quarta-feira, 15 de julho de 2015

sabedoria dos intas em 10 segundos #37



Ontem, quando fui a um dos estabelecimentos de comércio local aqui do burgo, mãe e filha eram as únicas clientes para além de mim. O casal de comerciantes comenta que em breve haverá mais comércio na rua, com a abertura de uma nova loja. Focam os comentários no quão será bom para todos os comerciantes haver mais um ponto de atracção, e quão mais cómodo para os clientes a existência de mais oferta.
Será uma peixaria que ocupará o lugar do que foi, já por duas vezes, também uma peixaria, mas obviamente sem grande sucesso.
Os comentários da filha centram-se unicamente nas trombas e antipatia de uma funcionária do antigo espaço. Acho piada à forma como o faz: usa exactamente o mesmo tom e trejeitos que tão critica em fulana.
A mãe vai buscar, sabe-se lá porquê, a história da vizinha sicrana que, no outro dia e em cinco minutos lhe contou mais da sua vida do que em vinte e cinco anos de vivência a paredes meias. A dupla criticava a abertura da mulherzinha em contar-lhes pormenores da sua vida - tanto que falava Sicrana! Conhece Sicrana? - sem se coibirem de enunciar os mesmos fragmentos da intimidade da outra.
Ai, tanto que falava Sicrana! - queixavam-se. Enquanto isso a fila não andava, pois mesmo com os víveres já aviados, mãe e filha não se calavam.
A audiência forçada não tossia nem mugia, em constrangimento, a não ser para soltar um "pois", um "ai, sim?", que são como os sorrisos amarelos das expressões.

Enquanto caminhava para casa lembrei-me de quanta verdade há na expressão que diz que quando apontamos um dedo a alguém, ficamos com quatro apontados a nós. Que o que dizemos dos outros revela muito mais sobre nós mesmos.
Que conhecemos tão pouco de nós próprios que é fundamental que o próximo sirva como espelho. Que aquilo que mais nos pica e nos incomoda em pessoa alheia, que temos tendência a criticar, são exactamente as nossas maiores falhas. Que assim sendo, criticar o próximo é acima de tudo um exercício de autocrítica que todos nós, sem excepções, fazemos.