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quinta-feira, 12 de maio de 2016

cromices #129: Era metê-los a todos a caminho de Fátima, ou ode aos closets.



Acabei de limpar e reorganizar o armário do meu homem.

Por cada casa construída nos últimos vinte anos sem closet, deveria haver um arquitecto e um construtor que fossem, em penitência, a Fátima. De joelhos.

Odeio a mania do género masculino de confundir as necessidades das mulheres com caprichos.
Tenho para mim que um closet é quase uma coisa de primeira necessidade. Poupa trabalho e sobretudo, poupa na paciência. Deixa de haver roupa, sapatos, trapos e trapinhos espalhados por locais que não lembra ao demo. É um sistema de arrumação quase inexpugnável. Quando bem pensado e organizado dificilmente cede ao humano mais desarrumado.

Um closet dá-nos anos de vida. Aqueles que se perde de cada vez que se ouve "onde está aquilo ou aqueloutro". Uma pessoa sabendo que há-de estar ali, no seu sítio. Pode é não estar exactamente à frente do nariz. Pois num closet está tudo "in your face". Não há que enganar.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

coisas de pensar: Os benefícios salariais de uma dona de casa.



Tornar-me dona de casa foi, acima de tudo, uma espécie de viagem espiritual.

Eu explico:

Um dos principais motivos que me levou a enveredar por determinado curso superior foi a perspectiva de um bom salário. A arrogância, a imaturidade e sobretudo a santa ingenuidade dos meus 19 anos fizeram, que ainda caloira, já tivesse uma ideia fixa de como seria a minha vida, quase até ao final dos meus dias.

Iria trabalhar muito, imenso, que nem uma desalmada. Cumprir prazos extraordinariamente curtos. Fazer quantas directas fossem necessárias. Teria café a correr-me nas veias. Seria um burro de carga, um cavalo de batalha. Iria correr mundo em trabalho, do Japão aos Estados Unidos, e a dezenas de outros destinos. Voltaria mais ou menos fluente em não sei quantas línguas, com disciplina de samurai, samba no pé e um chapéu de cowboy.
Construiria uma reputação imaculada, daquelas que fazem com que os melhores empregadores enviem headhunters para nos acossar com mais e melhores propostas.
Seria apaixonada pelo meu trabalho, mesmo que me tivesse que forçar a tal, que tivesse que me contentar com orgasmos laborais fingidos - se serviu a Fernando Pessoa, seria mais que suficiente para mim, era o mantra de ordem.
Ter a noção que talvez não sobrasse nem tempo nem energia para nada mais que não trabalho. Alegrar-me com o facto de se trabalhar em dupla. Com sorte, uma das melhores amigas seria a outra metade do binómio, ou alguém capaz de o ser, e a energia emocional positiva da relação bastar-nos-ia, pelo menos por uns tempos.
Sempre com a esperança que todo o esforço seria compensado, como numa das leis de Newton. Para começar, um leão de Cannes seria capaz de tocar, certeiro, no "ponto g" profissional.
Em troca queria também e, não esperava nada menos que reconhecimento e uma pipa de massa.

Ênfase na pipa de massa. Sempre me horrorizaram os salários de três dígitos. Acho desumano e uma imensa falta de respeito que uma pessoa, uma qualquer pessoa em qualquer área, viva para trabalhar por um salário que somente dá para sobreviver, e quantas vezes à justa. Que o grosso da colheita que todos semearam vá toda para um "fat cat".

Queria prosperar o suficiente para não só ter construído uma vida com um alicerce confortável para mim mesma, como para poder mimar os meus pais. Imaginava-me a oferecer-lhes férias em cruzeiros de luxo, por exemplo. Acima de tudo, a cumprir com distinção a visão que tenho do papel de filha, garantindo-lhes uma velhice com assistência e cuidados de primeira categoria, do melhor que o dinheiro pode comprar. Porque eles merecem. Os nossos merecem sempre o melhor.

Haver acumulado o suficiente para bater nos entas e sair disparada de cena, feita Cinderela. Reinvidicar tempo para a auto-descoberta, para o ócio e toda uma bucket list.
Seguiria o exemplo de muitos dos meus professores, e também eu daria uma meia dúzia de aulas por semana num par de universidades, um ou outro seminário, três ou quatro workshops e colóquios. Pontualmente, uma ou outra participação como consultora - paga pelas empresas, em regime pro bono para as causas do coração.

Aos 19 anos, por arrogância, imaturidade e sobretudo ingenuidade, queremos tudo. O mundo e mais além. O mundo é uma maçã e parece estar ali à mão, pronta para colher. É natural e salutar. Que mal estaria o Mundo e a Humanidade se os jovens não tivessem uma energia desmedida, revelada também nos seus sonhos e vontades. Mesmo que essas visões nos pareçam, a nós adultos, estapafúrdias e nos façam revirar os olhos como se fosse código para "Pois sim! Deve ser deve!".

E eu que dava ênfase à pipa de massa e ao reconhecimento, lidei com a minha dose de "fat cats", auferi descontentes salários de três dígitos, até que me o meu corpo e a minha psique se rebelaram e se recusaram a mais do mesmo. Então, fui de certa forma Cinderela, salva das empresas madrastas, para reinar em castelo próprio. Metade de um binómio.

