sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Você abusou...





Há anos, tive que estar em frente a uma câmara de vídeo, a falar sobre o que mais me irritava. Talvez fosse efeito do close-up, mas senti-me tão pouco à-vontade, que respondi algo sem nexo.
Hoje diria que, se me quiserem elevar à quinta potência da exaltação, basta demonstrarem falta de bom senso, e abusarem da boa vontade.


São princípios que me foram incutidos pelos meus pais de tal forma que se tornaram numa espécie de movimento reflexo, automático.


Para que percebam melhor, um exemplo:


Quando entrei para o liceu, o pai de uma amiga, que tomava o mesmo caminho para o emprego, tinha disponibilidade para levar a filha à escola de manhã. Havendo espaço no carro, teve a gentileza de extender a cortesia a mais miúdas. Entre elas, eu.
Os meus pais agradeceram-lhe e deixaram bem claro que se porventura um dia me atrasasse a chegar ao ponto de encontro, não deveriam esperar por mim. Que "amigo não empata amigo". Que chegar atempadamente e não pesar a quem nos faz uma gentileza é um dever que não deve ser descurado. Que quem abusa da boa vontade não é merecedor de favores.
Por acaso, eram eles que se atrasavam. Mas lá está, segundo os meus pais, isso não interessa nada, porque devemos ser cumpridores, independentemente do que os outros façam.
E que como favores nunca serão obrigações, se assim preferisse, a Rodoviária Nacional nunca deixava de ser uma belíssima hipótese.


Isto ilustra o ambiente em que cresci. Fez de mim uma pessoa tão imperfeita quanto outra qualquer, mas quiçá, um bocadinho mais consciente.




Ora, há dias, poucos minutos depois de acordar, tocam à porta. Era um vizinho.
Com os sentidos ainda turvos, qualquer conversa me soa a  "blá blá blá whiskas saquetas".
Fui conseguindo apanhar alguns vocábulos como: carro... reboque... viatura de substituição... coisa rápida... blá blá blá... um favor.
Com muito custo, e a pensar que não percebo nada de mecânica, inquiri: "favor?".
"Sim... blá blá blá... crianças". Aí foi como se tivesse tomado um primeiro café. "Quê? Olhar pelas crianças? Eu?! Quando?!"
"Agora." - disse ele. E eu posso jurar que soltei um guinchinho. Não me ter saído um "fo...go!" ou um "c'um carago!"...


Reticente, argumentei que a minha experiência com crianças era nula, (ao longo da minha vida vi amigas a trocarem fraldas, prepararem biberões e noutros rituais com as suas crias, uma dúzia de vezes, o que faz de mim alguém tão entendida na matéria como em física quântica), que nunca tinha mudado uma fralda, que era uma enorme responsabilidade. E pensei para com os botões do meu pijama "demasiada responsabilidade, para se entregar a quem não se tem intimidade para além da usual troca de cumprimentos quando nos cruzamos".


Não desarmaram, e num espaço de dez minutos tinha uma mãe a deixar-me duas crianças, um menino de 1 ano e uma menina de 5, em casa.
Sorri-lhes, ainda atordoada, e pensei para mim mesma "respira fundo, vai tudo correr bem, afinal é só por um par de horas".


Começámos por cumprir o meu ritual de ir tomar o pequeno-almoço ao sítio do costume. Sim, portei-me bem e pedi um ucal e uma sandes mista para a miúda, mesmo após a insistência desta sobre como preferiria um gelado ou chocolates.
Já em casa, meti-os a ver um daqueles canais de tv infantis. Fui buscar papel, lápis de cor e de cera.
Tudo tranquilo. Até que...


... as horas começaram a passar, as coisas começaram a fazer falta, e dentro das mochilinhas que tinham vindo com os miúdos não havia rigorosamente nada mais do que fraldas e toalhetes!


- "O que é que o mano papa?" - "Leite no biberão."
- "Está onde? Na mochila?" - "Não. Está em casa."


O primeiro de muitos momentos de apoplexia nervosa.
Valeu-nos a experiência de vários amigos, que foram respondendo às minhas dúvidas através do facebook, e a carne picada que tinha no frigorifico, pensada para o jantar dessa noite, acompanhada com arroz branco, e creme de legumes. Por precaução, com pouco tempero.
Tudo servido em pratos de sopa e colheres para evitar acidentes, e uma oração minha pedindo a quem me ouvisse que nenhum dos petizes tivesse alguma alergia a algum dos ingredientes.


Na hora de mudar a fralda, faltava o creme para passar no rabiosque. E onde estava este? Em casa, pois claro!




- "Tens algum telemóvel para ligar à mãe?" - "Sim. Em casa."


Pois, que entre o meu estado sonolento e surpreendida, e a pressa da mãezinha de aproveitar o ocorrido para ir laurear a pevide com a cara metade e sem putos atrás, (que eu entendo, a sério que entendo! Mas há maneiras mais correctas de agir!), nem trocámos contactos.


O périplo durou 7 horas. Teria durado mais certamente se, por obra do acaso, não encontrasse quem me desse o número deles.


- "Daqui fala ... Como é?! Já viram as horas?!"
- "Ah... Olá... Já não demoramos muito, ainda temos de..."
- "Pois, isso não me interessa. Não estava preparada para ficar com os miúdos tantas horas. Tenho coisas para fazer. Quanto tempo demoram?"
- "Já só falta blá blá blá... 40 minutos."
- "40 minutos? Certo. Então, prestem atenção, os 40 minutos começaram a contar agora."


Desliguei.


Apareceram a horas. Os miúdos estavam cobertos de migalhas do lanche, sorridentes. É uma imagem gira ver um miúdo de 1 ano a rir-se com uma bolacha em cada mão, ou apanhados a pintar a cara com lápis de cera. Tive direito a abraços e beijinhos. Vários durante o dia, que retribui e soube-me bem.
A experiência com eles foi boa, teria sido exponencialmente melhor se não fossem os pais.
As atitudes próprias de quem quer agarrar o braço e o corpo todo a quem oferece uma mão.
Talvez o problema seja também meu, porque me abespinho com essas coisas, fico ofendida e olho para as pessoas com outros olhos.
É mais forte do que eu deduzir que quem age assim, fá-lo em muitos outros contextos.




O casal agradeceu, diversas vezes. Mas não colocou nenhuma questão. Iniciei eu a vomitar o relatório, o que comeram, quando, quem dormiu a sesta.
Teria ficado bem se me tivessem perguntado se me deviam alguma coisa. Não que tivesse aceite, mas teria gostado de ouvir. É uma questão de educação.


Para além dos agradecimentos, repetidos muitas vezes, só uns comentários sobre como o miúdo em casa não dorme a sesta, que significa que gostaram de ficar comigo. Que deveriam voltar mais vezes!


Não reagi. Quando fechei a porta, fechei todas as portas.
Gastaram todos os cartuchos de boa vontade de uma só vez.


Repeti entredentes, só para mim, que à primeira todos caem, à segunda só cai quem quer.