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terça-feira, 5 de novembro de 2019

coisas da casa: Sabiam que os telhados deveriam ser brancos?



Regressamos a um dos temas que mais me apaixonam: o da construção sustentável. Hoje, especificamente, telhados brancos.

Existe uma organização denominada "White Roof Project" - "projecto dos telhados brancos" - que começou em 2010 com a missão de divulgar o que um grupo de investigadores dos laboratórios de Berkeley haviam concluído sobre as "ilhas de calor" urbanas.
Cientistas em redor do globo têm-se dedicado à questão do aquecimento global e procuram toda e qualquer forma de o combater. Como em tudo, as melhores soluções são sempre as mais simples de implementar pelo maior número de pessoas.
Não caiam no erro de subestimar a simplicidade de um telhado branco, que o conceito e os resultados são geniais!

Em primeiro lugar, e de uma forma muito resumida, (existem os links e alguns vídeos abaixo que recomendo para uma abordagem mais profunda), o fenómeno conhecido como "ilhas de calor" formam-se nas cidades porque a maior parte da área não é preenchida por espaços verdes, mas sim por estruturas em materiais que pelas suas características, (uma delas o facto de serem escuros, como os telhados, as estradas de asfalto, etc), retém o calor.

Dizem os cientistas deste projecto que, se todos os telhados de Nova Iorque fossem pintados de branco, a temperatura da cidade desceria 1ºC. E nem estamos a referir as outras consequências positivas que advém desta simples medida.

Imaginem um dia em que a temperatura do ar está a 32º C.  Um telhado escuro atingirá temperaturas de 82ºC enquanto um telhado branco não ultrapassará os 37,7ºC, apenas pelas qualidades reflectoras da cor. (Todos sabemos a diferença que faz vestirmos uma t-shirt preta ou branca num dia de Verão!).
Dentro da casa com telhado escuro far-se-ão sentir 46ºC, enquanto na casa de telhado branco estarão uns muito mais simpáticos 26,6ºC.  Isto porque o telhado escuro só teve a capacidade de reflectir 20% da luz solar, para além de absorver o smog, enquanto o telhado branco reflectiu 85% da luz solar e não absorveu tanta poluição atmosférica.

Obviamente que ninguém aguenta estar numa casa com 46ºC, então liga-se o ar condicionado e esse aumento de consumo energético não só é negativo para a carteira e para o ambiente, como há locais em que os apagões se tornam mais frequentes. Em Nova Iorque já houve apagões de 9 dias.

O grande objectivo deste projecto é que em 2030 os telhados das cidades mundiais sejam brancos.
Em 2010 as emissões de CO2, a nível global, foram de 24 mil milhões de toneladas métricas. Se o objectivo for cumprido - o de ver telhados brancos por todo o lado - estes 24 mil milhões serão a quantidade de CO2 que deixará de ser emitido, o que é algo como "desligar" o mundo por um ano!

Para as mentes iluminadas que julgam que os telhados de cor escura ajudam a casa a manter-se mais quente durante o Inverno, saibam que o ar quente sobe sempre, não trazendo qualquer benefício. Pelo contrário, as elevadas temperaturas a que os telhados escuros estão sempre sujeitos só diminui a vida útil destes, devido ao stress térmico a que sujeitamos os materiais.

Em conclusão, um telhado branco só traz vantagens sejam económicas, porque aumentamos a vida útil do telhado, e poupamos na electricidade; sejam ambientais porque contribuímos para a diminuição das emissões de CO2 para a atmosfera, ajudamos a diminuir a temperatura nas cidades e a poupar nos recursos naturais que são utilizados na produção de energia para as nossas casas.

Sem mais demora, alguns vídeos:












sexta-feira, 13 de outubro de 2017

coisas da casa: Introdução aos telhados vivos


Estou apaixonada pelo conceito de telhados vivos.
Parece-me bem introduzir este tema por aqui através das palavras de Maria Amélia Martins-Loução, professora catedrática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do seu artigo de opinião publicado no Público a 23 de Janeiro de 2013.

