quarta-feira, 22 de março de 2017

coisas de pensar: O feng shui, a religião e o bicho papão.



Feng Shui surgiu há cerca de 4000 anos. De forma muito sucinta, o objectivo desta corrente de pensamento é ser uma ferramenta para dotar os espaços físicos de equilíbrio, harmonizar as energias, potenciar a influência positiva destas e minimizar a influência negativa sobre estes.
Dizem os chineses que actua nos espaços físicos da mesma forma que a acupuntura age no organismo. Segundo esta filosofia oriental, a busca da harmonia com as forças benéficas da Natureza aumentarão a prosperidade, a saúde e a boa sorte.

Há anos senti-me especialmente curiosa acerca do Feng Shui e comprei um livrinho sobre o tema.
Muitas das dicas mais básicas desta filosofia estão relacionadas com o manter a casa limpa, organizada e sem tralha.
Diz que uma casa de banho suja, com a tampa da sanita levantada e porta aberta gera más energias, assim como ter os armários da cozinha desorganizados, com louça escavacada e produtos presentes que estejam estragados, fora da validade, é mau para a prosperidade. Que a presença de tralha no quarto, de aparelhos eletrónicos próximos na cama, de objectos relacionados com o trabalho, são inimigos do descanso.
São apenas alguns dos exemplos. Coloquemos só por uns momentos os óculos de cepticismo e veremos coisas que qualquer pessoa considerará tão banais que não precisa que exista um livro ou uma corrente filosófica que ensine: que se andamos a deixar comida estragar-se, passar de validade, então é óbvio que acaba por ser mau para a prosperidade, que é o mesmo que deitar dinheiro ao lixo; que uma casa limpa será um espaço propício à saúde, que num espaço cheio de tralha onde de dois em dois passos se dá uma canelada algures a pessoa não se sentirá cheia da tal boa sorte, não é?
A intenção não é de forma alguma desprimorar esta antiga corrente, mas utilizá-la como adjuvante a um raciocínio.
Diz o filósofo que há primeiro que aprender a gatinhar para depois aprender a andar. Isto aplica-se tanto ao indivíduo como em relação à evolução da espécie.
Acho que até a mais céptica das pessoas achará imenso valor numa filosofia que incita a hábitos de organização e higiene, mesmo que seja necessária a utilização de chamarizes como prosperidade e sorte para tal. Duplica, triplica, quadriplica o seu valor se tentarmos imaginar o que seria corrente em hábitos de limpeza e higiene há 4000 anos atrás. Olhem que a minha imaginação não pinta um quadro nada auspicioso!

Voltando às palavras do filósofo, quando somos crianças e os adultos sentem que estamos ainda numa idade em que não nos vão conseguir fazer compreender através do diálogo a importância de comer a sopa, a fruta, o peixe, de dormir cedo, de lavar os dentes, de estudar, de arrumar o quarto, usam-se outros métodos, nem que a de ameaçar chamar o bicho papão caso não se sigam as regras impostas.
Tudo com uma relativa paz de espírito, porque os adultos sabem que é temporário, que passados uns anos todos iremos compreender os benefícios de todas as regras que nos incutiam, e que nos vamos rir do bicho papão. Que certamente utilizaremos as mesmas artimanhas para educar os nossos filhos.

Proverbialmente, onde há duas, há três. Serviram o Feng Shui e o bicho papão para me trazer à religião.
Quero olhá-la com os mesmos óculos de cepticismo que coloquei há pouco.

Imagino-me na era e no papel de quem escreveu textos religiosos, que se tornaram regras para tantos.
Imagino o contexto histórico, geopolítico, social. A espécie humana com os ímpetos que conhecemos mas com menos uns milhares de anos de evolução, progresso, educação e literacia. Não me é difícil imaginar a necessidade global de inventar sistemas de crenças com o objectivo de incutir princípios morais e regras de comportamento mais elevados, mesmo que o preço fosse edificá-los sobre um modelo arcaico e dualista de castigo/ recompensa. Mas lá está, falamos de outros tempos, ou gosto de pensar que foram outros tempos.

Imagino-me como um desses escritores religiosos, (é o termo que prefiro), com uma relativa paz de espírito, a pensar que é temporário, que passados uns anos a Humanidade compreenderá por si mesma o porquê de não matar, de não roubar, de não cobiçar, de amar, perdoar, servir, e rir-se-á das estórias com bichos papões.

Mas e quando o bicho papão habita na religião? Quando esta defende a pedofilia através do casamento de homens velhos com meninas, quando se defende a existência de escravas sexuais como solução para o adultério, entre outras pérolas do mesmo calibre?
Quem é que desata agora este nó?