quarta-feira, 13 de julho de 2016

cromices #132: Minudências, incertezas e introversão ou "radio silence"



Já é, no mínimo, a terceira vez hoje que olho especada para o telemóvel.

Apetece-me ligar a uma amiga. Já passou algum tempo e tenho saudades de lhe ouvir a voz. Mais saudades tenho de a apertar num abraço, de a ver à minha frente. Mas de momento contentava-me com a voz.

Sinto-me estúpida nesta incerteza se lhe ligo ou não. Ou melhor, quando lhe devo ligar.
Olho para o relógio e sem perceber coisa alguma, questiono-me se será hora de trabalho, de refeição, banho, infantário, penico e sei lá, todas as quinhentas mil atribulações diárias de quem tem filhos.

A verdade é que com filhos pequenos nunca há boas alturas, momentos parados. Mesmo que não se veja, dá para ouvir e sentir toda aquela correria, o zunzum em pano de fundo que nos começa a contagiar. Como não queremos mesmo incomodar, nem parecer aquela amiga que parece não compreender as implicações e atribulações de se ter crias, troca-se a habilidade de outrora de manter um diálogo sereno e ruminado, por telegramas cantados compostos por frases curtas, verdadeiros textos de contracapa do livro da vida. Resumo resumido sintético.

É nestas pequenas coisas da vida que os filhos da puta dos extrovertidos nasceram com o cuzinho virado para a lua: quão mais leve deve ser a puta da vidinha quando nem nos ocorre ralar com minudências como horários, e se é uma boa hora, e se vamos incomodar, e se vamos acordar a criança, e se, e se, e se, e se...

É que nós, os introvertidos, somos um bocado à moda antiga. Temos falta dos modos que caíram em desuso há já muito tempo. Que cada vez que entramos a medo, com pezinhos de lã, pois detestamos incomodar, expirando um "É uma boa altura?" do outro lado surja um vigoroso, extrovertido e reconfortante "Por quem sois?! Claro que sim!", mesmo que seja mentira.

Portanto, cá para estes lados, meus amigos, ler o silêncio como desamor é perder o mundo numa pobre tradução.