Aqui se segue:

"Na Avenida do Padre Cruz, em direcção ao Campo Grande, em Lisboa, sobressai um prédio coberto de verde, como se tivesse um jardim suspenso.
A imagem é tão diferente que nos obriga a chegar perto para perceber se é cobertura viva ou pintura. Qual terá sido a ideia dos arquitectos para cobrir integralmente um prédio com vegetação? Como conseguirão manter tal estrutura? Terá sido pelo aspecto paisagístico? Será sustentável?
O elevado investimento necessário para a implementação de coberturas ajardinadas é um dos principais argumentos contra esta solução paisagista. Pelo contrário, os benefícios ambientais e estruturais são sempre esquecidos e nunca contabilizados. Do ponto de vista global para o ecossistema urbano, a presença de telhados verdes aumenta o sequestro de carbono, facilita a circulação atmosférica e, consequentemente, dispersa o calor acumulado das cidades.
Absorve a poluição atmosférica, filtrando o ar e permitindo reduzir as doenças alérgicas respiratórias. Aumenta a retenção da água das chuvas, impedindo as escorrências fortes e os riscos de inundação. Contribui ainda para a diversificação de nichos ecológicos, devolve a natureza à cidade, aumentando a diversidade vegetal e animal.

Para os edifícios, tem papel relevante, porque permite um isolamento acústico, reduz as oscilações de temperatura, prolongando a vida útil da estrutura e, consequentemente, os gastos de manutenção. Este tipo de coberturas faz com que os edifícios fiquem menos sujeitos às agressões atmosféricas, criem um sistema de impermeabilização e, como atenuam os extremos de temperatura, permitem a redução significativa do consumo energético.

O edifício junto à Avenida do Padre Cruz, em Lisboa, sede da empresa MSF (Moniz da Maia, Serra e Fortunato, Empreiteiros, SA), é uma estrutura modelar e modular. Isto é, serve de modelo para evidenciar que é possível, em plena cidade de Lisboa, construir-se um edifício cujas paredes e telhado estão cobertos de vegetação. É modular porque se trata de peças de puzzle que se ajustam e se podem substituir de acordo com a necessidade de renovação.

A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) pretende desenvolver um estudo-piloto experimental, instalando uma cobertura extensiva de 150 metros quadrados. Este primeiro projecto pretende ser emblemático. Por um lado, mostra que a FCUL está disposta a contribuir para a maior sustentabilidade. Por outro, possibilita o desenvolvimento de projectos de investigação em parceria com a empresa NeoTurf. Desenvolver e testar novos substratos, experimentar novas plantas e monitorizar a relação entre substrato e eficiência térmica no interior dos edifícios são alguns dos desafios propostos.

O tipo e a espessura dos substratos usados são fundamentais. Isto porque a limitação funcional de adaptação de um edifício à implantação de um telhado vivo é a sustentação. Usam-se, preferencialmente, materiais leves e reciclados. Novos substratos podem ser “redescobertos” na natureza, como as crostas onde, por exemplo, líquenes e briófitos podem crescer. O desafio é conseguir oferecer um tipo de vegetação que necessite entre três a cinco centímetros, o que constitui um ganho de investimento para o mesmo benefício ambiental.

As espécies vegetais mais usadas estão dependentes de rega para criar uma cobertura verde permanente. Exigem elevada manutenção e investimento. Mas podem ser substituídas por plantas mediterrânicas, que oferecem elevada economia de água, contribuindo para a maior diversidade de espécies e de habitats. Há toda a necessidade de educar, de explicar às pessoas que, no Verão, como nos campos, não é a cor verde que impera, mas antes um mosaico de verdes e de castanhos. É uma perspectiva sustentável de ecologia urbana.

Portugal carece de normas legais para este tipo de coberturas e não possui uma política ambiental urbana que incentive promotores e diversifique o mercado. Este é um trabalho que requer uma equipa multidisciplinar, como a que se pretende desenvolver e que pode culminar na criação de um documento normativo de referência.
Portugal necessita de diversificar o mercado e inovar a oferta sem reproduzir o que se faz lá fora. A capacidade de produzir ciência, tecnologia e inovação é um elemento central da universidade. A sua ligação a empresas e a transmissão de conhecimentos adquiridos em prol da sociedade são os novos paradigmas assumidos, com vista a aumentar o nível de conhecimento dos profissionais da área."


imagem do telhado vivo da ETAR de Alcântara