segunda-feira, 19 de agosto de 2013

No museu pessoal do traje




Em pequena, era a minha mãe que me escolhia a roupa, os sapatos, os penteados.
Invariavelmente, a rotina consistia em escolher-se o conjunto na noite anterior, deixá-lo fora do armário, bem à vista, para que, de manhã, conseguisse vestir-me sozinha sem grandes complicações.

O que nunca é fácil para uma criança ensonada, logo todas as técnicas pensadas para simplificar as manhãs são bem vindas!

Nunca liguei muito a roupa, portanto sempre achei o máximo que a minha mãe me poupasse à maçada de pensar sobre isso.
Por mim, qualquer peça escolhida por ela estava perfeita ( em parte pela minha falta de interesse, mas também pelo seu bom gosto).

Era muito mais importante para mim a escolha do material escolar, da bonecada que me iria acompanhar no novo ano lectivo na mochila, no estojo, nos cadernos.

Apenas exigia que não me vestisse de cor-de-rosa. Mais do que um pequeno apontamento na "cor proibida" era inadmissível, segundo a minha versão pirralha.
Isso e os sapatos de verniz, mas esses porque magoavam os pés.



Naquela idade eu não gostava muito dos tons rosa, talvez por associá-los a miúdas para quem brincar significava passar horas a escovar bonecas e a brincar às casinhas. Eu cá gostava também de livros, de ler e de colorir, de blocos de construção, do Spectrum. Porque a vida de uma menina não tinha que ser só bonecas, certo?

Conseguia, com os meus argumentos, fugir dos rosas, mas não dos sapatos de verniz.

Fazem parte das minhas memórias vestidos em padrões vichy, blusas impecavelmente brancas, as suas golas redondas por fora dos casacos de malha, bordado inglês, saias plissadas e de xadrez, meias argyle até ao joelho, calças de bombazine, collants em canelado, coloridos e super quentinhos no Inverno, a icónica loja da Cenoura...

No cabelo, sempre uma bandolete e a franja, que me acompanharam até à adolescência.






Lembro-me particularmente bem de um conjunto de Verão, num padrão abstracto em roxo e verde, que eu insistia em combinar com umas sabrinas douradas, usado vezes sem conta, até à exaustão.
Teria 11 anos, e envergava aquele conjunto "original" com a maior da felicidade e confiança. Era confortável e aquela mistura de cores fazia-me sorrir.
E esses argumentos são os suficientes para uma criança que não tem pressa em deixar de ser criança.
E isso é do melhor!