"Estranha-se, depois entranha-se."
Há uma primeira fase em que se estranha. Que se sente a falta de algumas rotinas laborais, do cheque ao final do mês, como se se tratasse de um membro amputado. Afinal, somos programados desde o início das nossas vidas para acreditar que não há vida que não seja dedicada ao trabalho, que somos o que fazemos, que valemos o que ganhamos.
Talvez por isso sejamos algo misóginos, injustos e usemos até de um tom paternalista quando nos referimos a donas de casa, corriqueiramente conhecidas como domésticas, como as aves de capoeira, que erradamente, por serem das mais humildes das aves, são consideradas estúpidas.

Ser dona de casa é uma carreira como qualquer outra, com rotinas, prazos, tarefas. Também há dias menos bons, "segundas-feiras", como em qualquer escritório. E dias verdadeiramente bons, acompanhados da sensação de cumprimento, de superação, de sucesso.
De todas as milhentas hipóteses de carreira em que me tentei imaginar, aquando miúda, creio que de todas, esta pode bem ser a que possibilita vivenciar-se algo mais próximo ao verdadeiro conceito de liberdade. É uma excelente sensação de poder pessoal decidir o que fazer, como e quando.

Parte do meu salário recebo-o em raios de sol nas esplanadas, horas de sono, uma vida livre de despertadores, trânsito e greves dos transportes públicos, de tempo, que longe de chegar para tudo - por incrível que possa parecer! - dá para muito, inclusive para ser e aprender mais.



segunda-feira, 30 de março de 2015

coisas da casa: Entregas ao domicílio - pormenores que fazem diferença



Acabaram de entregar o colchão novo.
Correu razoavelmente bem. Tivesse que pontuar daria 4 pontos em 5. Ou 3,75 se me apetecer ser picuínhas.

A partir do momento em que tocaram à campainha foi coisa para se fazer em menos de nada. A ligeireza com que acartaram o colchão pelos lances de escadas foi fenomenal. Mereceram sem dúvida a boa gorjeta que lhes dei.

Só não lhes dou nota máxima por dois motivos:

O primeiro refere-se ao facto dos senhores que nos tratam da entrega da nespresso e da tiendanimal me terem habituado ao facto de, não só avisarem por telemóvel o dia e o período deste em que ocorrerá a entrega, como me contactam algum tempo antes da mesma para confirmarem com exactidão o momento em que esperam chegar à minha morada.

Neste caso, recebemos uma única mensagem alertando que o período de entrega seria entre as 8h e as 14h. É um sistema insuficiente e antiquado, que espero que caia em desuso com todos os prestadores deste tipo de serviços. Porque senhores, se soubessem o jeitão que dá aquele telefonema ou mensagem "Está por casa? Daqui a 20 minutos estamos aí!"

O último motivo também tem a ver com falta de comunicação, mas desta vez entre quem faz as entregas e quem trata das papeladas.

É que tivemos que pagar 15 euros pela entrega e outros 15 pela recolha do colchão antigo. A sorte foi essa informação estar presente na factura que tinha em minha posse.

Recebi o colchão novo, assinei a guia de entrega e, como de costume, lancei a piadinha seca, que sou daquelas pessoas irritantes que o faz:
- Ora então muito obrigada por tudo, especialmente por levarem o trambolho daqui para fora!

Um dos senhores ficou a olhar para mim com cara de caso, e eu a apontar para o colchão velho que havíamos já deixado encostado a uma das paredes do corredor desde manhãzinha:

- Mas é para recolher?! É que não tenho aqui nada!

- Mas eu paguei pela entrega e pela recolha! Pode confirmar aqui pela factura!

O senhor comparava papéis, e repetiu um par de vezes que o papel dele não trazia tal informação, não com o tom de quem se tentava esquivar, pelo contrário, mas só numa de constatar o obvio.

Rematei:

- Pois, isso é para o senhor dar na cabeça lá de quem faz a papelada. Eu cá não tenho nada a ver com isso.





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

cromices #59: A emoção dos descontos


Já por meia dúzia de vezes apanhei na televisão o Extreme Couponing, aquele programa em que vemos donas de casa a sairem dos supermercados com vários carrinhos completamente atestados de produtos quase à borla.

Sendo coisa que se passa lá para as Americas seria impossível que a coisa não se pautasse pelo exagero, e até uns certos laivos de absurdo. Pelo menos assim parece aos meus olhos europeus.
Na minha cabeça uma pessoa "normal" não precisa de uma centena de frascos de molho para salada ou refrigerantes, e isso de andar a catar o contentor do lixo à caça de cupões, como se vê em alguns episódios do programa, não me convence.

Tal como por cá, quando existem eventos promocionais que atraem muita gente e dão origem a um caos infernal, que teve naquilo do Pingo Doce o maior expoente nacional, eu sei bem onde vou: para bem longe. Como já assisto ao UFC pela televisão não sinto propriamente a necessidade de ver velhotas, num combate até à quase-morte, armadas com frangos congelados e cuvetes de bifes.

