terça-feira, 16 de junho de 2015

Vida de cão #22: A questão da sociabilização, ou entre o 8 e o 80.



No que toca ao Kiko, eu e o marido possuimos valências bem diferentes que, por sorte, se complementam.

Especificamente no que toca à sociabilização continuo sem à-vontade para deixar o Kiko interagir com outros cães, pelo menos quando sou eu a sair com ele.
O que mudou desde os últimos meses é que aceitei, por fim, essa minha falta de descontração e apetência. A partir do momento em que me aceitei como sou saiu-me um fardo das costas!

Quando sou eu a passear o Kiko nunca lhe tiro a trela e normalmente evito a aproximação com outros cães, mesmo no caso em que os conheço e aos donos. Existem algumas excepções, momentos raros, que ocorrem geralmente quando estamos perante um animal e dono que sei serem extremamente equilibrados, ou perante cães tão pequenos quanto o nosso. E mesmo assim nunca deixo que se estiquem muito!

Prefiro atravessar a estrada ou mudar de trajecto se vejo um outro cão a vir em nossa direcção. Se porventura tenho que passar pelo mesmo local solto um cumprimento seguido de um sonoro "segure o seu cão que eu vou passar!".
Aos cães que aparecem sozinhos já ganhei o reflexo de me meter entre eles e o Kiko. Enxoto-os e continuamos caminho.

Acredito que algumas pessoas devam ficar confusas, pelo menos no início, pois por vezes tratam-se de cães que já brincaram com o Kiko, estando este na companhia do meu marido, ou que já levaram festas minhas, estando eu sozinha. A essas explico que brincadeiras com outros cães é departamento do marido, que eu cá fico nervosa com essas coisas, e pouco há mais contraproducente que permitir interacção entre animais nesse estado.
A maioria das pessoas respeita e, gera-se até uma rotina muito engraçada entre quem partilha os mesmos trajectos e horários para passear: cumprimentamo-nos, sorrimos, trocamos um dedo de conversa mas, à distância, pois há sempre um de nós que atravessa para o outro lado quando a aproximação está iminente.
Também há aquelas pessoas que tentam forçar a interacção custe o que custar. Que aos meus "não leve a mal, mas hoje não há brincadeira, pode ser?", insistem e voltam a insistir, não me restando outra alternativa senão engrossar a voz e soltar um ríspido "já disse que não quero e acabou."

O meu ponto forte é deixar o Kiko interagir com pessoas. O que não deixa de ser uma espécie de batota, porque este puto parece ter nascido com o dom de gostar de pessoas de todas as idades e isso dá-me um prazer descomunal. Já que ele gosta de toda a gente e quer cumprimentar toda a pessoa com que se cruza, o meu desafio consiste sobretudo em estar atenta às suas vontades e reacções, para garantir que não nos impomos a quem não esteja disposto a aturar-nos.

Em relação ao meu marido, aprecio que ele seja diferente de mim, embora ainda fique muitas vezes com o coração prestes a saltar boca fora. Sobretudo confio nele. Reconheço que, embora me deixe stressada, tudo o ele faz com o Kiko é um risco controlado e agradeço que não seja totalmente impermeável aos meus pedidos para não me dar cabo dos nervos. Da mesma forma que eu, em boa reciprocidade, tento ser mais descontraída e tolerante, sem no entanto não deixar de lhe lembrar que, se acontecer alguma coisa vai haver sermão e missa cantada pelo menos durante os próximos vinte anos.

Leia-se que eu ser descontraída nestes cenários passa geralmente por me afastar, ignorá-los, recolher-me mentalmente e fingir que estou algures nas Bahamas, o que já requer um esforço do caraças da minha parte. No entanto admito que até existem algumas destas sessões de sociabilização canina em que me mantenho serena e até me divirto imenso. Não sei explicar nem precisar exactamente porquê, se há dias em que acordo virada para um determinado lado, se sinto uma energia diferente por parte dos donos e dos seus animais. Não sei mesmo.

Só sei que entre as nossas diferenças encontramos toda uma zona intermédia, um patamar comum em que o Kiko vive, brinca, sociabiliza, aprende e cresce num ambiente que lhe acreditamos ser favorável.