sexta-feira, 26 de abril de 2013

Lições da minha mãe #1



Quando eu tinha cerca de 15 anos a minha mãe aproveitou uma situação bizarra para me ensinar uma valiosa lição.

Uma tarde, encontrei-a rodeada de outras mães. Todas elas, os filhos e as filhas, nossos conhecidos, (variando somente o grau de proximidade), como não poderia deixar de acontecer no ambiente de aldeia onde cresci.

A conversa parecia animada. O assunto, como em qualquer grupo de mães, eram os filhos.

Mas, devo confessar que nada a que já tivesse assistido me poderia preparar para aquela cena. Ainda hoje, que conto com mais do dobro daquela idade, ao relembrar aquele episódio, há uma aura de insólito que ainda não se desvaneceu.

Todas as mães elogiavam os filhos. A minha mãe mantinha-se calada, excepto para confirmar que sim, que filha de D. Fulana era boa rapariga ou, que filho de D. Sicrana era realmente muito educado.

- Ora bem, até este exacto momento nada ressalta como extraordinário, nem como merecedor de espaço na memória. Mas é assim que todos os enredos começam, subtil e despreocupadamente.

Em escassos minutos duas mães tornaram-se o centro das atenções. Duelavam entre si pela atenção dos ouvintes, numa troca cada vez mais enérgica de elogios à prole. Já ninguém anuía - simplesmente movíamos a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como no Estoril Open.
Sim, que estes não eram como os filhos dos "outros", eram excepcionais! Eram fruto do ventre daquelas Marias, concepção dos seus predicados, da sua perfeição.
Mais uns segundos e convenciam-me que tinha andado na escola com a reencarnação de Jesus. Qual quê! Mais uns segundos, e tinha o próprio Cristo que se pôr a pau, que havia ali competição à altura!

Mas para todo o clímax há um anticlímax. E neste enredo, foi personificado pela senhora minha mãe.
- Pois a minha filha é ... - e garantida a atenção do círculo do estrogénio - colocou, num par de frases, alguns dos meus defeitos a nu, despediu-se e seguimos caminho.
Alguns metros adiante, onde já ninguém nos podia ouvir, ainda meio boquiaberta meio embaraçada, reclamei - Não me digas que não te lembraste de nada simpático para dizer sobre mim!

- Disse alguma mentira? - replicou a minha mãe. - Não disse...

Mesmo assim imaginava incomodada as conversas prováveis dessa noite - Ó Fulano, sabias que a filha de X é isto e aquilo. A sério! Foi a própria mãe que disse! Vê lá tu!
Esse incómodo foi rapidamente substituído pelo orgulho de ter uma mãe que diz o que pensa - doa a quem doer.
Outra vantagem é que nunca tive medo que os meus pais me trocassem por camelos se fossemos a Marrocos.



Lição nº1 - Se te sentes incomodado com a constatação dos teus defeitos, cabe-te a ti mudar, não os outros mentirem sobre ti.

Lição nº2 - Gostar verdadeiramente de alguém é conhecer-lhe e aceitar-lhe virtudes e defeitos.

Lição nº3 - Valorizar algo ou alguém não depende da aprovação em praça pública.