Por outro lado quem não entende o apelo da poupança. Certo?!

Também gosto de poupar. Quem não gosta?
Então ouvi dizer que no supermercado cá do burgo havia coisas com 50% de desconto. Desconto directo, que é dos melhores que existem.

Saquei do tablet e analisei o panfleto da promoção.
Recuso-me a comprar coisas que não preciso nem uso só porque estão baratas.
Entretanto a coisa começou-me a agradar, estavam presentes alguns produtos que já costumo comprar: o mesmo detergente para a louça, gel de banho, papel higiénico, amaciador e afins.

Decidi aproveitar. Já que tinha que ir lá mesmo buscar frutas, legumes e outros essenciais.

Com alguns trocos que tinha no cartão cliente o desconto total ficou em quase 30 euros.
E de repente vi a luz!
Há uma certa descarga de adrenalina contida no acto de não pagar a totalidade do preço.
E de repente, vi-me em versão americana, a liderar um comboio de carrinhos de compras cheios de paletes, não de molho para saladas ou coca-cola, (vade retro!), mas pronto, vá lá, águinha das pedras e mostarda.




terça-feira, 7 de outubro de 2014

Coisas de uma virginiana: Tripla acção





Não sou a melhor dona de casa do mundo, nem alimento pretensões de algum dia o ser.


Defendo que uma casa deve estar limpa e arrumada, mas sem fanatismos. Alguma bagunça é saudável, sinal que não se trata de um museu mas de uma casa, onde até vive gente, e com coisas bem mais interessantes para fazer do que andar a limpar e a arrumar a todo o momento. Como em tudo na vida, é uma questão de encontrar o equilíbrio.


A lida doméstica é uma rotina incessável composta por mil e um labores. Exige esforço, dedicação, saber, e chegar ao fim da lista de tarefas significa recomeçar tudo de novo.
A cereja no topo do bolo é o facto de um trabalho bem feito passar ao lado facilmente, enquanto a falta de dedicação é prontamente notada.




Contudo, a virgiana em mim entusiasma-se quando descobre um novo produto de limpeza.


Ontem dei com um que prometia uma tripla acção: bactericida, fungicida e virucida. Sem cloro nem lixívia, e pode ser usado em tudo desde cozinhas, sanitários, electrodomésticos, colchões, sofás e por aí fora.


No momento em que lia o rótulo do frasquinho milagroso, onde se promete erradicar com eficácia todos os micróbios, e matar sem piedade o herpes, vírus Influenza H1N1, Salmonella, Listeria entre outros, senti o meu lado virginiano a vir ao de cima com todo o ímpeto. Ah, se me vissem a sorrir naquele corredor de produtos de limpeza!

Entre ontem e hoje já se foi metade da embalagem.


Foram bancadas e armários de cozinha. Também não resisti a utilizar no chão. Foi em todo o wc. Em todas as torneiras e em vários acessórios como a tábua de cozinha. Funciona que é uma beleza nas juntas dos azulejos.


De seguida irão as maçanetas, os teclados dos pc's, os caixotes de lixo, os telefones e tudo o que me lembrar! Vai ficar tudo desinfectado e com cheirinho a eucalipto.


Confesso que estou em modo desvairado. Às vezes acontece. É que tenho um fraquinho por bactericidas. Sendo este "tripla acção", o entusiasmo foi tanto que a Mrs Hyde virginiana tomou conta da situação.
Por mim, instaurava já o uso disto em todo o lado, desde cafés e restaurantes, a escolas, locais de trabalho, wc's e transportes públicos!












terça-feira, 30 de setembro de 2014

cromices #47: diz-me que cicatrizes tens, dir-te-ei quem és.









As cicatrizes são medalhas, muitas vezes resquícios de histórias fenomenais do tipo aventureiro como "nadei com um tubarão de 5 metros e trouxe isto como recordação".


Como dona de casa aventureira que sou também tenho as minhas cicatrizes e as minhas histórias.


Numa canela, a marca que teima em não se desvanecer de quando fui atacada pela minha própria cama. A bicha estava em fúria e investiu com toda a força com uma das esquinas contra a minha perna. Entre urros de dor, consegui domá-la. Portanto acabou bem.


No peito do pé, envergo a marca de um ataque kamikaze de uma lata de insecticida que se atirou de uma prateleira a mais de 2 metros de altura. Contra todas as probabilidades, sobrevivi.


Num dedo carrego a lembrança de um duelo mortal com uma lata de atum samurai. Honrando a ética dos guerreiros da Papua Nova Guiné, após a minha vitória, comi-a.




Isto é uma selva senhores! Uma selva!












domingo, 21 de setembro de 2014

cromices #42: Dolce far niente





Tirei o dia para me dedicar à bela arte do não fazer nenhum.


E como está a correr? - perguntam vocês.




Bem, já fiz a cama, lavei a louça de ontem, arrumei a sala, aspirei a casa e lavei o chão da cozinha, fiz uma máquina de roupa, e dobrei outra tanta. Daqui a nada vou tratar do almoço.