a descida da taxa de desemprego para 14%, registando-se em comparação homóloga, (ou seja, quando se compara com mesmo período do ano passado), uma quebra de 2,3%.
Estatística que nos coloca em quinto lugar, no pódio dos países da União Europeia, dos bem sucedidos e comportados no combate efectivo ao desemprego.


(podem ler mais aqui )


Se fosse isto fosse verdade seria óptimo. Mas não é, por dois motivos:


Em 1º lugar, nem todos os desempregados estão inscritos no IEFP.

Em 2º, o próprio IEFP é o responsável por estas ondulações nas estatísticas sobre desemprego, que em boa verdade não reflectem uma real diminuição do número de desempregados, mas sim uma incorrecta e falaciosa forma de manipular os dados.


De certa forma, a manipulação de dados parece ser prática comum na função pública. Alegadamente existem até centros de saúde que usam dados de antigos utentes, até dos que já faleceram, para embelezarem os resultados.
Nada de novo, um cidadão morto sempre foi de grande utilidade, até para participar "activamente" em eleições várias.
Esperem! Falta a palavrinha mágica quando se fala destas coisas: alegadamente. Pronto, já está!
Adiante.


Para quem não saiba, um cidadão inscrito no IEFP é forçado a participar em acções de formação. Se se recusar corre o risco de perder o direito ao subsídio de desemprego.


Os utentes quando estão inscritos num qualquer curso ou acção de formação deixam de estar inscritos no IEFP, deixando temporariamente de existir enquanto desempregados. Então os números que nos são apresentados não são per se de pessoas bem sucedidas no seu objectivo de retomar uma carreira profissional, mas de indivíduos que continuam desempregados, mas a receber formação.


Esta realidade não é segredo. Aliás, só a desconhece quem nunca esteve desempregado, ou quem nunca teve um conhecido, amigo ou familiar nessa situação. Coisa tão rara hoje em dia, diga-se de passagem.
E era que comentávamos hoje ao pequeno-almoço.


Então chego a casa, ligo o pc, e dou de caras exactamente com um artigo em que uma corajosa formadora denuncia esta exacta situação:


"Carla, nome fictício, é uma das formadoras, disse à Renascença que os dados são manipulados. “Quem está a frequentar acções de formação não é contabilizado como desempregado. Portanto, isso vicia toda a lógica de contabilização do desemprego em Portugal”, esclarece."



Podem ler o artigo na totalidade aqui.




Para concluir avanço com o seguinte:

Sempre defendi a importância da formação ao longo da vida.
Acho muito bem que, especialmente a quem se encontra em situação de desemprego, seja dada a oportunidade de se munir de melhores ferramentas que lhe possibilitem o regresso ao mundo laboral. Acho que a formação pode preencher lacunas de conhecimento e tornar o utente do IEFP um melhor profissional.


Contudo, e com todo o respeito possível, as formações do IEFP são para encher chouriços.
Deveriam existir para servir a pessoa desempregada, por tudo o disse no parágrafo anterior, e não o faz. São, na grande maioria dos casos, uma imensa perda de tempo e de recursos.


Sei de casos bastante reais e verídicos de pessoas a quem uma formação específica, por exemplo, em Inglês ou Informática, faria a diferença do mundo para conquistar um novo emprego na sua área, naquela que conhecem, que dominam e têm experiência. E que, como tantas outras, foram empurradas, obrigadas a escolher entre as únicas opções de Geriatria, Agricultura ou Talhante, sem qualquer interesse pelo que são, o que fazem ou fizeram, o que lhes é útil e o que querem.


A questão mais importante que devemos levantar é, quem lucra com esta situação?


Não serão propriamente as pessoas que dão formação, se estas auferem mil euros brutos e a recibos verdes.


Então, a que nomes sonantes pertencem as empresas de formação, contratadas pelo Estado para prestarem este serviço no IEFP, e a quem lhes chega o dinheirinho que vem de Bruxelas? Esse é o cerne da questão!











quarta-feira, 2 de julho de 2014

Desemprego: IEFP, solução ou parte do problema?





Se a memória não me falha, foi entre o bacharelato e a licenciatura, a primeira vez que me dirigi a um Centro de Emprego. Na minha ingenuidade, pareceu-me que se os organismos existem, e pressupondo que funcionam, que seria uma forma tão válida quanto outra para procurar emprego na minha área de formação.


Dias depois da minha inscrição, recebo uma convocatória pelo correio. Uma missiva de discurso grave, exigindo a minha presença no dia e à hora tal, sem atrasos or else.


