segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Vida de cão #10: A primeira consulta de urgência, ou se preferirem, um dia ainda nos vamos rir disto



Ontem decidimos aproveitar a benevolência do S. Pedro. A meio da manhã agarrámos no Kiko e fomos até à praia.

O cenário estava particularmente animado: praticantes de btt, um par de cavalos, famílias, e muitas mais pessoas que, assim como nós, quiseram passear os seus cães num dos poucos cenários e épocas em que estes podem brincar e correr à vontade.

Percorremos o passadiço de madeira por entre os pinheiros até ao areal. O Kiko delira de felicidade em contacto com a areia. Corre em círculos, dá pinotes, e até tenta perseguir uma borboleta.
Mostra igual dose de entusiasmo perante pessoas e outros cães. Talvez seja por ainda ser cachorro, mas nunca vi cão tão sociável. Quer ir cumprimentar tudo e todos, sempre pronto para distribuir lambidelas e boa disposição.

Em instantes faz uma amiga: uma cadela também com quatro meses. A alegria dos dois em correria à beira mar é contagiante.
Quando chega a altura de os separar, temos que arrastar os cães para direcções opostas da praia. Eles estão focados um no outro e sem vontade nenhuma de parar com as brincadeiras.

Fico tremendamente feliz quando as interacções com outros cães correm bem. Talvez em grande parte por ser uma novata nisto dos cães, e o Kiko ser sempre tão mais pequeno que os animais com quem nos cruzamos, parte de mim teme sempre que o vejam como um brinquedo de roer.

Nunca vi o Kiko ter uma reacção agressiva para com ninguém, animal ou humano. Em compensação é uma bolinha de pura energia, destemido, que avança sem medos com o intuito de brincar.
Mesmo assim, vou dando o meu melhor para ter uma atitude equilibrada, fazendo das tripas coração para misturar cautela com liberdade, porque a socialização com outros animais é fundamental.
Espero que nunca tenha que salvar o Kiko das mandíbulas de outro cão, até porque a única manobra que me ocorre parece-me do mais incorrecto possível, que é atirar-me ao ar e fazer mosh ao bicho.
(Nota mental: esclarecer esta questão com a treinadora. Até porque aprender a lidar com todas as situações e sermos os melhores donos possíveis, foram dos principais motivos que nos levaram às aulas. )

Adiante...

Então lá andávamos nós pelo areal, quando encontrámos um canto que parecia perfeito para nos sentarmos e fazer a fotossíntese enquanto era dada ao Kiko a liberdade para gastar as pilhas.

E, por falar em situações que não correm bem, eis que sucede o seguinte:
No espaço de um minuto, mais coisa menos coisa, (aos meus olhos ocorreu tudo em câmara lenta), o Kiko olha para a linha de água, fixa-se nos cães que estão à beira mar, (um deles sendo a tal nova amiga), e avança em grande velocidade. Impetuoso, e muito mais rápido que o nosso tempo de reacção permite, pula um obstáculo de pequena altura, mas a queda foi mal dada.
Imediatamente pára, levanta uma das patas dianteiras no ar e começa a ganir desalmadamente.
Acto contínuo. Parecemos acionados por uma mola, e em milésimos de segundo estamos a chamar por ele e a correr.
O marido pega-o ao colo e pensamos que no pior dos cenários pode muito bem ser uma pata partida.
Passa-me o cão. Saca do telemóvel para marcar uma consulta de urgência na clínica veterinária, mas naquele buraco não há rede.

Começamos a fazer o trajecto para voltar ao carro. Nesse mesmo instante, um daqueles cães está dentro de água e a latir desesperadamente. Olhamos para a ocorrência, e em menos de nada ele já se encontra na areia junto dos donos. Algo de errado se passa, porque só vemos o homem a despir a t-shirt para embrulhar o animal, e a correr para fora da praia com o bicho nos braços.

Como se a situação já não fosse suficientemente terrível, marido, que tem alguma tendência para quebras de tensão, sente-se mal. Senta-se numa rocha e está pálido como um fantasma.
Tenho o cão ao colo, irrequieto, mas consigo sabe-se lá como tirar a mochila das costas e passar-lhe uma garrafa de água. O Kiko também tem sede, e saco do bebedouro portátil.
Marido diz que precisa de se deitar por um par de minutos antes de avançarmos. Coloca-me a máquina fotográfica ao pescoço, pede-me para segurar no telemóvel e, ali fico eu a pensar que duas mãos não chegam entre mochilas, traquitanas, um cão no colo, e o homem estendido na areia a tentar recuperar o mais depressa possível.
Estou atenta aos dois, e a olhar em redor a pensar em possíveis soluções e como nada me ocorre, penso que ou as coisas melhoram em cinco minutinhos ou não tenho outra solução senão agarrar numa qualquer pessoa e pedir-lhe que me vá buscar açúcar à esplanada, que naquele momento, parecia estar no fim de um trajecto impossível.
(Segunda nota mental: acrescentar pacotes de açúcar ou rebuçados à lista das mil e quinhentas coisas que levo na mochila).

A quebra de tensão passou em pouco tempo. Fizemos o raio da subida até ao carro em tempo recorde, a suar as estopinhas e a arfar.
Como não há duas sem três, o raio do telemóvel deixou-nos ficar mal. Este e o computador de bordo decidiram não querer cooperar, e até chegarmos a casa não foi possível efectuar uma única chamada.
Lá está, o Murphy nunca falha! Damn you!

Finalmente quando conseguimos contactar a Veterinária de serviço, esta está, excepcionalmente, num evento familiar e a alguma distância. Ai Murphy, Murphy!
Explicamos o sucedido. Que o Kiko pousa a pata, portanto não deve ter nada partido, mas pode ter alguma coisa.
Em menos de duas horas encontramo-nos no consultório. A conclusão foi que o cão não tem nada de grave. Foi maior o susto que outra coisa. Que os cães, especialmente em pequenos, são tremendamente queixinhas. Que ao contrário dos gatos, que geralmente quando se queixam já é tarde demais, os cães fazem um imenso alarido. Ainda brincámos os três sobre o mais doloroso ali ser a conta. Antes assim!

O Kiko vai tomar anti-inflamatórios durante mais um par de dias. Que mesmo assim é de evitar tropelias, como grandes passeios e brincadeiras.

Hoje, o S. Pedro continua de bom humor. Mas hoje não há rua para ninguém. Depois do dia de ontem, acho-me no direito de me armar em mãe galinha durante um dia ou dois.