Foi assim que fiquei a perceber o porquê de meio mundo fazer fila à porta daquele edifício muito antes deste abrir as portas. Qual Cândido de Voltaire, o meu optimismo irradiava no meio daquele mar de gente estremunhada.
Pois se me tinham contactado, com tanta rapidez e gravidade, é porque tinham algo para mim, e isso era bom, muito bom! - Ah, ingenuidade!


As portas abrem-se finalmente, mostro a minha documentação e convocatória a quem de direito e sou encaminhada, com mais algumas pessoas, para uma sala de reuniões num piso superior.


Ninguém faz ideia do que esperar.
A técnica que nos acompanha, (meia dúzia de gatos pingados), para o interior da tal sala, começa a debitar questões:
- quem não tem a escolaridade obrigatória ponha o braço no ar; quem está interessado em frequentar um qualquer curso que lhe dê a equivalência à escolaridade obrigatória ponha o braço no ar; e que tal uma formaçãozita para ensinar a redigir um currículo?


E eu paciente, sem tugir nem mugir, à espera da minha vez, observadora da forma como a técnica despachava todos os outros, com um à-vontade magistral em fazer mais do que orientar, pois tomava as decisões por eles, encaixava-os onde lhes era mais conveniente.
- " E você, não está interessada em nada do que acabei de apresentar?"


Tinha ficado claro que toda a informação que se cede aquando a inscrição não serve na prática para nada. Tivesse lido o meu processo, até na diagonal, e saberia que não.


Reapresentei-me.
Foi a emenda pior que o soneto: após segundos de reflexão, saca de um dos montinhos de papéis que havia trazido consigo, e tenta impigir-me à força toda o pacote de "criação da própria empresa". E eu a explicar-lhe que seria, no meu caso e naquela altura, um colossal erro da minha parte enveredar por algo assim.
O mesmo que falar para uma parede! Porque se Deus e todas as soluções do mundo estavam naqueles montes de papéis, de soluções pré-formatadas a que as pessoas se moldam para que estas sirvam sempre mesmo que não solucionem nada, então como recusar?


Acabei por trazer a legislação só para me ver livre dela. É que a senhora já derrapava na maionese, a meter os carros em frente dos bois, a falar-me dos benefícios em empregar pessoas, especialmente se estas fossem portadoras de deficiência. Fosse impressa em papel higiénico e teria tido mais utilidade.


De seguida fui enviada à presença de um senhor cuja função é encontrar a nomenclatura e o código da profissão do candidato, pelo menos foi essa a sensação que tive. Basicamente é alguém sentado num micro escritório tipo bengaleiro, rodeado por todos os lados de imensos volumes que faziam lembrar as páginas amarelas.
- "Área profissional?" - "Publicidade"
- "Propaganda?", retorque sisudo. - "Não. Publicidade."
- "Tem a certeza?" - "Por acaso até tenho, o curso que frequento até é de marketing e publicidade."
- "Função?" - "Copywriter"
- "Ah! Desculpe lá mas isso não existe! Não encontro nada disso aqui."- vocifera enquanto folheia freneticamente os tais livros - " Isso não existe! Você está enganada. Chegam aqui e nem sabem o nome da profissão!"




Mais tarde, tive a minha última experiência com o IEFP, desta vez enquanto estagiária. A ideia de seguir o pacote estabelecido pelo organismo tinha sido do meu empregador, e na minha ingenuidade, pareceu-me bem que houvesse entre nós uma espécie de mediador. Que tal poderia assegurar que ambos cumpríssemos as nossas obrigações, segundo uma conduta já estabelecida. Ah, ingenuidade, raios te partam!

Por vários motivos, sendo o IEFP um deles, foi das piores experiências da minha vida. Transtornante até mais não. Daquelas coisas em que a pessoa deseja de todo o coração, voltar atrás no tempo e partir uma perninha no momento em que toma aquela ínfame decisão de vida.


Decidi cortar permanentemente a minha ligação a este organismo. Da minha experiência concluí que, sobretudo por incapacidade humana, esta é uma ferramenta que ao invés de ser utilizada para resolver um problema, adensa-o.


Anos depois, quando o universo de pessoas que conheço, muito ou pouco, e que estão ligadas ao IEFP pelos motivos mais infelizes é maior do que alguma vez poderia imaginar ou desejar, e ouço os seus relatos a minha conclusão mantém-se. Um dia falo um pouco mais disto.